08/03/2026
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AS LEITURAS DESTA PÁGINA E DO MÊS TODO
1ª Leitura: Êxodo 17,3-7
Salmo 94(95)-R- Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!
2ª Leitura: Romanos 5,1-2.5-8
Evangelho de João 4,5-42
Naquele tempo: 5Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. 7Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: 'Dá-me de beber'. 8Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. 9A mulher samaritana disse então a Jesus: 'Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?' De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Respondeu-lhe Jesus: 'Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber`, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.' 11A mulher disse a Jesus: 'Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? 12Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?' 13Respondeu Jesus: 'Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. 14Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.' 15A mulher disse a Jesus: 'Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la.' 16Disse-lhe Jesus: 'Vai chamar teu marido e volta aqui'. 17A mulher respondeu: 'Eu não tenho marido'. Jesus disse: 'Disseste bem, que não tens marido, 18pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade.' 19A mulher disse a Jesus: 'Senhor, vejo que és um profeta! 20Os nossos pais adoraram neste monte mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar'. 21Disse-lhe Jesus: 'Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. 23Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. 24Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.' 25A mulher disse a Jesus: 'Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas'. 26Disse-lhe Jesus: 'Sou eu, que estou falando contigo'. 27Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: 'Que desejas?' ou: 'Por que falas com ela?' 28Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: 29'Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?' 30O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus. 31Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: 'Mestre, come'. 32Jesus, porém disse-lhes: 'Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis'. 33Os discípulos comentavam entre si: 'Será que alguém trouxe alguma coisa para ele comer?' 34Disse-lhes Jesus: 'O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. 35Não dizeis vós: `Ainda quatro meses, e aí vem a colheita!` Pois eu vos digo: Levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! 36O ceifeiro já está recebendo o salário, e recolhe fruto para a vida eterna. Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe. 37Pois é verdade o provérbio que diz: `Um é o que semeia e outro o que colhe`. 38Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles.' 39Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: `Ele me disse tudo o que eu fiz.` 40Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. 41E muitos outros creram por causa da sua palavra. 42E disseram à mulher: 'Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo.' Palavra da Salvação.
Jo 4,5-42
A partir deste Domingo a liturgia da palavra privilegia os textos do Evangelho de S. João, porque eles são muito aptos para uma catequese batismal. Batismo é dom da água viva (Jo 4); é dom da luz (cura do cego de nascença Jo 9,41); é dom da Vida (ressurreição de Lázaro Jo 11).
vv 5-6: O encontro de Jesus com a Samaritana é imprevisto. Jesus senta-se junto ao poço, ao meio dia, enquanto os discípulos estão pela cidade procurando alimento. Jesus está só e de repente aparece a samaritana para tirar água do poço. É uma hora muito estranha para vir ao poço. Por que ela vem a essa hora? Ela tem suas razões como vai ficar claro depois no meio da conversa (ela teve cinco maridos e o atual também não é seu marido).
vv 7-14: Jesus inicia uma conversa que vai ser muito difícil e proveitosa. Difícil porque a mulher vai mostrar muita dificuldade em entender o que Jesus fala e proveitosa porque, apesar dos mal-entendidos Jesus fará a samaritana percorrer um caminho que termina no dom da água viva, da fé.
Ele tem sede e pede que a mulher lhe dê água. A samaritana se espanta com este pedido incomum: os judeus não conversam com samaritanos, os homens não dirigem a palavra às mulheres, os puros não se misturam com os impuros. Ela recorda a Jesus o que ele, como judeus, deveria saber.
Jesus aproveita o momento para fazer a dar um primeiro passo na superação do nível meramente material. "Se ela conhecesse o dom de Deus e quem está falando com ela". Jesus inverte os papeis: não é mais ele que pede água, mas ele agora oferece água viva. A mulher mostra sua limitação em entender a promessa de Jesus. Como ele pode oferecer água se nem tem balde para tirar água. Mais uma vez Jesus insiste dizendo que quem beber da água que ele der não terá mais sede.
vv. 15-26: Parece impossível que a conversa dê algum resultado: diante da oferta de Jesus a mulher pensa que ele tem uma água mágica. Está somente interessada em não ter mais o trabalho de vir todos os dias ao poço. Jesus toma uma atitude surpreendente: pede para chamar o seu marido. Trata-se de um tratamento de choque que visa ajudar a mulher a sair do nível meramente material e carnal. Perguntado sobre o marido, Jesus faz a mulher tomar consciência de sua vida e que está diante de um profeta. É ainda uma fé imperfeita, mas é ao menos uma fé inicial. No início da conversa Jesus era somente um judeu, agora ela reconhece nele um profeta.
O tratamento de choque deu certo. Por isso ela pergunta a Jesus sobre qual é o lugar de culto: no monte Garizim ou no templo de Jerusalém. Jesus mostra que esta pergunta é própria de quem não sabe que Deus é Espírito, ou seja, não pode ser limitado a um lugar e que se deve adorá-lo em espírito e verdade. O culto no espírito é o culto como Deus quer e não como nós queremos. O culto conforme a vontade de Deus não significa adorar Deus em um lugar. Nenhum templo pode conter Deus. À samaritana Jesus revela que o verdadeiro lugar onde Deus está é Jesus Cristo. Nele o culto atinge a perfeição definitiva.
Com estas palavras Jesus consegue levar a mulher a se abrir à revelação que o Messias fará quando ele vier. Jesus faz com que a mulher exprima sua sede: ela deseja receber o ensinamento do Messias. Assim o Senhor desperta nela uma outra sede diferente e superior àquela meramente fisiológica.
Diante desta abertura Jesus lhe revela: Eu sou.
vv 27-30: A mulher é transformada. Ela abandona o cântaro: nem se lembra mais do veio fazer no poço. Ela veio tirar água, mas agora descobriu um outro dom mais precioso: a água viva. Veio buscar a água do poço e volta com outra mais preciosa. Por isso ela vai anunciar aos samaritanos tudo o que Jesus fez para ela.
vv 31-38: Jesus conversa com os discípulos. Também aqui Jesus fala-lhes uma coisa e os discípulos entendem outra. Os discípulos oferecem alimento e Jesus lhes declara que tem outro alimento para comer, ou seja, o cumprimento da vontade de Deus. Os discípulos pensam na comida material, mas Jesus lhes fala da vontade do Pai. Ora a vontade do Pai é a missão de Jesus de levar as pessoas a fé. É por isso que Jesus introduz uma outra imagem: a da colheita. Agora é a hora da colheita em que os frutos estão maduros. E são os samaritanos a colheita: eles estão chegando.
vv 39-42: Os samaritanos chegam à verdadeira fé. No início eles se interessam por Jesus por causa da mulher, mas depois eles acreditam por causa da palavra do próprio Jesus. A fé só é possível no encontro pessoal.
“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó” (Jo 4,6)
3° Dom Quaresma - Jo 4,5-42 -Ano A-08-03-2026
Como em tantas outras ocasiões, o evangelho deste domingo nos situa diante de um Jesus imprevisível e surpreendente, capaz de vencer a estreiteza das nossas expectativas, quando nos encontramos com Ele.
Os evangelistas se encarregam de destacar a presença do excesso e do esbanjamento que acompanham as atuações de Jesus, ultrapassando sempre aquilo que se esperava dele: nem os noivos de Caná precisavam de tanto vinho, nem os discípulos precisavam de uma pesca tão abundante que quase arrebenta as redes; e para sustentar as forças da multidão que o tinha seguido ao deserto bastava um bocado de pão e peixe e, no entanto, sobraram doze cestos; o paralítico que desejava simplesmente voltar a andar, não esperava voltar à casa livre da carga de seus pecados; Zaqueu, interessado somente em querer ver Jesus de longe, acaba vivendo um encontro inesperado com Ele em sua casa e partilhando sua mesa; as mulheres que só pretendiam que alguém rolasse a pedra do sepulcro para embalsamar um cadáver, tiveram a grata surpresa de se encontrarem com o Vivente.
Sempre o mesmo esbanjamento da parte de Jesus, e sempre a mesma resistência de muitos quando se tratava de alargar o coração e a vida à hora de adentrar-se no imprevisível que os transbordava. Quem se contenta com vida atrofiada e estreita não pode entrar na dinâmica transbordante da Vida de Jesus. Este “excesso de vida” também transparece no encontro de Jesus com a samaritana, à beira do poço. No início, ela se mostra cética e reticente frente à promessa da água transbordante que a movia ir além de suas previsões.
Quem se contenta com vida atrofiada e estreita não pode entrar na dinâmica transbordante da Vida de Jesus – Adroaldo Palaoro
No evangelho deste domingo, o relato de João nos apresenta uma catequese longa e preciosa, na qual todos os detalhes são significativos. Aproximemo-nos da experiência que ele nos narra, deixando que “ressoe” em nós e desperte (reavive) nossas próprias experiências.
Encontramo-nos, em primeiro lugar, com a experiência de uma mulher, a samaritana: uma mulher anônima, que vivia sob o fardo de uma vida rotineira, de insatisfação e de busca. Sua vida estava ocupada, enredada em tarefas cotidianas, muitas delas pesadas e repetitivas, como tirar a água necessária para a vida da família, todos os dias, debaixo de um sol escaldante, penosamente... Experiência que ela vivia como algo “fechado”, determinado, não escolhido...; o que ela mais desejava era poder sair dessa situação. Por isso, depois das primeiras palavras de Jesus, o que ela expressou foi um desejo de livrar-se desta tarefa: “dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.
Não é esta também, de alguma forma, nossa experiência? Quantos de nós temos experimentado e sentido alguma vez em nossa vida que são justamente as tarefas rotineiras, as atividades que não podemos deixar de fazer, aquelas que mais nos impedem viver com intensidade, inclusive nossa fé? Alimentamos sempre o desejo de que, em meio a essa rotina, nossa vida possa dar um salto de qualidade, ser mais criativa, mais ousada e com mais “sabor”, para além das tarefas e circunstâncias.
Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo mesmo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude. De que temos sede? Onde buscamos saciar nossa sede?
É meio-dia; há sombra profunda no poço junto ao Garizin. Uma mulher coloca seu cântaro junto à boca do poço. Certamente, ela desejaria livrar-se do próprio cansaço, do peso do dia, do vazio que percebe dentro de si mesma; ela chega ao poço não porque tenha sido informada de que nesse lugar se encontra o famoso rabi da Galileia, mas porque precisa tirar água.
Não é esta também, de alguma forma, nossa experiência? Quantos de nós temos experimentado e sentido alguma vez em nossa vida que são justamente as tarefas rotineiras, as atividades que não podemos deixar de fazer, aquelas que mais nos impedem viver com intensidade, inclusive nossa fé? – Adroaldo Palaoro
É inspirador este encontro junto a um poço. Tem o sabor do cotidiano. Não há nada programado; não se percebe vestígio algum de esquema de ação “pastoral” pré-estabelecido. Há aqui algo tão refrescante como a água que se encontra a quarenta metros de profundidade.
Percebe-se inclusive a agradável sensação da improvisação. Tudo acontece de maneira espontânea, com a marca do ocasional e surpreendente, sem que haja necessidade de seguir um roteiro pré-fabricado. Jesus se detém não porque espere converter alguém, mas porque está cansado, sente calor, tem fome e sofre o tormento da sede.
Jesus não vacila à hora de destruir as barreiras, de romper os esquemas, de não mostrar apreço algum pelas convenções, de fazer saltar pelos ares os pré-juízos. Parece muita ousadia, imprópria para um rabi, interpelar uma mulher junto a um poço, discutir teologia com ela, responder suas perguntas.
Jesus, mestre de liberdade, desobedece sem problemas de consciência a estas regras discriminatórias codificadas durante séculos. Transgrede as proibições impostas pelos fanatismos. É próprio seu um comportamento escandaloso para a mentalidade da época.
Jesus e a samaritana junto ao poço de Jacó deixam transparecer uma dimensão presente em todos nós: na essência, “somos eternos buscadores de poços”, ansiamos por uma vida mais profunda, desejamos escavar nossa interioridade até encontrar a fonte de água viva...
No relato de João, Jesus apresenta-se, ao mesmo tempo, como sede e como água. À samaritana, a quem pede de beber, Jesus se revela como Água Viva, a única capaz de saciar todas as sedes. E, quando sede e água se encontram, acontece a salvação.
Jesus não vacila à hora de destruir as barreiras, de romper os esquemas, de não mostrar apreço algum pelas convenções, de fazer saltar pelos ares os pré-juízos. Parece muita ousadia, imprópria para um rabi, interpelar uma mulher junto a um poço, discutir teologia com ela, responder suas perguntas – Adroaldo Palaoro
O encontro se inicia com uma petição de Jesus que requer uma atitude de solidariedade no nível humano mais elementar, para além de todas as barreiras culturais e religiosas, que costumam separar pessoas.
Oferecer água, elemento escasso naquelas terras áridas, torna-se precioso gesto de acolhida e hospitalidade.
Jesus não vacila em pedir, em fazer-se pobre, deixando de lado a tradicional superioridade dos judeus em sua relação com os samaritanos. Situa-se numa atitude de dependência, reconhece que tem necessidade da ajuda de outra pessoa. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”.
A conversação transita penosamente entre as resistências, a desconfiança e os hábeis “dribles” da mulher. Desde o primeiro momento, a samaritana intui que aquele encontro pode tornar-se “perigoso”. Este homem não é como os demais, pois pretende levá-la onde ela não queria ir. Faz de tudo para escapar dele; desvia-se astutamente da iniciativa de Jesus. Busca levar a conversa para argumentos que não sejam muito comprometedores. Aplica-se a fugir da verdadeira questão.
De forma repentina os papéis se invertem; o forasteiro que antes pedia agora se torna oferente: deixa de ser o mendigo que pede e se revela como aquele que oferece, aquele que faz alusão a um dom misterioso, a um segredo cuja chave só ele possui. É como se Jesus implorasse: “Pede-me de beber...”
A conversa se amplia; continua-se falando de água, mas a impressão é que não se trata mais da água do poço diante deles. O forasteiro se refere a uma fonte que nada tem a ver com o poço de Jacó. Menciona o tema da sede e, contudo, esta sede é diferente. Utiliza as palavras que todos usam, mas a mulher tem a impressão de que aquelas palavras adquirem um conteúdo que se revela desconhecido. Descobre dentro dela o “manancial” que poderia “matar” sua sede.
Entre os protagonistas do encontro está também presente o cântaro. A mulher o deixa na beira do poço e corre à cidade para informar a seus concidadãos sobre o encontro que teve lugar e de que uma experiência assim também é possível para eles.
A partir do momento em que o personagem principal ocupa o centro da cena, ela pode sair de cena, sem interferir na experiência dos outros – Adroaldo Palaoro
A Samaritana não tem pretensão alguma de atrair a atenção sobre sua própria pessoa, de mendigar reconhecimento. Não busca brilhar com luz própria.
A partir do momento em que o personagem principal ocupa o centro da cena, ela pode sair de cena, sem interferir na experiência dos outros.
Para meditar na oração:
Para Simone Weil não é o nosso desejo que alcança Deus: se permanecermos sedentos e desejosos é o próprio Deus que desce à nossa humanidade para encher de plenitude o nosso desejo.
- Numa atitude de atenção e vigilância, deixe que o Senhor escave um poço no seu interior, um poço que se converterá em manancial inextinguível de água viva. A fonte está dentro de você e se constitui como princípio interior de conhecimento, amor, fecundidade, confiança...
Estamos na Quaresma, tempo em que a Igreja nos convida a viver intensamente para nos aprofundarmos no mistério da Páscoa, da morte e ressurreição de Jesus. Como nos disse o Papa Leão na quarta-feira de cinzas: "A Quaresma, de fato nos impele a essas mudanças de rumo — conversões — que tornam nossa mensagem mais crível." E "reconhecer nossos pecados para nos convertermos já é um prenúncio e um testemunho da ressurreição: significa não parar entre as cinzas, mas levantar e reconstruir." Leão XIV na Quarta-feira de Cinzas: "O mundo está em chamas; o direito internacional está em cinzas hoje".
Este tempo nos convida a contemplar novamente para Jesus com um olhar novo. A Quaresma é um tempo para aprofundar nossa caminhada pessoal e comunitária, para nos encorajar a deixar ressoar a pergunta: para onde vamos, o que desejamos, redescobrindo assim nossa caminhada com Jesus. É um tempo para afastar aquilo que impede que a luz ilumine nossa vida, um período especial para entrar no santuário da misericórdia do Pai. Tempo de purificação, de transformação e de renovação interior, para afinar o ouvido e ouvir a sua voz, como nos foi lembrado no domingo passado na leitura da Transfiguração. Jesus, com sua morte e ressurreição, vem dar um novo sentido à dor, à injustiça, a tanto sofrimento, pessoal ou social. Não precisamos inventar práticas dolorosas para nos aproximarmos de Jesus crucificado, porque ele está lá, em tantas comunidades flageladas pela desigualdade e pela opressão, pela tirania social que oprime e escraviza pessoas e grupos inteiros. Limpar o olhar para vê-lo, em meio a tantos povos que peregrinam atravessando a exclusão e o descarte... sua morte e ressurreição trazem uma nova perspectiva de esperança, pois a morte não tem a última palavra.
Este terceiro domingo da Quaresma coincide com o Dia Internacional da Mulher. A partir dessa perspectiva, meditamos sobre este texto, no qual uma mulher volta a ser protagonista, apesar de fazer parte de um povo excluído e de se encontrar em situações que a marginalizam. Jesus devolve-lhe a sua dignidade e os seus direitos! – Ana Maria Casarotti
A liturgia deste domingo nos convida a meditar sobre Jesus dialogando com uma mulher de Samaria. Um longo diálogo em que Ele se aproxima dela pedindo-lhe de beber e lhe oferece Sua Vida, que se tornará nela uma fonte que jorra para a vida eterna. Este terceiro domingo da Quaresma coincide com o Dia Internacional da Mulher, sob o lema: “Direitos, justiça e ação por e para todas as mulheres e meninas”. A partir dessa perspectiva, meditamos sobre este texto, no qual uma mulher volta a ser protagonista, apesar de fazer parte de um povo excluído e de se encontrar em situações que a marginalizam. Jesus devolve-lhe a sua dignidade e os seus direitos!
Jesus está decidido a ir para a Judeia e tem que atravessar a Samaria, terra não apreciada pelos judeus e com quem havia uma disputa nascida séculos atrás pelo lugar sagrado onde se devia adorar a Deus.
Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço
Jesus está cansado após uma longa caminhada pela manhã sob o sol e senta-se junto ao poço. Quando chega a mulher da Samaria, ele diz-lhe: “Dá-me de beber”. Esta mulher era alguém que conhecia a sua condição social – casada com cinco maridos – e certamente sofria com isso. Ela dirige-se ao poço ao meio-dia porque, apesar do calor, provavelmente havia menos gente. No entanto, ela encontra esse homem, Jesus, que conversa com ela e lhe pede água. É algo impensável que um homem judeu converse com uma mulher samaritana e, por isso, ela não “obedece imediatamente”, mas o confronta: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?"
Jesus se apresenta necessitado, tem sede e assim o manifesta a essa mulher. Deixemos ressoar esse pedido de Jesus que, como à mulher samaritana, também nos diz “dá-me de beber”. O que é aquilo que carregamos nas nossas costas que Jesus nos convida a dar-lhe, que nos convida a entregar-lhe? Perguntamo-nos: qual é esse balde que, como a samaritana, transportamos todos os dias para buscar uma água que não sacia, mas à qual nos habituámos? Um balde como o dela, que ela levava ao meio-dia sob o sol para saciar, ainda que provisoriamente, a sua sede e a dos seus animais. Seu balde carga uma história difícil, era quase seu parceiro de viagem, abrigava sua vida e sua dor, suas perguntas, mas a água que ela recolhia não saciava sua sede. Qual é o nosso balde que é tão cativado por respostas aparentes, mas que não saciam a sede profunda?
Jesus, sentado à margem do poço, dialoga com a mulher samaritana, que progressivamente vai “esvaziando seu balde” pesado por uma religião que a mantinha fechada em seu próprio círculo, por uma vida pessoal que a marginalizava e a tornava conhecida como a mulher que teve cinco maridos e agora estava com alguém que não era seu marido! Ela já estava estereotipada em um lugar que não lhe permitia se abrir para algo novo, nem mesmo dialogar com um homem, muito menos com um judeu. Este tempo da Quaresma nos convida a olhar para esse balde que nós levamos ao poço e o reabastecemos com as mesmas águas... mas elas não saciam a sede profunda que habita no mais íntimo de nós.
Inicia-se um diálogo entre a mulher samaritana e Jesus, onde trocam necessidades, “conhecimentos”, histórias e, fundamentalmente, onde ela entrega as suas águas profundas, mas que não a satisfazem, para receber a água que sacia a sede mais íntima... aquela que Jesus lhe oferece: E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna".
“A mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: "Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz”
Nomear o nosso cântaro, reconhecer o que há nele, mesmo que pareça vazio, entregar a Jesus essas águas que tentavam saciar a nossa sede são fundamentais para abrir o nosso cântaro interior à Promessa de Jesus e deixar que o seu Espírito habite em nós. Como a samaritana, temos que entregar nosso balde, nossa história junto a Jesus, à beira do poço... não podemos saciar nossa sede com sua água viva se continuarmos tentando encher nosso baldinho com águas provisórias. Um recipiente se esgota e a fonte se desborda, o balde acumula e a fonte deixa fluir... eles sinalam dois horizontes: o limite ou a abundância!
Nomear o nosso cântaro, reconhecer o que há nele, mesmo que pareça vazio, entregar a Jesus essas águas que tentavam saciar a nossa sede são fundamentais para abrir o nosso cântaro interior à Promessa de Jesus e deixar que o seu Espírito habite em nós – Ana Maria Casarotti
Neste terceiro domingo da Quaresma, somos chamados a entregar nossas “águas” a Jesus, a depositar também junto a ele o balde que as transportava, costumes, histórias, atitudes, tudo aquilo que aparentemente nos enche, mas que não deixa espaço para que brote a água que mana para a vida eterna. Desta forma, poderemos reconhecer em Jesus o Messias que liberta e dizer, como a samaritana: "Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz”
A samaritana transmite ao seu povo o que está vivendo, não guarda para si, mas compartilha com os outros. Como nos disse o Papa Leão: “A Quaresma, é um tempo poderoso de comunidade", "sabemos como é cada vez mais difícil reunir as pessoas e sentir-se como um povo, não de uma forma nacionalista e agressiva, mas em comunhão onde cada um encontra o seu lugar. De fato, aqui está se formando um povo que reconhece os seus próprios pecados com uma atitude contrária, que, quando é tão natural declararmo-nos impotentes diante de um mundo em chamas, constitui uma alternativa real, honesta e atraente". Leão XIV na Quarta-feira de Cinzas: "O mundo está em chamas; o direito internacional está em cinzas hoje".
Junto com a mulher samaritana que como tantas mulheres continua construindo comunidade e levando Águas de vida para tantas irmãs e irmãos, fazemos nosso o lema deste ano para o dia internacional da mulher: “Direitos, justiça e ação por e para todas as mulheres e crianças”.
Abrindo a conversa
Com a liturgia de hoje, abre-se uma sequência de três domingos de leitura de textos do Evangelho de João. O primeiro da série é Jo 4,5-42, o relato do episódio do encontro e o diálogo de Jesus com a mulher samaritana - um episódio exclusivo do Evangelho de João. Nesse texto, João mostra o quanto o encontro com Jesus humaniza e liberta.
O episódio faz parte de uma série de acontecimentos importantes do início do ministério de Jesus. É o coroamento de uma sequência de eventos que visam revelar a identidade de Jesus enquanto Filho de Deus e Messias. Não pode passar despercebido o fato que essa série de eventos começa e termina tendo uma mulher como principal interlocutora de Jesus: a mãe, em Caná, e a samaritana, na Samaria. Em nenhum dos casos o nome da mulher é mencionado, porque em ambas as situações ela é personificação da comunidade.
Do ponto de vista histórico, é importante recordar a rivalidade que havia entre judeus e samaritanos, como o próprio texto menciona: “De fato, os judeus não se dão com os samaritanos” (v. 9b). Essa rivalidade levou os judeus a considerarem os samaritanos como impuros e heréticos. E Jesus veio para superar esse abismo quebrando as barreiras, abrindo comunicação, ao revelar o verdadeiro rosto de Deus.
O texto
O texto começa afirmando que “Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do poço que Jacó tinha dado ao seu filho José” (v. 5). A recordação dos patriarcas, já é sinal de que se trata de um local importante para o povo de Israel. É um lugar com significado expressivo para a fé do povo. O poço possui uma rica simbologia na Bíblia; é o lugar do encontro e da renovação das forças, símbolo de vida fecunda e transformação.
São João acrescenta algo muito importante sobre o estado em que Jesus se encontrava, para enfatizar ainda mais a importância do poço no contexto do episódio: Jesus estava “cansado da viagem” (v. 6b). Essa é a única vez que um evangelista menciona o cansaço de Jesus. É um dado relevante pois expressa a humanidade de Jesus em sua dimensão mais profunda: um homem cansado e sedento, embora portador de uma água viva, que ao final do episódio será reconhecido como o salvador do mundo (v. 42). Cansado e sedento, Jesus não tem medo de pedir ajuda nem de relacionar-se com as pessoas, mesmo as sem reputação, que a sociedade da época excluía. Por isso, pede de beber a uma mulher samaritana que também se encontrava no poço (v. 7), demonstrando que não estava condicionado às barreiras impostas pela sociedade e a religião. Para os padrões da época, não era aconselhável para um homem conversar com uma mulher sozinha, ainda mais com uma mulher samaritana, personagem duplamente marginalizada: primeiro, por ser mulher, numa sociedade patriarcal; segundo, por ser samaritana, uma raça de gente desprezível, como os judeus consideravam.
A sede de Jesus indica sua mais intensa humanidade. Um pretexto para abrir um diálogo transformador com aquela mulher, mas é acima de tudo uma demonstração da sua humanidade (v. 10). Com isso, São João revela a harmonia entre o humano e o divino na pessoa de Jesus: o homem que sente sede e pede água é o mesmo que possui uma água viva, capaz de saciar eternamente. É um paradoxo desconcertante que o evangelista João mostra com uma habilidade brilhante. À medida em que o diálogo flui, a mulher chega a reconhecer Jesus como portador de um dom de Deus, a ponto de pedir-lhe da sua água viva: “Senhor, dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir até aqui para tirá-la” (v. 15). Quanto mais o diálogo se estende, mais Jesus ganha a confiança da mulher, levando-a à sinceridade, inclusive, reconhecendo a ilegitimidade de sua união com um esposo ilegítimo, o sexto marido, o que é imagem das diversas divindades com as quais a Samaria já entrou em relação (vv. 16-18). Revelando sua identidade pecadora, a mulher demonstra também o desejo de conversão lhe causando confusão acerca da verdadeira adoração; ela não sabe onde e nem como prestar o culto verdadeiro (vv. 19-20). Jesus se interessa cada vez mais pela causa da mulher samaritana, como se interessa pela causa de toda pessoa marginalizada; declara que não importa o lugar do culto, mas a qualidade (vv. 21-24).
Independentemente do lugar de culto que frequentasse, aquela mulher seria vítima de preconceitos e discriminações. Consciente disso, Jesus lhe indica o culto verdadeiro: a “adoração em espírito e verdade” (v. 24). Ao contrário do que muitas pensam o “Espírito”, aqui, é o dom de Deus, o mesmo Espírito que ele, ressuscitado, soprará sobre os discípulos; a “verdade” é a sua própria pessoa enquanto plenitude da revelação. A adoração em Espírito e em verdade, portanto, é a relação nova que se inaugura entre Deus e a humanidade: não mais intermediada pela Lei e nem pelos sacerdotes dos templos, mas pelo Espírito Santo e Jesus. Esse culto é acessível a todas as pessoas, de todos os tempos e lugares, e terá como sinal de autenticidade as obras de amor geradas a partir dele.
Enquanto a mulher samaritana dava adesão a Jesus, por meio do diálogo fluente, os discípulos que já conviviam com ele há mais tempo continuavam presos à mentalidade antiga, certamente imposta pela religião, por isso, se admiraram com sua atitude dele falar com uma mulher (v. 27). Por sinal, o diálogo é a principal chave de leitura deste episódio e de toda mensagem e vida de Jesus. Ele veio ao mundo para o Pai dialogar com a humanidade de modo transparente, claro. E ele demonstrou isso com sua práxis, da qual o evangelho de hoje pode ser considerado uma síntese. Os discípulos ainda estavam condicionados aos preceitos da Lei e fechados ao Espírito. Andavam com Jesus, mas não tinham ainda sido saciados pela água viva que ele tinha a oferecer, certamente porque não tinham ainda tanta disponibilidade para dialogar, pois só conhece Jesus quem dialoga com ele. A samaritana dialogou, por isso conheceu e se transformou. Convicta de ter encontrado sentido para a sua vida no encontro com Jesus, a mulher toma uma atitude decisiva e fundamental: “deixou o seu cântaro e foi à cidade” (v. 28) para anunciar a experiência vivida.
Deixar o cântaro (vasilha para carregar líquidos) seria abandonar a Lei para aderir ao Espírito e ao programa de vida de Jesus. É a passagem ao discipulado; de mulher rejeitada e excluída, ela se tornou discípula e anunciou, convidando os demais a fazerem a mesma experiência que ela tinha acabado de fazer, convencendo toda a cidade a buscarem o mesmo (v. 28-30). A fé autêntica e verdadeira é contagiante, inevitavelmente se espalha. É importante reparar que em momento algum Jesus a repreendeu pelos erros passados; levou-a a reconhecer quantos maridos teve, porém, sem incriminá-la; o resultado foi uma conversão autêntica, o que os discípulos pareciam ainda não ter experimentado, como dá a entender pela sutil advertência que Jesus lhes faz com uma pequena parábola da colheita (vv. 34-38). A colheita abundante é a fé dos samaritanos, a adesão dos que estavam distantes, confirmando que Jesus rompe barreiras e todos os muros de separação, religiosos e ideológicos, para quem se deixa encantar pela sua pessoa e a sua mensagem.
O desfecho da história é uma grande adesão causada, inicialmente, pelo testemunho da mulher (v. 39) e, em seguida, pela experiência pessoal que cada um fez (v. 42), culminando com o reconhecimento de Jesus como o Salvador do mundo. Os judeus esperavam um messias nacionalista, restaurador do reino de Israel; os samaritanos reconhecem Jesus como Salvador do mundo. São duas visões bem diferentes entre si, que revelam as diferenças entre quem permanece preso aos preceitos da Lei, sem coragem de abandonar o cântaro, ou seja, de mudar de vida, e quem reconhece a necessidade de beber da água viva que Jesus doa. Enquanto o cântaro da Lei aprisiona, a água viva que Jesus doa liberta e sacia. Os samaritanos, povo marginalizado e impuro para os judeus, proporcionam a primeira adesão comunitária à pessoa de Jesus: o testemunho da mulher contagiou a cidade inteira. Sentindo o peso da rejeição e marginalização impostas pela religião, os samaritanos acolheram o dom de Deus revelado por Jesus e destinado a todos e todas, especialmente aos mais rejeitados.
Alargando o assunto
O encontro transformador de Jesus com a samaritana, portanto, deve ser parâmetro para nossa relação com ele e para todo processo de descoberta e crescimento na fé. A mulher samaritana progrediu na fé gradualmente. Inicialmente, Jesus era apenas um judeu viajante cansado e com sede, visto com suspeitas por ela, inclusive. Com a fluência do diálogo, ela foi transformando sua percepção sobre ele, chegando a reconhecê-lo como um profeta (v. 19), um homem de conhecimentos excepcionais (v. 29) e, finalmente, como o Messias. Ela fez a própria descoberta porque abriu diálogo e Jesus se deixa conhecer por quem diálogo com ele.
Que a Quaresma e a Campanha da Fraternidade nos ajudem a encontrar Jesus e nos abrir a um diálogo transformador com os sem teto ou que vivem situações desumanos. Moradia não é apenas telhado.
-Precisamos tomar consciência de que moradia é um direito fundamental de toda pessoa e não pode ser tratada como um problema meramente individual.
-Precisamos tomar consciência e denunciar toda falta de uma moradia digna como injustiça e pecado que clama ao céu.
-Precisamos sensibilizar nós mesmos e as nossas comunidades a lutarem por condições dignas de moradia nas periferias: água, esgoto, asfalto, transporte, escola, lazer etc.
-Precisamos reunir nos Grupos de Reflexão, para ler e meditar a situação trágica dos nossos bairros, nossas favelas, a miséria de tantas famílias (crianças, adultos e idosos), na luz da palavra de Jesus “que se fez um de nós montando a sua tenda no meio dos seus irmãos marginalizados” , e como eles “não tinha onde repousar a sua cabeça”, sendo obrigado a dormir na praça de tantas cidades do nosso Brasil grande, como o Cartaz do CF 2026 de forma tão clara denúncia.
-Precisamos colaborar com os movimentos populares em nossa região ou pelo Brasil afora na luta por “terra, teto e trabalho”. E devemos fazer isso a partir do nosso território: dando visibilidade ao problema da moradia e reivindicando condições dignas de moradia.
Fraternidade e moradia: Convertei-vos e crede no Evangelho!
Introduzindo
Os samaritanos eram desprezados pelos judeus. Muitos judeus da Galiléia, quando viajavam para Jerusalém, não passavam pela Samaria. O Evangelho de João mostra Jesus fazendo o contrário, passando pela Samaria e acolhendo os samaritanos. Por causa disso, era criticado pelos judeus, que o xingavam de "samaritano, possesso de demônio" (Jo 8,48). Depois da ressurreição, os seguidores e as seguidoras de Jesus, superaram seus preconceitos e anunciaram a Boa Nova aos samaritanos (At 8,4-8). Nas ‘comunidades do Discípulo Amado' havia muitos samaritanos.
1. João 4,1-6: O palco onde se realiza o diálogo entre Jesus e a samaritana
Quando Jesus percebe que os fariseus poderiam irritar-se com a sua atividade, ele sai da Judeia e volta para a Galileia. Deste modo, evita uma briga religiosa (Jo 4,1-3). Voltando para a Galileia, Jesus passa pela Samaria. Por volta do meio-dia, ele chega junto do poço de Jacó. Cansado da viagem, senta perto do poço, onde a samaritana vai encontrá-lo. O poço era o lugar tradicional de encontros e de conversas. Hoje, seria a praça, o bar, a rodoviária, o shopping… E lá, perto do poço, que começa a longa e difícil conversa que foi de muito proveito para ambos.
2. João 4,7-15: Primeira parte do diálogo: a conversa em torno da água ou do trabalho
Água, corda, balde e poço eram os elementos que marcavam o mundo do trabalho da samaritana. É Jesus que toma a iniciativa do diálogo. Ele parte da necessidade bem concreta da sua própria sede e diz: "Dá-me de beber!" Pela pergunta a samaritana descobre que Jesus precisa dela para ele poder resolver o problema da sua sede. Assim, Jesus desperta nela o gosto de ajudar e de servir. Desde o começo da conversa, Jesus usa a palavra água nos dois sentidos. No sentido normal: água que mata a sede; e no sentido simbólico; água como fonte de vida e como dom do Espírito Santo, prometido no Antigo Testamento (Zc 14,8; Ez 47,1-12). Desde o começo da conversa, a samaritana entende a palavra água no seu sentido normal de água que mata a sede do corpo. Existe uma tensão entre os dois. Jesus tenta ajudar a samaritana a passar para um outro nível de entendimento. A samaritana, por sua vez, procura levar Jesus a entender as coisas conforme o sentido que elas tem no dia-a-dia. Por isso, por esta porta da água ou do trabalho, Jesus não conseguiu comunicar-se com ela e a conversa não avançou.
3. João 4,16-18: Segunda parte do diálogo: a conversa em torno do marido ou da família
Jesus tenta estabelecer contato por uma outra porta. Ele diz: "Vá buscar seu marido!" É a porta da família. Mas também aqui ele encontra a porta fechada. A samaritana responde secamente: "Não tenho marido!" Jesus diz: "Você falou bem. Você teve cinco maridos e o que tem agora não é o seu marido!" Os cinco maridos evocam simbolicamente os cinco ídolos do povo samaritano (2 Rs 17,29-30). Aquele com quem ela convive agora, ou seja, o sexto a que Jesus alude, talvez seja João Batista, venerado como messias, ou a fé diferente dos samaritanos em Javé. O Quarto Evangelho sugere discretamente que o sétimo é o próprio Jesus, o messias, o esposo que o povo estava esperando.
4. João 4,19-24: Terceira parte do diálogo: a conversa em torno do lugar da adoração
Finalmente, por causa da resposta recebida, a samaritana identifica Jesus e diz: ‘Vejo que o senhor é um profeta". Neste momento, ela se situa na conversa e começa a tomar a iniciativa. Muda o rumo do diálogo e puxa o assunto para a religião: onde adorar a Deus? Lá em Jerusalém ou aqui no Monte Garizim? Os samaritanos tinham construído um templo no Monte Garizim que ficava perto do poço onde eles estavam conversando. Jesus entra pela porta que a mulher abriu. Primeiro, ele relativiza o lugar do culto: nem aqui nem lá! Neste ponto, os judeus não têm nenhum privilégio. Em seguida, esclarece que tanto judeu como samaritano, ambos adoram a Deus. A diferença é que os judeus adoram o que conhecem. Os samaritanos adoram o que (ainda) não conhecem, "porque a salvação vem dos judeus", mas não se restringe a eles. E Jesus termina dizendo que chegará o tempo em que se poderá adorar a Deus em qualquer lugar, contanto que seja "em espírito e verdade".
5. João 4,25-26: A revelação: "O Messias sou eu que estou conversando contigo!"
A samaritana muda novamente o rumo da conversa e puxa o assunto para a esperança messiânica do seu povo: "Sei que vem um Messias. Quando ele vier, vai nos mostrar todas essas coisas!" Novamente, Jesus aceita a mudança do rumo da conversa, entra pela porta que a samaritana abriu e se apresenta: o Messias "sou eu que estou conversando contigo!" A esta mulher, excluída e herética para os judeus da época, Jesus revelou, por primeiro, a sua condição de Messias! Enquanto ele mesmo tomava a iniciativa, a conversa não avançava. Ela só avançou e atingiu o seu objetivo a partir do momento em que a samaritana se situou e começou a tomar a iniciativa. Será que nós temos a mesma coragem de deixar ao outro a iniciativa, o rumo da conversa?
6. João 4,27-30: A transformação que o diálogo realiza na samaritana
Os discípulos tinham ido ao povoado comprar alimento (Jo 4,8). Retornando, encontram Jesus conversando com uma mulher. Estranharam, mas não disseram nada. Então, a samaritana largou o balde perto do poço e voltou sem água para o povoado. Já não precisava da água do poço de Jacó, da antiga Lei. Ela havia encontrado a fonte da água que brotava dentro dela para a vida eterna (Jo 4,14). Chegando no povoado, ela anuncia Jesus: "Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Será que ele é o Messias?" O resultado deste difícil diálogo parece muito reduzido. Jesus só conseguiu provocar uma pergunta na mulher: ‘Será que ele é o Messias?" Talvez seja este o resultado mais positivo que se possa imaginar! Jesus não dá respostas. Ele levanta perguntas que levam a pessoa a refletir sobre o sentido da vida.
7. João 4,31-38: A transformação que o diálogo realiza em Jesus
Mesmo correndo o risco de não obter nenhum resultado, Jesus não se impôs nem condenou a mulher, mas respeitou-a profundamente. Durante a conversa, ele não se fechou dentro da sua religião nem dentro da sua raça, mas se orientava por aquilo que ele mesmo ia aprendendo da própria samaritana. No fim, esqueceu até da comida que os discípulos tinham trazido, pois prestava atenção ao que o Pai lhe tinha a dizer através da conversa com a samaritana: ‘Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e completar a sua obra!" (Jo 4,34). Jesus lê os fatos com outros olhos. Para os judeus, os samaritanos eram um povo a ser desprezado. Para Jesus, eles são um campo fértil, pronto para a colheita (Jo 4,35). Ele descobre que, na vida da samaritana, pessoa não judia e não praticante, existe o dom de Deus" (Jo 4,10). A Boa Nova de Deus existe na vida de todas as pessoas. Os discípulos e as discípulas não são os donos da Boa Nova. Devem ser servidores, instrumentos. Sua missão é ajudar as pessoas a descobrir o dom de Deus dentro das suas vidas.
A cena é cativante. Cansado do caminho, Jesus senta-se junto ao manancial de
Jacob. De imediato chega uma mulher para tirar água. Pertence a uma povoação
Semi pagão, desprezado pelos judeus. Com toda a espontaneidade, Jesus inicia o diálogo com ela. Não sabe olhar para ninguém com desprezo, mas sim com grande ternura. «Mulher, dá-me de beber» .
A mulher fica surpreendida. Como se atreve a entrar em contato com uma samaritana? Como se rebaixa a falar com uma mulher desconhecida? As palavras de Jesus surpreendem-na todavia mais: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te pede de beber, sem dúvida tu mesma me pedirias a mim, e Eu te daria água viva» .
São muitas as pessoas que, ao longo destes anos, se têm afastado de Deus sem dar atenção ao que realmente estava a ocorrer no seu interior. Hoje Deus é-lhes um «ser estranho». Tudo o que está relacionado com Ele parece-lhes vazio e sem sentido: um mundo infantil cada vez mais longínquo.
Entendo-os. Sei o que podem sentir. Também eu, fui afastando pouco a pouco daquele «Deus da minha infância» que despertava dentro de mim medos, desgosto e mal-estar. Provavelmente, sem Jesus nunca me teria encontrado com o Deus que hoje é para mim um Mistério de bondade: uma presença amigável e acolhedora em quem posso confiar sempre.
Nunca me atraiu a tarefa de verificar a minha fé com provas científicas: creio que é um erro tratar o mistério de Deus como se fosse um objeto de laboratório. Tampouco os dogmas religiosos me ajudaram a encontrar-me com Deus. Com simplicidade deixei-me conduzir por uma confiança em Jesus que foi crescendo com os anos.
Não saberia dizer exatamente como se sustenta a minha fé no meio de uma crise religiosa que me sacode também a mim como a todos. Apenas diria que Jesus me trouxe a viver a fé em Deus de forma simples desde o fundo do meu ser. Se eu escuto, Deus não se cala. Se eu me abro, Ele não se fecha. Se eu me confio, Ele me acolhe. Se eu me entrego, Ele me sustenta. Se eu me afundo, Ele me levanta.
Creio que a experiência primeira e mais importante é nos encontrarmos bem com Deus porque o percebemos como uma «presença salvadora». Quando uma pessoa sabe o que é viver bem com Deus, porque, apesar da nossa mediocridade, os nossos erros e egoísmos, Ele nos acolhe tal como somos, e nos impulsiona a enfrentarmos a vida com paz, dificilmente abandonará a fé. Muitas pessoas estão hoje abandonando Deus antes de o ter conhecido. Se conhecessem a experiencia de Deus que Jesus contagia, iriam procura-Lo. Se, acolhendo na sua vida Jesus, conheceriam o dom de Deus, não o abandonariam. Iriam sentir-se bem com Ele.
Entrando no assunto
A cultura e religião judaica separavam e diferenciava a esfera do sagrado do profano, o puro do impuro, criando um sistema religioso que definia as modalidades de relação entre os dois campos através de mediações.
Havia também um sistema que separava fortemente os gentios dos israelitas, as mulheres dos homens, o povo dos sacerdotes, Deus de uma humanidade necessitada de perdão e reconciliação. A aproximação com o divino necessitava de uma mediação, papel desenvolvido pela classe sacerdotal.
O encontro de Jesus com a Samaritana provoca uma reflexão profunda sobre esta realidade.
O Caso da Samaritana
A Samaritana como mulher não podia ser aproximada em público por um rabi; era impura, pois era de uma etnia que misturou-se; era herética cismática, os samaritanos haviam construído um templo sobre o monte Garizim.
O diálogo a leva a reconhecer Jesus como judeu, maior que o nosso pai Jacó, Senhor que faz prodígios, profeta, Messias escatológico, enviado do Pai, Salvador do mundo.
Encontramos, porém o centro do diálogo nos versos 19-24. Em continuidade com os profetas Jesus indica a superioridade do culto espiritual sobre ritual. A Ruah (sopro divino) conduz à verdade, à participação da vida de Deus. O verdadeiro culto vem de Deus não do ser humano necessitado de purificação, por isso não precisa de mediação, nem do templo, nem do culto, nem do sacrifício, nem do sacerdote.
O templo não é mais o centro da vida religiosa, mas o mundo. A Ruah está presente no universo, na vida. Na nova realidade religiosa a mulher então readquire sua dignidade e ela mesma entra em relação direta com dadiva que é Deus, é templo do Espírito.
Não precisa mais do homem, sacerdote que tem pureza legal, que oferece sacrifícios para ter o perdão. Deus mesmo se oferece para que as pessoas santificadas e libertadas pelo seu amor comuniquem vida.
Os não judeus e judeus, as mulheres e os homens, os pobres e os ricos, os pecadores e os justos podem adorar a Deus em qualquer lugar, ninguém está excluído do seu amor.
A narração conclui-se com a Samaritana, entre o estupor dos discípulos que não compreendem, porque Jesus fala com uma mulher e por cima herética. A mulher compreendeu, corre à sua cidade anunciar, e muitos acreditaram nele e na palavra da mulher. Abandonou o cântaro, bebeu e deu de beber, não precisa mais do cântaro, dela jorra água viva. Águas que se misturam águas que doam vida.
Aconteceu outra vez ao poço ...
Aconteceu outra vez ao poço que se diz de Jacó. A rotina cotidiana levava a mulher ao poço, atingir água. “Era necessário passar pela Samaria”? (João 4,1-6). Não, não precisava! O judeu que transitava preferia alongar o caminho, mas não passar pela Samaria. É preciso passar, pois tem uma dívida a pagar.
O encontro! Um homem, judeu, mestre, desconhecido. Uma mulher, samaritana, popular, sem nome. O encontro, um pedido, a surpresa, a porta está aberta, o diálogo instaurado.
Diálogo que abre portas fechadas, que derruba muros antigos, que rompe silêncios atávicos. “Como tu... pedes... a mim?”. O homem lhe fala, pedindo, não ordenando. Uma fala mansa, humilde, que pede. Quanto é novo este falar! Não são berros, ordens, arrogância, ira, grosseria que marcam esta fala. É voz que pede. Pedido de água.
A água
Água a ser dada, água a ser recebida. Água que mata a sede do cansaço, da longa caminhada. Água que mata outra sede, bem mais amarga, bem mais cansada, de bem mais longa caminhada. Sede de esperanças perdidas, de sonhos frustrados, de utopias vencidas. Sede nascida no anonimato, na violência, nos abusos. Sede de reconhecimento, gratidão, prazer, companheirismo. Sede...
Água vida. Água viva. Água reconhecimento. Água relação. Água superação.
O andar de Jesus de Jerusalém para Galileia andar que se afasta da fama, do sucesso, andar a procura... Andar que leva ao poço.
O andar cotidiano da samaritana, andar que é tarefa pesada e entediante, tão rotineira que ninguém repara, reconhece, agradece... Andar que leva ao poço.
Poço, fonte que jorra água: água da promessa para Agar, água das núpcias para Rebeca, água do amor para Raquel, água da libertação para Séfora, água da lamentação porque Miriam morreu e os poços secaram. Água da passagem, da ausência, água de onde jorra a vida.
“Se conhecesses o dom de Deus
e quem é quem te diz:
‘Dá-me de beber’,
Tu é que lhe pedirias
e ele te daria água viva!”
O Poço
Ao poço o pedido, o oferecimento. Ao poço o reconhecimento que quebra as barreiras. Ao poço o reatar de um relacionamento antigo. Ao poço o encontro que vence as barreiras étnicas, religiosas, de gênero. Ao poço a recuperação da memória. Cinco maridos, cinco povos é lá que estão as raízes da identidade que aflora.
“Ele me disse tudo o que eu sou!” A identidade acorda: quem eu sou? Sou Samaritana! Sou povo, sou gente, sou mulher, sou parceira!
“Vinde encontrei um homem! Vinde encontrei o Cristo!”.
Anônima, Samaritana, Parceira do Reino que elimina as barreiras sociais, de raça de gênero. Parceira de Jesus no anúncio do Reino onde Deus é “Pai e quer ser adorado em espírito e verdade”.
Quem olha admira-se: “fala com uma mulher!”. “Meu alimento é fazer a vontade do Pai... alimento que vós não conheceis”.
Quem olha é homem, é cego, a sociedade patriarcal venda seus olhos. Nem a proximidade com o Mestre conseguiu curar a cegueira.
A vontade do Pai é pagar a dívida, é resgatar quem fora escravizada, é restaurar a imagem e semelhança de Deus: mulher-homem.
Saíram do poço, prosseguiram caminhando, na parceria do Reino, rompendo barreiras, vencendo preconceitos, superando obstáculos, apontando, fascinando, conquistando amizades, engrossando as fileiras, anunciando ... provocando...
Saíram andando, a cruz no caminho, a morte na espreita para aniquilar o sonho. Zombando diziam: vencemos! Nada nos derruba! Temos cúmplices: homens e mulheres, ricos e pobres, sábios e estultos, cleros e leigos. Temos cúmplices: a filosofia, a cultura, a religião, a teologia...
As perguntas que sobram após a reflexão:
1. Quais são “as samaritanas”, as águas, os poços alheios a nós com os quais nos deparamos em nossas realidades?
2. Como esses encontros nos fazem olhar e tomar consciência de nossas próprias águas, nossos próprios poços?
3. O que precisamos e como podemos fazer para que esses encontros nos ajudem a purificar nossas águas e sirvam para que encontremos as “águas vivas”, as sagradas águas da vida, presentes tanto nas fontes mais profundas de nossas águas/poços como nas fontes mais profundas das águas/poços que são diferentes das nossas?
Em tempos de crescimento de fundamentalismo e intolerância, de aumento de casos de homofobia e de xenofobia, o texto do encontro entre a Samaritana e Jesus se constitui numa boa oportunidade de conversa. Não existe Bem Viver sem respeito às diferenças.
Mais do que isso, para que o Bem Viver aconteça, faz-se necessário ir ao encontro, mergulhar na outra pessoa e na outra cultura. A sociedade atual é cada vez mais plural e isso é possibilidade de enriquecimento. Sentemos à beira do poço para uma conversa em torno desse assunto.
Nossa tendência em ler o texto a partir de uma perspectiva unicamente cristocêntrica nos faz esquecer aspectos importantes: o encontro se dá na terra da mulher, a Samaria. O estrangeiro e diferente na história é Jesus. É ele que, exausto, no calor do meio-dia, sente fome e sede (Jo 4,6). Ele sequer tem um balde e, por causa da profundidade do poço (Jo 4,11), necessita da ajuda da mulher: Dá-me de beber (Jo 4,7). A arrogância e prepotência de correntes de um judaísmo excludente são colocadas em cheque: todo mundo precisa de ajuda!
A rivalidade entre pessoas judias e samaritanas era antiga. Remanescentes de um processo de colonização promovido pela dominação assíria, que trazia pessoas de outras regiões e as misturava com os habitantes locais, os samaritanos conseguiram, inclusive, preservar maior pluralidade de cultos (2Rs 17,24-41). Mas tal miscigenação gerou reações de desprezo e rivalidades entre aquelas pessoas que se consideram “legítimos filhos de Israel” e aquelas que são “misturadas” (Esd 4,1-5).
Alguns séculos depois, os samaritanos construíram para si um templo no Monte Garizim, o mesmo citado pela Samaritana (Jo 4,20). Alguns judeus, liderados por João Hircano, destruíram o templo samaritano, alegando que o único lugar de adoração era Jerusalém. O livro do Eclesiástico (Sirácida) se refere aos samaritanos como um “povo estúpido que mora em Siquém, que nem sequer é nação” (Eclo 50,25-26). Lideranças judaicas, quando quiseram acusar Jesus, fizeram uso de seu preconceito: Não dizíamos com razão que és samaritano e que tens um demônio? (Jo 8,48).
Não é assim que ainda pensam muitos cristãos, católicos e evangélicos, ao se referirem, por exemplo, a pessoas adeptas aos cultos de matriz africana? Não é também essa postura da grande mídia (dominada por pessoas que se dizem cristãs), quando fala dos muçulmanos, automaticamente rotulados de terroristas? E quantas vezes, católicos e evangélicos continuam se tratando dessa forma! Qual tem sido a postura de boa parte das instituições e das pessoas em relação à convivência homoafetiva? Com certeza, não se constrói o Bem Viver com tanta discriminação e preconceito.
O fato de Jesus passar pela Samaria já diz muito. Muitos judeus faziam outro caminho para não pôr os pés na terra desta gente. A iniciativa de entrar em espaço estrangeiro, de se tornar estrangeiro, mostra uma tentativa de abertura, de superação do preconceito: desejo de aprender com o diferente. Nota-se esta postura tanto em Jesus como na Samaritana, cujo nome, infelizmente não nos foi preservado. De qualquer forma, ela matou a sede de Jesus. Ambos tinham desejos de matar também outras sedes.
O texto poderia ter nos contado que, antes de seguirem conversa, a mulher lhe ofereceu água fresca e reconfortante. Agora refeito, Jesus pode seguir no diálogo, tenso em vários momentos. Mas é tentativa de acerto, de compreensão recíproca, de acolhida do diferente.
(O texto original em espanhol se encontra logo após a tradução)
TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA, CICLO A: A SEDE DO ESPÍRITO
Uma breve, porém necessária, introdução:
O objetivo das duas primeiras semanas da Quaresma era:
➢ Ao adentrarmos a aridez do deserto, despertemos uma profunda sede de Água Viva; ➢ Ao confrontarmos a escuridão do pecado, despertemos um imenso anseio pela Luz Divina; ➢ Ao tomarmos consciência de nosso limite, a morte, reacendamos nosso desejo pela Vida eterna.
Os três domingos que se seguem à Quaresma são estruturados como marcos em uma jornada batismal, utilizando três elementos altamente simbólicos: água, luz e vida . O grande desafio desses domingos é conectar as dimensões antropológica e cristológica desses símbolos. Ou seja, ajudar as pessoas a descobrirem o profundo anseio por esses elementos que reside no coração humano e guiá-las rumo à sua plena realização em Cristo.
Portanto, a partir deste domingo, a liturgia nos convida a deixar-nos envolver e cativar pelo Mistério Pascal de Jesus, que é o nosso objetivo celebratório. Neste terceiro domingo, em particular, o propósito é proclamar aos catecúmenos — discípulos sedentos de Deus — como a sua sede será saciada por Cristo, água viva para aqueles que creem n'Ele. Além disso, “nada é mais importante para um tempo de penitência e jejum do que a ideia de que a graça de Deus precede todas as nossas ações, sempre as precedeu, mesmo quando ainda éramos pecadores. Todos os textos da liturgia de hoje falam disso . ” ¹
1ª Leitura (Êx 17,1-7):
É importante lembrar que este texto sucede a grande epopeia do êxodo vitorioso de Israel do Egito, graças à "firme mão" de Deus. Contudo, após deixarem o Egito (o Êxodo), eles viajaram pelo deserto rumo à Terra Prometida e, após alguns dias dessa jornada, surgiu a primeira crise devido à falta de água. Isso levou o povo a se rebelar contra Moisés e contra Deus. A tentação de desesperar-se, de voltar atrás, então se apresentou. Portanto, além da necessidade vital de água, a crise revelou uma falta de confiança em Deus, pois questionavam as boas intenções de Moisés e de Deus ao resgatá-los do Egito ("Por que nos tiraste do Egito? Só para nos fazer morrer de sede...?"). No fundo, duvidavam que Deus estivesse realmente com Moisés e com eles: "O Senhor está realmente entre nós, ou não?"
Então o Senhor ordenou a Moisés que pegasse a mesma vara com a qual ele havia ferido as águas do Nilo, transformando-as em sangue (cf. Êx 7,15-20). Isso indica que o mesmo Deus que realizou milagres por meio de Moisés no Egito é o mesmo que continua a agir agora em favor do seu povo sedento. E com essa vara, Moisés golpeou a rocha de Horebe, e jorrou água para o povo beber.
A tradição judaica conta que os hebreus carregaram essa rocha durante toda a sua jornada pelo deserto e continuaram a beber da água que dela jorrava. E quando chegaram à terra prometida, deixaram-na cair no chão da Galileia, e tanta água jorrou que se formou o Mar da Galileia . Por sua vez, São Paulo, referindo-se à jornada dos israelitas pelo deserto e baseando-se nessa tradição, diz que "eles beberam água de uma rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo" (1 Coríntios 10:4), conferindo assim a essa passagem do Antigo Testamento um significado batismal.
2ª leitura (Rm 5,1-2.5-8):
No capítulo 5 de sua carta aos Romanos, Paulo explica os efeitos da justificação e a relaciona intimamente à reconciliação . Primeiro, ele afirma que, por meio da justificação, “temos paz com Deus” (5:1). Em seguida, ele equipara a justificação à reconciliação com Deus, seu principal efeito (cf. Rm 5:10-11). A etimologia da palavra grega reconciliar ( katallasso, synallasso ) refere-se à ideia de mudança: uma situação ou uma pessoa “torna-se outra coisa”. É a mudança que supera a discórdia, a inimizade e a separação (por exemplo, como aplicado à reconciliação dos cônjuges em 1 Cor 7:11). Isso é muito importante porque, enquanto a justificação pode ser entendida como uma simples declaração divina de não imputação do mal, algo meramente externo, a reconciliação enfatiza a dimensão da mudança interior, o retorno ao relacionamento com Deus que o pecado havia rompido.
Ele então esclarece que essa reconciliação foi realizada por Deus através da morte de Jesus Cristo, que nos libertou do pecado. Essa afirmação contém dois elementos: um evento — Ele sofreu, Ele morreu — e a motivação por trás desse ato — por nós, pelos nossos pecados, pelos ímpios. Esse evento é também a fonte de esperança de salvação para aqueles que foram justificados e reconciliados.
A realidade de termos sido justificados, de estarmos em paz com Deus, deve nos encorajar a esperar pela redenção final, por participar da glória de Deus. Dessa forma, São Paulo nos dá "a razão da esperança" na glória de Deus, e essa "esperança não será frustrada, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado". O Espírito Santo deve nos convencer do amor de Deus manifestado em Cristo, que "morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores".
Evangelho (João 4:5-42):
Ao ler o Evangelho da Samaritana no contexto da liturgia deste domingo, é preciso enfatizar o tema da água e seu valor simbólico , mesmo deixando outros aspectos importantes do texto em segundo plano.
Claramente, o Evangelho de João explora um duplo nível de significado em relação à sede e à água , transitando do natural para o sobrenatural ou divino. É precisamente através do diálogo que Jesus procura guiar a mulher samaritana a dar esse salto para o nível mais profundo; a despertar nela a sede da água viva . E para isso, ele próprio aparece junto ao poço, “cansado da viagem”, sedento e pedindo-lhe de beber. O desenrolar da narrativa nos leva a compreender que Jesus tem sede de comunicar, de se doar, para que todos conheçam o “dom de Deus”, de beber da água viva; ele tem sede de salvar a humanidade (cf. Jo 7,37-39; 19,34).
Toda a cena se passa ao redor do poço de Jacó em Samaria. L. Rivas nos informa que, na tradição judaica, o poço dos patriarcas era identificado com a rocha da qual Moisés fez brotar água (1ª leitura); e a água desse poço com os maiores dons que Deus concedeu a Israel: a Lei e a Sabedoria.<sup> 3 </sup> Por sua vez, X. León Dufour<sup> 4 </sup> afirma que “de acordo com a interpretação targúmica, quem deu o poço no deserto foi o próprio Deus, e a água daquele poço era uma fonte. Esses dois aspectos, dom e fonte, explicam perfeitamente o tema do relato de João: Jesus dirá à mulher samaritana: ‘Se você conhecesse o dom de Deus’ (4:10) e falará de uma ‘fonte de água’ (4:14)”.
Embora o diálogo com Nicodemos ocorra à noite (cf. Jo 3,2), aqui se observa que “era a sexta hora”; isto é, meio-dia. Isso é interpretado como a hora própria da revelação, a hora da maior luz, quando tudo é revelado.
No diálogo entre Jesus e a mulher samaritana, podem-se distinguir dois momentos, ambos centrados na revelação de Cristo: primeiro, Jesus como aquele que dá a água viva (4:7-15) e, em seguida, Jesus como Profeta e Messias (4:16-26). Concentrar-nos-emos na primeira parte.
Jesus fala com a mulher samaritana para que seu profundo desejo por água viva seja despertado (“Se você conhecesse o dom de Deus e quem está lhe pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva” 4:10); e para que ela o expresse em uma oração de súplica (“Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha sede” 4:15). Portanto, é necessário que ela conheça o Dom de Deus e quem o Doa. Então, o próprio Jesus traça uma comparação entre dois tipos de água, elevando o simbolismo a um nível espiritual. De fato, “a estrutura literária do versículo 10 reflete que o dom de Deus e a água viva denotam a mesma realidade. Se o dom de Deus que Jesus promete dar à mulher samaritana é a água viva , para a mulher conhecer esse dom, isto é, possuir a água viva , é conhecer Jesus e ter um relacionamento pessoal com ele” 5 .
Se considerarmos a tradição bíblica e, em particular, o Evangelho de João, a "água viva" tem dois significados fundamentais. Primeiro, é a revelação oferecida por Jesus, sua palavra, o Evangelho , que nos permite conhecer e adorar o verdadeiro Deus, o Pai.
Em segundo lugar, a água viva é fruto da ação do Espírito de Jesus nos crentes . João 7:37-39 afirma isso explicitamente: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão fontes de água viva”. Com isso, ele se referia ao Espírito, que mais tarde seria dado àqueles que nele cressem .
Para além desses esclarecimentos, é verdade que na linguagem dos símbolos o referente (o que é simbolizado ou representado) nunca é exclusivo ou exato; portanto, é sempre necessário manter certa abertura mental. Isso também se aplica ao símbolo da água na Bíblia, onde “ela é uma realidade fortemente ambivalente, fonte de vida, meio de purificação, bebida e fonte de morte. Portanto, é em si um símbolo indeterminado que é esclarecido pelo contexto. Mas, em todo caso, está relacionado à vida, às vezes está ligado ao símbolo do Espírito e, geralmente, é um símbolo da dádiva salvífica [...] Em João 4:1-44, a dádiva da água viva que Cristo promete simboliza o Espírito, a revelação, a própria pessoa de Cristo como dádiva salvífica e a graça . ” 7
Segundo I. de la Potterie, 8 “em João testemunhamos um notável aprofundamento da metáfora da água viva. No início do diálogo com a mulher samaritana, essa água misteriosa, de acordo com seu significado na tradição pré-cristã, simboliza simplesmente a palavra de Jesus: sua verdade. Mas essa palavra, essa verdade, não pode permanecer externa ao homem: como sabedoria, a água viva deve ser 'bebida' pelo crente (4:14a; 7:37); somente sob essa condição ela se tornará nele (4:14b) uma fonte da qual flui a vida eterna. Isso significa, sem metáfora, que a palavra, a revelação de Jesus, deve ser internalizada no coração do discípulo (5:38). É nisso que consistirá a ação do Espírito da verdade (14:26).”
A partir deste ponto, o texto traça os passos de uma cristologia ascendente: Jesus como profeta, como Messias e como Salvador do mundo . Ao mesmo tempo, e este é o aspecto antropológico, trata-se de um processo de conversão, do “encontro de Cristo com a sua criatura no pecado”.⁹ Além disso, descreve a mudança da preocupação com a satisfação de uma necessidade humana para a confissão de fé em Jesus Cristo como Salvador do mundo. Segundo E. Leclerc, essa conversão da samaritana aparece como pano de fundo na segunda parte do diálogo com Jesus: “'Ele me contou tudo o que eu já fiz', dirá a mulher mais tarde ao povo. Ao revelar sua vida atormentada, Jesus não pretendia humilhá-la, mas sim fazê-la sentir que, para além da superficialidade da sua existência, existia, no seu íntimo, uma sede ardente, um desejo insatisfeito de felicidade, de amor verdadeiro e de adoração. Uma sede do absoluto que nenhuma relação humana conseguira saciar até aquele dia. Uma sede de água viva.”
Em conclusão, a revelação de Jesus, o Salvador, ou ainda mais, seu próprio dom salvador, é a água viva que sacia toda a sede . Não há necessidade de buscar outra revelação ou outra água. Segundo G. Zevini,<sup> 10 </sup> “A mulher samaritana deixa seu cântaro aos pés de Jesus, um símbolo de seu passado e conexão tradicional com o poço onde ela tentara saciar sua sede e do qual recebera sua identidade no passado.” Nós também podemos deixar nosso cântaro junto ao poço de Jacó, pois encontramos a salvação definitiva.
Algumas reflexões:
Devemos lembrar que, no último domingo, com o chamado de Abraão, fomos convidados a partir, a deixar para trás o passado, os aspectos pecaminosos de nossas vidas. Iniciamos nossa jornada, entramos no deserto assim como Israel fez ao sair do Egito. Lembremo-nos de que, para os autores bíblicos, o período no deserto é um lugar simbólico, uma metáfora para a vida , uma representação da existência e dos problemas do povo de Israel, e também dos nossos.
Neste contexto do deserto quaresmal, a primeira leitura nos adverte contra a tentação do desânimo, que procura deter o nosso progresso e nos fazer retroceder. A falta de água é uma carência real e uma ameaça real de morte. Diante disso, é normal que a natureza se rebele, questione e duvide. Então Deus manifesta a sua presença e nos repreende pela nossa falta de fé, pela nossa falta de confiança no seu Amor Provedor. Além disso, como G. Ravasi comenta belamente, " Deus aguarda ansiosamente esta curva no caminho do deserto, quando a humanidade, arrastando os pés, se aproxima dele e encontra a sua rocha sagrada. Deus espera por esse momento para saciar a nossa sede e transformar a sua criatura, trazendo-a de volta à vida. Pois, como diz São Gregório Nazianzeno, 'Deus tem sede de que tenhamos sede dele'".
Uma ideia semelhante e muito bonita encontra-se no prefácio deste domingo: "Ele próprio, quando pediu à mulher samaritana que lhe desse de beber, já lhe havia infundido o dom da fé; e se ele quisesse ter sede da fé daquela mulher, seria para acender nela o fogo do seu amor divino."
A respeito disso, o Papa Francisco disse em sua mensagem do Angelus de 12 de março de 2023: “A sede de Jesus, na verdade, não é apenas física; ela expressa a mais profunda aridez em nossas vidas: é, sobretudo, uma sede de amor . Ele é mais do que um mendigo; ele tem sede de amor. E essa sede surgirá no momento culminante de sua Paixão, na cruz; ali, antes de morrer, Jesus dirá: ‘Tenho sede’ ( Jo 19,28). Essa sede de amor o levou a descer, a se humilhar, a se tornar um de nós. Mas o Senhor, que pede de beber, é quem dá de beber: quando encontra a samaritana, fala-lhe da água viva do Espírito Santo, e da cruz, derrama sangue e água do seu lado transpassado (cf. Jo 19,34). Jesus, sedento de amor, sacia a nossa sede com amor. E ele faz conosco o que fez com a samaritana: aproxima-se de nós em nosso cotidiano vive, compartilha nossa sede e nos promete a água.” Vivendo a vida que produz em nós a vida eterna (cf. Jo 4,14).
O Evangelho , portanto, revela-nos na pessoa de Jesus a água viva da qual todos temos sede. Jesus, e somente Jesus, pode revelar-nos o Pai, comunicar-nos o conhecimento do verdadeiro Deus; ele pode dar-nos o Espírito Santo que nos conduz à comunhão com Deus. E tendo encontrado a fonte e saciado a nossa sede, tornamo-nos apóstolos da “água viva”.
O Evangelho deixa bem claro que a iniciativa parte do Senhor, que tem sede de nós, como explica J. Tolentino Mendonça : 12 “É o Senhor quem toma a iniciativa de vir ao nosso encontro: é ele quem chega primeiro ao poço. Quando chegamos, ele já está lá à nossa espera. Quando a samaritana entra em cena, Jesus já está sentado. Por isso é tão verdade que, por maior que seja o nosso desejo, maior é o desejo de Deus”. E é também por isso que o ouvimos dizer: “Se conhecesses o dom de Deus e quem te pede água, lhe lhe terias pedido e ele te teria dado água viva” (Jo 4,10). O encontro com Jesus não é um acerto de contas, nem vem ele revelar-nos um Deus de justiça”.
Acolhendo a dinâmica do Evangelho, podemos afirmar que temos sede de água, sim; mas também temos sede de Deus, de Sua Presença. Particularmente em tempos difíceis, em momentos de perda ou renúncia aos valores humanos, buscamos desesperadamente Sua Presença e nem sempre a sentimos. É a crise da Esperança, daqueles que caminham sem ainda ver a meta, do " já, mas ainda não ". Devemos aceitar isso como inerente à nossa condição cristã, inevitável para aqueles que caminham na fé, e algo de que a Quaresma deve nos ajudar a tomar maior consciência. De fato, "a sede serve para nos sacudir de nossa imobilidade conformista e nos colocar no caminho em busca da fonte". Luis Rosales refletiu isso de forma precisa neste belo verso: "À noite iremos, à noite, / sem lua iremos, sem lua, / pois para encontrar a fonte, / só a sede nos ilumina". Nossa insatisfação radical com tudo o que é perecível e passageiro golpeia com força, como o cajado de Moisés, a rocha de nossa vida até que faça jorrar aquela corrente de água viva que é a presença de Deus. 13
Mas, como bem observa J. Tolentino Mendonça, ¹⁴ “não é fácil reconhecer que se tem sede, porque a sede é uma dor que descobrimos pouco a pouco dentro de nós mesmos, por trás de nossas narrativas defensivas, assépticas ou idealizadas habituais; é uma dor antiga que, sem sabermos exatamente como, encontramos reacendida e tememos que nos enfraqueça; são feridas difíceis de confrontar e ainda mais difíceis de aceitar com confiança… Entrar em contato com a nossa própria sede não é uma operação fácil, mas sem isso, a vida espiritual perde o seu domínio sobre a nossa realidade. Precisamos desse ato de reconhecimento para ancorar a jornada espiritual em nosso horizonte concreto, biográfico e histórico.”
Embora não seja fácil reconhecer nossa sede, é possível e até necessário, pois nada que seja humano pode nos garantir vida indefinida ou nos dar a esperança da eternidade . O próprio J. Tolentino Mendonça nos aponta para a aceitação e o direcionamento das muitas sedes que carregamos dentro de nós: “Não fujamos delas como se nada tivessem a nos revelar sobre Deus. Pelo contrário: dediquemos tempo a orar sobre elas. A sede é uma herança biográfica que somos chamados a reconhecer e pela qual somos gratos. Ela nos acompanha desde a infância, permanece ao longo de nossos anos de formação, irrompe de diversas formas na vida adulta, amadurece conosco, envelhece, muda de nome e significado… e persiste. A sede é a roda do oleiro onde Deus nos molda; é o interior das mãos amorosas de Deus que, esperançosamente, buscam novas maneiras de expressar a vida; é a pele de Deus tocando o vaso que cada um de nós é. Talvez ainda não tenhamos conseguido agradecer a Deus por nossa sede, ou pelo caminho e pelas fontes que Deus trouxe para nossas vidas por meio dela. Coloquemos nossa sede nas mãos de Deus.”
Em suma, o convite deste terceiro domingo da Quaresma é, portanto, despertar um profundo desejo, uma sede de Deus; retornar à fonte, a Jesus, para ser saciado com a sua água viva. Desde a era patrística até os dias de hoje, a leitura do Evangelho de hoje tem sido interpretada sacramentalmente, como uma catequese de iniciação cristã. De fato, a Missa deste domingo, tanto nas leituras quanto nas orações, centra-se nos catecúmenos que hoje passam pelo seu primeiro escrutínio. Na nova versão do Rito de Iniciação Cristã de Adultos aprovada para a Argentina (março de 2024), o seguinte exorcismo é proferido sobre os eleitos: “Deus, que nos enviastes vosso Filho para nos salvar, concedei a estes catecúmenos que, como a samaritana, desejam beber da água viva, que, convertidos pela Palavra do Senhor, reconheçam as suas limitações por causa dos seus pecados e fraquezas. Não permitais que, por vã confiança em si mesmos, sejam enganados pelo demônio, mas livrai-os do espírito da mentira para que, reconhecendo os seus pecados, mereçam a purificação interior e trilhem o caminho da salvação. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.”
Como observa G. Piccoli , 16 “quando a mulher samaritana compreende que Jesus a está olhando em sua falta, em sua história de fracassos, ela começa a erguer um muro para evitar esse olhar”. Portanto, no caminho quaresmal da conversão, somos convidados a reconhecer o que nos impede de beber da água viva: nossos pecados e fraquezas; e nossa vã autoconfiança.
PARA ORAÇÃO (RESSONÂNCIAS DO EVANGELHO EM UMA ORAÇÃO):
Me dê uma bebida
Senhor, semeie conosco
Regue estas terras que contêm a semente.
E colher os frutos da colheita eterna.
Você conhece esses campos?
A água acumulou-se no interior.
E os tempos de seca que não dão frutos
Deixamos nossos jarros aos seus pés.
São corações sedentos pela sua ternura,
Da tua paz e dos teus milagres
Por isso viemos até vocês com sede,
Mãos estendidas e uma fé inabalável para te conhecer.
Deixar tudo para trás para te amar.
Precisamos do testemunho de muitos.
Para recuperar a esperança, a fé
E o amor no amor
Venha e abra uma fenda nesses poços secos.
E dali brotará a primavera prometida.
Quem dará de beber aos homens? Amém.
1 HU von Balthasar, Luz da Palavra. Comentários sobre as Leituras de Domingo (Encontro; Madrid 1998) 47.
2 Obtivemos esses dados de G. Ravasi, Água e Luz (Sal Terrae; Santander 1991) 15.
3 LH Rivas, O Evangelho de João. Introdução. Teologia. Comentário (San Benito; Buenos Aires 2006) 175-176.
4 Leitura do Evangelho de João. Jo 1-4. Vol. I (Siga-me; Salamanca 1992) 277.
5 G. Zevini, Evangelho segundo São João (Siga-me; Salamanca 1995) 133.
6 Cf. LH Rivas, verbete: Água, em Dicionário de símbolos e figuras da Bíblia (Amico; Buenos Aires 2012) 11.
7 Comissão Episcopal do Clero, Pregação do Evangelho de São João (Madrid 1988) 245.
8 Jesus e os Samaritanos , 44; citado em G. Zevini, Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 135.
9 A. Nocent, Celebrando Jesus Cristo III. Quaresma (Sal da Terra; Santander 1980) 99.
10 Evangelho segundo São João (Siga-me; Salamanca 1995) 141.
11 Água e luz (Sal Terrae; Santander 1991) 17.
12 O Louvor da Sede (Sal Terrae; Argentina 2018) 27.
13 Miguel Márquez Calle, Homilética 2 (2005) 122. É a letra de um canto de Taizé: http://youtu.be/zkjDNdrzj1k 14 O Elogio da Sede (Sal Terrae; Argentina 2018) 37.47.-
15 Ibid., 45-46
16 O Perfume do Marido (Paulinas; Madrid 2018) 77.
TERCER DOMINGO DE CUARESMA CICLO "A": LA SED DEL ESPÍRITU
Breve y necesaria introducción:
La intención de las dos primeras semanas de cuaresma fue:
➢ Al introducirnos en la sequedad del desierto, despertar una profunda sed del Agua Viva; ➢ Al enfrentarnos con la oscuridad del pecado, hacer surgir una inmensa ansia de Luz Divina; ➢ Al tomar conciencia de nuestro límite, la muerte, reavivar nuestro deseo de la Vida eterna.
Los tres domingos siguientes de cuaresma están ordenados como jalones de un itinerario bautismal mediante el recurso a tres elementos con una gran carga simbólica: el agua, la luz y la vida. El gran desafío de estos domingos es lograr vincular los polos antropológico y cristológico de estos símbolos. Es decir, ayudar a descubrir el deseo profundo de estos elementos que anida en el corazón del hombre y orientarlo a su realización plena en Cristo.
Por tanto, a partir de este domingo la liturgia nos invita a dejarnos atraer, conquistar por el misterio pascual de Jesús que tenemos como meta celebrativa. En este tercer domingo, en particular, se busca anunciar a los catecúmenos-discípulos, sedientos de Dios, cómo su sed va a ser saciada con Cristo, agua viva para quien cree en Él. Además, "nada es más importante para un tiempo de penitencia y ayuno que la idea de que la gracia de Dios precede a toda nuestra acción, la ha precedido siempre, siendo nosotros todavía pecadores. Todos los textos de la liturgia hablan hoy de esto"1.
1a. Lectura (Ex 17,1-7):
Importa recordar que este texto sigue a la gran epopeya de Israel que sale de Egipto de modo victorioso gracias a la "mano firme" de Dios. Ahora bien, a la salida de Egipto (éxodo) sigue el camino por el desierto hacia la tierra prometida y, después de unos días de este caminar, surge una primera crisis por la falta de agua, lo que lleva al pueblo a rebelarse contra Moisés y contra Dios. Aparece entonces la tentación del desaliento, de querer volverse atrás. Por eso, más allá de la necesidad vital del agua, la crisis pone de manifiesto la falta de confianza en Dios puesto que se cuestiona la buena intención de Moisés y de Dios al rescatarlos de Egipto (“¿para qué nos hiciste salir de Egipto? ¿Sólo para hacernos morir de sed...?”). En el fondo dudaban de que Dios esté realmente con Moisés y con ellos: “¿El Señor está realmente entre nosotros, o no?”.
Entonces el Señor manda a Moisés que tome el mismo bastón con que golpeó las aguas del Nilo y se transformaron en sangre (cf. Ex 7,15-20). Con esto se indica que el mismo Dios que obró prodigios por medio de Moisés en Egipto es quien sigue obrando ahora a favor de su pueblo sediento. Y con este bastón Moisés golpea la roca del Horeb y brotó agua para que el pueblo beba.
La tradición judía dice que los hebreos llevaron esta roca durante toda su travesía por el desierto y del agua que brotaba de ella siguieron bebiendo. Y cuando llegaron a la tierra prometida la dejaron caer a tierra en Galilea y brotó tanta agua que se formó el lago de Tiberíades2. Por su parte San Pablo, al referirse a la travesía de los israelitas por el desierto y basándose en esta tradición, dice que "bebían el agua de una roca espiritual que los acompañaba, y esa roca era Cristo" (1Cor 10,4) confiriéndole así a este pasaje del Antiguo Testamento un sentido bautismal.
2a. lectura (Rom 5,1-2.5-8):
En el capítulo 5 de la carta a los Romanos Pablo explica los efectos de la justificación y la relaciona estrechamente con la reconciliación. En primer lugar, dice que mediante la justificación “estamos en paz con Dios” (5,1). Luego equipara la justificación con la reconciliación con Dios, su principal efecto (cf. Rom 5,10-11). La etimología de la palabra griega reconciliar (katallasso, synallasso) remite a la idea de cambio: una situación o una persona “se vuelve otra”. Es el cambio que supera la discordia, la enemistad, la separación (por ejemplo, aplicado a la reconciliación de los esposos en 1Cor 7,11). Es muy importante porque si la justificación podía llegar a entenderse como una simple declaración divina de no imputación del mal, algo sólo exterior; la reconciliación acentúa más bien la dimensión de cambio interior, de vuelta a la relación con Dios que el pecado había roto.
Luego precisa que esta reconciliación la obró Dios por medio de la muerte de Jesucristo que nos liberó del pecado. En esta referencia hay dos elementos: un acontecimiento - padeció, murió - y la motivación de este hecho - por nosotros, por nuestros pecados, por los impíos -. Y este acontecimiento es también la fuente de la esperanza de la salvación para los que han sido justificados y reconciliados.
La realidad de haber sido justificados, de estar en paz con Dios, debe animarnos a esperar la redención definitiva, la participación en la gloria de Dios. De este modo San Pablo nos da “razón de la Esperanza” de la gloria de Dios y esta “esperanza no quedará defraudada porque el amor de Dios ha sido derramado en nuestros corazones por el Espíritu Santo que nos ha sido dado”. El Espíritu Santo debe convencernos del amor de Dios manifestado en Cristo, quien "murió por nosotros cuando todavía éramos pecadores".
Evangelio (Jn 4,5-42):
Al leer el evangelio de la Samaritana en el contexto de la liturgia de este domingo hay que poner el acento en el tema del agua y su valor simbólico; aun dejando en la sombra otros aspectos importantes del texto.
Claramente el evangelio de Juan juega con un doble nivel de significación en relación a la sed y al agua, pasando de lo natural a lo sobrenatural o divino. Justamente a través del diálogo busca Jesús que la samaritana haga este salto a lo más profundo; que se despierte en ella la sed del agua viva. Y para ello aparece Él mismo junto al pozo “fatigado del camino”, teniendo sed y pidiéndole que le de beber. El curso de la narración nos llevará a comprender que Jesús tiene sed de comunicarse, de darse, de que todos conozcan el “don de Dios”, que beban del agua vida; tiene sed de salvar a la humanidad (cf. Jn 7,37-39; 19,34).
Toda la escena tiene lugar en torno al pozo de Jacob situado en Samaría. Nos informa L. Rivas que en la tradición judía el pozo de los patriarcas se identificaba con la roca de la cual Moisés hizo brotar agua (1ª. lectura); y el agua de este pozo con los mayores dones que Dios ha hecho a Israel: la Ley y la Sabiduría3. Por su parte X. León Dufour4dice que “según la interpretación targúmica, el donante del pozo en el desierto era Dios mismo, y el agua de ese pozo era un agua que subía. Estos dos aspectos, don y fuente, dan perfectamente cuenta de la temática del relato de Jn: Jesús le dirá a la samaritana: «Si conocieras el don de Dios» (4,10) y hablará de «fuente que brota» (4,14)”.
Mientras el diálogo con Nicodemo tiene lugar de noche (cf. Jn 3,2), aquí se señala que “era la hora sexta”; esto es, mediodía. Se interpreta como la hora propia de la revelación, hora de mayor luz donde todo queda a la vista.
En el diálogo entre Jesús y la samaritana pueden distinguirse dos momentos, ambos centrados en la revelación de Cristo: primero de Jesús como dador del agua viva (4,7-15) y luego Jesús como Profeta y Mesías (4,16-26). Nos concentraremos en la primera parte.
Jesús le habla a la Samaritana para que se despierte en ella su deseo profundo del agua viva ("Si conocieras el don de Dios y quién es el que te dice: "Dame de beber", tú misma se lo hubieras pedido, y él te habría dado agua viva" 4,10); y se lo manifieste con una oración de petición (“Señor, dame de esa agua para que no tenga más sed” 4,15). Luego es necesario que conozca el Don de Dios y quién es el Dador del mismo. Entonces Jesús mismo pasa a establecer una comparación entre dos tipos de agua llevando el simbolismo al nivel espiritual. En efecto, “la estructura literaria del v. 10 refleja que el don de Dios y el agua viva denotan la misma realidad. Si el don de Dios que Jesús promete dar a la samaritana es el agua viva, para la mujer conocer este don, o sea, poseer el agua viva, es conocer a Jesús y tener con él unas relaciones personales”5.
Si atendemos a la tradición bíblica y al evangelio de Juan en particular el "agua viva" tiene dos sentidos fundamentales. En primer lugar, es la revelación que ofrece Jesús, su palabra, el evangelio, que nos permite conocer y adorar al verdadero Dios, al Padre.
En segundo lugar, el agua viva es fruto de la acción del Espíritu de Jesús en los creyentes. Lo dice expresamente Jn 7,37-39: "El que tenga sed, venga a mí; y beba el que cree en mí". Como dice la Escritura: "De su seno brotarán manantiales de agua viva". Él se refería al Espíritu que debían recibir los que creyeran en él"6.
Más allá de estas precisiones, es verdad que en el lenguaje de los símbolos el referente (lo simbolizado o representado) nunca es exclusivo o exacto, por ello es necesario mantener siempre cierta apertura mental. Esto vale también para el símbolo del agua en la Biblia donde “es una realidad fuertemente ambivalente, fuente de vida, medio de purificación, bebida y fuente de muerte. De ahí que de por sí sea un símbolo indeterminado que se aclara por el contexto. Pero en cualquier caso está relacionado con la vida, en algunos momentos se une con el símbolo del Espíritu y es en general símbolo del don salvífico [...] En Jn 4,1-44 el don del agua viva que Cristo promete simboliza el Espíritu, la revelación, la misma persona de Cristo como don salvífico y la gracia”7.
Según I. de la Potterie8“asistimos en Juan a una notable profundización de la metáfora del agua viva. Al comienzo del diálogo con la mujer de Samaría, esta agua misteriosa, en conformidad con el significado que revestía en la tradición precristiana, simboliza simplemente la palabra de Jesús: su verdad. Pero esta palabra, esta verdad, no puede permanecer externa al hombre: como sabiduría, el agua viva tiene que ser ‘bebida’ por el creyente (4, 14ª; 7,37); sólo con esta condición se convertirá en él (4,14b) en un manantial del que surge la vida eterna. Esto significa, sin metáfora, que la palabra, la revelación de Jesús, tiene que ser interiorizada en el corazón del discípulo (5,38). En esto consistirá la acción del Espíritu de verdad (14,26)”.
A partir de aquí el texto recorre los pasos de una cristología ascendente: Jesús como profeta, como Mesías y como Salvador del mundo. Al mismo tiempo, y esta es la vertiente antropológica, se trata de un proceso de conversión, del "encuentro de Cristo con su criatura en el pecado"9. Además, se describe el paso de la preocupación por la satisfacción de una necesidad humana, a la confesión de fe en Jesucristo como Salvador del mundo. Según E. Leclerc esta conversión de la samaritana aparece como trasfondo en la segunda parte del diálogo con Jesús: “«Me ha dicho todo lo que he hecho», dirá más tarde la mujer a la gente. Al dejar al aire su vida tormentosa, Jesús no ha querido humillarla, sino más bien hacer sentir que, más allá de la superficialidad de su existencia, existía, en lo más profundo de ella misma, una sed ardiente, un deseo insatisfecho de felicidad, de amor verdadero y de adoración. Una sed de absoluto que ninguna relación humana había podido sofocar hasta ese día. Una sed de agua viva”.
En conclusión, la revelación de Jesús el Salvador, o más aún, su propia donación salvadora es el agua viva que calma toda sed. Ya no hay que buscar otra revelación ni otra agua. Según G. Zevini10“la samaritana abandona a los pies de Jesús el cántaro, símbolo de su pasado y vínculo tradicional con el pozo, en el que había pretendido apagar su sed y de donde había recibido su identidad en el pasado”. También nosotros podemos abandonar el cántaro al lado del pozo del viejo Jacob, pues hemos encontrado la salvación definitiva.
Algunas reflexiones:
Debemos recordar que el domingo pasado, con la vocación de Abraham, se nos invitaba a salir, a dejar atrás lo pasado, lo pecaminoso de nuestra vida. Nos hemos puesto en camino, hemos entrado en el desierto al igual que Israel al salir de Egipto. Recordemos que para los autores bíblicos el período del desierto es un lugar simbólico, es una metáfora de la vida, un cuadro de la existencia y de los problemas del pueblo de Israel, y también de los nuestros.
En este contexto del desierto cuaresmal la primera lectura nos advierte sobre la tentación del desaliento que busca hacernos detener nuestra marcha y volver atrás. La falta de agua es una carencia real y una real amenaza de muerte. Ante esto es normal que la naturaleza se rebele, cuestione y dude. Entonces Dios manifiesta su presencia y nos reprocha la falta de fe, de confianza en su Amor Providente. Más aún, como hermosamente comenta G. Ravasi11"Dios espera ansiosamente este recodo en la pista del desierto, cuando el hombre, arrastrando sus pasos, se le acerca y golpea su roca santa. Dios aguarda ese momento para saciar la sed y transformar a su criatura haciéndola revivir. Porque como dice San Gregorio Nacianceno: «Dios tiene sed de que tengamos sed de Él»".
Una idea parecida y muy bella encontramos en el prefacio propio de este domingo: "Él mismo, cuando pedía a la Samaritana que le diera de beber, ya había infundido en ella el don de la fe; y si quiso tener sed de la fe de esa mujer fue para encender en ella el fuego de su amor divino".
Al respecto decía el Papa Francisco en el ángelus del 12 de marzo de 2023: “La sed de Jesús, de hecho, no es solo física, expresa las sequedades más profundas de nuestra vida: es sobre todo la sed de nuestro amor. Es más que un mendigo, está sediento de nuestro amor. Y emergerá en el momento culminante de la pasión, en la cruz; allí, antes de morir, Jesús dirá: «Tengo sed» (Jn 19,28). Esa sed de amor que lo llevó a descender, a abajarse, a ser uno de nosotros. Pero el Señor, que pide beber, es Aquel que da de beber: al encontrarse con la samaritana le habla del agua viva del Espíritu Santo y desde la cruz derrama sangre y agua desde su costado atravesado (cf. Jn 19,34). Jesús, sediento de amor, sacia nuestra sed con amor. Y hace con nosotros como con la samaritana: se acerca a nosotros en lo cotidiano, comparte nuestra sed, nos promete el agua viva que hace brotar en nosotros la vida eterna (cf. Jn 4,14)”.
El evangelio, por tanto, nos descubre en la persona de Jesús al agua viva de la cual todos tenemos sed. Jesús, y sólo Jesús, pude revelarnos al Padre, comunicarnos el conocimiento del verdadero Dios; puede darnos el Espíritu Santo que nos lleva a la comunión con Dios. Y habiendo encontrado la fuente y habiendo apagado nuestra sed, nos volvemos apóstoles del “agua viva”.
El evangelio deja muy en claro que la iniciativa es del Señor, quien tiene sed de nosotros, cómo bien explica J. Tolentino Mendonça12: “Es el Señor quien toma la iniciativa de venir a nuestro encuentro: es él quien llega antes al pozo. Cuando nosotros llegamos, él ya estaba allí esperándonos. Cuando la mujer samaritana entra en escena, Jesús ya está sentado. Por eso es muy cierto que, por muy grande que sea nuestro deseo, mayor aún es el deseo de Dios”. Y también por eso le oímos decir: «Si conocieras el don de Dios y quién es el que te dice: “dame de beber”, tú le habrías pedido a él, y él te habría dado agua viva» (Jn 4,10). El encuentro con Jesús no es ningún ajuste de cuentas, ni el viene a revelarnos a un Dios justiciero”.
Asumiendo la dinámica del evangelio, podemos afirmar que tenemos sed de agua, sí; pero también tenemos sed de Dios, de su Presencia. En particular en los momentos difíciles, de pérdida o de renuncia a valores humanos, buscamos desesperadamente su Presencia y no siempre la sentimos. Es la crisis de la Esperanza, del que camina sin ver aún la meta, del ya pero todavía no. Tenemos que aceptar esto como algo propio de nuestra condición cristiana, inevitable para el que camina en la fe, y de lo cual la cuaresma nos debe ayudar a tomar más conciencia. En efecto, "la sed sirve para sacarnos de nuestra inmovilidad conformista y lanzarnos al camino en búsqueda de la fuente. Luis Rosales lo reflejó acertadamente en este hermoso verso: “De noche iremos, de noche, / sin luna iremos, sin luna, / que para encontrar la fuente, / sólo la sed nos alumbra”. Nuestra insatisfacción radical ante todo lo caduco y pasajero golpea con fuerza, como el cayado de Moisés, en la roca de nuestra vida hasta hacer brotar esa corriente de agua viva que es la presencia de Dios"13.
Pero como bien nota J. Tolentino Mendonça14“no es fácil reconocer que se tiene sed, porque la sed es un dolor que descubrimos poco a poco dentro de nosotros, detrás de nuestros acostumbrados relatos defensivos, asépticos o idealizados; es un dolor antiguo que, sin saber exactamente cómo, encontramos reavivado y tememos que nos debilite; son heridas que nos cuesta afrontar, y más aún aceptar confiadamente… Contactar con nuestra propia sed no es una operación fácil pero sin ella la vida espiritual pierde adherencia a nuestra realidad. Tenemos necesidad de ese acto de reconocimiento para anclar el recorrido espiritual en nuestro horizonte concreto, biográfico e histórico”.
Si bien no es fácil reconocer nuestra sed, es posible y hasta necesario porque nada de lo humano puede garantizarnos la vida indefinida ni darnos la esperanza de lo eterno. El mismo J. Tolentino Mendonça15 nos señala el camino para aceptar y orientar las muchas clases de sed que llevamos dentro de nosotros: “No huyamos de ellas como si no tuvieran nada que revelarnos de Dios. Al contrario: empleemos tiempo en orarlas. La sed es un patrimonio biográfico que estamos llamados a reconocer y agradecer. Viene con nosotros desde la infancia, nos acompaña a lo largo de nuestros años de formación, irrumpe de diversas formas en la vida adulta, madura al mismo tiempo que nosotros, envejece, cambia de nombre y de sentido… y persiste. La sed es el torno del alfarero donde Dios nos da forma; es el interior de las manos amorosas de Dios que buscan esperanzadamente formas nuevas de expresar la vida; es la piel de Dios tocando el vaso que somos cada uno de nosotros. Tal vez no hayamos conseguido aún agradecer a Dios nuestra sed, o bien el camino y las fuentes que a través de ella ha hecho Dios llegar a nuestras vidas. Pongamos en Dios nuestra sed”.
En síntesis, la invitación de este tercer domingo de cuaresma es, entonces, a despertar el deseo profundo, la sed de Dios; y a volver a la fuente, a Jesús, para saciarnos con su agua vida. Desde la época patrística hasta nuestros días el evangelio de la de misa de hoy ha sido leído en clave sacramental, como una catequesis de la iniciación cristiana. En efecto, la Misa de este domingo, tanto en sus lecturas y como en sus oraciones, está centrada sobre los catecúmenos que hoy deben realizar su primer escrutinio. En la nueva versión del Ritual de Iniciación Cristiana de Adultos aprobada para Argentina (marzo 2024) se dice sobre los electos este exorcismo: “Dios, que nos enviaste a tu Hijo para salvarnos, concede a estos catecúmenos que a ejemplo de la mujer samaritana desean beber el agua viva, que convertidos por la Palabra del Señor, se reconozcan impedidos por sus pecados y debilidades, no permitas que, por confiar vanamente en sí mismos, sean engañados por el diablo, antes bien líbralos del espíritu de la mentira de manera que, reconociendo sus pecados, merezcan purificarse interiormente y emprender el camino de la salvación. Por Jesucristo, nuestro Señor”.
Como nota G. Piccoli16, "cuando la samaritana comprende que Jesús la está contemplando en su carencia, en su historia fallida, empieza a poner un muro para evitar esa mirada”. Por eso, en el camino de conversión cuaresmal se nos invita a reconocer lo que nos impide beber del agua viva: nuestros pecados y debilidades; y la vana confianza en sí mismos.
PARA LA ORACIÓN (RESONANCIAS DEL EVANGELIO EN UNA ORANTE):
Dame de beber
Señor, siembra con nosotros
Riega estos terrenos que atesoran la Semilla
Y recoge los frutos de la cosecha eterna
Tú sabes de estos campos
El agua acumulada en lo profundo
Y los tiempos de sequía que no dan frutos
Hemos dejado a tus pies nuestros cántaros
Son corazones sedientos de tu ternura,
De tu paz y tus milagros
Por eso venimos a ti sedientos,
Las manos extendidas y la fe decidida a conocerte
A dejar todo atrás para quererte
Necesitamos del testimonio de tantos
Para recuperar la esperanza, la fe
Y el amor enamorado
Ven a abrir en estos pozos secos, una grieta
Y brote de allí el manantial prometido
Que dará de beber a los hombres. Amén
1 H. U. von Balthasar, Luz de la palabra. Comentarios a las lecturas dominicales (Encuentro; Madrid 1998) 47.
2 Tomamos este dato de G. Ravasi, El agua y la luz (Sal Terrae; Santander 1991) 15.
3 L. H. Rivas, El evangelio de Juan. Introducción. Teología. Comentario (San Benito; Buenos Aires 2006) 175-176.
4 Lectura del evangelio de Juan. Jn 1-4. Vol. I (Sígueme; Salamanca 1992) 277.
5 G. Zevini, Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 133.
6 Cf. L. H. Rivas, voz: Agua, en Diccionario de símbolos y figuras de la Biblia (Amico; Buenos Aires 2012) 11.
7 Comisión Episcopal del Clero, Predicación del evangelio de San Juan (Madrid 1988) 245.
8 Gesú e i samaritani, 44; citado en G. Zevini, Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 135.
9 A. Nocent, Celebrar a Jesucristo III. Cuaresma (Sal Terrae; Santander 1980) 99.
10 Evangelio según san Juan (Sígueme; Salamanca 1995) 141.
11 El agua y la luz (Sal Terrae; Santander 1991) 17.
12 El elogio de la sed (Sal Terrae; Argentina 2018) 27.
13 Miguel Márquez Calle, Homilética 2 (2005) 122. Es la letra de un canto de Taizé: http://youtu.be/zkjDNdrzj1k 14 El elogio de la sed (Sal Terrae; Argentina 2018) 37.47.-
15 Ídem, 45-46
16 El perfume del esposo (Paulinas; Madrid 2018) 77.