Cultura e Diversos
2º Encontro de Cinema do Interior Paulista está acontecendo desde junho obras de ficção, documentário e animação produzidas em Sorocaba, Ubatuba, Piracicaba, Assis, Tietê, Serra Negra, Jacareí e Socorro de forma digital.
Podemos acompanhar até 4 de agosto, com transmissões ao vivo todas as terças, às 19h, no canal da ICine no YouTube.
Os temas dos filmes são diversos, como cultura afrobrasileira, resistência, família e LGBTQI+ com obras de ficção, documentário e animação produzidas em Sorocaba, Ubatuba, Piracicaba, Assis, Tietê, Serra Negra, Jacareí e Socorro.
O ICine é uma rede de cineastas, produtores e exibidores do interior de São Paulo com o objetivo de expandir a atividade cinematográfica no interior do Estado.
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Eduardo Kokubun
Já perdemos a noção da pandemia. Rio Claro passou 100 dias prendendo a respiração a cada nova divulgação dos casos de covid-19 pela prefeitura, quando chegou a 1000 casos. No início, cada caso novo era um suspiro. Aos 67 dias, 100 casos no total, um escândalo. Em mais 20 dias, 500 um horror, até chegar ao milésimo caso aos 100 dias.
Bastaram apenas 17 dias para esses 1000 passarem a 2000. Deve haver mais, muito mais. No Brasil, a Universidade Federal de Pelotas em levantamento realizado com o IBOPE estimou que para cada caso conhecido de covid-19 pode haver outros 6 casos. Assim, Rio Claro estaria em 23/07/2020 com pouco mais de 16 mil casos da doença. Olhe para 13 pessoas ao seu lado e uma já teria contraído a doença.
Porém, o aumento de 1000 casos confirmados em apenas 17 dias parece não mais afetar o cotidiano do município. O isolamento social ignorou que, desde 21 de junho, estamos na zona vermelha, onde somente atividades essenciais podem ficar abertas. Pelo contrário, desde 2a feira o município registrou os mais baixos índices de isolamento desde a quarentena no Estado: 40%. O número de internados desde o anúncio das restrições insiste em não cair. Mais de 70 pessoas estão internadas por dia, provocando angústia na famíla e amigos. O município abriu mais leitos públicos para acomodar os acometidos pela doença, mas o melhor seria que menos doentes fossem levados ao hospital. A doença, se deixada solta, multiplica o número de infectados. Os recursos financeiros e profissionais de saúde não acompanham a multiplicação. Ontem, 23/07/2020 Rio Claro não comportou todos os doentes e alguns foram enviados para hospitais em outros municípios. Semana passada, nossas vizinhas Campinas e Piracibaba já tinha mandado pacientes para São Paulo. Limeira, também com leitos abarrotados, decretou lockdown nos finais de semana. Em apenas 23 dias, as cidades da região de saúde de Piracicaba aumentaram em 21% suas vagas de UTI. Sem esse aumento, ao invés de termos 85% de ocupação em UTI estaríamos com 102%. Isso porque a região dispõe de 5 vezes mais leitos de UTI do que a recomendada pela OMS.
E como estamos evoluindo? Os números da pandemia oscilam muito de um dia para outro, de uma semana para outra. Porém, na última semana, há um indício de que a doença não esta mais tão acelerada. O número de óbitos que estava em torno de 10 por semana caiu pela metade na última semana. O número de casos, que duplicava a cada 12 dias, está com progressão mais lenta: agora são necessários 20 dias para duplicar. Naquele ritmo, hoje, 23/07 seriam 3,5 mil caos ao invés dos 2,3 mil.
Na última semana, o número de reprodução Rt, que é o número de novas infecções a partir de uma pessoa infectada, oscilou ao redor de 1,1. Muito melhor do que o Rt de junho que chegou a atingir quase 3 e fez a pandemia explodir de 162 casos a 1500 casos em apenas um mês. Os epidemiologistas consideram que a pandemia está controlada quando o valor de Rt permanece abaixo de 1 durante duas semanas. Rio Claro está próximo de chegar a esse valor. Isso pode demorar, mas quando isso ocorrer, o número de novos casos irá se reduzindo dia após dia. Repetindo durante 14 dias, podemos dizer que a primeira onda da pandemia foi controlada. Essa tendência de queda em novos casos, refletirá no número de internações, aliviando o sistema de saúde. E no final, em número de óbitos.
Não é possível prever quando isso ocorrerá em Rio Claro. Os dados epidemiológicos contam o passado, vemos o mundo pelo retrovisor do carro. Só saberemos se a pandemia foi controlada quando número de casos diários, internações e óbitos reduzirem de forma consistente. Por pelo menos 14 dias. Isso ainda não aconteceu. O que vem pela frente depende da visibilidade, habilidade do motorista e muitas outras coisas. Na pandemia, do gestor público, dos setores da sociedade, da população.
Adilson Roberto Gonçalves
IPBEN - UNESP Rio Claro
A partir de muitas dúvidas sobre o tratamento com antiinflamatórios conhecidos e da falta do desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz, houve neste ano uma inconsequente e intensa politização do uso de tais medicamentos, associada a forte crescimento de discursos anticientíficos. No momento, quando Donald Trump retirou a cloroquina e derivados de seus discursos, não restou nenhum líder relevante no mundo que defenda esses remédios que não combatem a Covid-19 e as atenções são voltadas para as vacinas que estão sendo testadas.
No entanto, mesmo com a possibilidade de sucesso, teremos um novo desafio de convencimento das pessoas se vacinarem. Estudos recentes mostram que as pessoas têm muitas dúvidas. Entre europeus, metade da população afirma que são reticentes em se vacinar devido aos efeitos colaterais. Especificamente entre os alemães, apenas 60% dizem que tomariam a vacina com certeza. Ou seja, sabemos pela nossa experiência que educação é um forte obstáculo para o entendimento desta epidemia, mas superá-la não é sinônimo de sucesso no entendimento de questões complexas como a epidemiologia de uma doença e a imunidade populacional por meio da vacinação. A falta de comunicação científica é uma montanha a ser superada.
A questão é preocupante porque outras doenças que estavam sob controle voltaram a se manifestar devido à menor adesão às campanhas de vacinação e cuidados com a saúde. O sarampo é o caso mais proeminente. As metas de vacinação eram de imunizar pelo menos 95% das crianças e esse valor não tem passado de 92%. Com isso, chegamos a cerca de 4 mil novos casos de contaminação com sarampo somente neste ano. O Brasil perdeu o certificado internacional de país livre da doença, obtido em 2016. No caso da Covid-19, as estimativas mais otimistas são de que é necessário imunizar pelo menos 60% da população para que a probabilidade da contaminação se espalhar fique bem próxima a zero. Com esse nosso histórico ruim e perspectivas preocupantes com a pesquisa de opinião europeia ficamos com mais uma dúvida além da confirmação da eficácia das vacinas em teste.
Eduardo Kokubun
Como ocorre a propagação da covid-19? Como evitar? Como equilibrar os riscos da doença com os riscos sobre a economia? O Professor Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, infectologista, da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu e membro do Centro de Contingência do Estado de São Paulo para o novo coronavírus participou de mesa redonda virtual no Diálogos Unesp RC no dia 17/07/2020 discorrendo sobre essas perguntas.
O professor Fortaleza é um dos primeiros pesquisadores que mergulhou em dados sobre a pandemia no estado de São Paulo para compreender como a doença de dissemina no estado. Caçando as pegadas disponíveis à época no Estado observou que o vírus seguia rotas das rodovias. As maiores cidades localizadas ao longo das grandes rodovias eram pólos de disseminação do vírus. A partir delas, iam se disseminando para as cidades vizinhas, primeiro nas maiores, e se espalhando para as menores até atingirem as cidades rurais. A conectividade é um fator importante para antecipar os passos do vírus. Chegou ao Brasil pelos aeroportos aos grandes centros, na cidade de São Paulo. No interior, chegou primeiro nas cidades com maior trânsito com São Paulo, pelas rodovias.
Cerca da metade da população do estado reside em 39 municípios da região metropolitana da Capital, concentrada numa área de 3% do estado. A outra metade distribui-se em outros 606 municípios. Segundo o professor Fortaleza, a heterogeneidade do Estado requer ações diferenciadas entre a capital e o interior e entre os diferentes municípios. A Unesp, dado o seu grau de interiorização seria um interlocutor privilegiado para levar os diferentes olhares para o enfrentamento da pandemia no Estado.
A todo momento, enfatizando a importância das várias áreas das ciências, discorreu sobre a forma como uma epidemia se desenvolve e como as medidas de isolamento são importantes para o seu controle. As medidas de isolamento até aqui adotadas produziram o efeito desejável de evitar a explosão de casos, a superlotação do sistema de saúde e de óbitos. Assim como o Estado de São Paulo é heterogêno, o Brasil também é heterogêneo, de modo que a pandemia se desenvolve em diferentes tempos e espaços geográficos. Visto como um todo as curvas da pandemia no Brasil precisa ser entendido como uma soma das diferentes curvas nos diferentes locais do país.
Discorrendo sobre a forma de isolamento, o Prof. Fortaleza apresentou a situação da Suécia que optou pelo isolamento vertical, mantendo em isolamento apenas os mais vulneráveis como idosos e pessoas com doenças de risco. Os dados demonstraram que, comparado com países semelhantes, a mortalidade foi maior, sem ganho significativo na economia.
Dentre as medidas de prevenção da propagação da covid-19, o uso de máscara com distanciamento é eficaz para reduzir a transmissão. Máscara não substitui o distanciamento e vice-versa, enfatizou o Prof. Fortaleza.
Na sessão de perguntas, o convidado destacou o papel relevante de todas as áreas da ciência não somente para o enfrentamento da pandemia, mas também o seu papel na defesa da democracia, dos valores éticos e da racionalidade. Fez uma autocrítica à ciência que se mergulhou para seu público interno, dando espaço para o crescimento da anticiência. A pandemia seria a oportunidade para a ciência se redimir.
Como membro do Centro de Contingência do novo coronavirus no Estado apontou que a virtude do Plano São Paulo é contemplar as heterogeneidades dando alguma autonomia para os municípios escolherem estratégias locais e principalmente a reversibilidade nas fases. O retrocesso da região de Piracicaba para a zona vermelha devido à elevada lotação dos leitos UTI foi lembrada como um exemplo.
O Plano São Paulo foi desenhado considerando-se as peculiaridades do estado e das regiões. O interior iniciou o isolamento precocemente em relação à capital e isso pode ter levado à exaustão psicológica, econômica e social, criando um clima de desobediência civil. O Plano seria uma forma de aliviar essas pressões num ambiente de crescente apoio ao discurso negacionista.
O lockdown, ou bloqueio total, adotado em alguns países tem como objetivo a supressão completa do vírus. Em países como Índia, Egito e África do Sul o lockdown gerou ondas dei violência. As tentativas no Brasil, como em São Luis e Fortaleza também não foram bem sucedidas: funcionaram nos centros dessas capitais mas não conteve o avanço na periferia. O mesmo pode-se dizer sobre as favelas. Contudo são medidas subótimas, com resultados subótimos, melhor do que nenhum resultado.
O enfrentamento da pandemia que já é complexo, apresenta um desafio ainda maior no Brasil dada a sua heterogeneidade. O desafio de modelar a progressão da pandemia é grande: não ha modelo que dê conta de tamanha heterogeneidade no espaço e tempo. Além disso, não há ainda um modelo que consiga prever como sair do isolamento.
link de acesso https://youtu.be/yuxRM84Dumk
Adilson Roberto Gonçalves
IPBEN - UNESP Rio Claro
A comunicação da ciência é um desafio, tanto para comunicadores, quanto para cientistas. Falhamos ao comunicar a ciência do novo coronavírus e da Covid-19 para a população? Essa pergunta foi formulada ao Prof. Carlos Fortaleza na mesa-redonda de 17 de julho.
Deixamos proliferar uma disputa sem sentido entre usar ou não substâncias, principalmente cloroquina e hidroxicloroquina, que continua até agora, como é o caso da ivermectina.
O Prof. Fortaleza historiou o desenvolvimento da percepção pública da ciência, com seus altos e baixos e, em resposta à pergunta, crê que “nós falhamos sim, por não manter a ciência como um pilar da democracia e como promotor da igualdade humana e dos princípios éticos; com isso, abriu-se espaço para a anti-ciência crescer”.
Na prática científica, estamos acostumados – pois assim fomos preparados – a olhar muito para a nossa própria comunidade de pesquisadores, com métricas de eficiência que atendem a nossos próprios interesses, mas “o objetivo do conhecimento é fazer sentido para a vida”, segundo o Prof. Fortaleza.
Há uma excelente oportunidade aberta com a Covid-19 que precisamos saber utilizar. Está-nos sendo dada a possibilidade de “redenção”. A ciência deve voltar a ser um pilar do humanismo, de cuidar das pessoas, desprovida de ideologias políticas, na medida do possível. A ciência deve ser algo para melhorar e proteger a vida das pessoas, assim explica de forma otimista o Prof. Fortaleza.
No entanto, ainda temos um grande desafio, porque as decisões não podem ser o resultado da tirania de quem grita mais alto, não se admitindo, nesses casos, o relativismo na ciência, ou seja, que cada um possa ter a sua ciência. Outros conceitos que o Prof. Fortaleza discutiu em sua apresentação foram o de sobrevivência da crítica mais próxima da verdade e o de nunca promover a ignorância. Ele concluiu dizendo que vivemos uma oportunidade única para criar novos valores para a ciência.
Painel com dados detalhados da evolução da Covid-19 em Rio Claro. Com base em informações fornecidas pelas Secretarias de Saúde do Município de Rio Claro e do Estado de São Paulo, são apresentados gráficos de tendências e evolução da pandemia, desde a confirmação do primeiro caso.
Três páginas com indicadores relevantes para entender e tomar decisões para enfrentar a pandemia, são atualizadas diariamente. Gráficos mostram como o isolamento em Rio Claro vem diminuindo, principalmente após o dia das mães em maio e, como depois disso, houve aumento acentuado no número de novos casos.
O acesso está no banner do BAC, na forma de um ícone "Situação da covid-19 Rio Claro" .
BOLETIM ANTI COVID-19, Rio Claro: Unesp, n. 29, julho 2020. Disponível em: https://sites.google.com/unesp.br/boletim-anti-covid-19/ed_anteriores/bac-29-24072020. Acesso em [dia / mês (abreviado) / ano]
Diretor do Instituto de Biociências da Unesp-Rio Claro:
Prof. Dr. José Euzébio de Oliveira Souza Aragão
Diretor do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp-Rio Claro:
Prof. Dr. José Alexandre de Jesus Perinotto
Presidente do CEAC-19:
Prof. Dr. José Roberto Gnecco
Editores:
Eduardo Kokubun
Eugenio Maria de França Ramos
Márcia Correa Bueno Degasperi
Lucas Massensini de Azevedo
Adilson Roberto Gonçalves
Colaboradores:
Bibiana Monson de Souza
Bernadete Benetti
Igor Salomão Monteiro
Roberto Goitein
Maria Christina Amoroso
Auro Aparecido Mendes
Artes e diagramação:
Arianne Dechen Silva
Mateus Fernando Silva Sales
Lucas Massensini de Azevedo
Angela Ferraz
Vídeos (Lives e Mini-Lives)
Lucas Massensini de Azevedo
Adilson Roberto Gonçalves
Felipe Renger Ré
Lucas Henrique Silvestrin
Osmar Malaspina