A taxa de contaminação pelo coronavírus voltou a crescer em Rio Claro, chegando a 2,3 no início da semana, quando foram incluídos os dados do sábado e domingo.
Isso significa que cada indivíduo contaminado expande a contaminação para mais de duas outras pessoas. Mesmo que o valor de Rt caia e apresente tendência de continuar caindo, se for mantido acima de 1 significa que a pandemia da Covid-19 continua em plena expansão.
Adilson Roberto Gonçalves
A pandemia chegou ao Brasil com um mês de atraso em relação à Europa. Enquanto contabilizávamos os nossos primeiros casos, assistimos o show de horrores do colapso do sistema de saúde enfrentando pelos nossos conterrâneos do hemisfério no norte. Por lá a doença atingia o pico em uns 30 dias e em pouco mais de 60 dias viram queda nos novos casos.
Enquanto isso a OMS emitia recomendação para o distanciamento, com um alerta: quanto mais rapidamente as medidas fossem adotadas, mas rapidamente a agora pandemia seria controlada.
O Brasil cumpria bem essas recomendações. A pandemia chegou por aqui e a curva de contágio parecia mais amena do que dos outros países onde chegou primeiro. Parecia que por volta de 30 dias os novos casos começariam a diminuir. Porém, foram-se os 60 dias e nada. Com mais de 100 dias por aqui, a curva ainda continua a subir. Fala-se inclusive que não haverá pico por aqui e sim um platô.
A falta de rigor nas medidas de isolamento está sabotado a nossa curva. Em março a revista Lancet, uma das mais prestigiosas na área médica no mundo, chamou a atenção para os cuidados que os países da América do Sul e do Caribe enfrentariam. Com uma parcela grande da população vivendo em área urbana, muitas pessoas vivem concentradas num espaço mais reduzido, aumentando a chance de contato e infecção. Além disso a qualidade dos centros urbanos na América Latina é menos desprovida de infraestrutura de higiene, sobretudo em áreas de favela. Nessas condições, medidas que levariam a um achatamento não produziriam os efeitos de distanciamento e higiene esperados: ao invés de promover o distanciamento para evitar a propagação da infecção, comprimem pessoas em um espaço reduzido com condições precárias de higiene.
E para o espanto dos especialistas, medidas de relaxamento pipocam nas cidades e estados brasileiros, contrariando a recomendação da OMS de só relaxar quando houver queda consistente no número de caos. O esforço até aqui não foi totalmente em vão. Sem as medidas de isolamento o número de doentes e de óbitos teria sido muito pior. Sem estrutura de saúde suficiente para atender os doentes, o horror que assistimos no Amazonas e no Ceará aconteceria em muitos outros estados. Em Rio Claro, mais de 350 vidas já foram salvos.
Se tivéssemos conseguido manter o nível de isolamento visto no início da pandemia por aqui, é possível que já estivéssemos em acentuada queda nos novos casos e um retorno menos conturbado ao novo normal. A economia poderia estar experimentando um retorno menos turbulento. Com o relaxamento antecipado agora decretado em diversos estados e municípios o pico poderá não vir e teríamos um período de contágio prolongado.
O Brasil não conseguiu nem implantar um isolamento rigoroso como a Nova Zelândia, nem um modelo mais permissivo como o da Suécia. Não há precedente de país que tenha adotado deliberada ou involuntariamente essa estratégia nem-nem: nem lockdown, nem liberação total. O Brasil nem apresenta as condições geográficas para o bloqueio total, nem as condições hospitalares para a liberação total.
O resultado é o que estamos vendo por aqui. Estamos presos à alternância de períodos de relaxamento da zona laranja e com outros de medidas de bloqueio mais rígidos na zona vermelha.
O vírus insiste em circular entre nós com facilidade para encontrar um hospedeiro, enquanto a população, sem vislumbrar o fim do pesadelo, decreta, por conta própria, o fim da pandemia. Sem ação coordenada das partes envolvidas, poder publico, sociedade organizada, passaremos um longo período sob tensão desse pisca-pisca de abrir e fechar a atividade econômica de olho na luz amarela dos leitos em hospitais.
Nesta quinta-feira, 25/6, o Hospital Albert Einstein emitiu comunicado aos seus médicos não recomendado o uso da cloroquina em pacientes que tenham a Covid-19. A notícia pode ser acessada pelo link abaixo.
A controvérsia sobre o uso dessa substância e de outras correlatas foi tema de publicações anteriores do BAC e em outros sites. Confira nos links abaixo.
BAC 11 https://sites.google.com/unesp.br/boletim-anti-covid-19/ed_anteriores/bac-11-11052020#h.wstj3rks0qbd
BAC 16 https://sites.google.com/unesp.br/boletim-anti-covid-19/ed_anteriores/bac-16-21052020#h.7gi2be2pqx3y
Cloroquina e dengue https://www.jcnet.com.br/opiniao/articulistas/2020/05/724973-cloroquina-e-dengue.html
Painel com dados detalhados da evolução da Covid-19 em Rio Claro. Com base em informações fornecidas pelas Secretarias de Saúde do Município de Rio Claro e do Estado de São Paulo, são apresentados gráficos de tendências e evolução da pandemia, desde a confirmação do primeiro caso.
Três páginas com indicadores relevantes para entender e tomar decisões para enfrentar a pandemia, são atualizadas diariamente. Gráficos mostram como o isolamento em Rio Claro vem diminuindo, principalmente após o dia das mães em maio e, como depois disso, houve aumento acentuado no número de novos casos.
O acesso está no banner do BAC, na forma de um ícone "Situação da covid-19 Rio Claro" .
BOLETIM ANTI COVID-19, Rio Claro: Unesp, n. 23, junho 2020. Disponível em: https://sites.google.com/unesp.br/boletim-anti-covid-19/ed_anteriores/bac-23-19062020. Acesso em [dia / mês (abreviado) / ano]