The Children's Hour
1961
A história se passa em uma escola para meninas em uma cidade do interior dos Estados Unidos. Karen Wright (Audrey Hepburn) e Martha Dobie (Shirley MacLaine) são amigas e sócias na administração da escola. No entanto, a vida das duas é abalada quando uma aluna problemática, Mary Tilford (Karen Balkin), espalha um rumor falso de que Karen e Martha estão envolvidas romanticamente.
O rumor se espalha rapidamente e tem consequências devastadoras para a vida pessoal e profissional de Karen e Martha. Elas se tornam alvo de preconceito e difamação, e suas vidas são destruídas pela mentira de Mary.
Directed by
Written by
Lillian Hellman ... (play)
John Michael Hayes ... (screenplay)
Lillian Hellman ... (adaptation)
Stars:
Audrey Hepburn ... Karen Wright
Shirley MacLaine ... Martha Dobie
James Garner ... Dr. Joe Cardin
Miriam Hopkins ... Mrs. Lily Mortar
Fay Bainter ... Mrs. Amelia Tilford
Karen Balkin ... Mary Tilford
Veronica Cartwright ... Rosalie Wells
Mimi Gibson ... Evelyn
Debbie Moldow ... Student
Diane Mountford ... Student
William Mims ... Mr. Burton
Sallie Brophy ... Rosalie's Mother
Hope Summers ... Agatha - the Tilford Maid
Production Companies
The Mirisch Corporation (presents)
Produced by
Walter Mirisch ... executive producer (uncredited)
Robert Wyler ... associate producer
William Wyler ... producer
Music by
Cinematography by
Franz Planer ... director of photography (as Franz F. Planer)
Film Editing by
Editorial Department
Hal Ashby ... assistant film editor (as Wm. Hal Ashby)
Casting By
Lynn Stalmaster ... (uncredited)
Art Direction by
Set Decoration by
Costume Design by
Makeup Department
Emile LaVigne ... makeup artist
Frank McCoy ... makeup artist
Joan St. Oegger ... hair stylist
Production Management
Allen K. Wood ... production manager
Second Unit Director or Assistant Director
Robert E. Relyea ... assistant director
Jerome M. Siegel ... second assistant director
Art Department
Frank Agnone ... property
Sound Department
Don Hall ... sound editor (as Don Hall Jr.)
Fred Lau ... sound
Buddy Myers ... sound re-recordist
Gordon Sawyer ... sound (uncredited)
Camera and Electrical Department
Robert Willoughby ... special still photographer (uncredited)
Costume and Wardrobe Department
Irene Caine ... wardrobe
Bert Henrikson ... wardrobe
Ruth Stella ... wardrobe
Music Department
Richard C. Harris ... music editor
Alex North ... conductor
Victor Arno ... musician: violin (uncredited)
Israel Baker ... musician: violin (uncredited)
Frank Beach ... musician: trumpet (uncredited)
Herman Clebanoff ... musician: violin (uncredited)
John Clyman ... musician: trumpet (uncredited)
Don Cristlieb ... musician: bassoon (uncredited)
Vince De Rosa ... musician: french horn (uncredited)
Ossip Giskin ... musician: cello (uncredited)
Louis Kaufman ... musician: violin solos (uncredited)
Alfred Lustgarten ... musician: violin (uncredited)
Edgar Lustgarten ... musician: cello (uncredited)
Peter Mercurio ... musician: bass (uncredited)
Abe Most ... musician: clarinet (uncredited)
Richard Nash ... musician: trombone (uncredited)
Alex North ... orchestrator (uncredited)
Edward B. Powell ... orchestrator (uncredited)
Paul Shure ... musician: violin (uncredited)
Eleanor Slatkin ... musician: cello solos (uncredited)
Ann Stockton ... musician: harp (uncredited)
Urban Thielmann ... orchestra contractor (uncredited)
Raymond Turner ... musician: piano (uncredited)
Robert Van Eps ... musician: piano (uncredited)
Runtime
108 min
Country
Language
Color
********************************************
Resenha
Quando uma mentira se torna uma sentença
Infâmia (The Children’s Hour, 1961), dirigido por William Wyler, é um daqueles filmes que não envelhecem porque nunca tiveram permissão para envelhecer. Ele permanece suspenso num território incômodo, onde o tempo histórico pouco importa, pois o mecanismo central da tragédia — a mentira aceita como verdade — continua operando com a mesma eficiência brutal. Trata-se menos de um drama sobre homossexualidade e mais de um estudo cruel sobre difamação, histeria moral e a facilidade com que a sociedade sacrifica indivíduos em nome de uma suposta ordem.
A trama é simples e, justamente por isso, devastadora. Duas professoras, Karen Wright (Audrey Hepburn) e Martha Dobie (Shirley MacLaine), dirigem uma escola para meninas. Uma aluna problemática, movida por ressentimento e oportunismo, espalha uma mentira de natureza sexual sobre a relação entre as duas. A acusação, nunca explicitada em detalhes, é suficientemente vaga para ser tudo e nada ao mesmo tempo — e é nessa ambiguidade que reside sua força destrutiva. O boato se alastra como um incêndio moral: pais retiram suas filhas da escola, amizades se desfazem, reputações são arruinadas. A verdade, por mais clara que seja para quem observa, torna-se irrelevante diante da fome coletiva por escândalo.
William Wyler dirige o filme com uma sobriedade quase clínica. Não há melodrama gratuito, não há música empurrando emoções pela garganta do espectador. Tudo é contido, seco, implacável. Wyler entende que a violência aqui não é física, mas social, e que seu impacto depende justamente da aparência de normalidade. Cada cena parece organizada para mostrar como o cotidiano, quando contaminado pela suspeita, se transforma em território hostil. Portas se fecham, olhares evitam contato, palavras ganham peso de sentença.
Audrey Hepburn, frequentemente associada a papéis luminosos e encantadores, oferece uma de suas interpretações mais maduras e dolorosas. Sua Karen é racional, contida, quase excessivamente confiante na lógica e na justiça. Hepburn constrói uma personagem que acredita — até o último instante — que a verdade basta. Essa crença, nobre e ingênua, é esmagada pela realidade social do filme. Sua atuação é marcada por pequenos gestos, silêncios longos, uma dignidade que vai se tornando frágil à medida que o cerco se fecha.
Shirley MacLaine, por sua vez, entrega talvez a performance mais corajosa de sua carreira. Martha Dobie é impulsiva, sensível, emocionalmente vulnerável. Enquanto Karen tenta resistir com argumentos e compostura, Martha sofre de forma mais direta, mais íntima. O arco de sua personagem culmina numa das confissões mais devastadoras do cinema clássico americano. Não há histrionismo, não há discurso inflamado: há apenas a dor de alguém que, pela primeira vez, é forçada a olhar para si mesma sob o peso do olhar alheio. MacLaine atua com o corpo inteiro — o olhar, a postura, a voz quebrada — e transforma Martha no verdadeiro centro trágico do filme.
James Garner, como o noivo de Karen, ocupa um espaço aparentemente secundário, mas essencial. Sua personagem representa o homem comum diante do escândalo: não cruel, não perverso, mas fraco. Ele hesita, duvida, recua. Não precisa acusar diretamente; basta não defender. Wyler parece dizer que o mal social raramente se sustenta apenas nos algozes declarados, mas sobretudo nos silenciosos.
O roteiro, adaptado da peça de Lillian Hellman, preserva a estrutura teatral, mas sem engessamento. Os diálogos são precisos, cortantes, e frequentemente mais violentos do que qualquer explosão emocional. Hellman compreende que a linguagem é arma central da infâmia: a sugestão vale mais do que a acusação direta, o sussurro mais do que o grito. A mentira prospera porque nunca se apresenta por inteiro; ela se insinua, deixa lacunas que o preconceito se encarrega de preencher.
É impossível ignorar o contexto histórico do filme. Em 1934, quando a peça foi escrita, e mesmo em 1961, quando o filme foi lançado, a homossexualidade ainda era tratada como tabu moral, doença ou crime. No entanto, Wyler e Hellman fazem algo notável: o filme não pede que o espectador “aceite” uma orientação sexual; ele exige que se reconheça a injustiça da condenação baseada em boatos. A tragédia não decorre da possibilidade de amor entre duas mulheres, mas da incapacidade da sociedade de lidar com qualquer desvio do que considera normal. A infâmia está menos no conteúdo da mentira e mais no prazer coletivo em acreditar nela.
Visualmente, o preto e branco contribui para a atmosfera opressiva. Não há sombras expressionistas nem jogos de luz sofisticados; há uma fotografia funcional, quase austera, que reforça a sensação de realidade. Esse mundo poderia ser qualquer cidade, qualquer escola, qualquer grupo social. O mal não precisa de estética elaborada para agir.
O desfecho do filme é silencioso, quase anticlímax, e justamente por isso tão perturbador. Não há catarse, não há redenção plena. A verdade até emerge, mas tarde demais. Wyler parece insistir numa ideia incômoda: a justiça pode existir, mas não devolve o que foi destruído. Reputações não se recompõem, vidas não retornam ao ponto anterior, feridas morais não cicatrizam com sentenças legais.
Infâmia é um filme severo, sem concessões, que exige do espectador maturidade emocional e disposição para o desconforto. Ele não oferece conforto moral, não distribui culpados fáceis, não absolve a plateia. Pelo contrário, lança uma pergunta incômoda: quantas vezes participamos, ativa ou passivamente, da mesma engrenagem? Quantas vezes preferimos a versão mais escandalosa porque ela torna o mundo mais simples, ainda que mais cruel?
Ao final, o que permanece não é a história de duas mulheres injustiçadas, mas o retrato de uma sociedade que se alimenta da destruição alheia com a tranquilidade de quem acredita estar defendendo a virtude. Um filme duro, triste e necessário. Um clássico que não consola — e justamente por isso permanece.