SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Definindo os Termos do Título. 3. Histórico. 4. Dois Grandes Marcos do Espiritismo: 4.1. Episódio de Hydesville (31/03/1848); 4.2. Lançamento de O Livro dos Espíritos (18/04/1857). 5. Questão de Terminologia. 6. O Médium Espírita. 7. Conclusões. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
A faculdade mediúnica, tanto natural quanto de prova, acompanha a vida humana, pois, desde que o homem existe, os Espíritos estão prontos a se comunicar com ele. Um estudo da mediunidade através dos tempos exige uma ampla pesquisa no sentido de resgatar as contribuições dadas pelo homem das cavernas, pelas pitonisas, pelas bruxas e pelos médiuns em cada etapa do desenvolvimento da sociedade.
2. DEFININDO OS TERMOS DO TÍTULO
Evolução: etimologicamente, o termo evolução significa desenvolvimento, "volver para fora" o que já está contido em algo. Nesse sentido, evolução seria o desenvolvimento pela atualização das possibilidades, das potências já inclusas virtualmente em algo. Assim, o germe evolui até alcançar o indivíduo acabado (Santos, 1965).
A essência do significado do termo evolução é a de desenvolver, desenrolar ou desdobrar, designando, assim, um movimento de natureza metódica que gera novas espécies de mudanças. Mais especificamente, designa o processo de mudança através do qual algo novo é produzido de modo tão contínuo que a identidade ou individualidade do objeto original não seja violada (FGV, 1986).
Evolução é imperativo da Lei de Deus: incessante e inquestionável. Nessa Lei não existe repouso, letargo de forças ou inércia. Por toda parte e sempre vigora o impositivo da evolução, o imperativo do progresso (FEB, 1995).
Mediunidade: é a faculdade humana e natural pela qual se estabelecem as relações entre os homens e os Espíritos (Pires, 1984). Mediunidade é sintonia e filtragem. Cada Espírito vive entre as forças com as quais combina, transmitindo-as segundo as concepções que lhe caracterizam o modo de ser (FEB, 1995).
Tempo: é a sucessão das coisas transitórias. Está ligado à eternidade do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito (FEB, 1995).
3. HISTÓRICO
O Espírito André Luiz, na obra Evolução em Dois Mundos, diz-nos que, quando a criatura humana se iniciou na produção do pensamento contínuo, o sonho foi a mola propulsora da mediunidade, porque, durante os momentos de desprendimento do corpo físico, ela entrava em contato com entidades espirituais cujos ensinamentos lhe serviam para ampliar a sua visão de mundo.
Tomando como base os registros históricos, podemos anotar:
1.º) A BÍBLIA
Está repleta de manifestações mediúnicas, tanto no Velho quanto no Novo Testamento.
a) Velho Testamento: Samuel, no Primeiro Livro de Samuel (Cap. 9, v. 9), escreve: "Dantes, em Israel, qualquer que ia consultar a Deus dizia assim: Vinde, e vamos ao vidente; porque ao profeta de hoje, dantes se chamava vidente". É já de rigor citativo a consulta feita por Saul ao Espírito de Samuel na gruta de Endor. O próprio Moisés proíbe a evocação dos mortos.
b) Novo Testamento: Maria de Nazaré não viu o Espírito anunciador? Jesus não foi gerado com a intervenção do Espírito Santo? E os milagres de Jesus e dos seus apóstolos? Que foi o dia de Pentecostes senão a outorga de faculdades mediúnicas aos apóstolos e discípulos? São João exortava: "Caríssimos, não creiais em todos os Espíritos, mas provai se os Espíritos são de Deus".
2.º) OS HORIZONTES CULTURAIS, RETRATADOS Por J. H. PIRES EM O ESPÍRITO E O TEMPO
Situando a mediunidade em termos dos horizontes alcançados pela humanidade em cada etapa de seu desenvolvimento, J. Herculano Pires, valendo-se das pesquisas científicas de Bozzano, John Murphy e outros, oferece-nos valiosas informações:
No horizonte tribal, imperava o mediunismo primitivo. O mediunismo, na expressão de Emmanuel, designa a mediunidade em sua expressão natural. São as relações naturais entre o clã e o Totem dentro do totemismo. Falam de uma força misteriosa que impregna ou imanta objetos e coisas, podendo atuar sobre as criaturas humanas: são as forças conhecidas pelos nomes polinésios de mana e orenda. "Essa força primitiva corresponde ao ectoplasma de Richet, a força ou substância mediúnica das experiências metapsíquicas, cuja ação foi estudada cientificamente por Crawford, professor de mecânica da Universidade Real de Belfast, na Irlanda" (Pires, 1979, p. 19).
No horizonte agrícola, surgem o animismo e o culto aos ancestrais. Nessas primeiras formas sedentárias de vida social, o animismo tribal desenvolve-se no nível da racionalização, principalmente através da concepção fetichista da Terra-Mãe e do Céu-Pai, que mais tarde dá origem à mitologia egípcia: Osíris, Deus pai, que fecunda Ísis, deusa terra, gerando o filho Hórus.
No horizonte civilizado, manifesta-se o mediunismo oracular. O oráculo é, às vezes, a própria divindade; outras vezes, a resposta dada às consultas, o santuário/templo, o médium que atende aos consulentes ou o local de consultas. Embora haja o médium ou a pitonisa, as mensagens são dadas de forma impessoal.
No horizonte profético, sobressai o mediunismo bíblico. Esse horizonte caracteriza-se pelo mundo da individualização. O profeta apresenta-se como indivíduo social, mediúnico e espiritual. Assim, dado o avanço de sua liberdade, surgem também os excessos e abusos que caracterizam o indivíduo greco-romano e o profeta hebraico.
No horizonte espiritual, consolida-se a mediunidade positiva. É nessa fase que se observa uma transcendência humana. A mediunidade torna-se um fato de observação e de estudo de todos os que se interessam pelo problema. Observe-se que, na Idade Média, o fenômeno mediúnico de possessão é sempre tomado como manifestação demoníaca ou sagrada. O homem, por não ter atingido o horizonte espiritual, não podia conceber que o Espírito comunicante fosse da sua mesma natureza.
Kardec explica, em A Gênese (Capítulo I), por que o Espiritismo só poderia surgir em meados do século XIX, após longa fermentação dos princípios cristãos da Idade Média e o desenvolvimento das ciências na Renascença: "O Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do Universo, toca forçosamente na maioria das ciências. Só poderia, pois, aparecer depois da elaboração delas. Nasceu pela força mesma das coisas, pela impossibilidade de tudo explicar-se apenas pelas leis da matéria."
3.º) A INVASÃO ORGANIZADA, DESCRITA POR ARTHUR CONAN DOYLE
Em História do Espiritismo, Conan Doyle documenta boa parte da evolução da mediunidade, lembrando que, embora se considere a data de 31/03/1848 como o marco inicial da era espírita, os fatos mediúnicos existiram em todos os tempos. A sua narrativa começa por volta de 1740, quando Swedenborg tornou-se famoso pela vidência a distância.
A seguir, escreve sobre Edward Irving, Andrew Jackson Davis (o profeta da nova revelação), o episódio de Hydesville, a carreira das Irmãs Fox, as primeiras manifestações na América, a aurora na Inglaterra, as pesquisas de Sir William Crookes etc.
4. DOIS GRANDES MARCOS DO ESPIRITISMO
4.1. EPISÓDIO DE HYDESVILLE (31/03/1848)
Em termos de destaque no cenário público internacional, este fenômeno (raps / pancadas) foi o que mais chamou a atenção. Uma família metodista havia se mudado para uma casa onde se falava muito sobre acontecimentos sobrenaturais. Realmente, por algum tempo presenciaram muitos barulhos sem causa aparente. Tudo caminhava nesse ritmo quando, em certo dia, as filhas do casal, Kate e Margaret Fox, resolveram responder às pancadas. Sua mãe relata o ocorrido nestes termos:
"Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: 'Sr. Pé-Rachado, faça o que eu faço'. Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmadas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margaret disse brincando: 'Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro' e bateu palmas. Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve medo de repetir o ensaio. Então Kate disse, na sua simplicidade infantil: 'Oh, Mamãe! Eu já sei o que é. Amanhã é primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira'.
Então pensei em fazer um teste que ninguém seria capaz de responder. Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos, sucessivamente. Instantaneamente foi dada a idade exata de cada um, fazendo pausa de um para o outro, a fim de os separar até o sétimo, depois do que fez uma pausa maior e três batidas mais foram dadas, correspondendo à idade do menor, que havia morrido." (Doyle, s.d., p. 77-78)
Depois disso, continuou o diálogo até se descobrir que o Espírito comunicante era Charles B. Rosma, um caixeiro-viajante assassinado e enterrado na adega.
4.2. LANÇAMENTO DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS (18/04/1857)
O fato mediúnico marcante após o episódio de Hydesville foi o fenômeno das mesas girantes, que tomou conta dos Estados Unidos e da Europa, servindo como brincadeira de salão em que as mesas dançavam, escreviam, batiam o pé e até falavam. É dentro desse contexto que surge a Doutrina Espírita.
Das brincadeiras de salão sobressai Hippolyte Léon Denizard Rivail — Allan Kardec —, um estudioso do magnetismo e do método teórico-experimental na ciência. O magnetismo já vinha sendo investigado há algum tempo: historicamente, Mesmer descobre, em 1779, o magnetismo animal; Puységur, em 1787, o sonambulismo; e Braid, em 1841, o hipnotismo.
Havendo uma disseminação muito grande dos fenômenos das mesas girantes, Kardec (ainda prof. Rivail) foi convidado para assistir a uma dessas sessões, pois o seu amigo Fortier, magnetizador, dissera que, além de a mesa se mover, ela também falava. É aí que entra o gênio inquiridor do pesquisador teórico-experimental. Assim, retruca: "Só se a mesa tiver cérebro para pensar e nervos para sentir, podendo tornar-se sonâmbula". A partir daí, passa a frequentar essas sessões, trabalho que culmina com a publicação de O Livro dos Espíritos, em 18/04/1857.
Por que a mediunidade se positivou com Allan Kardec?
A palavra positivo advém da ciência, que se baseia em fatos. Kardec, sendo um educador e cientista, deu ao fenômeno um caráter científico, formulando hipóteses tal como a ciência o fazia, tomando o cuidado de testá-las com a ferramenta da mediunidade — ou seja, utilizando-se da percepção de uma realidade extracorporal e extra-sensorial sob severo crivo da razão.
5. QUESTÃO DE TERMINOLOGIA
A evolução da mediunidade através dos tempos deve alcançar uma melhor compreensão não só da faculdade em si, mas também dos vários conceitos a ela ligados.
Assim, convém distinguir:
a) Fenômeno anímico e fenômeno mediúnico:
O fenômeno anímico é aquele referente à comunicação exclusiva ao âmbito do Espírito encarnado (alma) — por isso, anímico. Não há interferência direta de Espíritos desencarnados. A telepatia, por exemplo, é um fenômeno anímico, porque as transmissões de pensamentos são feitas de alma para alma (de encarnado para encarnado). O fenômeno mediúnico é aquele relativo às comunicações entre os Espíritos desencarnados e os encarnados, em que estes últimos atuam como intermediários (médiuns).
b) Fenômeno anímico e animismo:
No fenômeno anímico, não há atuação do Espírito desencarnado. No animismo — que representa a participação e a influência do próprio médium na comunicação mediúnica —, procura-se identificar o grau dessa interferência. Se, em uma comunicação dita mediúnica, a interferência da mente do médium for de 100%, ela se converte em fenômeno puramente anímico. O oposto (0% de influência) não ocorre, pois, nos dizeres de Allan Kardec, o médium nunca é totalmente passivo. Assim, podemos afirmar que, onde houver mediunidade, haverá também animismo em algum grau.
c) Fenômeno mediúnico e mediunidade:
O fenômeno mediúnico em estado bruto pode ser comparado ao mediunismo, definido como a mediunidade na sua expressão natural e espontânea (sem estudo metódico). A mediunidade consciente, por outro lado, exige estudo, critério e pesquisa sobre os fatos mediúnicos.
d) Mediunidade e Espiritismo:
A mediunidade, como dissemos, é o intercâmbio entre o plano físico e o espiritual. Trata-se de uma faculdade inerente à natureza humana. Ela existe em todos os segmentos e religiões: há médiuns católicos, protestantes, budistas, bem como médiuns sem religião. O Espiritismo, por sua vez, utiliza a mediunidade como instrumento de investigação, constituindo-se como um corpo doutrinário e filosófico respaldado no aspecto científico, filosófico e moral/religioso.
e) Mediunidade natural e mediunidade de prova (ou de tarefa):
Além da classificação fenomênica (fenômenos físicos e fenômenos inteligentes), a Doutrina Espírita nos oferece a divisão funcional: mediunidade generalizada (natural) e mediunato (tarefa/compromisso). A primeira corresponde à sensibilidade psíquica latente em quase todas as pessoas; a segunda refere-se à mediunidade de compromisso, em que o médium é investido espiritualmente de recursos ostensivos para finalidades específicas na encarnação.
6. O MÉDIUM ESPÍRITA
De acordo com o Espírito Emmanuel:
"Os médiuns, em sua generalidade, não são missionários na acepção comum do termo; são almas que fracassaram desastradamente, que contrariaram, sobremaneira, o curso das leis divinas, e que resgatam, sob o peso de severos compromissos e ilimitadas responsabilidades, o passado obscuro e delituoso. O seu pretérito, muitas vezes, se encontra enodoado de graves deslizes e de erros clamorosos. Quase sempre são Espíritos que tombaram dos cumes sociais, pelos abusos do poder, da autoridade, da fortuna e da inteligência, e que regressam ao orbe terráqueo para se sacrificarem em favor do grande número de almas que desviaram das sendas luminosas da fé, da caridade e da virtude. São almas arrependidas que procuram arrebanhar todas as felicidades que perderam, reorganizando, com sacrifícios, tudo quanto esfacelaram nos seus instantes de criminosas arbitrariedades e de condenável insânia." (Xavier, 1981, p. 66-67)
É por essa razão que todo médium deve exercitar a humildade e o desprendimento. Sendo mero intermediário do mundo espiritual, não deve considerar-se um "missionário especial", compreendendo que essa ferramenta de trabalho lhe foi concedida para servir ao próximo e reabilitar-se perante as Leis Divinas.
7. CONCLUSÃO
A mediunidade é uma faculdade promissora para o futuro da humanidade. Contudo, deve o médium esforçar-se continuamente para ser um intérprete fiel e moralmente equilibrado das mensagens espirituais, aprendendo a renunciar ao próprio egoismo, exemplificando o amor e o serviço ao próximo de forma desinteressada e gratuita.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
DICIONÁRIO de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas (FGV), 1986.
DOYLE, A. Conan. História do Espiritismo. São Paulo: Pensamento, s.d.
EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro: FEB, 1995.
PIRES, J. Herculano. Mediunidade: Vida e Comunicação (Conceituação da Mediunidade e Análise Geral dos seus Problemas Atuais). 5. ed. São Paulo: Edicel, 1984.
PIRES, J. Herculano. O Espírito e o Tempo: Introdução Antropológica do Espiritismo. 3. ed. São Paulo: Edicel, 1979.
SANTOS, Mário Ferreira dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.
XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel (Dissertações Mediúnicas). Pelo Espírito Emmanuel. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1981.
São Paulo, 29/09/2004