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Belas Serras Catarinenses

Para liquidar o ano de 2013, resolvemos fazer mais um ciclopasseio da série, “NÃO CONTA PRA MINHA MÃE”.

Final de primavera, o verão se aproximando, escolhemos o circuito das Belas Serras Catarinenses.


Sexta feira 06 de dezembro
, levantamos meio na dúvida se o pedal sairia ou não, pois na quinta feira o estado de Santa Catarina havia sido varrido por ventos que chegaram a 142 km/h e lavado por chuvas torrenciais que atingiu os quatro quadrantes da rosa dos ventos. Após uma espiada janela afora, pois não dá de confiar na previsão do tempo de nossos meteorologistas, decidimos que faríamos os alforjes, e se o tempo encrespasse ficaríamos “ensebando” na casa dos parentes, lá naquelas bandas do sul do estado.

Tudo certo, bikes no carro, chegamos a Orleans na casa do Sr. Angelo, meu sogro, as 11h00 e por incrível que pareça a Sra. Olivia estava com a “mescola” nas mãos, o “brondo” estava sobre o fogo, e a polenta já cheirava longe. Não deu outra, tivemos que fazer o “sacrifício” de comer aquela apetitosa polenta com “fortaia”, salame colonial, ovos caipira, além de verduras e legumes do sitio do Sr. Angelo, tudo agrotóxico ZERO.

De barriga estufada iniciamos o pedal exatamente as 12:00, tendo como fundo da foto de largada, as esculturas bíblicas do Zé Diabo, um escultor orleanense, esculpidas em rocha viva, no paredão as margens do Rio Tubarão, ladeando o antigo leito da estrada de ferro.


O sol ardia no casco até mais ou menos na localidade conhecida como Km 107, ali percebi que o sol tendia a se arrefecer. Quando chegamos ao bairro Arizona, já no município de Lauro Muller, me dei conta de que não necessitava passar tanto protetor solar, mas já era tarde. Passamos pelo centro de Lauro Muller, mirados pelos olhares de curiosos e, tocamos em frente na direção ao distrito de Guatá onde a neblina já se impunha garbosa, tanto que não se enxergava os “pirulitos” do Parque Eólico no alto da serra. Ali iniciamos nossa a desafiadora e intrigante pedalada morro acima pelas curvas e mais curvas da Serra do Rio do Rastro, que nós do sul do estado, na infância chamamos carinhosamente de Serra do Doze. Nem se faz necessário explicar o porquê desse apelido.

Canela para cima, canela para baixo, paradas para mastigar um damasco ou uma castanha, bebericar água, mais canela para cima, canela para baixo, e quando o relógio marcava 18:00 estávamos chegando ao mirante no alto da serra, completamente molhados devido à neblina espessa que mais parecia chuva, resultando em baixíssima visibilidade. Como eu ia um pouco à frente da Terezinha, a neblina serviu para mostrar que os raios de luz emitidos pelos “leds” dos faróis de 1200 lumens, made in China, ultrapassam brincando a neblina. Refugiamos-nos rapidamente na garagem do posto da policia rodoviária estadual para embutir em sacas plásticas a câmara fotográfica e o celular, e conversamos com o policial rodoviário, que ao nos ver deve ter delirado:
-Aqui estão dois malucos.


Ele nos informou que a neblina continuava por mais 5 km, mas na real apenas diminuiu, deixou de molhar, porém a bruma continuou até a praça central de Bom Jardim da Serra, quando chegamos com o termômetro marcando 11ºC em pleno mês de dezembro. Para quem saiu de Orleans 07:00 antes com aproximadamente 31ºC, foi um banho de água fria.

Deixamos as tralhas na pousada e fomos jantar no Latitude 28º, eu de calção e camiseta, conforme as roupas que levei em função da temperatura esperada para essa época do ano, enquanto na rua, os nativos se apresentavam de jaqueta e bota de couro.

Lembrei-me daquela máxima, do pessoal serra abaixo quando encontram alguém encasacado:
- E daí vai à festa do pinhão!

Voltamos para a Pousada Morada dos Pinheiros, onde num sono só, o despertar se deu com o cantar estridente das gralhas no amanhecer de sábado. Após o café reiniciamos o pedal pelos campos da Serra Geral, conforme ensinava a professora de geografia nos idos de ginásio, naquele sobe e desce interminável, chegando a Urubici por volta das 13:30, onde paramos para um lanche rápido. 

As canelas voltaram ao batente e, passamos pelo entroncamento que leva ao Morro da Igreja, onde “entisiquei” a Terezinha, perguntando se estava a fim de subir a montanha, que é o pico mais alto do sul do Brasil, e lá existe um destacamento da aeronáutica, que monitora o espaço aéreo do sul do país.  Passamos direto pelo cruzamento e fomos em direção a Serra do Corvo Branco, com o visual dos pomares de maçã, onde mais uma vez a neblina cobria o “rasgo” aberto na montanha, que serve de leito da estrada. 

Iniciamos a descida da serra, com os faróis acesos tendo em vista a visibilidade reduzida entre os paredões de pedra que teimam em não permitir a entrada do sol. Na parte menos íngreme da serra encontramos uma raça de motoqueiros de Porto Alegre, todos enlameados, juntamente com suas motos possantes com as quais alguns haviam caído. Esse pessoal tentou nos intimidar dizendo que deveríamos voltar para não ter que carregar as bikes nos ombros por uns 3 km. Informei que não tínhamos mais pernas para subir a serra, já era tarde e, que a pousada era “logo aí”. Realmente aquele trecho de estrada o qual está em obra, tinha em média 15 cm de barro, mesmo assim pedalei naquele trecho pelo rastro do rodado de um caminhão que havia passado um pouco antes e a gente ainda viu o trator desatolando-o.


Chegamos à pousada da Dona Maria aproximadamente 20:00, paradoxalmente exaustos e felizes, com a autoestima e bom humor na altura do Morro da Igreja.

Enquanto estávamos dando um esguicho de mangueira nas bikes, para tirar o mais grosso da lama, com água gelada que descia da montanha, dona Maria preparava um aromático café, no fogão de lenha que ficou acesso a noite inteira. Após o banho pedimos uma cachaça, que foi servida numa garrafa cheia de pompas, mas ela nos informou que o precioso liquido é destilado de cana no alambique de seu irmão pertinho da pousada.

O bate papo corria solto com o Sr Boni, quando iniciou uma chuva fina, que sendo otimista, defino-a de pouco animadora. Simultaneamente a Dona Maria pilotava o fogão à lenha, com uma destreza impressionante preparando o jantar. Após a janta foi mais um “dedo de prosa” que acabou num sonolento boa noite.

Não faço ideia da hora que as torneiras do céu foram fechadas, só lembro que fui dormir com o coaxar dos sapos e acordei no domingo com a o mugir das vacas leiteiras se dirigindo para a ordenha.

Animados com a parada da chuva, nos fartamos daquele delicioso café servido direto do bule, maquiado com leite de verdade, direto da teta da vaca. 

Reiniciamos o pedal as 07:45, e senti uma injeção de ânimo quando do alto do morro avistei o centrinho de Aiurê, dessa vez também ouvindo pelos alto falantes da capela, o cantar dos fiéis. Estava na hora da missa. Havia mais carros em frente à igreja do que o número de casas na vila, era o dia da festa da comunidade, e o pessoal das comunidades vizinhas se fizeram presente, é claro, não iriam perder. 

Continuamos por estrada de chão batido até chegar ao centro de Grão Pará onde fui calibrar o pneu da bike, pois já vinha pedalando desde o dia anterior com a pressão que pude impor com a bombinha manual, após o segundo pneu furado desde uns 4 km antes de chegar à Serra do Corvo Branco. O primeiro furou nas proximidades da comunidade de Vacas Gordas, um pouco antes de chegar à Urubici, ainda em estrada asfaltada.

Em Grão Pará o sol já estava mostrando a cara, dizendo que iria se apresentar imponente. O pedal não teve pausa, e chegamos ao centro da cidade de Braço do Norte com sol ardendo no lombo. 

Cruzamos o centro da cidade de São Ludgero com sol a pino e escaldante onde no primeiro mercadinho que encontrei aberto, fui direto ao freezer atrás de uma água mineral gelada. 

A saída de São Ludgero é penosa, só morro acima, o que nos obrigou a duas paradas antes de chegar à gloriosa placa de transito que informa: DECLIVE ACENTUADO – 2,8 KM – USE FREIO MOTOR. Daí para frente é só freio e alegria até o centro de Orleans. 


Após a foto da chegada triunfante, fomos direto ao sitio do Sr Ângelo e lá o encontramos, juntamente com a Dona Olivia e amigos, descansando após um delicioso churrasco e algumas cervejas. Como nesses encontros sempre sobra um rango para os retardatários, almoçamos ai mesmo. Enquanto almoçávamos, comentei que iria tomar banho de rio no poço mais próximo que tivesse na região, sabendo que tem um nos fundos do sítio, na Barra do Rio Novo. Mas Dona Olivia disse que a piscina já estava em ponto de bala para o verão, então, após o merecido descanso fui para a piscina exalar nas águas um pouco do cansaço dos três dias de pedal.

Glossário:
. Ensebando: matando tempo.
. Mescola: pau de mexer polenta, no dialeto vêneto.
. Brondo: caldeirão de ferro fundido, especial para se preparar polenta em fogão a lenha também em vêneto. Os patrícios chamam de caldeirão
. Fortaia: em vêneto, mexido de ovos e queijo da colônia com ovos, uma espécie de omelete.
. Pirulitos: montantes que suportam os cataventos dos geradores eólicos.
. Encasacado: vestido com jaqueta.
. Entisiquei: maneira carinhosa que o manezinho se refere a uma provação.
. Logo aí: maneira habitual do serrano ao se referir a uma distancia.
. Led: mini lâmpada do farol da bike, para recordar meus velhos tempos de engenharia elétrica nos idos dos anos 70, (Light Emitting Diode), ou seja: diodo emissor de luz
 
RESUMO DA ÓPERA:
- Que é um desafio, pedalar pelas belas serras catarinenses eu já sabia, mas não imaginava que era tudo isso.

- Sair a pedalar em plena sexta feira, é muito bom, mesmo correndo o risco se ser taxado de vagabundo!!!

- Que na subida da Serra do Doze, teve momentos em que pensei: - o que estou fazendo aqui? Isso não nego que passou pela cabeça.

- Praticar meu lazer favorito, curtindo paisagens deslumbrantes, desafiando variações de clima e relevo, e de vez em quando recebendo um “parabéns”, dos motoristas que desciam a 10 km/h, é coisa boa demais.
 
                                                                          
                                                                            Vânio Savi (Mano)
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