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BORGES BARRETO

BORGES BARRETO, PRIMEIRO PILOTO PORTUGUÊS DE FÓRMULA 1



“AVEVA CORAGIO E PASSIONE”

 

Texto de Luís Maneta

 

Foi o primeiro piloto português de Fórmula 1. Na década de 50, o alentejano Borges Barreto correu pela Ferrari em diversos Grandes Prémios. Até que um acidente, em Saint-Etienne (França), lhe roubou a vida e pôs fim a uma carreira de piloto.

 

Nascido em Évora em 1931 (no dia 11 de Outubro teria completado 65 anos), António Joaquim Borges Barreto cedo começou a interessar-se pelo automobilismo e pela velocidade, a ponto de amigos garantirem que conseguia percorrer a distância entre a sua cidade natal e Lisboa em cerca de uma hora, uma verdadeira proeza para a  época. Com 18 anos, geria um “stand” de automóveis, propriedade do pai, e começou a participar nalgumas provas no Alentejo.

Em 1954, decidiu entrar na VI Volta a Portugal, organizada pelo Clube Cem à Hora. E a estreia do novo piloto não podia ser mais auspiciosa: ganhou a prova. “O automobilismo nacional conta com um novo valor”, escrevia o “Diário de Lisboa” em Dezembro desse ano, classificando a actuação de Borges Barreto como um a proeza digna de realce”, pois havia competido com adversários mais categóricos e experientes: “Raramente se verifica num estreante feito tão elevado.”

Apesar da vitória a prova esteve longe de lhe correr bem. À passagem por Évora, partiu-se a embraiagem e durante 900 quilómetros viu-se forçado a “aguentar, chegando a “arrasar” a caixa de velocidades. Em Lisboa, resolveu a avaria e triunfou no circuito variado de velocidade do Estoril, deixando para trás Ernesto Martorell, considerado como o grande favorito.

Embora reconhecendo que as suas intenções iniciais eram apenas “avaliar o prazer destas andanças” e “experimentar sensações que outros volantes têm sentido”, o jovem piloto garantia: “Agora não desisto mais. Por enquanto limito-me a provas pequenas, lentamente chegarei às grandes competições.” Tinha 23 anos de idade, e de acordo com os jornais da época, reunia uma “série de qualidades raras para quem pretende (...) iniciar-se em circuitos de velocidade”, ao volante de um Ferrari de três litros e doze cilindros que, “não sendo de fabrico recente, encontrará nova vida nas suas mãos hábeis e nos seus reflexos rápidos”.

Presença regular nos ralis portugueses, viria  ganhar o V Grande Prémio de Portugal e o Grande Prémio de Lisboa. “O início foi com um Porsche que, no fundo, lhe serviu como porta de entrada para o mundo do automobilismo. Depois comprou um Ferrari, que já tinha pertencido a D. Fernando Mascarenhas”, recorda o irmão, Alberto Borges Barreto, numa entrevista publicada no jornal “Diário do Sul” quando de uma homenagem ao malogrado piloto.

 

PILOTO DA FERRARI

 

Depois do Grande Prémio do Porto em 1956, foi procurado pelo director de corridas da Ferrari e convidado para integrar a equipa oficial da marca, partindo pouco tempo depois para Itália, onde iniciou a sua carreira internacional na prova Cinco Horas Nocturnas de Phil Hill, conquistou a Taça dos Novos e obteve o terceiro lugar da classificação, geral, sendo levado em ombros pelo público.

Quando vi subir a nossa bandeira e começaram a tocar a ‘Portuguesa’, não consegui dominar a comoção e chorei, chorei como uma criança. Era Portugal que transbordava no meu coração”, confessava Borges Barreto numa entrevista ao “Mundo Desportivo” em Fevereiro de 1957, onde lamentava ter sido, até ao momento, a sua única corrida pela Ferrari: “Infelizmente, ficaram sem efeito outras corridas em que me encontrava inscrito”.

Os circuitos de Messina, Saint-Etienne, Le Mans, Nurburgring, Ímola constituiram algumas das provas mais importantes do calendário internacional de velocidade - uma espécie de pré-história daquilo que conhecemos como o “circo da Fórmula 1”. Fangio, Moss e Collins eram pilotos afamados, ao volante de marcas como a Ferrari, Lotus, Osca e Coop, entre outras.

No início de 1957, quatro meses depois do sucesso em Messina, Borges Barreto volta a correr pela Ferrari no Grande Prémio de Saint-Etienne (França). “A esperança de todos era grande”, assegura o irmão. Mas a tragédia aconteceu quando Piero Carini, também da Ferrari, se despistou e embateu violentamente no carro do piloto português que lhe provocou a morte.

“Lembro-me de me contarem que os cinemas pararam a meio, os cafés fecharam e à noite foi uma grande manifestação de pesar, como foram os dias que se seguiram ao funeral”, acrescenta Alberto Borges Barreto. O relato dos jornais da época não deixa dúvidas sobre o luto generalizado, sobretudo na cidade natal do piloto: “DE Lisboa e outras terras do nosso país, vieram muitas pessoas acompanhando o préstito, principalmente aqueles que estão ligados ao automobilismo. Na Praça do Giraldo, era o cortejo aguardado por milhares de pessoas, vendo-se representadas todas as colectividades desportivas e recreativas de Évora, com os seus estandartes, e os mais variados organismos da nossa cidade”, escrevia a “Democracia do Sul”.

Por sua vez, o “Notícias de Évora” de 6 de Junho de 1957 completava: “Muitas coroas fúnebres, muitas flores, último preito de saudade ao jovem automobilista que a fatalidade arrancou á vida no início da sua carreira triunfal. Que descanse em paz aquele que foi uma grande esperança do automobilismo português nas grandes competições mundiais”.

No fundo, são apenas maneiras diferentes de escrever o que a legenda de uma fotografia de António Borges Barreto, publicada no livro de honra dos principais pilotos da Ferrari, resume: “...Aveva coraggio e passione: è morto a soli 26 anni.”

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