[Veja] A Psicologia das Bolhas - Shiller

postado em 13 de mar de 2011 20:26 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado
Entrevista: Robert Shiller

A psicologia das bolhas

O professor de Yale afirma que os economistas caíram
no autoengano de acreditar na infalibilidade dos mercados
e erraram ao ignorar o poder do "espírito animal"


Giuliano Guandalini


 
"A economia é instável, e o governo tem um papel relevante na tentativa de estabilizá-la. É essa a contribuição essencial de Keynes"

Na visão do inglês John Maynard Keynes (1883-1946), os ciclos de euforia e depressão da economia não podem ser entendidos sem levar em conta o papel das emoções nos processos de tomada de decisão dos consumidores, das empresas e dos investidores. A lição deixada por ele foi que as oscilações da economia decorrem em boa parte da própria natureza humana, regida menos pela lógica e mais pelo "espírito animal" - ou seja, pelos impulsos irracionais. Em outras palavras, o Homo economicus não rasga dinheiro, mas está longe de ser um contabilista sereno e previsível no trato com suas economias. "A lição foi esquecida, e os economistas levaram ao extremo a ideia oposta, a de que os mercados são sempre racionais e eficientes", lembra o americano Robert Shiller, professor da Universidade Yale, autor, em parceria com o Nobel de Economia George Akerlof, do livro O Espírito Animal (Campus/Elsevier).

Por que a recente crise econômica só foi percebida quando já era tarde demais?
Os profissionais da área econômica foram aos poucos desprezando a natureza humana, para que ela não atrapalhasse seus modelos. Isso implicou ignorar aspectos psicológicos das causas subjacentes dos fenômenos econômicos e financeiros. Sabe-se que os economistas menosprezam a psicologia, por considerá-la uma disciplina inferior. Ao se renderem a esse preconceito, eles subtraíram de suas análises componentes vitais da realidade. Tornaram-se vítimas do autoengano de que a sua profissão pudesse funcionar com a precisão da física. Passaram a enxergar os mercados como instituições perfeitas e previsíveis. Keynes tinha ensinado que não é bem assim. Os indivíduos, dizia ele, são animados, ou movidos, por forças muitas vezes irracionais. Sem essa dimensão humana, a economia, como profissão, saiu dos trilhos. George Akerlof e eu buscamos retomar a ideia esquecida do "espírito animal", a motivação interior dos homens sujeita a ciclos imprevisíveis de confiança exagerada ou pânico injustificado.

Mas os modelos econômicos não foram fundamentais para dar mais objetividade à economia e para tornar mais eficiente a regulagem dos mercados?
Minha crítica diz respeito aos rumos tomados recentemente pela economia. Mas não sou radical a ponto de defender que se comece tudo do zero. George criou modelos econômicos e ganhou um Nobel por isso. Eu mesmo ajudei a desenvolver diversos modelos e tenho uma empresa que ganha dinheiro com isso. Não propomos a execração da profissão. Mas consideramos que certos ramos da economia levaram os seus modelos a um extremo perigoso. Esses economistas ignoraram fatos que estavam diante de seu nariz, apenas porque esses fatos não cabiam em seus modelos. A prática científica clássica estabelece justamente o contrário. Se a evidência não corrobora a teoria, essa última é que precisa ser mudada - mesmo que a evidência venha do ramo da psicologia. Os economistas têm ignorado esse tipo de evidência, digamos, não numérica. O que, afinal, move a economia? Essa pergunta, tão simples quanto essencial, tornou-se um estorvo para os economistas obcecados por modelos matemáticos em que não há lugar para atitudes irracionais.

O "espírito animal" é superior à famosa "mão invisível" dos mercados preconizada por Adam Smith?
Eu acredito nos mercados e no capitalismo. Adam Smith diagnosticou corretamente que, ao buscarem o lucro em seus negócios, os padeiros, açougueiros e cervejeiros de seu tempo eram os responsáveis pelo bom funcionamento da economia. Eles não agiam por altruísmo, mas por interesse próprio. Na soma dessas ações egoístas, Smith viu uma "mão invisível" que produzia a prosperidade geral da sociedade. Por ser correta, não significa que essa visão seja totalmente abrangente. Essa ideia não considera as razões não econômicas que também impelem as pessoas a agir. Quando Keynes publicou sua Teoria Geral, em 1936, o mundo estava dividido entre capitalistas e comunistas. Keynes argumentou que o capitalismo era o melhor modelo, desde que regulado. Sua conclusão foi que o capitalismo era guiado pelo "espírito animal" e, portanto, não poderia ser facilmente previsto ou controlado. Então, respondendo a sua pergunta, diria que os dois conceitos são corretos e complementares. O ideal keynesiano de dotar a economia de meios para tentar diminuir a brutalidade dos ciclos econômicos não implica a supressão do capitalismo.

Como os governos podem contribuir para disciplinar o "espírito animal"?
Um ponto essencial é aprimorar a proteção ao direito dos consumidores. É inconcebível que os governos permitam a comercialização de certos papéis que embutem riscos sobre os quais os compradores não foram suficientemente informados. Outra questão incontornável é a reforma do setor financeiro. Por mais complexa e difícil que seja essa tarefa, ela precisa ser levada a cabo. De maneira alguma os governos podem se limitar a fazer pacotes de estímulos. Eles foram necessários para evitar que as crises financeiras se transformassem em trágicas e prolongadas depressões econômicas. Mas só estímulo não resolve o problema.

Keynes tem sido citado com muita ligeireza por defensores do aumento da intervenção estatal na economia. É esse o caminho?
Não. Sou contra o estado onipresente, o estado-empresário. É preciso ficar claro que fazer as reformas no setor financeiro não significa - ou não deveria significar - a ampliação do papel do estado na economia. Não se trata de dar maiores responsabilidades e poderes ao estado. O que é preciso é fazer benfeito. Não precisamos de regras mais estritas, mas de uma regulação que funcione. A economia é instável, e o governo tem um papel relevante na sua estabilização. Essa é a contribuição essencial de Keynes. Atribuir a ele a tese de que o governo deve administrar a economia de um país é uma fraude.

Não existe o risco de criar regras que enrijeçam o sistema financeiro e impeçam que o crédito flua livremente?
Não serão reformas fáceis de ser feitas. É dificílimo administrar sabiamente a economia de um país. Não propomos argumentar o contrário. O que defendemos, no entanto, é que não se pode desconsiderar a instabilidade psicológica que caracteriza os agentes econômicos, sejam eles empresários, investidores ou consumidores. Ao definirem suas políticas, os governantes eleitos, seus ministros das finanças e presidentes de bancos centrais precisam pesar o comportamento e a mentalidade das pessoas. É um erro imaginar que basta determinar o nível adequado e seguro de capital próprio das empresas financeiras. Tentar desvendar os humores do "espírito animal" dos agentes de mercado tornou-se essencial. É preciso tentar antecipar como ele se move.

É possível perceber quando uma bolha especulativa está em formação?
Não é algo trivial nem óbvio, senão nunca haveria bolhas. Mas há alguns sinais que, se estivermos atentos, podem nos dar pistas de que estamos diante de uma bolha. Um bom indicador é quando começam a pulular explicações, que se pretendem absolutamente coerentes, para justificar a rápida elevação no preço de algum ativo, seja a ação de uma empresa, seja o valor dos imóveis. Conforme a bolha avança, as pessoas são tomadas por sensações que cancelam a racionalidade. Na bolha da internet, que estourou em 2000, só se falava das maravilhas da revolução na tecnologia da informação, de como isso traria um extraordinário novo mundo, onde todos ficariam mais ricos e poderosos. Havia um elemento de verdade em parte daquilo. Mas a euforia superou a realidade e os exageros tomaram conta.

Os Estados Unidos estarão diante de grandes desafios nos próximos anos, como conter o aumento da dívida pública em meio a uma economia ainda frágil. O país vai perder vigor e reduzir seu ritmo de crescimento?
Não acho que seja útil tentar prever essas coisas. O que posso dizer com certeza é que os Estados Unidos possuem uma tradição de respeito aos direitos humanos e à liberdade. Essa tradição nasceu antes mesmo de a palavra capitalismo ter aparecido. Ela data de George Washington (o primeiro presidente americano, entre 1789 e 1797). Em seu discurso de despedida, quando deixou a Presidência, Washington sugeriu que o governo agisse com "delicadeza" na regulação das empresas. Essa é uma longa e arraigada tradição dos Estados Unidos. Essa tradição não passará. Faz parte da cultura americana manter o governo afastado da vida privada e dos negócios. A imagem dos Estados Unidos como líder do capitalismo sobreviverá aos danos provocados pela crise e aos remédios estatais ministrados para diminuir sua duração.

Quais as perspectivas para a economia americana na próxima década?
Não é um cenário confortável. Acabamos de passar por uma pequena depressão. O mercado imobiliário ainda não se recuperou, só sobrevive com o financiamento indireto do governo. Os bancos não voltaram a emprestar como antes. É o tipo de problema que tivemos na Grande Depressão: as empresas não conseguem tomar dinheiro emprestado, não fazem investimentos, e a economia não cresce. A dívida pública está em alta. É uma situação administrável no momento, mas que no futuro poderá limitar novos estímulos econômicos. Será uma década difícil. Há incertezas também no resto do mundo. Até mesmo na China existem riscos, como o do estouro de uma bolha imobiliária. No fundo, o problema é que fomos longe demais com a ideia fundamentalista de que os mercados são infalíveis. Ainda hoje, enquanto conversamos, estudantes estão ouvindo de seus professores que a ausência total do estado é benéfica à economia, como se nada tivesse acontecido.

A britânica Margaret Thatcher e o americano Ronald Reagan, dois grandes reformadores do estado, são muito criticados no livro que o senhor escreveu com Akerlof. Por quê?
Não há dúvida de que as reformas liberais de ambos tiveram um impacto considerável na abertura dos mercados mundiais. Foi algo muito positivo. Mas isso não quer dizer que tudo o que fizeram deva ser aplaudido. Não sou filiado a nenhum partido político. O fundamental é sermos pragmáticos, não aferrados a dogmas. Necessitamos de governos com noção de proporção e realidade. Thatcher fez coisas vitais, como abrir a economia e privatizar. Os sindicatos estavam arruinando a competitividade da economia inglesa. Ela acertou. Apenas não considero que os acertos de Thatcher e Reagan, chancelados pelo contexto histórico em que viveram, possam ser vendidos hoje de forma simplista como a solução para todos os problemas econômicos atuais e futuros. É preciso sempre fugir das simplificações. Tome o caso atual do Brasil. Ouço dizer que o presidente Lula é um líder pragmático. Isso é ótimo para os brasileiros. Mas quando estive no Brasil em 2007 ouvi muitas queixas sobre o excesso de impostos. A justificativa parece ser a redução das desigualdades sociais. O combate à iniquidade é fundamental, mas é um suicídio sufocar os negócios em nome dele.

Não é utopia esperar que o estado regule bem e não asfixie o setor privado?
A questão central é ter regras para o jogo econômico que estimulem a competição e sejam justas aos olhos de todos os envolvidos. O embate econômico é tenso e se assemelha a uma guerra. Mas é preciso ter regras consensuais que ponham limite a essa guerra. Se as regras forem adequadas e respeitadas, a prosperidade virá como resultado. Sem limites, as economias não vão a lugar nenhum.

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