O custo da arrumação

postado em 1 de out de 2010 12:38 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

O custo da arrumação

29 de setembro de 2010 | 7h31

Rolf Kuntz

Alguém vai ter de arrumar a casa depois da festa, e o trabalho vai sobrar para o próximo governo. Até lá, o discurso triunfal continuará no ar: a economia cresce, o emprego aumenta, os consumidores vão às compras, a inflação está perto da meta e não falta dinheiro de fora para fechar as contas. Mas a festa é cara, tanto em reais quanto em dólares, e não será possível engavetar a fatura por muito tempo. Vista de perto, a cena é muito menos bonita. Basta examinar três detalhes com um pouco de atenção.

Em primeiro lugar, o governo central precisou de R$ 6,8 bilhões de dividendos para fechar o mês de agosto com um superávit primário de R$ 4 bilhões. Em outras palavras, o Tesouro gastou mais do que arrecadou de tributos. Só conseguiu uma sobra, destinada ao pagamento de juros, graças à contribuição das estatais. Neste ano, até agosto, a receita bruta do Tesouro Nacional foi 16,3% maior que a de um ano antes. Mas as despesas ficaram 19,6% acima das contabilizadas no mesmo período de 2009. Com a economia em rápido crescimento, já não se poderia falar de política antirrecessiva.

Para alcançar a meta global de superávit primário de 3,3% do PIB, o governo vai recorrer a truques contábeis. Até a capitalização da Petrobrás será aproveitada e o Tesouro poderá registrar uma receita extra de cerca de R$ 30 bilhões. A operação foi explicada mais uma vez na edição de ontem. Enquanto isso, cresce a dívida bruta, com a emissão de papéis do Tesouro para financiar bancos estatais. Esse é o dado importante para os credores. Eles querem receber seus créditos e raramente se deixam enganar pela contabilidade criativa. O próximo governo terá de levar isso em conta.

Em segundo lugar, as pressões inflacionárias têm sido amortecidas pelo dólar barato e pelo aumento das compras externas. Neste ano, até agosto, os gastos com importação de bens de consumo foram 50,7% maiores que os de um ano antes. As despesas com matérias-primas e bens intermediários – insumos incorporados, na maior parte, em artigos destinados ao consumidor – ficaram 43,7% acima daquelas contabilizadas nos meses correspondentes de 2009. As compras de todos esses itens equivaleram a 63,4% do valor das importações totais. Não há nada de errado no aumento do consumo, nem na compra de produtos estrangeiros. O dado preocupante é o descompasso entre o crescimento das importações – 45,7% maiores que as de um ano antes – e o das exportações – 28% superiores às de janeiro-agosto do ano anterior. O saldo comercial foi 41,6% menor. Essa tem sido uma das causas do aumento do buraco nas transações correntes com o exterior. O déficit está projetado em cerca de US$ 50 bilhões neste ano e US$ 60 bilhões no próximo. Crise à vista? Não por enquanto. Mas o novo governo terá de pensar também nisso, porque o balanço de pagamentos se deteriora rapidamente e seu financiamento depende, cada vez mais, de dinheiro volátil.

Em terceiro lugar, o próximo governo terá de enfrentar ao mesmo tempo dois desafios. Precisará equacionar esses problemas: contas públicas mais desequilibradas, contas externas mais vulneráveis e demanda interna em crescimento mais veloz que a produção de bens e serviços. Esse desequilíbrio se reflete no balanço de pagamentos e só não causa uma inflação maior graças ao crescimento das importações. O outro desafio será promover as mudanças necessárias a ajustes duradouros sem se deixar deter pelos obstáculos políticos. Haverá resistência a qualquer esforço de arrumação das contas públicas. Será duro negociar as mudanças tributárias indispensáveis a qualquer política decente de competitividade. É fácil, agradável e muito rendoso eleitoralmente praticar populismo com recursos públicos. A história é outra, quando se passa a avaliar com maior rigor o custo e o benefício de cada programa e de cada projeto.

A era dos truques e das promessas fáceis não terminará de um dia para outro. Até o fim do ano o governo usará a contabilidade criativa para embelezar as suas finanças. O ministro da Fazenda continuará prometendo ações prontas e eficientes para conter a valorização cambial, como se tivesse armas e munição para isso. Os desajustes crescentes continuarão sendo apresentados como efeitos da prosperidade. São mesmo, em alguns casos, mas não deixam de ser desajustes nem crescentes.

O Brasil tem sido apontado como um candidato respeitável ao status de potência. Poderá alcançar essa condição, dentro de alguns anos, se não afundar de novo no atoleiro das políticas irresponsáveis. O risco é concreto e não será eliminado com truques contábeis.

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