Cenário global ainda nos parece desinflacionário

postado em 10 de set de 2010 11:46 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

Cenário global ainda nos parece desinflacionário

Os sinais vindos do mercado externo seguem na direção de uma menor pressão inflacionária, refletindo a recuperação lenta da economia global, que tem mantido o nível de ociosidade elevado na indústria e no mercado de trabalho. Com as perspectivas de que a retomada se mantenha em ritmo vagaroso nesta segunda metade do ano, não vemos riscos para mudança desta situação por ora desenhada. Importante dizer que não estamos apostando em deflação, mas acreditamos que o ambiente de preços permanecerá tranquilo, enquanto não observarmos aceleração da atividade mundial. Corroborando este cenário, as expectativas para inflação no mundo têm arrefecido nos últimos meses e as curvas de juros futuros têm mostrado quedas na mesma direção. Diante disso, acreditamos que as taxas de juros no mundo ficarão em níveis baixos por um período ainda prolongado.

Dois contrapontos merecem ser feitos ao nosso cenário. O primeiro deles se deve ao comportamento do crescimento das economias emergentes, que desde a saída da crise tem se mostrado mais dinâmico, com uma recuperação mais rápida. Neste sentido, enxergamos que o potencial para aceleração da inflação é superior ao verificado nos países desenvolvidos. No entanto, temos que levar em conta que em muitos desses emergentes, como no Brasil e na China, as políticas monetárias já se tornaram mais restritivas e os estímulos fiscais têm sido retirados desde o começo deste ano, o que deverá conter a ampliação do hiato e, portanto, as pressões inflacionárias. Combinada à desaceleração doméstica já contratada, o ambiente deflacionário mundial também impactará a inflação dos emergentes. A exceção são os preços agrícolas que, ao redor do mundo, serão corretamente interpretados pelos Bancos Centrais como choques de oferta, diante do hiato ainda aberto. Isso porque, as notícias mais recentes sugerem que os preços de alimentos deverão subir de forma considerável, refletindo quebras de safras ao redor do mundo. Seguindo a tendência dos preços agrícolas – que têm subido nos mercados internacionais –, o componente referente à alimentação dos índices de inflação pelo mundo já ensaia uma elevação. 

Desaceleração do crescimento dos investimentos no resultado do PIB do segundo trimestre não deve ser lido de forma negativa; perspectivas continuam bastante favoráveis

Entre abril e junho, a formação bruta de capital fixo (FBCF) registrou expansão de 2,4% ante o trimestre anterior. Ainda que esse resultado seja inferior ao observado entre janeiro e março (quando esse componente da demanda avançou 7,3%), é importante destacar que se deu sobre uma base de comparação bastante elevada. Trata-se da quinta alta consecutiva, deixando para trás os impactos adversos da crise que afetou a economia brasileira – em especial os investimentos – no final de 2008.

Como proporção do PIB, a FBCF atingiu a marca de 17,6% na média dos últimos quatro trimestres, a maior desde o primeiro trimestre de 2009. Contudo, ainda há muito que se avançar para garantir taxas sustentáveis de expansão do PIB na magnitude que veremos neste ano, em torno de 7,5%.

Olhando para frente, as perspectivas para o crescimento dos investimentos continuam favoráveis. Fatores como o elevado nível de confiança empresarial, o acesso a crédito de longo prazo em condições favoráveis e as necessidades impostas pelos eventos esportivos e a exploração do pré-sal nos próximos anos serão determinantes para continuar impulsionando as inversões no Brasil, ampliando o potencial de crescimento do PIB. Uma das contrapartidas desse ciclo de investimentos, em um contexto de baixa taxa de poupança doméstica, virá pela continuidade do déficit em conta corrente, ou seja, em importação de poupança externa. Não vislumbramos, contudo, dificuldades de financiamento externo.

Octavio de Barros
Diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos - BRADESCO

Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos

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