A falta que faz um império

postado em 12 de dez de 2010 08:57 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

Robert D. Kaplan

Internacional / Opinião Esvaziamento do poder global dos EUA favorece regimes pouco confiáveis, terrorismo, crises econômicas e até vazamentos

Guerras monetárias. Ataques terroristas. Conflitos militares. Regimes não confiáveis tentando obter armas nucleares. Estados em colapso. E, agora, vazamentos em massa de documentos secretos. Qual será a causa de tamanha turbulência? A falta de império.

Durante a Guerra Fria, o mundo estava dividido entre os sistemas imperiais soviético e americano. O império soviético - herdeiro do Principado de Kiev, da Moscóvia medieval e da dinastia Romanov - cobria a Europa Oriental, o Cáucaso e a Ásia Central e apoiava regimes na África, Oriente Médio e América Latina. O império americano - herdeiro da Veneza e da Grã-Bretanha marítimas - também apoiava aliados, particularmente na Europa Ocidental e no Leste Asiático. Fiel à tradição das guarnições da Roma imperial, Washington mantinha bases na Alemanha Ocidental, Turquia, Coreia do Sul e Japão, virtualmente cercando a União Soviética.

O desmoronamento do império soviético, embora tenha causado euforia no Ocidente e originado a libertação da Europa Oriental, também desencadeou conflitos étnicos nos Bálcãs e no Cáucaso que custaram centenas de milhares de vidas e criaram milhões de refugiados. Só no Tajiquistão, mais de 50 mil pessoas foram mortas numa guerra civil que quase não foi noticiada na mídia americana nos anos 90.

O colapso soviético também provocou o caos econômico e social na própria Rússia. E não foi por acidente que o então presidente iraquiano, Saddam Hussein, invadiu o Kuwait menos de um ano após a queda do Muro de Berlim, assim como seria inconcebível que os EUA tivessem invadido o Iraque se a União Soviética, uma sólida patrocinadora de Bagdá, ainda existisse em 2003. Se o império soviético não tivesse desfeito ou se retirado do Afeganistão, Osama bin Laden jamais teria se refugiado ali e os ataques do 11 de Setembro poderiam não ter ocorrido. Tudo isso decorre, pois, do colapso imperial.

Agora, o outro pilar da paz relativa da Guerra Fria está cedendo, enquanto novas potências como China e Índia não estão prontas ou dispostas a preencher o vazio. Não haverá rupturas súbitas na medida em que os EUA, diferentemente da União Soviética, são vigorosamente mantidos pela liberdade econômica e política. Mas a capacidade de os EUA trazerem um pouco de ordem ao mundo está simplesmente se esvaindo em câmera lenta.

Hostilidade. Os tempos do dólar americano como a moeda de reserva mundial estão contados e a diplomacia americana capenga sob o peso de vazamentos de segredos - algo típico de uma era de comunicações eletrônicas, ela em si hostil a um regime imperial.

Depois, há o poder militar americano. Exércitos vencem guerras, mas numa era em que o teatro do conflito é global, forças aéreas e navais são registros mais precisos do poderio nacional. Qualquer ataque ao Irã, por exemplo, seria uma campanha por mar e ar. A Marinha americana passou de quase 600 navios na era Ronald Reagan para pouco menos de 300 hoje, enquanto as marinhas da China e da Índia crescem rapidamente.

Essas tendências se acelerarão com os cortes de defesa que certamente virão para salvar os EUA de sua crise fiscal. Os EUA ainda dominam os mares e os ares e assim continuarão durante anos, mas a distância entre eles e outros países está se estreitando.

Atos terroristas, atrocidades étnicas, o anseio por armamentos terríveis e a revelação de despachos secretos são obra de indivíduos que não devem se furtar a suas própria responsabilidades morais. Isso não é uma acusação à política externa de Barack Obama.

Há poucas evidências de uma alternativa crível a suas ações na Coreia do Norte, Irã e Iraque, enquanto um debate agressivo se desenrola sobre o curso apropriado no Afeganistão. Mas não há dúvidas de que a ordem pós-imperial que habitamos permite rupturas maiores que a Guerra Fria jamais permitiria.

Preservar o poder num esforço para desacelerar o declínio dos EUA num mundo pós-Iraque e pós-Afeganistão significaria evitar envolvimentos terrestres debilitantes e concentrar-se mais em ser um fator de equilíbrio em alto-mar - isto é, despontando com forças aéreas e marítimas no horizonte, intervindo somente quando forem cometidas agressões que ameacem inquestionavelmente aliados e a ordem mundial em geral. Embora isso possa ser do interesse dos EUA, o mero sinal dessa intenção pode encorajar provocações regionais, uma vez que regimes pouco confiáveis são os organizadores de algumas regiões cruciais do mundo.

A Coreia do Norte já avança com seu programa de armas nucleares, enquanto lança projéteis de artilharia numa ilha sul-coreana, demonstrando os limites do poder tanto dos EUA quanto da China num mundo semi-anárquico. Durante a Guerra Fria, a Coreia do Norte era mantida em sua caixa pela União Soviética, enquanto a Marinha americana dominava o Pacífico como se fosse um lago americano. Agora, o predomínio econômico da China na região, combinado com a distração das guerras terrestres no Oriente Médio, está transformando o Pacífico ocidental de um ambiente estável e benigno num mais incerto e complexo.

Assimetria no mar. A Marinha chinesa está décadas atrás da americana, mas isso não serve de alento. Os EUA, tendo acabado de experimentar guerras assimétricas terrestres, agora devem esperar desafios assimétricos no mar. Com sua capacidade aprimorada em guerra de minas, redes de sonar e submarinos nucleares, a China tornará as operações da Marinha americana mais perigosas nos próximos anos.

Quanto a Taiwan, a China tem 1.500 mísseis balísticos de curto alcance apontados para a ilha, enquanto centenas de voos comerciais ligam toda semana Taiwan ao continente num comércio pacífico. Quando a China efetivamente incorporar Taiwan no futuro, isso será o sinal da chegada de um ambiente militar verdadeiramente multipolar e menos previsível no Leste Asiático.

No Oriente Médio, vemos o verdadeiro colapso da ordem imperial da Guerra Fria. A nítida dicotomia árabe-israelense que espelhou a americano-soviética foi substituída por um acordo de potências menos estável com uma zona iraniana de influência espalhando-se do Líbano ao Afeganistão ocidental, contra Israel e o mundo árabe sunita, e com uma Turquia recentemente islâmica e não mais pró-Ocidental emergindo como uma potência equilibradora.

Ascensão do Irã. Sim, impérios impõem ordem, mas essa ordem não é necessariamente benigna, como mostra o nascente domínio imperial do Irã. As ameaças americanas contra o Irã carecem de credibilidade precisamente por causa da fadiga imperial dos EUA resultante do Iraque e do Afeganistão. Exceto por interesse próprio, os EUA provavelmente não se envolverão em outra guerra no Oriente Médio.

Uma narrativa padrão é que à medida que os EUA recuarem, a China avançará como parte de um mundo pós-americano benigno. Mas isso pressupõe que todas as potências imperiais são iguais, mesmo quando a história claramente demonstra que não são. Um império também não preencherá o vazio deixado por outro. Enquanto a União Soviética e os EUA eram ambos potências missionárias motivadas por ideais - comunismo e democracia liberal - pelos quais pretendiam pôr ordem no mundo, a China não tem uma concepção grandiosa do gênero.

Ela é impelida para o exterior pela fome de recursos naturais (hidrocarbonetos, minérios e metais) - dos quais precisa para alçar centenas de milhões de seus cidadãos à classe média. Isso poderia encorajar o desenvolvimento de um sistema comercial entre o Oceano Índico, a África e a Ásia Central que poderia manter a paz com mínimo envolvimento americano. Mas quem preencherá o vazio moral? A China realmente se importará se Teerã desenvolver armas nucleares, desde que tenha acesso ao gás natural do Irã? E Pequim pode não estar inteiramente confortável com o regime norte-coreano que mantém sua população num estado de semi-inanição, mas a China o apoia mesmo assim.

Pode-se argumentar que com o poder vem a responsabilidade moral, mas provavelmente podem transcorrer décadas até a China ter o tipo de força naval e aérea que a levará a ser uma autêntica parceira num sistema de segurança internacional. Por enquanto, Pequim viaja de carona na proteção das rotas marítimas mundiais que a Marinha americana ajuda a garantir, e assiste aos EUA lutarem para estabilizar Afeganistão e Paquistão para que a China possa um dia extrair seus recursos naturais.

Se a Guerra Fria foi uma época de relativa estabilidade, garantida por uma tácita compreensão entre impérios, agora temos um império em declínio, o dos EUA, tentando trazer ordem em meio a um mundo de poderes ascendentes e às vezes hostis.

Pairando ameaçadoramente sobre tudo isso está o mapa global densamente povoado. Por toda Eurásia, populações rurais deram lugar a megacidades propensas à incitação pela mídia de massa e à destruição pela catástrofe ambiental. Exércitos pesados, difíceis de deslocar estão sendo substituídos por conjuntos de mísseis balísticos que demonstram a capacidade de distribuição de armas de destruição em massa. Novas tecnologias fazem tudo afetar tudo numa velocidade mais rápida e mais letal do que nunca. O livre fluxo de informações, como o escândalo do WikiLeaks deixa claro, e a miniaturização dos armamentos, como os atentados terroristas em cidades paquistanesas deixam claro, trabalham contra a ascensão e sustentação de ordens imperiais.

O império americano sempre foi mais estrutural que espiritual. Sua rede de alianças certamente se parece com as de impérios passados, e os desafios que suas tropas enfrentam no exterior são comparáveis aos das forças imperiais de outrora, embora o público americano, especialmente depois das perdas no Iraque e no Afeganistão, não esteja com ânimo para as novas aventuras terrestres que têm sido a matéria do imperialismo desde a antiguidade Os americanos não têm uma mentalidade imperial. Mas diminuir o engajamento no mundo teria consequências devastadoras para a humanidade. As rupturas que testemunhamos hoje são apenas uma amostra do que virá se os EUA se esquivarem de suas responsabilidades internacionais. /

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
08/12/2010
link http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-estado-de-sao-paulo/2010/12/08/a-falta-que-faz-um-imperio

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