Cura pela inflação

postado em 19 de set de 2010 08:31 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

2 de setembro de 2010 | 16h46

Paul Krugman

Ken Rogoff está propondo – não pela primeira vez – que os Estados Unidos recorram a um período de inflação mais alta para sair do declínio em que o país se encontra. Minha reação é um misto de aprovação e exasperação. Concordo que uma inflação mais alta seria benéfica; minha exasperação vem da extemporaneidade de Rogoff em relação à coisa toda. Como, exatamente, ele espera que seja produzido este período de inflação elevada?

Responder simplesmente “política monetária” não é o bastante. É verdade que o Fed dispõe de ferramentas mesmo com os juros restritos pelo limite inferior zero, e o banco central deveria utilizá-las ao máximo. Mas o seu efeito é difícil de prever; não acho que possamos contar com a possibilidade de o Fed nos proporcionar, conforme solicitado, os “dois ou três anos de inflação um pouco acima da média” sugeridos por Rogoff. De fato, toda a lógica da armadilha de liquidez indica que se os bancos centrais podem obter alguma alavancagem, isso só pode ser feito por meio de um compromisso com a inflação durante um período razoavelmente extenso.

E como podemos chegar a uma inflação mais alta? Na verdade, temos um ótimo exemplo: o fim da Grande Depressão.

A causa imediata do fim da depressão foi, é claro, um imenso estímulo fiscal, também conhecido como 2.ª Guerra Mundial. Mas por que os EUA não escorregaram de volta à depressão quando a guerra chegou ao fim? Muitos pensaram que isso ocorreria; o declínio da rede de lojas de departamento Montgomery Ward teve muito a ver com a política de Sewell Avery, que se recusou a expandir a empresa e açambarcou dinheiro como forma de se preparar para o retorno da depressão.

Então, por que a depressão não voltou? A melhor resposta em que pude pensar é a de que a depressão foi, ao menos em parte, um declínio no balanço patrimonial semelhante ao modelo proposto por Richard Koo – e o setor privado emergiu da 2.ª Guerra Mundial com um balanço patrimonial muito mais sólido.

E a inflação desempenhou um papel importante nesta solidificação. Eis aqui o deflator PIB (uma medida do preço total daquilo que os EUA produzem) de 1929 a 1948:

 

Os preços aumentaram cerca de 70% durante os preparativos para a guerra, durante a guerra em si e no período imediatamente posterior a ela. Isso reduziu muito o valor real da dívida a pagar – o oposto da deflação da dívida que ocorreu nos primeiros estágios da depressão.

Este exemplo sugere que a inflação pode de fato nos ajudar a sair de um declínio prolongado – mas chegar a esta inflação provavelmente exigirá uma combinação de política monetária flexível e estímulo fiscal vigoroso.

E, quem sabe um dia, nos próximos anos, ou talvez nas próximas décadas, nós possamos obter aquilo de que necessitamos.

Atualização: dois esclarecimentos

1. O gráfico representa o patamar dos preços, sendo 2005=100, e não a taxa de variação.

2. Não há contradição em dizer que a 2.ª Guerra Mundial foi uma expansão fiscal bem sucedida, e dizer que não podemos usar a 2.ª Guerra Mundial para estimar o multiplicador relativo à política atual; sei que Barro disse isto, mas acho que ele está complicando as coisas deliberadamente. Durante a 2.ª Guerra Mundial vimos algo como um aumento de 35% do PIB nos gastos governamentais; isto levou a um grande aumento no PIB, mas não a um aumento de 35% X o aumento no multiplicador, porque medidas características de períodos de guerra, como o racionamento e a restrição aguda na emissão de alvarás de construção, reprimiram a demanda civil. Assim, podemos usar a 2.ª Guerra Mundial para demonstrar que a expansão fiscal funciona, mas não podemos recorrer a ela para fazer uma estimativa do multiplicador quando não estamos em guerra.

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