Roubini vê crise europeia longe do fim e teme pela situação fiscal nos EUA

postado em 5 de jun de 2010 22:54 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

Roubini vê crise europeia longe do fim e teme pela situação fiscal nos EUA

31 de maio de 2010

Valor Economico (SP)

Sergio Lamucci, de São Paulo
 

Mais de um ano e meio após a quebra do Lehman Brothers, Nouriel Roubini ainda vê a economia global como um campo minado.

Na Europa, a encrenca em que se meteram países como Grécia, Espanha e Portugal não é apenas fiscal - há problemas graves de falta de competitividade, os déficits externos são elevadíssimos e existe uma possibilidade significativa de um segundo mergulho da economia na recessão.

Nos EUA, a recuperação é mais consistente, mas está longe de ser robusta. Além disso, a situação fiscal americana requer cuidados, dado o tamanho do déficit público - o que também vale para Reino Unido e Japão.

Como pano de fundo, a falta de empenho dos governos em mudar a supervisão e a regulação do sistema financeiro mantém o mundo como um lugar suscetível à eclosão frequente de crises.

Famoso por ter sido um dos economistas que anteciparam a crise global de 2007/08, Roubini enumera uma série de motivos para explicar por que o pacote de ajuda de US$ 1 trilhão anunciado pela União Europeia (UE) e pelo FMI não encerrou a crise na Europa.

"O primeiro é que as condições são muito rígidas. O dinheiro não vai ficar disponível incondicionalmente. Se não adotarem as medidas de austeridade, os recursos não serão liberados", diz o professor da Universidade de Nova York. Os investidores sabem das dificuldades políticas que países como Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda enfrentam para melhorar a situação de suas contas públicas. "A Grécia, que precisa fazer um ajuste de 10% do PIB, vive uma onda de greves e protestos."

Outro drama é que aumentar impostos e cortar gastos, embora necessários, têm um efeito inicial de reduzir o crescimento. "Isso torna menos provável alcançar as metas fiscais em relação ao PIB. É difícil politicamente ser austero com o PIB em queda por vários anos, como a Argentina nos mostrou." Para completar, ele destaca o problema de falta de competitividade, causada por fatores como a força do euro e o aumento dos salários acima da alta da produtividade. "Isso faz esses países perderem mercados para a Ásia e o Leste Europeu."

Para Roubini, seria melhor a Grécia reestruturar sua dívida o quanto antes, para fazê-lo de modo ordenado, seguindo o exemplo de países como Uruguai, República Dominicanae Ucrânia.

E o país vai sair da união monetária europeia? "Se o euro se desvalorizar outros 20% ou mais, a Grécia pode ganhar competitividade sem abandonar a união monetária. Do contrário, nos próximos três ou cinco anos há alguma chance de isso ocorrer."

Roubini não aposta num longo período de estagnação na Europa, mas diz que subiu o risco de um duplo mergulho. Com a turbulência dos últimos meses, há mais chances de um crescimento próximo de zero neste ano. Antes, uma alta de 0,8% era mais provável.

Roubini está cético quanto à recuperação americana. Diz que o país deve crescer 3% no primeiro semestre, desacelerando para 2% ou menos no segundo. "Neste momento do ciclo econômico, os EUA deveriam estar crescendo bem acima do potencial [o ritmo que não acelera a inflação], que é de 3%."

Um dos pontos que mais o preocupam é a situação fiscal de economias avançadas importantes, como EUA, Japão e Reino Unido. Não é possível conviver por muito tempo com déficits fiscais de US$ 1 trilhão ao ano, como na situação americana, adverte ele.

Para Roubini, os EUA deveriam aproveitar que ainda não sofrem pressão dos mercados e se comprometer com uma melhora fiscal ao longo dos próximos anos. "Se o país fizer isso e ainda precisar manter estímulos no curto prazo, os mercados não vão puni-lo. Mas é importante mostrar de um modo crível que há um plano para reduzir o déficit ao longo do tempo. Infelizmente, não vejo isso nos EUA."

Ele vê, porém, uma situação política de paralisia. Os republicanos vetam aumentos de impostos, enquanto os democratas vetam cortes de gastos. Se o impasse não for resolvido, a saída poderá passar pela impressão acelerada de dinheiro, o que resulta em inflação.

Ele também lamenta que pouco se tenha avançado nas reformas do sistema financeiro. Sem elas, o mundo continua exposto ao risco de novas crises, com a formação de bolhas de ativos e o crescimento excessivo do crédito. Em seu livro "A Economia das Crises", recém-lançado no Brasil, escrito em parceria com Stephen Mihm, também da Universidade de Nova York, Roubini faz defesa enfática de mudanças radicais no sistema financeiro global, como o desmembramento de instituições financeiras "grandes demais para falir", como o Citigroup e o Goldman Sachs.

O pessimista Roubini reserva palavras mais favoráveis ao Brasil. Ele elogia a autonomia da política monetária, a maior solidez das contas públicas e a robustez do sistema financeiro, combinação importante para o bom desempenho recente do país. "Mas é necessário fazer reformas estruturais para melhorar a produtividade e o crescimento potencial", afirma.

Para ele, o governo Lula acertou ao adotar políticas macroeconômicas e financeiras sensatas, mas falhou em perseguir as reformas. Essa tarefa ficará a cargo do próximo presidente. Atacar a questão do tamanho do governo, reduzir e simplificar a carga tributária e investir em infraestrutura e educação são pontos que precisam ser enfrentados pelo país, diz Roubini, que participa hoje do Exame Fórum, em São Paulo.
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