[Krugman] Bernanke e as pílulas de sabedoria

postado em 19 de nov de 2010 04:09 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

Bernanke e as pílulas de sabedoria

8 de novembro de 2010 | 16h31

Paul Krugman

Todo mundo detesta o afrouxamento quantitativo (QE). Os inflacionistas acreditam que ele represente o fim da civilização ocidental (mas, como destaca um correspondente, nós queremos que eles acreditem nisto; crenças semelhantes envolvendo o fim do padrão ouro ajudaram na recuperação durante os anos 30); enquanto isso, o resto do mundo está furioso com as medidas do Fed.

Claramente, Bernanke deve estar fazendo alguma coisa direito. Como diz Greg Ip, todas as objeções feitas atualmente ao QE seriam igualmente aplicáveis à política monetária convencional – e levados em consideração o alto desemprego americano e o recuo da inflação, como seria possível dizer que a expansão monetária não se justifica?

Mas o que estamos vendo em todo o país é uma incapacidade de pensar com clareza nas questões econômicas. Em especial, a natureza nada convencional de nossa situação está deixando claro quantas pessoas confiam não em um modelo do funcionamento da economia, e sim naquilo que Paul Samuelson chamava de pílulas de sabedoria – slogans e frases de efeito que se fazem passar por ideias elaboradas.

A situação básica em que se encontra a economia mundial é simples: temos um excesso de poupança no lugar do investimento desejado, mesmo com os juros em zero. A realidade se parece com o seguinte, tendo como referência o patamar de poupança e investimento que deveríamos observar em condições de pleno emprego:

 

Como chegamos a este ponto? A resposta, em grande parte, é que o excesso de empréstimos concedidos no passado fez com que muitas partes do mundo vivessem uma situação de aperto de crédito, sendo obrigadas a realizar uma desalavancagem por meio do corte nos gastos; e mesmo os juros em zero não representam um incentivo suficiente para convencer os participantes que não enfrentam os mesmos limites a aumentar os gastos num volume suficiente para compensar estes cortes.

Mas os juros não podem recuar além do zero; é aí que está o problema. Para o mundo como um todo, a poupança deve ser equivalente ao investimento, ou, em outros termos, os gastos devem equivaler à renda. Assim, este excesso incipiente de poupança leva a uma economia global deprimida, na qual a renda cai para acompanhar o número de pessoas que podem gastar ou estão dispostas a fazê-lo.

O que a política econômica pode fazer a respeito disso?

1. Pode tentar chegar a juros reais negativos por meio da criação de expectativas de inflação. Esta é, mais ou menos, a solução do livre mercado. Muitos anos atrás tentei explicar isto ao propor que pensássemos num mundo hipotético de preços perfeitamente flexíveis e suprimento de dinheiro fixo. Como um mundo como este lidaria com a situação mostrada acima? A resposta: os preços cairiam ao ponto de as pessoas esperarem que eles aumentem no futuro, produzindo a inflação esperada da qual precisamos. Como os preços não são perfeitamente flexíveis – e, seja como for, a existência da dívida nominal significa que uma ampla deflação seria uma péssima ideia -, a alternativa preferível é simplesmente criar expectativas de inflação para o futuro.

2. Em vez disso, os governos podem intervir e gastar enquanto o setor privado se recusa a fazê-lo.

3. Por último, os bancos centrais podem tentar contornar o limite inferior igual a zero por meio da compra da dívida de longo prazo. A questão é que o juro igual a zero corresponde apenas ao curto prazo, e é possível, apesar de não ser garantido, que se possa ganhar alguma tração com a compra destas obrigações de prazo mais dilatado.

Mas agora que estamos nesta situação, Pessoas Muito Sérias de todo o mundo estão apresentando objeções a todas estas medidas possíveis. As metas inflacionárias são horríveis porque precisamos de preços estáveis. Medidas de política fiscal são inaceitáveis porque precisamos de orçamentos equilibrados. O afrouxamento quantitativo (QE) provoca indignação porque não é isto que os bancos centrais deveriam fazer.

Repare que em cada um dos casos a objeção tem como base uma pílula de sabedoria. A estabilidade nos preços é tratada como uma virtude absoluta, sem um modelo que explique o porquê disto. O mesmo se aplica ao equilíbrio orçamentário. E aqueles que ficam horrorizados diante da ideia de uma política monetária expansionista têm improvisado na invenção de conceitos para sustentar sua posição.

O fato é, simplesmente, que há um excesso na oferta mundial de poupança, coisa que está prejudicando muito os trabalhadores. A conduta responsável seria fazer algo a respeito desta situação; é profundamente irresponsável, além de ilógico, inventar motivos para não agir apenas para honrar slogans reducionistas.

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