Calibrando as expectativas com a China: arrefecimento tem sido menos intenso

postado em 17 de set de 2010 09:05 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

Calibrando as expectativas com a China: arrefecimento tem sido menos intenso

Ao contrário do que esperávamos há alguns meses, os dados mais recentes mostraram que o arrefecimento da economia chinesa tem sido menos intenso, em grande medida, sustentado: pela demanda doméstica aquecida, pela resiliência do setor imobiliário, pelo ambiente mais favorável aos investimentos públicos, pelo encerramento do ciclo de ajuste de estoques e pelas exportações, que permanecem fortes. Diante disso, surge a dúvida se, neste momento, estamos nos deparando com uma estabilização ou uma nova aceleração.

Por enquanto, tudo indica que a tendência de acomodação da desaceleração é a aposta mais provável e que ela será moderada, trazendo a economia para um crescimento entre 8 e 8,5% no último trimestre deste ano e estabilizando-se neste patamar. E, até agora, não temos dados, nem anedóticos, suficientes para apostar em uma nova aceleração. Mas, a probabilidade de o próximo movimento ser de aceleração é superior à chance de desaceleração e, se isso acontecer, observaremos uma melhora dos indicadores de atividade na virada de 2010 para 2011. Devemos levar em conta também que as diversas medidas restritivas setoriais – como as do setor imobiliário – e creditícias deverão ser preservadas, mantendo o crescimento em níveis mais moderados quando comparamos com o padrão apresentado antes da crise. Assim, mantemos nossa expectativa de expansão do PIB chinês próximo a 10% neste ano e a 8,5% no ano que vem.

Após o período de acomodação da atividade econômica entre abril e junho, os primeiros sinais relativos ao terceiro trimestre apontam para uma recuperação do crescimento, mas em ritmo moderado, compatível com a expansão potencial da economia brasileira

Desde abril, após o atípico crescimento do primeiro trimestre, a leitura é que a atividade mantém-se acomodada, ainda que em patamar elevado. Há uma retomada do crescimento em curso, o que tem sido capturado por indicadores da indústria, do comércio e do setor de serviços, mas em ritmo moderado. O recém-criado IBC-Br, proxy mensal para acompanhar a evolução do PIB, apontou expansão em julho, depois de dois meses consecutivos de estabilidade. A alta de 0,24% ante o período anterior, contudo, é bastante inferior à média histórica de crescimento do indicador, e sugere uma descompressão adicional do hiato de produto.

O mercado de trabalho aquecido constitui a principal fonte de risco para que o crescimento nos próximos meses seja superior ao potencial não inflacionário de expansão da economia, estimado por nós como algo entre 1,0% e 1,5% de crescimento ao trimestre. Continuamos, porém, acreditando em uma evolução em torno do potencial nos próximos meses, o que será favorecido, de um lado, pelos efeitos defasados do ciclo de aperto monetário encerrado em julho e pela desaceleração dos gastos públicos prevista para os próximos trimestres e, de outro, pela expansão do potencial de crescimento, fruto dos investimentos que têm sido realizados.

 

Octavio de Barros
Diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos - BRADESCO

Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos

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