Internet e ensino - Salrnan Khan

postado em 24 de jun de 2011 14:03 por Luiz Henrique Mourão Machado Machado

O extraordinário sucesso de um jovem matemático do MIT mostra como a internet pode ser uma poderosa ferramenta para o ensino - e revolucionar a maneira como as pessoas assimilam conhecimento.

Revista Veja - por Renata Betti

Diante de uma plateia formada por alguns dos mais bem-suce­didos empresários do Vale do Silício, na Califórnia, o ameri­cano descendente de indianos Salrnan Khan, 34 anos, recebeu aplausos espe­cialmente efusivos vindos de um canto do auditório. O espectador mais entusias­mado era Bill Gales, fundador da Micro­soft, que subiu ao palco para dizer que o jovem à sua freme estava dando uma contribuição decisiva para a utilização da intemet na educação. Formado em matemática, ciência da computação e enge­nharia elétrica pelo Instituto de Tecnolo­gia de Massachusetts (MIT), Sal, como ficou mais conhecido, é o fenômeno atual da internet, digamos, séria. O site da 'Khan Academy (http://www.khanacademy.org/) está chegando rapidamente aos 60 milhões de acessos de pessoas interessa­das em assistir gratuitamente a algumas de suas mais de 2000 aulas. Elas duram de dez a vinte minutos, tempo em que Sal explica de maneira milagrosamente sim­pIes fenômenos complexos de quarenta áreas do conhecimento. São aulas cujos temas variam do cálculo da hipoteca de um imóvel à diferença entre os vírus e as bactérias ou que ensinam como os mate­riais radioativos se desintegram.

Sal usa apenas sua voz e um mouse pad, com que escreve ou desenha os símbolos necessários para se expressar. O nivel de dificuldade vai dos primeiros anos do ensino fundamental, abrangen­do operações básicas de soma e subtra­ção, ao MBA, com lições sobre venture capital e as flutuações no preço do ouro. Diz Sal: "Meus professores eram enfa­donhos. Dou aulas como as que gostaria de ter tido".

À primeira vista, suas aulas não pa­recem exatamente atraentes. Na tela do computador, surge a reprodução de uma lousa preta, e ao fundo se ouve o timbre grave da voz de Sal. Um de seus méritos reside em dirigir-se aos estu­dantes em uma linguagem didática e compreensível. Outro é oferecer a seus seguidores desafios constantes. Só pas­sa ao nível seguinte quem acerta pelo menos dez exercícios consecutivos, propostos ao cabo de cada lição. O pró­prio ambiente virtual (ainda que, nesse caso, sem uso de grandes recursos tec­nológicos) funciona, por si só, como um poderoso chamariz para as crianças e os jovens que ali navegam. Cada um aprende no seu tempo, repetindo a ex­plicação quantas vezes julgar necessá­rio. "A internet estimula a apreensão de informações de forma autodidata e exerce um magnetismo sobre as novas gerações que não pode mais ser despre­zado pelos educadores", observa José Armando Valente, do núcleo de infor­mática aplicada à educação da Univer­sidade Estadual de Campinas.

A estreia das aulas de Sal na rede deu-se em 2006, de maneira despreten­siosa. Na época, ele trabalhava como analista do mercado financeiro e era frequentemente requisitado pelos três primos - de idade entre 10 e 12 anos - para que Ihes tirasse dúvidas de ma­temática. Como eles moravam em cida­des diferentes, Sal teve a ideia de co­meçar a produzir, de casa mesmo, vídeos com explicações bem curtas, em estilo já bastante parecido com o das aulas atuais. Punha o material na web via You'Tube -, Para seu espanto, não apenas os primos mas muitas outras pessoas passaram a acompanhá-Io.

Foi em 2009, já com acessos na ca­sa dos milhões e uma vultosa poupan­ça, que Sal deixou o emprego em um fundo de investimento para dedicar-se exclusivamente ao que se tomara a Khan Academy. Sem fins lucrativos, virou um negócio que ele mantinha o apenas com dinheiro próprio até rece­ber um inesperado telefonema de Bill Gates. O fundador da Microsoft foi di­reto ao ponto: contou que os três filhos, e ele próprio, eram seus "seguidores in­condicionais" - e doou à Khan Acade­my 1,5 milhão de dólares. À revista americana Fortune, Gates disse: "Mor­ro de inveja desse cara. Não consigo ensinar meus filhos como ele faz". Ou­tra doação veio do Google, que desti­nou 2 milhões de dólares ao matemáti­co, para que seu site fosse traduzido para pelo menos dez línguas, inclusive português - com prazo até 2012. Parte dos vídeos já recebeu traduções ama­doras, que circulam na rede em blogs e sites de estudantes e professores.

O sucesso de Salman Khan é a pro­va de que o ensino pela internet tem um potencial que ainda não foi utilizado como poderia. Os especialistas atribuem o uso precário que se faz da web na educação ao despreparo dos professo­res. Alguns dos exemplos de sucesso obtidos em diversas partes do mundo ocorrem quando os mestres vencem suas próprias barreiras e inibições e pas­sam a se sentir mais à vontade no am­biente da internet. Em escolas do Japão ou da Coreia do Sul, os alunos são en­corajados a ficar conectados, engajan­do-se em debates on-line ou fazendo experimentos científicos na rede - em que cada um seja responsável por uma etapa do projeto. No Brasil, o colégio Integral, de Campinas, ainda em regime experimental, distribuiu tablets a estu­dantes do ensino médio. Os alunos ago­ra discutem geopolítica em rede e com­partilham seus esforços na resolução de problemas. Eles foram apresentados às aulas on-line de Sal na Khan Academy. "É uma tentativa de despertar a atenção de jovens que perderam o interesse pelo aprendizado da forma como ele é apre­sentado pela escola - uma instituição que parou no tempo", avalia o diretor Ricardo Palco.

Sal Khan guarda um traço comum a jovens que, como ele, acumularam di­nheiro e desfrutaram certa notoriedade muito cedo: a excentricidade. Toma apenas uma refeição diária ("como os animais que vivem no zoológico") e faz reuniões de trabalho enquanto se exer­cita correndo pelas ruas da cidade de Mountain View, na Califórnia, onde mora. "A lógica de Sal é sempre fazer no rninimo duas coisas ao mesmo tem­po, com uma empolgação quase infan­til", define o amigo Artel Poler, 44 anos, fundador de cinco empresas de internet - uma delas vendida à Microsoft. Só recentemente Sal, casado com uma mé­dica e pai de um menino de 2 anos, abandonou um cômodo acanhado de sua casa e instalou sua fundação educacio­nal sem fins lucrativos em uma sala co­mercial. Contratou sete funcionários, mas ele próprio continua sendo o único responsável pejas aulas invariavelmente ministradas na lousa digital. Ele traba­lha oito horas diárias, além daquelas de­dicadas a estudar assuntos em que não é especialista - caso da Revolução Fran­cesa, cuja origem é explicada por Sal como o resultado esperado da coexis­tência de uma maioria de pessoas que trabalham, passam fome e ainda têm de sustentar com impostos alguns poucos "parasitas esnobes que se concedem tí­rulos pomposos".


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