Duns Escoto
Nem o “sutil doutor”, o grande antagonista de Aquinas, pode ser excluído da categoria que contém os doutores seráficos e angélicos. A direção, diz Ritter, que ele deu à filosofia foi completamente eclesial. “Ele é”, diz Dean Milman, “o mais severo ortodoxo dos teólogos”. E ainda, Duns Escoto é tão racionalista quanto seria necessário para ter negado a necessidade da Revelação, por causa da abundância de conhecimento acessível pela razão natural. E quando ele vem ao discurso da relação de Deus à criação, ele volta ao argumento ultra-platônico de Plotino, de que a matéria é, em sua essência, nada mais do que outra forma de espírito. Chamar a matéria de imaterial pode parecer um paradoxo; mas com essa definição, quão facilmente vemos o ortodoxo Duns Escoto apertar a mão do herético David de Dinanto e concordar em chamar Deus de o princípio “material” de todas as coisas. Deus é a única Mônada acima de toda criação, tanto na Terra quanto no Céu. A esse dogma da igreja, como um homem da igreja, Duns Escoto estava comprometido, mas sua filosofia não pode parar aqui. A matéria primária, que é Deus, deve, de algum modo, estar interpenetrando todas as coisas. Isso é completado por três tipos de divisões: o universal, que é todas as coisas; o secundário, que engloba tanto o corruptível quanto o incorruptível; e o terciário, que é distribuído entre as coisas sujeitas à mudança. O escolástico repudiava as consequências que nós concebíamos que vinham da sua teologia. Eles eram os homens pré-eminentemente ortodoxos – os verdadeiros filhos da igreja – os genuínos defensores da fé; mas sua história apenas adicionou um número um pouco maior de nomes à larga lista de teólogos que destruíram o que ansiavam estabelecer e, estabeleceram o que eles ansiavam destruir. É satisfatório achar a visão da teologia escolástica avançando aqui, sancionada pelos grandes nomes de Dean Milman e do bispo Hampden. “Nesse sistema” diz o bispo Hampden, “nem a divindade é identificada com a ação individual mesma, nem o indivíduo é aniquilado na divindade. A distinção do divino agente e o recipiente humano foi mantida de acordo com a Revelação das Escrituras de Deus como um só ser; separado em sua natureza dos trabalhos da providência e da graça. Ainda, as noções D´Ele como uma energia – como um poder que se move – entraram em todas as explanações da divina influência na alma. Indo mais longe, elas eram estritamente aristotélicas; mas com essa exceção, a noção platônica da participação real da divindade na alma do homem permeia suas especulações.
A ideia aristotélica do crescimento e felicidade humanas era menos do que aquela de uma abordagem mecânica ou material ao princípio divino – uma obtenção da divindade como nosso fim e desígnio. Nós vemos um grande empenho nessa designação dos escolásticos no progresso do homem em virtude e felicidade. A visão de Platão, por outro lado, era a assimilação da associação com a divindade. Essa noção é mais facilmente sentida nas expressões das Escrituras que falam do homem como sendo criado à imagem de Deus, e que nos mostrou um exemplo da inteireza sagrada divina para nossa imitação. A noção panteísta, então, de uma participação da divindade ou da atual deificação da nossa natureza é a ideia fundamental da cooperação de graça de acordo com o escolástico. A aristotélica ideia de movimento, de progresso contínuo, de gradual atenção à forma completa de perfeição, é a lei pela qual essa operação de graça é estabelecida para ser explanada. Esse sistema, realizado pelas visões aristotélica e platônica, são tão respeitadas quanto sancionadas pelo apóstolo, em sua colocação desse texto de filosofia, N´Ele nós vivemos, nos movemos e temos nosso ser.”
Livre tradução do livro Pantheism and Christianity de John Hunt, 1884 . Capítulo VIII . Escolástica