Marina Colasanti faleceu aos 87 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro, em 28 de janeiro de 2025. Foi casada com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna, com quem compartilhou vida e literatura.
Marina Colasanti faleceu aos 87 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro, em 28 de janeiro de 2025. Foi casada com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna, com quem compartilhou vida e literatura.
Em 2023, tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra — um reconhecimento máximo à relevância de sua contribuição literária.
Palavras da autora
Em uma entrevista ao Museu da Pessoa, em 2008, ao ser questionada sobre o primeiro livro que leu, Marina respondeu:
“Não tenho, porque eu não tenho lembrança de ausência de livro. Eu sou de uma cultura leitora. [...] Uma casa sem livro pra mim é inconcebível. Eu nunca ganhei um primeiro livro, os livros estavam ao meu redor sempre. Quando eu não sabia ler, a minha mãe lia pra mim. Então depois é que eu aprendi a ler. É um contínuo. Não tem um momento que o livro entra, o livro sempre esteve.”
Escritora, contista, jornalista, tradutora e artista plástica ítalo-brasileira, Marina Colasanti nasceu em 26 de setembro de 1937, na cidade de Asmara, então colônia italiana na Eritreia. Ao longo de sua vida, publicou mais de setenta obras destinadas a públicos de todas as idades, consolidando-se como uma das vozes mais marcantes da literatura brasileira contemporânea.
Durante a infância, viveu em Trípoli, na Líbia, e também na Itália. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a crise europeia do pós-guerra, emigrou com a família para o Brasil em 1948, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Aos 16 anos, enfrentou a perda precoce da mãe.
Vinda de uma família ligada às artes — neta de um professor de artes e crítico, filha e irmã de atores e sobrinha-neta de uma cantora lírica —, Marina esteve sempre cercada por cultura e criatividade. Entre 1952 e 1956, estudou pintura com Caterina Baratelli e, posteriormente, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, formando-se como professora de desenho. Essa formação artística lhe permitiu ilustrar muitos de seus próprios livros.
Em 1962, iniciou carreira como jornalista no Jornal do Brasil, onde atuou durante onze anos como redatora, repórter, editora, colunista e cronista. Mais tarde, trabalhou na revista Nova, da Editora Abril, por dezoito anos. Nesse período, manteve-se paralelamente ativa como escritora.
Lançou seu primeiro livro, Eu Sozinha, em 1968. A partir de então, construiu uma obra vasta e diversa, com mais de setenta títulos publicados, entre poesia, contos, crônicas, literatura infantil e infantojuvenil. Muitas dessas obras foram traduzidas para outros idiomas e se tornaram objeto de estudo em universidades brasileiras e estrangeiras.
Entre seus livros mais conhecidos está Uma Ideia Toda Azul, vencedor do prêmio "O Melhor para o Jovem", da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Foi também premiada diversas vezes com o Prêmio Jabuti — nos anos de 1993, 1994, 1997, 2009, 2010, 2011 — e, em 2014, venceu na categoria Livro do Ano de Ficção com Breve História de um Pequeno Amor. Em 2010, foi reconhecida novamente pelo Jabuti com Passageira em Trânsito.
Em 2017, recebeu o 13º Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil, um dos mais prestigiosos da área.
Marina Colasanti se declarou feminista histórica e atuou intensamente em defesa dos direitos das mulheres. Fez parte do primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e, ao longo de vinte anos, trabalhou com temas ligados ao universo feminino, resultando em quatro livros que exploram a condição e a vivência das mulheres no mundo contemporâneo.
Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz életrônica
e pensa no mar.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.
1972
Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.
Às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam de trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.
Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho-d'água escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.
Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ou vento.
O sangue masculino
tinge as armas e
o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.
O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda da fêmea.
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.
Diz a lenda que o poeta
Li Po
afogou-se na noite em que
embriagado
quis agarrar a Lua
sobre o lago.
É lenda, bem se vê.
Pois a verdade é que
a Lua
teria seguido o poeta
a qualquer canto
se ele apenas a tivesse chamado.
Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
Você me acorda no meio da noite
e eu que navegava tão distante
cravada a proa em espumas
desfraldados os sonhos
afloro de repente entre as paradas ondas dos lençóis
a boca ainda salgada mas já amarga
molhada a crina
encharcados os pêlos
na maresia que do meu corpo escorre.
Cravam-se ao fundo os dedos do desejo.
A correnteza arrasta.
Só quando o primeiro sopro escapar
entre os lábios da manhã
levantarei âncora.
Mas será tarde demais.
O sol nascente terá trancado o porto
e estarei prisioneira da vigilia.