Sérgio Milliet da Costa e Silva (São Paulo, 20 de setembro de 1898 – São Paulo, 9 de novembro de 1966) foi um dos mais versáteis e influentes intelectuais brasileiros do século XX. Escritor, poeta, pintor, ensaísta, sociólogo, crítico de arte e literatura, tradutor e gestor cultural, Milliet teve papel central na modernização do pensamento artístico e literário no Brasil. Dirigiu a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, consolidando seu compromisso com a cultura e o acesso ao conhecimento.
Filho de pai português e mãe descendente de franceses, perdeu a mãe ainda na infância. Aos 12 anos foi enviado à Suíça, onde estudou humanidades em Genebra e concluiu o curso de ciências econômicas e sociais na Universidade de Berna. Viveu ali entre 1912 e 1920, período em que a Europa atravessava a Primeira Guerra Mundial. A neutralidade da Suíça atraiu muitos intelectuais europeus, e Milliet teve a oportunidade de conviver com importantes nomes da literatura e das artes plásticas.
Ainda na Europa, publicou seus primeiros livros de poesia em francês — Par le Sentier (1917) e Le Départ sous la Pluie (1919). De volta ao Brasil em 1922, inseriu-se rapidamente no meio artístico paulistano e participou da Semana de Arte Moderna. Embora ainda não dominasse bem o português escrito, apresentou-se com um poema em francês, lido por um amigo suíço.
Sérgio Milliet em sua mesa de diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo, nos anos 40
Seu perfil cosmopolita e sua experiência europeia fizeram de Milliet uma figura de ligação entre a intelectualidade brasileira e as vanguardas europeias. Foi influente na introdução das estéticas cubista e futurista na poesia nacional, com uma linguagem marcada pela ausência de pontuação, simultaneidade de imagens e versos elípticos, características notadas pelo crítico Leodegário A. de Azevedo Filho.
Milliet também se destacou como tradutor. Trouxe ao português obras fundamentais como Os Ensaios de Montaigne, As Relações Perigosas de Choderlos de Laclos e O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, além de ter traduzido e comentado a obra completa de Guy de Maupassant. É dele também a tradução dos clássicos Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, de Debret, e Viagem Pitoresca através do Brasil, de Rugendas.
Foi membro da Academia Paulista de Letras e seu legado é lembrado por meio de diversas homenagens, incluindo escolas que levam seu nome em várias regiões do país.
Brilhará a lua que não vejo
nas montanhas de minha terra?
Para que amores na serra
Brilhará a lua que não vejo?
Mais um dia longe, tão longe
que nem mesmo a intuição alcança
os gestos da dama ausente.
As sombras enchem os meus olhos
fechados para o presente.
Mais um dia longe tão longe
que nem mesmo o amor alcança
os gestos da dama ausente…
porque não tens olhos amantes
para te contemplarem esguia
dançando ao luar de maio,
um desafio brilha em teu olhar.
pés descalços na relva orvalhada,
queres ser livre e dançar,
não te iludas,
loucuras não libertam ninguém.
na comissura dos lábios
deixam um vinco de remorso e nojo;
de tristeza turvam-se os olhos
que desafiantes brilhavam.
antes apoia a tua mão na minha mão,
deixa que de ternura ela se aqueça
e a calma descerá no coração.
beiço de choro, insistes em dançar ao luar;
mas não entendem essa tua ânsia feminina
de transbordar da carne morena.
desafias inutilmente um mundo cego,
gente que não vê teu ventre magro.
desafias inutilmente um mundo distraído,
gente que não sente a doçura de tuas mãos,
a riqueza quente de teus lábios.
e um desafio brilha em teus olhos.
não te iludas,
não basta quebrar as cadeias
para alcançar a liberdade.
a uma prisão sucedem mil prisões:
a do vício, a do tédio, a do cinismo.
antes chega tua pele à minha pele,
e teus lábios entreabertos a meus lábios.
é pelo amor que te hás de libertar,
é para o amor que poderás dançar
ao luar.
quando tudo morrer dentro de ti
quando tudo se fizer adubo
para a semente que em dia raro de inocência
o destino semear em tua alma,
a planta do amor vingará
dançarás em êxtase ao luar,
para olhos porém de saber ver,
para boca de saber gostar,
para coração de comungar.
sem loucuras nem remorsos,
olhos límpidos e pés ligeiros,
serás livre enfim
na prisão que então escolherás.
Oh valsa latejante. . .
O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.
Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia
O espezinhamento usa batom
Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...
O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso
Oh valsa latejante...
A cidade tomou banho
Água suja do Tejo
A Torre de Belém
no poente decadente
sonha com impossíveis caravelas.
Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...
Eis o veneno, eis o punhal, que esperas?
O horror à terra, de repente,
o passo atrás,
o apego ao quadro, ao livro,
que sei mais!
O apego à própria miséria...
Há que buscar a solidão
entrar no reino do silêncio,
à espera,
à espera...
Mas ainda aí a nossa própria voz ecoa.
Não queremos confissão,
eu vos digo, porém,
em verdade vos digo:
existir, embora surdo,
olhos abertos, apenas, para a vida;
embora cego,
ouvidos atentos aos ruídos misteriosos;
embora mudo,
mãos ávidas em reconhecimento;
ainda que imóvel,
boca e narina percebendo
o gosto e o cheiro do mundo!
Existir...
Em que pese o absurdo!
Ainda as praias vos pertencem, e as ondas
enquanto a minha tarde já se finda,
eis que as horas se desencontram
na vida de nossos hemisférios.
Eu envelheço mais depressa do que vós
e vincado de amarguras já estou
quando a vossa jornada principia.
Vosso prazer, para que eu o sinta,
Terá de perturbar-me o sono,
e, ainda na tarefa diurna,
não percebereis o meu.
Minha solidão e a vossa também se ampliarão
até o soluço, o desespero, a lágrima,
sem que jamais nos aproxime a coincidência.
O cavalo cambaio dirige a caravana
Embaixo na estação o trem cospe um desafio
Calor calado e abafado
Cinza recente
A rua principal do delegado
Um cabo e um soldado para que o cabo possa ser cabo.
Estafetas viajantes andarilhos e cometas
no capilé da venda democrática
A farmácia dos corifeus coronelandos
A matriz morfética e o padre calabrês
e atrás da vila o catatraz da rápida caudal
Cartomancia dos jornais atrasadotes
O correio onde o guri brinca com as cartas registradas
O gado paciente na estrada de carmim
O cafezal tuberculose do Jangote
Os toros das queimadas
Os olhos das amadas
O ciciar da já saudade da cidade.
Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
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