Hermann Hesse - biografia
Pequenina borboleta
azul no vento esvoaça:
um tremor de madrepérola
flameja, reluz e passa.
Num átimo, num piscar
de olhos, eu vi assim
flamejante e reluzente
a sorte passar por mim.
Senta-se a Morte e vai pescando-nos da vida
com sua linha torpe, invisível e fina.
Não há truque ou esforço que nos valha mais:
ela tem paciência e uma isca que fascina.
Quem cai no seu anzol, pode cavar na areia
ou no lodo, ou tentar qualquer manha mesquinha:
senta-se a Morte nele, e não mais lá na beira.
Está perdido, mesmo que arrebente a linha.
Pode, numa escapada, no fundo revolto
longo tempo esconder-se ainda com medo dela:
para finar-se, está completamente solto.
Nada tem gosto mais: o anzol pegou na goela.
Turvou-se de repente o vinho no meu copo,
fatigado sentei-me e pus-me a olhar o chão:
senti branco o cabelo e vago o coração.
Riam alto os amigos, bêbados, no salão.
Veio à janela a amiga de minha juventude:
a Lua, a dilatar o saguão com seu brilho,
reluzindo em meu copo e nas lágrimas minhas.
Cantavam e berravam, bêbados, meus amigos.
Hora após hora eu ando agora, e em minhas faces
em fogo sinto os ventos de um distante verão;
vocalizo canções de quando era rapaz,
penso na pátria — e sei que não a encontro mais.
Às vezes quando me deito
e meus olhos se fecham,
com a chuva batendo na cornija
os seus dedos molhados,
tu vens a mim,
esguia corça hesitante,
dos territórios do sonho.
Então andamos ou nadamos ou voamos
por entre bosques, rios, bandos de animais,
estrelas e nuvens com tintas de arco-íris:
tu e eu, a caminho da terra de origem,
rodeados de mil formas e imagens do mundo,
ora na neve, ora ao fogo do sol,
ora afastados, ora muito juntos
e de mãos dadas.
Pela manhã o sono se dissipa,
afunda dentro de mim,
está em mim e já não é mais meu:
começo o dia calado, descontente e irritadiço,
porém algures continuamos a andar,
tu e eu, rodeados de coleções de imagens,
a interrogar-nos entre os encantos da vida
que nos embroma sem saber mentir.
In.Crises, 1928
Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
- fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
- rochas, mundo estelar, jóias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.
Como emurchece toda flor, e toda idade
juvenil cede à senil – cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.
A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.
Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
- quer que cresçamos, subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomodamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.
Só quem se dispõe a partir e a ir em frente
pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te, coração!
O POETA E SEU TEMPO
Fiel a imagens eternas, firme na contemplação,
tu estás pronto para o ato e para o sacrifício;
falta-te ainda, no entanto, um tempo desassombrado
de ofício e púlpito, confiança e autoridade.
Há de bastar-te, num posto perdido,
ante o deboche do mundo, compenetrado da fama que tens,
renunciando ao brilho e aos prazeres do mundo,
guardar aqueles tesouros que não azinhavram nunca.
Não te faz mal a zombaria das feiras,
enquanto ouves a voz sagrada, ao menos:
se ela entre incertezas cala, te sentes um renegado
do próprio coração – feito um bobo na terra.
Pois é melhor, por uma realização futura,
servir sofrendo, ser sacrificado,
do que ter grandeza e reino pela traição
ao sentido do teu sofrer – tua missão.
Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
A sabedoria e a virtude, a seu tempo,
Florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
Estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
Para, com coragem e sem lágrimas se
Dar a outras novas ligações. Em todo
O começo reside um encanto que nos
Protege e ajuda a viver
Serenos transpunhamos o espaço após espaço,
Não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
Sermos corrente ou parada não quer o
espírito do mundo
Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
Íntimos, ameaça-nos o torpor;
Só aquele que está pronto a partir e parte
Se furtará à paralisia dos hábitos.
Talvez também a hora da morte
Nos lance, jovens, para novos espaços,
O apelo da Vida nunca tem fim ...
Vamos, Coração, despede-te e cura-te!
In. O jogo das contas de vidro.
Já a noite cai, descansa a rua.
Em sonolenta pulsação
o rio vai, com suas águas indolentes,
rumo à calada escuridão.
Resmunga ele, no seu leito fundo,
tão contrafeito, pesado e rouco,
como se só quisesse repousar;
igual a ele, fatigado eu vou.
Atravessar a noite e terra estranha
é um penoso arrastar-se de um e outro:
silente e imóvel peregrinação
a dois, sem que nenhum saiba para onde.
No vinho ou entre amigos, de ti eu fugia,
pois do teu olho escuro eu sentia pavor:
ingrato filho teu, assim eu te esquecia
ao toque do alaúde e nos braços do amor.
Com toda a discrição, no entanto, me seguias:
sempre estavas no vinho que eu tonto bebia
e no mormaço das minhas noites de amor
e no desdém com que eu a ti me referia.
Agora me refrescas os membros cansados
e tens minha cabeça em teu colo macio,
para o regresso das minhas longas viagens
— pois a ti me traziam todos os meus desvios.
Lobo da estepe, vou eu trotando, trotando.
O mundo cobre-se todo de neve.
De uma bétula, sai voando um corvo;
mas em nenhum lugar se vê uma lebre,
não se vê uma gazela.
Com as gazelas sou tão delicado,
ah, se uma aparecesse!
Tomá-la-ia nas garras, nos dentes:
não há coisa mais linda.
Aos mansos, mostro o meu bom coração:
em seus tenros pernis enterraria suavemente os dentes,
e o sangue claro eu iria sorvendo até mais não poder,
para ficar depois a noite inteira uivando em solidão.
Uma lebre já me contentaria:
mornas carnes de gosto doce à noite.
— Mas será que de mim se esconde tudo
que torna a vida um pouco mais bonita?
Em minha cauda o pelo já branqueia
e eu já não tenho a vista tão certeira;
faz anos que morreu-me a companheira.
Agora vou eu trotando e sonhando com gazelas,
vou eu trotando e sonhando com lebres,
ouvindo o vento a zunir na noite de inverno;
engulo neve, a ver se a goela me acalma,
e vou seguindo com o diabo na alma.
Entristece o jardim.
Fria nas flores a chuva cai.
O verão se arrepia
em silêncio diante do seu fim.
Pétala a pétala goteja em ouro
do alto pé de acácia.
O verão ri abatido e perplexo
no sonho do jardim em agonia.
A prolongar-se ainda junto às rosas,
ele espera, de pé, pelo repouso,
e os grandes olhos fatigados vai
entrecerrando aos poucos.
Eu sabia que ser amado não é nada, mas amar é tudo. E pensei ter visto cada vez mais claramente que o que torna a existência valiosa e agradável são os nossos sentimentos e a nossa sensibilidade. Onde quer que ele tenha visto algo que pudesse ser chamado de “felicidade”, era feito de sentimentos. O dinheiro não era nada, nem o poder. Vi muitos que tinham ambos e estavam infelizes. A beleza não era nada; Vi homens e mulheres lindos, que apesar de toda a sua beleza eram infelizes. A saúde também não contava muito. Todos estavam tão saudáveis quanto se sentiam; Houve doentes que transbordaram de vitalidade até pouco antes do fim, e pessoas saudáveis que murcharam, angustiadas pelo medo do sofrimento. A felicidade, porém, sempre esteve presente onde um homem tinha sentimentos fortes e vivia para eles, sem reprimi-los ou violá-los, mas cuidando deles e desfrutando deles. A beleza não fazia feliz quem a possuía, mas sim quem sabia amá-la e venerá-la.
Aparentemente havia sentimentos muito diferentes, mas no fundo eram todos iguais. Qualquer um deles pode ser chamado de testamento ou qualquer outra coisa. Eu chamo isso de amor. Felicidade é amor e nada mais. Quem é capaz de amar é feliz. Cada movimento da nossa alma em que ela se sente e sente a vida é amor. Portanto, feliz é aquele que ama muito. No entanto, amar e desejar não são exatamente a mesma coisa. O amor é o desejo transformado em sabedoria; o amor não quer possuir, só quer amar. É por isso que o filósofo que influenciou o seu amor pelo mundo numa rede de pensamentos e que o envolveu repetidamente com a sua rede amorosa também foi feliz. Mas eu não era um filósofo.
Obstinação
Herman Hesse
Eu sei por que isso acontece. Não é o vinho que bebi ontem, nem o fato de ter dormido em uma cama ruim, nem o tempo chuvoso. Alguns demônios apareceram e desafinaram uma a uma todas as cordas do meu ser.
O medo voltou, o medo dos pesadelos infantis, das histórias, do destino dos alunos. O medo, o assédio do inalterável, a melancolia, o tédio. Como o mundo é monótono! Que horrível ter que acordar amanhã, comer de novo, viver de novo! Por que deveríamos viver? Por que o homem é tão tímido e bem-humorado? Por que não ficamos deitados no mar há muito tempo?
A grama nem cresceu. Você não pode ser um vagabundo e um artista e, ao mesmo tempo um burguês saudável e são. Se você quer embriaguez, aceite a ressaca também! Se você quer sol e lindas fantasias, aceite também a sujeira e o tédio! Está tudo dentro de você, o ouro e o barro, a alegria e a tristeza, o riso infantil e a angústia moral. Aceite tudo, não se preocupe com nada, não tente evitar nada! Você não é burguês, não é grego, não é harmonioso e senhor de si, é um pássaro no meio de uma tempestade. Deixe-a rugir! Deixe-se levar! Quanto você mentiu! Quantas milhares de vezes, mesmo em seus livros e poesias, você fingiu ser o harmonioso e sábio, o feliz, o iluminado! Eles podem ter fingido ser heróis ao atacar na guerra, enquanto suas entranhas tremiam! Meu Deus, como o homem é macaco e arrogante, especialmente o artista, especialmente o poeta, especialmente eu!
O CAMINHANTE
Hermann Hesse
Cada pessoa tem sua alma e não pode misturá-la à de mais ninguém. Duas pessoas podem se encontrar, conversar e estar próximas uma da outra. Mas suas almas são como flores, cada uma enraizada em seu lugar.
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode.
A única realidade é aquela que se contém dentro de nós, e se os homens vivem tão irrealmente é porque aceitam como realidade as imagens exteriores e sufocam em si a voz do mundo interior.
E sempre é bom termos consciência de que dentro de nós há alguém que tudo sabe, tudo quer e age melhor do que nós mesmos.