Trovadorismo: de 1189 ou 1198 (data do primeiro texto conhecido como Cantiga da Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós) até 1418, com a nomeação de Fernão Lopes como Guarda Mor da Torre do Tombo.
O trovadorismo galego-português foi um movimento literário e poético medieval, cujo apogeu, de cerca de 150 anos, vai, genericamente, de finais do século XII a meados do século XIV. É considerado o primeiro estilo de literatura em língua portuguesa, pois dele surgiram as primeiras manifestações literárias.As cantigas são os principais registos da época, tradicionalmente divididas em cantigas de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer. Este género textual é contemporâneo da chamada Reconquista Cristã, da qual existem numerosas marcas, e foi comum nos reinos da Galiza, de Portugal, de Castela e de Leão (estes dois últimos uniram-se em 1230), áreas que na época tinham uma geografia muito volátil, fruto das lutas entre si.Este movimento literário, apesar de ser bastante característico de Portugal, tem origens na Occitânia, no Sul de França, de onde se espalhou pela Europa.São admitidas quatro teses fundamentais para explicar a origem do trovadorismo:
a tese arábica, que considera a cultura arábica como sua velha raiz;
a tese folclórica, que a julga criada pelo próprio povo;
a tese médio-latinista, segundo a qual essa poesia teria origem na literatura latina produzida durante a Idade Média
a tese litúrgica, que a considera fruto da poesia litúrgico-cristã elaborada na mesma época.
Todavia, nenhuma das teses citadas é suficiente em si mesma, deixando-nos na posição de aceitá-las conjuntamente, a fim de melhor abarcar os aspectos constantes desta poesia.
A mentalidade da época baseada no teocentrismo serviu como base para a estrutura da cantiga de amigo, em que o amor espiritual e inatingível é retractado. As cantigas, primeiramente destinadas ao canto, foram depois manuscritas em cadernos de apontamentos, que mais tarde foram postas em colectâneas de canções chamadas Cancioneiros (livros que reuniam grande número de trovas). São conhecidos três Cancioneiros galego-portugueses: o "Cancioneiro da Ajuda", o "Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa" (Colocci-Brancutti) e o "Cancioneiro da Vaticana". Além disso, há um quarto livro de cantigas dedicadas à Virgem Maria pelo rei Afonso X de Leão e Castela, O Sábio. Surgiram também os textos em prosa de cronistas como Rui de Pina, Fernão Lopes e Gomes Eanes de Zurara e as novelas de cavalaria, como a demanda do Santo Graal.
Trovadores eram aqueles que compunham as poesias e as melodias que as acompanhavam, e cantigas são as poesias cantadas. A designação "trovador" aplicava-se aos autores de origem nobre, sendo que os autores de origem vilã tinham o nome de jogral, termo que designava igualmente o seu estatuto de profissional (em contraste com o trovador). Ainda que seja coerente a afirmação de que quem tocava e cantava as poesias eram os jograis, é muito possível que a maioria dos trovadores interpretasse igualmente as suas próprias composições.
O cavalheiro dirige-se à mulher amada como uma figura idealizada, distante. O poeta, na posição de fiel vassalo, põe-se a serviço de sua senhora, dama da corte, tornando esse amor em um sonho, distante, impossível. Mas nunca consegue conquistá-la, porque eles pertencem a diferentes níveis sociais.
Neste tipo de cantiga, originária de Provença, no sul de França, o eu-lírico é masculino e sofredor. Sua amada é chamada de senhor (as palavras terminadas em or como senhor ou pastor, em galego-português não tinham feminino). Canta as qualidades de seu amor, a "minha senhor", a quem ele trata como superior revelando sua condição hierárquica. Ele canta a dor de amar e está sempre acometido da "coita", palavra frequente nas cantigas de amor que significa "sofrimento por amor". É à sua amada que se submete e "presta serviço", por isso espera benefício (referido como o bem nas trovas).
Essa relação amorosa vertical é chamada "vassalagem amorosa", pois reproduz as relações dos vassalos com os seus senhores feudais. Sua estrutura é mais sofisticada.
São tipos de Cantiga de Amor:
Cantiga de Meestria: é o tipo mais difícil de cantiga de amor. Não apresenta refrão, nem estribilho, nem repetições (diz respeito à forma.)
Cantiga de Tense ou Tensão: diálogo entre cavaleiros em tom de desafio. Gira em torno da mesma mulher.
Cantiga de Pastorela: trata do amor entre pastores (plebeus) ou por uma pastora (plebeia).
Cantiga de Plang: cantiga de amor repleta de lamentos.
Exemplo de lírica galego-portuguesa (de Bernardo de Bonaval)
Nuno Fernandes Torneol
São cantigas de origem popular, com marcas evidentes da literatura oral (reiterações, paralelismo, refrão, estribilho), recursos esses próprios dos textos para serem cantados e que propiciam facilidade na memorização. Esses recursos são utilizados, ainda hoje, nas canções populares.
Este tipo de cantiga, que não surgiu em Provença como as outras, teve as suas origens na Península Ibérica. Nela, o eu-lírico é uma mulher (mas o autor era masculino, devido à sociedade feudal e o restrito acesso ao conhecimento da época), que canta seu amor pelo amigo (isto é, namorado), muitas vezes em ambiente natural, e muitas vezes também em diálogo com sua mãe ou suas amigas. A figura feminina que as cantigas de amigo desenham é, pois, a da jovem que se inicia no universo do amor, por vezes lamentando a ausência do amado, por vezes cantando a sua alegria pelo próximo encontro. Outra diferença da cantiga de amor, é que nela não há a relação Suserano x Vassalo, ela é uma mulher do povo. Muitas vezes tal cantiga também revelava a tristeza da mulher, pela ida de seu amado à guerra.
São características principais das Cantigas de Amigo:
Eu lírico feminino.
Presença de paralelismos.
Predomínio da musicalidade.
Assunto Principal: saudade
Amor natural, espontâneo e possível.
Ambientação popular rural ou urbana.
Influência da tradição oral ibérica.
Deus é o elemento mais importante do poema.
Pouca subjetividade.
Exemplo (de D. Dinis)
(...)
Em cantiga de escárnio, o eu-lírico faz uma sátira a alguma pessoa. Essa sátira era indireta, cheia de duplos sentidos. As cantigas de escárnio definem-se, pois, como sendo aquelas feitas pelos trovadores para dizer mal de alguém, por meio de ambiguidades, trocadilhos e jogos semânticos, em um processo que os trovadores chamavam "equívoco". O cômico que caracteriza essas cantigas é predominantemente verbal, dependente, portanto, do emprego de recursos retóricos. A cantiga de escárnio exigindo unicamente a alusão indireta e velada, para que o destinatário não seja reconhecido, estimula a imaginação do poeta e sugere-lhe uma expressão irônica, embora, por vezes, bastante mordaz.
Características:
Crítica indireta; normalmente a pessoa satirizada não é identificada.
Linguagem trabalhada, cheia de sutilezas, trocadilho e ambiguidades.
Ironia.
Exemplo de cantiga de escárnio.
Ao contrário da cantiga de escárnio, a cantiga de maldizer traz uma sátira direta e sem duplos sentidos. É comum a agressão verbal à pessoa satirizada, e muitas vezes, são utilizados até palavras de baixo calão (palavrões). O nome da pessoa satirizada pode ou não ser revelado.
Características principais:
Crítica direta; geralmente a pessoa satirizada é identificada
Linguagem agressiva, direta, por vezes obscena
Zombaria
Linguagem Culta
Exemplo de cantigas
João Garcia de Guilhade
Este texto é enquadrado como cantiga de escárnio por a sátira ser indireta e não se citar o nome da pessoa específica. Mas, se o nome fosse citado ela seria uma Cantiga de Maldizer, pois contém todas as características diretas como sátira da "Dona".
Existe a suposição de que Joan Garcia escreveu a cantiga a uma senhora que reclamava por ele não ter escrito nada em homenagem a ela. Joan Garcia de tanto ouvi-la dizer, teria produzido a cantiga.
Ricardo I de Inglaterra
Guilherme IX da Aquitânia
Afonso Sanches
Pedro III de Aragão
Dinis I de Portugal
Nuno Fernandes Torneol
Pedro Afonso, conde de Barcelos
Aires Corpancho
Airas Nunes
Bernardo Bonaval
João Garcia de Guilhade
João Soares de Pávia
João Zorro
Paio Gomes Charinho
Paio Soares de Taveirós (Cantiga da Garvaia)
Meendinho
Martim Codax
Fernão Rodrigues de Calheiros