Aline de Oliveira Cláudio - biografia
Essa foi a frase que escutei em um vídeo, encaminhado por minha mãe, poeta, provavelmente desde o ventre de minha avó, sua mãe. E se essa máxima for verdade, então meu filho, de quase 2 anos, provavelmente se mostra um dos maiores e mais importantes poetas do século XXI. Milo vê tudo. Vê o avião lá em cima, no alto, passando entre as nuvens. Tão pequenininho, que eu, com meus poucos graus de miopia, mas com a prescrição em dia dos óculos, não percebi. Paro e observo. Quase nem vejo. Mas quando vejo, também percebo que as nuvens, que estão logo ali, bem na minha frente, têm um ar imponente, mas amigáveis. Logo depois, Milo, com a atenção de um peixinho dourado, se impressiona com uma manchinha no vidro, tão minúscula, que eu, com minha mania de limpeza, deixei passar. Coloca o dedinho em cima e diz “olha, mama!” Meu instinto é pegar um paninho para tirar aquela mancha teimosa. Aquela manchinha e Milo compartilham da quase mesma teimosia. Cheia de si, a mancha me enfrenta: “Tá vendo? Você me ignorou, mas finalmente alguém me notou! É preciso uma delicadeza na alma para alguém ver o quão interessante posso ser”. Escutei o desabafo com educação, mas logo depois, dei um fim a ela. Talvez eu, que me sinto tão empática com problemas alheios, não tenha tanta empatia assim por manchas minúsculas e teimosas.
Minutos depois, Milo me mostra uma sujeirinha no sofá. Essa, ele conhece muito bem, afinal é um quase microscópico farelo de pão que ele mesmo deixou cair ali. Depois de chamar minha atenção, pega com seus dedinhos, tão pequenininhos e grudentos de um resto de laranja comida há minutos, vai até o lixo da cozinha, abre o lixo e o joga lá. Bate palma, olha sério para mim e vai procurar algo que nem ele mesmo sabe o que é. Olho para o lado e o farelo continua ali, no sofá, bem tranquilo, ao estilo de “nada me abala”. Ignoro, afinal, olho mais à frente e vejo que, escondido em baixo da almofada laranja, que Milo já reivindicou para si mesmo, e há de quem se encoste nela, há uma congregação de farelos. Tenho duas opções: me levantar e buscar o aspirador de pó para limpar aquele grupinho, ou ir atrás de Milo, que, na sua motoquinha azul e desconhecendo limites de velocidade, vai até meu quarto. No caminho, Milo para para reclamar que há algo em seu pé. Levanta o pé, e para minha surpresa, é um pedacinho de macarrão fusili cozido, mas já seco, com molho de tomate. Chances enormes de que ele tenha escapado da fúria do apetite de Milo no jantar de ontem à noite. Milo estende o pé e diz - Tira, mamãe! - ou pelo menos essa é a tradução simultânea que faço, porque, na verdade, não tenho ideia do que ele diz. Tiro, e ele resolve que não vale a pena ir até o quarto. Volta com sua motoquinha modelo desconhecido, fabricação chinesa, para a sala. Lá vou eu atrás. Milo pega o bloquinho de construção para montar uma torre que ele mesmo constrói e destrói segundos depois. Milo não para. Sobe no sofá, desce do sofá, sobe na caixa que já falei 25 vezes para subir, quebra a caixa, cai, chora, vem para o meu colo, sai do meu colo. E eu, sentada no chão, noto a sujeira embaixo do sofá e não consigo me lembrar da última vez que o arrastei para limpar.
Milo olha para a foto dele e do pai no porta-retrato atrás de mim e diz “Papá!”. Olha para a janela, para o céu, para a nuvem lá em cima, que agora parece nervosa e a ponto de explodir. Outro avião! Me mostra. O avião desaparece, Milo vê o trenzinho do outro lado da sala e vai em direção a ele. E eu, sentada ao lado do vidro, vejo uma manchinha. A mesma manchinha teimosa. Pensava que tinha acabado com sua farra. De repente, me sinto culpada. De repente, aquela manchinha se torna algo mais importante para mim. Me faz lembrar de Milo e de como, com seus quase dois anos, me faz ver o mundo de uma maneira completamente diferente. Me faz desacelerar, mesmo quando Milo é sinônimo de pura aceleração.
Aquela manchinha deveria ser agradecida a Milo. Milo a descobriu, a fez ser vista e, graças a Milo, ela vive. Mas só até eu comprar um limpa-vidros.
Texto em destaque na página 15, da 69a. revista Ponto & Vírgula (outubro/novembro/dezembro/2024)
Foi durante meu primeiro dia em Dublin que algo atraiu, fortemente, minha atenção.
Não foi o frio, nem a paisagem cinza e dramática do inverno, nem o sotaque extremamente carregado dos irlandeses. Foram portas. Portas extremamente coloridas. Esses objetos inanimados acabaram virando uma espécie de vício para mim: fotografar todas as que eu encontrava. Era uma espécie de caça às melhores portas.
A história de como acabaram surgindo em Dublin é, no mínimo, intrigante. Data-se dos anos 1700 quando a capital irlandesa vivenciava o período Georgiano (1714 – 1830). A época que além de introduzir e descrever os estilos arquitetônicos dos edifícios da cidade, também trouxera o início do reinado de Jorge I da Grã-Bretanha. Dublin entrava em um período de prosperidade, vindo a se tornar a segunda maior cidade do Império Britânico, até então, após Londres. Com a cidade crescendo cada vez mais rica, o estilo elegante na arquitetura acompanhava a boa maré. Novas casas de modelo Georgiano eram construídas e desenvolvidas. A cidade, até então, de aspecto medieval começou a receber ordens restritas sobre como deveriam ser suas novas medidas e estilos de casas e edifícios.
Com isso a cidade foi sendo redesenhada com a mesma fachada em todos os locais, trazendo, para muitos, uma ideia de falta de personalidade. No entanto, com o passar do tempo, os moradores começaram a buscar maneiras de deixar seus lares com diferentes aspectos, quebrando as regras que haviam sido impostas. As portas foram a maneira que encontraram de demonstrar que pessoas diferentes possuíam personalidades diferentes e, sendo assim, portas diferentes. Portas extremamente coloridas começaram a ser pintadas, além de possuírem ornamentos como novos batentes e pequenas janelas, sobre elas.
Hoje, as portas de Dublin além de contarem uma parte da história irlandesa, nos ensinam que para nos destacarmos em meio à multidão, a personalidade é o que nos faz ir além.
Crônica de Aline de Oliveira Cláudio, páginas 10 e 11, da 18a. Antologia Ponto & Vírgula - Poemas, Contos e Crônicas, lançada dia 18 de dezembro de 2021, no Hotel Nacional em Ribeirão Preto.
Editora FUNPEC
Coordenadora: Irene Coimbra
Olhei meu celular e vi a mensagem de meu amigo, no WhatsApp: "Você vai estar aqui no dia 19 para irmos no casamento?" A minha primeira reação foi negar o convite, mas depois de alguns minutos, resolvi que não poderia perder a oportunidade.
Príncipe Harry sempre fora o meu "preferido". Agora ele estava prestes a casar com uma atriz norte-americana linda e simpática e eu, que sempre tive fascínio pela história da Família Real Britânica estava prestes a presenciar um casamento real.
O casamento começaria ao meio-dia horário do Reino Unido. Às 05:00 eu já estava de pé, no ponto de ônibus, esperando o número 65 que me levaria até a estação de trem. De lá partiríamos para Windsor, 35 km de Londres.
Logo na estação já se notava que aquele sábado não seria como qualquer outro de costume. No trem lotado, mulheres com fascinatos (uma espécie de tiara com um pequenino chapéu, feito de seda, laços ou redes, frequentemente usados por mulheres Cristãs, em batizados e especialmente, em casamentos no Reino Unido).
Outros vestiam roupas com a bandeira do Reino Unido estampada, e havia corajosos que usavam blazers, apesar de a previsão do tempo acusar que a temperatura chegaria aos 26o.C.
Podia-se notar a felicidade das pessoas em poder presenciar o momento histórico: um príncipe real britânico, casando-se com uma atriz norte-americana, divorciada, filha de uma negra.
Enfim chegamos a Windsor, uma cidade de 30 mil habitantes que estava prestes a receber 100 mil pessoas.
Apesar de tantas pessoas, tudo corria bem, com segurança triplicada e organização impecável. Garrafas de água sendo entregues, gratuitamente, assim como bandeirinhas do Reino Unido, coroas de papel e um folheto explicando como seria a cerimônia.
Encontramos um lugar para sentar perto da cerca que separava o público, ao lado do portão dos fundos do castelo, onde a futura Duquesa de Sussex passaria com sua mãe para chegar a Capela de St. Georges.
Ao meio-dia, estávamos preparados e ela então, dentro de um carro antigo, preto, seguidos por outros carros, passou como um jato. Foi o primeiro momento que pudemos ver a duquesa. Telões foram instalados para que o público pudesse assistir ao casamento. Enquanto assistíamos, uma senhora simpática que trabalhava na organização, oferecia protetor solar a nós e aos que estavam próximos. Resolvi que não aceitaria já que estava vidrada no telão. Um sol de 26oC não faria nada a uma Ribeirãopretana acostumada ao calor de 35oC.
A cerimônia, linda e tocante, só me fazia ficar ainda mais ansiosa pelo momento em que os recém-casados, passariam por nós, em sua carruagem.
O público que chacoalhava bandeiras, foi ao delírio com o "I Do!" ("Aceito") dos noivos, entoando um coro com o hino do Reino Unido "God Save the Queen".
Finalmente, chegava a hora de presenciar o Duque e a Duquesa de Sussex passando por nós. E lá estavam eles, em uma carruagem, lindos, como um conto de fadas. Vê-los tão perto me teletransportou à minha infância quando lia sobre a Família Real nas aulas de Inglês, e quando vi aquele menino ruivo, tão novinho, no velório de sua mãe, a eterna adorada Diana.
Ele estava casado, e eu, agora, era parte deste dia histórico.
Deste dia trouxe comigo um sonho realizado, um nariz vermelho queimado de sol e um ensinamento: use filtro solar.
Antologia Ponto & Vírgula - No. 13 - Pág. 6
Editora FUNPEC
Coordenação de Irene Coimbra
Diana era a caçula de três irmãos. O mais velho, casado há dois anos, adorava se gabar, sempre em tom de brincadeira, como não ajudava sua esposa, Isabela, nos afazeres domésticos. "Casar foi o melhor negócio que fiz. Comprei uma, levei três: mulher, empregada e contadora!"
Isabela trabalhava o dia todo em um escritório de contabilidade. Mais uma das milhares de mulheres que fazem dupla jornada.
O do meio, separado há um ano, possuía ódio mortal da ex-esposa, Elaine. Separaram-se porque Elaine havia descoberto a traição do marido, levando com ela o filho do casal, de seis meses.
- VAGABUNDA! - desligou o celular. - Perguntou se eu posso ficar com o menino na quinta-feira. Tem uma palestra? Mentirosa!
- Talvez tenha mesmo. - disse Diana.
- Você é imbecil? Claro que não tem! Quer é mandar o menino para cá para ficar com macho.
- Ele é seu filho. Faz três meses que você não o vê. Tal-vez seja uma coisa boa ficar com o menino.
- Vaza, vai! Não estou a fim de lição de moral!
- Isso que dá arrumar vagabunda! - gritou o pai, da sala.
- Safada! - completou a mãe.
Escutar sua família se referindo às mulheres, daquela maneira, era algo trivial. A maioria de seus colegas de sala, do curso de Engenharia, também partilhavam das mesmas piadas que seus irmãos. Certa vez, no intervalo entre aulas, escutou um deles se gabando sobre quantas virgindades havia tirado. "Virgem é a melhor coisa. Quando eu casar, só se for com virgem! Pura!”
Em uma sexta-feira de março, o irmão mais velho chegou em casa transtornado.
- Fiz uma besteira, mãe, bati na Isabela. - disse com lá-grimas nos olhos.
- Ah, meu filho! Por quê?
- Eu tinha tomado umas antes de ir para casa. Quando cheguei, ela falou que ia sair para tomar sorvete com uma amiga. Disse que não havia feito janta, mas que tinha comprado uma pizza. Nossa, fiquei puto! Quando vi, já tinha ido para cima, apontando meu dedo na cara dela. Dei um tapa, foi sem pensar!
- Ai, filho. Tem que ficar calmo.
Ouvindo a conversa, ligou para a cunhada.
- Oi querida! Fiquei sabendo o que aconteceu. Você está bem?
- Seu irmão é um louco!
- Começo a acreditar que sim. Você precisa de algo?
- Não, Di. Obrigada por ligar!
Há 23 anos convivia com aqueles três homens. Eram as pessoas que ela mais conhecia e as que menos entendia. Não se sentia confortável em sua própria casa.
- Mãe, você não se cansa da maneira como o pai e os meninos falam das esposas, das mulheres em geral?
- Como assim?
- Sempre tem um “vagabunda” no meio ou qualquer outro xingamento.
- Não, amor, você não entendeu nada. Tem muita mulher tranqueira por aí.
- Homem também. Mas por que então eles não xingam os caras?
- Que isso? Que papo é esse, filha? Não vai me falar que você é uma dessas “tal de feminista”!
- Mãe...
- Chega, vem me ajudar a fazer a janta.
Enquanto ajudava a fazer o jantar, Diana foi a primeira pessoa que seu pai viu, ao abrir a porta.
- Oi, minha princesa!
- Oi pai! E o trabalho?
- Ai filha, a Marcela, a vadia da minha chefe mosca-morta, disse que o projeto não foi aprovado.
- Querido, vamos tentar não usar palavrões dentro de casa? - disse a mãe.
- Ih, quem é você para me dizer o que eu posso ou não falar?
- Pai... (não estava espantada com a resposta grosseira de seu pai à sua mãe. Era uma situação comum aquela) - tente não usar esse tipo de vocabulário para se dirigir a nós mulheres, por favor.
- A nós mulheres? - debochou o irmão mais velho.
- Minha princesa, não fale “a nós mulheres”. Não estou xingando você, nem sua mãe. Você é meu amor, sabe disso! É minha princesa e eu te amo! Você é minha Didi!
- Sim, pai. Também te amo! Eu sou a Diana... também sou Elaine, Isabela, Dora, Marcela e tantas outras. Sou todas elas, sou uma só. Sou sua filha, sou a filha dos outros. Mereço respeito, pai! Elas merecem, pai! Posso ser a dita vadia de alguém, enquanto sou sua princesa. Posso levar, de um homem, um tapa na cara enquanto recebo um abraço seu. Posso ser a mulher estuprada e assassinada na manchete do jornal, na seção policial. Não me deixe ser, pai. Não propague o ódio às mulheres. Nos ajude a combater o feminicídio!
- Diana, você está louca! - disse o pai visivelmente irritado.
- Tô vendo que a Didi tá precisando de um p*, pai! - provocou o irmão do meio.
“Quando um homem dá sua opinião, ele é um homem. Quando uma mulher dá a sua, ela é uma vadia” - Bette Davis, atriz.
O sol, na capital inglesa, se despede por volta das 15:45. Faz frio, venta e chove. Uma das cidades mais ricas do mundo também sofre com milhares de moradores de rua.
Para muitos, dezembro é o mês mais esperado do ano. Pode-se sentir o espírito natalino em quase todos os lugares. As ruas estão enfeitadas com luzes pisca-pisca, músicas natalinas são ouvidas em repetição, nas lojas e supermercados. Floristas expõem seus belos pinheiros de Natal para compra. Dezembro é um mês de amor, felicidade e... tristeza.
Quarta-feira, 20h. O aplicativo no celular mostra a temperatura de 3 graus. Um casaco quente, um suéter de lã e uma malha quase não são o bastante para aquela temperatura. E ainda assim, dezembro não é o mês mais frio do ano.
Quatro jovens se aproximam, agacham e começam a conversar com um morador de rua que aparenta mais de 70 anos, com aparência muito cansada, sujo e visivelmente embriagado. "Como tem passado, Lou?" - um dos rapazes pergunta. O homem, ainda deitado em sua cama de papelão, responde: "Nada mal e você?" e, rapidamente, já pergunta: “O que trouxeram hoje?” Uma das moças responde: “Sopa de lentilha e pão com queijo, Lou!”
O homem balbucia e, enquanto tosse, se levanta e aperta carinhosamente a mão da moça num gesto de agradecimento.
Lou, que servira o exército, agora vive na rua, sozinho. Sem contato com a família que vive no norte da Inglaterra, diz que “se perdeu” quando voltou da Guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, quando o Reino Unido lutou ao lado do Irã. Depois de meses no campo de batalha, e uma bala atravessada no braço, encontrou no álcool e na cocaína o alívio que precisava para seus dias. Não conseguia mais se encaixar em nenhum emprego. Deprimido e sem o apoio da família, resolveu sair sem rumo. Mais de 20 anos depois, tem naquele meio metro quadrado, há poucos metros da estação de Ealing Broadway, no oeste de Londres, sua casa.
O sotaque carregado e a fala arrastada quase o fazem ininteligível.
Aquela noite é a primeira noite que uma das moças sai com o grupo para entregar sopa e comida para os moradores em situação de rua. Ela não entende o porquê ninguém diz a Lou que ele precisa parar de beber. Nenhum dos três jovens presentes o repreende. Oferecem água, chá preto com leite, sopa de lentilha, pão com queijo e duas tortinhas de frutas secas (tradicional durante o período de Natal). Após, mais ou menos 20 minutos de conversa, se despedem de Lou que agradece e diz: “Até sexta!”
Um dos moços diz que há previsão de chuva fina em meia-hora. Apressam-se para o próximo destino. Durante aquela noite, os jovens visitam mais quatro moradores de rua que ainda não são conhecidos do grupo. Um romeno em seus 30 anos, um inglês de 55 anos - ou ele “imagina que seja”, um refugiado sírio de 33 anos e um nigeriano que diz “estar nessa terra há alguns anos”.
Todos eles têm algum tipo de álcool entre seus pertences. Todos estão sozinhos e visivelmente cansados. Todos estão equipados com sorrisos e palavras de agradecimento.
Após o último “rough sleeper” (como são chamadas as pessoas que vivem e dormem nas ruas), o grupo se despede e cada um volta para sua casa onde há uma cama quente e um aquecedor ligado.
Depois de conhecer Lou e mais quatro pessoas naquela noite de quarta-feira de 3 graus, aprendi algo óbvio: o meu NÃO julgamento é uma das grandes coisas que posso oferecer a esse mundo.
Quando se está sozinho na rua, há tanto tempo, sem família, documentos, dinheiro, quando se perdeu tudo, a felicidade, a esperança, quando está frio e só tem um cobertor, uma garrafa de sopa de lentilha e uma tortinha, o que menos se precisa é de um grupo de jovens dizendo que não se pode beber.
Não há como sentir o vento gelado e não pensar nessas milhares de pessoas. Não há mais como dizer que amo o frio.
Dezembro é lindo, cheio de amor e felicidade. Dezembro não é frio e triste.
“Un hombre muere de frío, no de oscuridad.” - Miguel de Unamuno.
Fora em seu aniversário de 85 anos que ela recebera a notícia: novamente o veria. Mal podia acreditar! Depois de 25 anos, ela o veria novamente.
O sentimento de felicidade logo transformou-se em nostalgia. Lembranças vieram à sua mente.
Lembrou-se então da primeira vez que o viu. Era menina-moça, 17 anos, nascida e criada no interior. Apaixonou-se instantaneamente. Mal podia acreditar como era belo e como a fazia se sentir em paz.
Durante as férias de julho, fora passar uma semana na casa de suas primas. Precisava vê-lo todos os dias. No entanto, era frio, não permitindo que se aproximasse dele com a intensidade que gostaria.
Não queria deixá-lo. Mas assim o fez. Quilômetros de distância agora os separavam.
Durante os anos seguintes, ao visitar suas primas, sempre encontrava tempo para vê-lo.
Algumas vezes, ele se mostrava tão agitado que parecia a ponto de explodir. Ela não sentia medo, mas sabia que não era prudente ficar perto dele em dias assim.
Outros dias, era calmo e tranquilo. Era popular. Todos queriam estar próximos a ele.
Casou-se com o amor da sua vida e fora morar no interior do Mato Grosso do Sul. Dona de casa, mãe de 4 crianças e esposa. Todos os anos ia passar as férias no litoral com a família. Todos sabiam de seu grande amor por ele.
Os filhos, ao chegarem à idade adulta, mudaram para a capital. Todos casaram. Agora, as férias já não eram mais no litoral. As férias, dos netos, eram na casa dos avós, no interior.
Com os anos, ela acabara se esquecendo dela própria. Seu tempo era preenchido cuidando da família e buscando que todos estivessem felizes.
Seu amor por ele era inegável, já seu amor por ela própria, parecia ter sido esquecido há anos.
Certo dia, enquanto revirava gavetas, buscando um documento que o filho mais velho havia solicitado, encontrou a última foto tirada com ele. Ela, à frente, ele, ao fundo. Suspiros... O filho mais velho, presenciando a cena, resolveu presenteá-la no dia de seu aniversário. De passagem comprada, lá foram visitá-lo. Ela tremia, o coração batia forte. Sabia que ele ainda estaria lá.
Quando chegaram, seu filho, delicadamente, tirou suas sandálias e ela, apoiando-se nele, foi andando bem devagar até seus pés sentirem a areia quente e fofa.
Ele estava calmo. Havia uma leve brisa naquele domingo de setembro.
Ao vê-lo, era como se tivesse 17 anos. A felicidade era visível. O sentimento de paz, novamente.
Caminharam até seus pés estarem molhados. As ondas, quebraram delicadamente em suas pernas.
Finalmente, estava ela, depois de tantos anos, próxima a sua grande paixão, o mar.
Ajeitou-se na cadeira. Ainda não estava confortável. Com a caneta entre os dedos da mão esquerda, bateu três vezes seguidas, na mesa, com batidas suaves.
O papel estava em branco desde aquela manhã. Os pen-samentos se uniam às palavras e se misturavam em cores, iam e vinham. Confusão. Perdeu-se em pensamentos enquanto lia a tatuagem em seu pulso. Levantou-se da cadeira e foi até a janela aberta. Era primavera. Da janela aberta sentia-se uma suave brisa da primavera que chegara há poucos dias.
Por alguns minutos, parado em frente à janela, admira-va a pequena colina que avistava dali.
Voltou para a mesa, sentou-se à cadeira, dessa vez con-fortavelmente e olhou para a folha em branco.
Normalmente não usaria uma caneta e papel para se comunicar. Uma simples mensagem de texto seria a sua escolha. Mas esse momento era especial. A última carta que ele escrevera fora aos 10 anos, para sua avó que morava em outra cidade. 15 anos depois, estava em frente a um pedaço de papel, em branco. Pensamentos e frases que pareciam se desprender e desaparecer.
Poderia enviar um email. Seria mais fácil. A digitação correria muito mais rápido do que sua escrita, à mão.
Mas era a primeira vez que sentia isso, a vontade de escrever uma carta. Sentia que seu coração explodiria de amor! E numa mistura de felicidade e medo começou a escre-ver. Contou histórias de quando criança, compartilhou medos e falou sobre planos para o futuro. Era a primeira vez que com-partilhara isso com alguém.
Leu e releu a carta.
Delicadamente a colocou em um envelope onde, em cima, lia-se “Para minha alma gêmea”
Levantou-se da cadeira, pegou as chaves do carro, olhou para a colina e saiu.
Enquanto dirigia, sentia suas mãos suarem. Sentia seu peito apertado, quase faltava ar. O coração batia forte.
Parou seu carro, andou alguns metros e começou à es-calada.
Por 2 horas, chegou ao cume da pequena colina.
Sentou-se em um das pedras, cansado, tirou a carta de sua mochila. Estava só. Esperava como se alguém estivesse preste a chegar. Tentou começar a ler a carta. Um nó na gar-ganta se formava. Era difícil pronunciar as palavras sem que sua voz se quebrasse em um pranto.
“Oi Didi, me ajuda, tá? Achei que uma carta seria a maneira mais fácil de me comunicar com você. Não sei como é conexão de internet aí desse lado. Sei que desde a sua partida não tenho falado com você, mas é que falar sem ver você sentada ali, perto de mim, me faz lembrar que você já partiu para a sua próxima jornada em outra dimensão - como você mesma diz! E eu imagino que essa dimensão deva ser cheia de cores, como sua estação preferida do ano. Nesse dia, há 15 anos, escrevi a minha última carta. Contei que havia conhecido minha melhor amiga e que era o aniversário dela. A menina nova na classe que me defendeu do brigão, sem me conhecer, a mais engraçada que eu já conhecera. Anos depois ela seria a causadora de inúmeras gargalhadas e a causa dos ciúmes de algumas namoradas. Ninguém entendia a nossa amizade. Ninguém entendia o porquê nunca fomos namorados. Nós sabíamos que nossa amizade era única. “Etérea”, como você me ensinou no dia em que resolvemos fazer nossa tatuagem juntos.
Há 15 anos eu te conheci, e você mudou a minha vida, eu mudei a sua vida, nós mudamos e continuamos os mesmos. Enquanto meu braço mais forte era o esquerdo, você sempre foi o direito.
Que hoje, no seu aniversário, você esteja dando uma festa aí, como as que você comemorava aqui. Encarei meu pânico de altura pra poder vir ler essa carta, no seu lugar preferido, que como você diria “fica mais pertinho do céu!” Logo, estou mais perto de você. Te vejo daqui há pouco, aproveite essa nova dimensão e jornada. Sinto sua falta todos os dias, minha irmã de alma. Que seja eterno, que seja etéreo.
12a. Antologia Ponto & Vírgula - Página 86