A rondar os desocupados setenta anos, distribuiu o peso farto, sem chegar à obesidade, entre o balcão e a cadeira. Repetidamente, na hora do meu café, assisto ao tormento de Susana, a empregada.
— Quero um café, um uísque e uma água. Um café longo, um uísque bem servido e água da torneira, mas filtrada, num copo bem lavado. Limão, muito limão.
Assim foi feito.
— Não quero este limão. Quero as rodelas do meio. São maiores.
— Mas estas rodelas são do meio — garantiu a empregada.
— Não são nada. São muito pequenas. Você cortou da ponta do limão.
Susana voltou-lhe as costas, foi até à cozinha e, pouco depois, regressou com um limão inteiro. Partiu-o diante do cliente. Ele esperou que ela cortasse todo o limão. Depois disso, protestou:
— Estes limões são muito pequenos. Gosto de limões grandes.
— Não sou eu que os compro. Os nossos limões sempre foram deste tamanho.
— Vou reclamar. Dizer ao seu patrão que se recusou a servir-me como eu gosto.
Estava eu já a sentir-me a trincar limões — e dos mais azedos — quando a cena mudou de irritante para hilariante. Não tão divertida para o homenzinho. Esse, quase se engasgou.
— Coma-me. Chupe-me — ordenou uma nova voz. — Sr. João. Vou chamá-lo assim. Que me desculpem todos os outros Srs. Joões.
A expressão desprevenida dele, diante da situação imprevista, denunciava pasmo. A fera amansava.
— Coma-me. Virei limão. Um limão enorme, suculento...
Ele tentou balbuciar algo.
— Se fala, morre — avisou a recente personagem, uma cliente saída de um dos cantos do café.
— Não queria um limão grande? Aqui estou — disse ela, enquanto se ajeitava no banco ao lado dele e esfregava os seios grandes no seu braço.
— Oh, minha senhora, desde quando você é um limão? — atreveu-se ele a dizer, ainda de voz fraca.
— Desde que o comecei a ouvir dali, daquela mesa. O senhor é um palrador chato que conta histórias de limões podres. E limão podre não presta, né? Como pode exigir limão? Limão, limão, limão...
A única coisa que me lembro de ouvir, desde que entrei neste café, foi a palavra "limão". Senta-se aqui, de papo cheio sobre as pernas, põe o rabinho nesse banco, para quê? Para falar de limões! Falar, não. Aborrecer a empregada e os outros clientes. Por isso virei limão. Meu nome era Júlia. Agora sou a Júlia Limão. Chupe-me — desafiou ela, sacudindo o corpo avantajado diante do assustado homem.
Depois, virando-se para os outros clientes, com a mesma ênfase de um feirante, perguntou:
— Quem mais virou limão, de tanto ouvir falar em limões?
Um. Temos um limão. Quem mais? Dois, três limões. E olha que bem rechonchudos. Quem mais? Quem mais virou limão? Não. Você não. É pequenina e magra (referia-se a mim). Ele gosta de limões grandes. Quem mais? Quem mais virou limão? Eh, tantos! (As pessoas aderiam à brincadeira.) Quatro, cinco, seis... dez limões. Quase todos importados, mas engordados aqui no Canadá. Grande limonada. Tens pulso para espremer a todos?
— Oh, mulher, você é, mas é doida — respondeu ele, levantando-se e recuando.
— Vês, Susana? Afinal, ele não é tão perigoso como gosta de parecer. Para a próxima, corta e oferece-lhe o traseiro do limão. É o que ele merece. Mas, mais importante do que isso, quando ele te aborrecer muito, salta daí e senta-te ao lado dele. Talvez ele consiga entender que atrás do balcão existe gente, e não escravos.
Voltaria o Sr. João a ter coragem para negociar limões no balcão de um café?