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"Em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu. Da sua geração, e das que a precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. (...) Depois dele, Portugal teve talvez poetas mais fortes, de surto mais alto, de mais fecunda imaginação. Mas nenhum o excedeu nem o igualou no brilho da expressão."
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Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, às 15 horas do dia 15 de setembro de 1765, e faleceu em Lisboa, na manhã de 21 de dezembro de 1805.
Era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, que foi juiz de fora, ouvidor e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Caetana Xavier L’Hedois Lustoff du Bocage.
Pelo lado materno, era neto do almirante francês Gil Hedois du Bocage, que chegou a Lisboa em 1704 com a missão de reorganizar a Marinha de Guerra portuguesa.
Foi seu padrinho de batismo Heytor Botelho de Moraes Sarmento, 4.º Guarda-Mor do Sal de Setúbal, Senhor da Quinta das Machadas e Fidalgo da Casa Real, e sua madrinha Luísa Matilde de São Boaventura, freira dominicana do Convento de São João Batista, em Setúbal.
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Teve um irmão e quatro irmãs. O pai do poeta, natural de Santa Maria da Graça, em Setúbal, onde nasceu a 29 de setembro de 1728, era filho de Luís Barbosa Soares e de Eugénia Maria Inácia Bispo. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, foi juiz de fora em Castanheira e Povos, cargo que exercia aquando do terramoto de 1755, que arrasou aquelas povoações.
Em 1765 foi nomeado ouvidor em Beja, para onde se mudou com a família, regressando a Setúbal cinco anos depois. Acusado de ter desviado a décima enquanto exercia esse cargo — possivelmente vítima de uma intriga por ser próximo de pessoas perseguidas pelo Marquês de Pombal — foi preso no Limoeiro em 1771, sem chegar a apresentar defesa.
Com a morte de D. José I, em 1777, e a chamada “viradeira”, recuperou a liberdade e voltou a Setúbal, onde passou a advogar.
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A mãe de Bocage era natural da Encarnação, em Lisboa, e segunda sobrinha da célebre poetisa francesa Anne-Marie Le Page du Bocage, tradutora do Paraíso Perdido de Milton, imitadora da Morte de Abel de Gessner e autora da tragédia As Amazonas e do poema épico A Columbíada, obra que lhe valeu a coroa de louros de Voltaire e o primeiro prémio da Academia de Rouen.
Apesar das numerosas biografias publicadas após a sua morte, grande parte da vida de Bocage permanece envolta em incerteza.
Não se sabe ao certo que estudos frequentou, embora a sua obra revele conhecimento dos clássicos e das mitologias grega e latina, bem como do francês e do latim.
Também a identificação das mulheres que amou continua discutida.
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A sua infância foi infeliz: o pai foi preso quando tinha seis anos e permaneceu encarcerado durante igual período, e a mãe faleceu quando o poeta tinha quase nove anos. Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário em 22 de setembro de 1781, permanecendo no Exército até 15 de setembro de 1783.
Nessa data mudou-se para Lisboa e foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, surge nomeado guarda-marinha por D. Maria I.
Nessa altura já a sua fama de poeta e improvisador corria pela cidade.
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Em 14 de abril de 1786 embarcou como oficial de marinha para a Índia, na nau Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena, que chegou ao Rio de Janeiro no final de junho. Viveu na atual Rua Teófilo Otoni e, segundo o Dicionário de Curiosidades do Rio de Janeiro, terá apreciado tanto a cidade que procurou ali permanecer, dedicando ao vice-rei poesias elogiosas; como este era avesso a bajulações, obrigou-o a prosseguir viagem para a Índia. Fez escala na Ilha de Moçambique no início de setembro e chegou à Índia a 28 de outubro de 1786.
Em Pangim voltou a frequentar estudos regulares de oficial de marinha, sendo depois colocado em Damão, de onde desertou em 1789 para embarcar rumo a Macau. Foi preso pela Inquisição e, durante o período de cárcere, traduziu poetas franceses e latinos.
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A década seguinte corresponde ao período de maior produção literária e também de vida boémia e aventurosa.
Em 1790 foi convidado a integrar a Academia das Belas Letras, ou Nova Arcádia, onde adotou o pseudónimo Elmano Sadino, mas pouco tempo depois escrevia já ferozes sátiras contra os próprios confrades.
Em 1791 foi publicada a primeira edição das Rimas.
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Em Lisboa dominava então o Intendente da Polícia, Pina Manique, que, procurando impor ordem na cidade, mandou prender Bocage em 7 de agosto de 1797 por ser “desordenado nos costumes”.
Esteve no Limoeiro até 14 de novembro, passando depois para o calabouço da Inquisição, no Rossio, onde permaneceu até 17 de fevereiro de 1798.
Seguiu então para o Real Hospício das Necessidades, dirigido pelos padres oratorianos de São Filipe Neri, após breve passagem pelo convento dos beneditinos.
Durante este longo período de detenção alterou o seu comportamento e começou a trabalhar de forma regular como redator e tradutor, sendo libertado apenas no último dia de 1798.
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Entre 1799 e 1801 trabalhou sobretudo com Frei José Mariano da Conceição Veloso, frade brasileiro politicamente bem relacionado e nas boas graças de Pina Manique, que lhe proporcionou diversos trabalhos de tradução.
A partir de 1802 e até à morte, causada por um aneurisma aos quarenta anos, viveu numa casa arrendada no Bairro Alto, na atual Travessa André Valente, freguesia das Mercês, em Lisboa.
Foi sepultado num jazigo subterrâneo da Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Mercês.
O dia 15 de setembro, data do seu nascimento, é hoje feriado municipal de Setúbal. A sua colaboração póstuma encontra-se na Ilustração Popular (1884), no semanário Azulejos (1907-1909) e no periódico O Azeitonense (1919-1920).