Desorientação Espacial

Desorientação - a sensação de estar em curva

Veja o vídeo no final da matéria!!!

A maioria dos pilotos reconhecem que a desorientação é uma das ilusões mais comuns que ocorrem, mesmo para quem já está voando por algum tempo. A desorientação espacial (com a sensação de estar em curva), foi responsável por cerca de 10% dos acidentes de aviação civil.

Uma investigação do NTSB sobre o desempenho humano, sugere que a solução mais útil para evitar a desorientação espacial é uma educação para os pilotos voltada para temas sobre a fisiologia e as causas psicológicas da desorientação.

Também foi observado nesta investigação que distrações durante curvas à noite, ou em IMC, tem sido comum a todos os casos recentes de desorientação grave que causaram acidentes aéreos fatais.

Muitos se acidentam enquanto se engajam em algumas tarefas que canalizam suas atenções para longe dos instrumentos de voo. Outros, mesmo percebendo um conflito entre seus sentidos corporais e os instrumentos de voo, acabam se acidentando porque não conseguem definitivamente resolver o conflito. (veja um exemplo)

Em condições normais, o ser humano é capaz de determinar, com precisão, a sua orientação espacial. Para tanto, utiliza informações providas por três sistemas sensoriais especializados:

- o sistema visual, que fornece 80% da informação sobre orientação;

- o sistema vestibular, relacionado ao OUVIDO INTERNO (canais semicirculares, responsáveis pela informação de aceleração angular; e órgãos otolíticos, responsáveis pela informação de aceleração linear e da gravidade), que contribui com 10% da informação; e

- o sistema proprioceptivo (receptores localizados na pele, músculos, tendões, ligamentos e articulações), que contribui com outros 10%.

Assim, durante o voo em IMC (ou sob capota), perdemos a sensação de equilíbrio e de orientação fornecidos pelos nossos olhos, que tem no “horizonte” a mais importante referência.

Para agravar, esses órgãos de equilíbrio “não-visual” não irão detectar uma curva lenta.

Estes órgãos são projetados para detectar uma curva, mas só até certo nível ou limiar. Estas curvas lentas são chamadas de “below-threshold” ou “sub-threshold” (abaixo do limiar ou sub-limite), pois os nossos órgãos de equilíbrio não são capazes de detectá-lo. Apesar de voar, digamos, com 5 graus de asa direita baixa, nosso corpo ainda achará que está num voo reto e nivelado.

Quando percebemos a atitude inclinada nos instrumentos da aeronave e tentamos corrigi-lo, curvando para a esquerda, provavelmente iremos fazê-lo em uma taxa que os órgãos de equilíbrio passarão a detectar. A aeronave estará voando “reto-e-nivelado” e nosso corpo irá pensar ou acreditar que entrou em curva para a esquerda. Isso ocorre porque a curva para a direita (sub-threshold) não foi detectada, porém durante a correção da curva à esquerda foi devidamente detectada (suprathreshold).

Sem um horizonte para confrontar o que sentimos sentados na nacele, certamente a sensação será de estar voando com cinco graus da asa esquerda baixa, quando os nossos instrumentos indicam que estamos voando reto e nivelado.

Esta ilusão é chamada ‘The Leans’; quando o piloto se sente como se estivesse inclinando para a esquerda ou direita, quando na realidade não está, ou ainda quando um piloto, na tentativa de corrigir a sensação de uma curva ilusória da aeronave, inclina o corpo na direção oposta.

O perigo de uma ilusão como esta é que a falsa sensação pode ser tão avassaladora e tão incontrolável que chegamos a modificar a atitude do voo para que tudo “pareça” normal.

Na continuação deste caso, a próxima reação seria novamente um rolamento da aeronave à direita para que o nosso corpo pudesse “se sentir” em linha reta e nível. Se este processo continuasse, não é difícil imaginar a aeronave entrando em atitudes extremas, justamente por seguir as “sugestões” enganosas do corpo ao invés de confiar nos instrumentos.

Fato. Todo piloto que voar em IMC, por mais experiência que tenha, vai sofrer em algum momento ou em alguma intensidade o problema de desorientação. Não é possível evitar a ilusão completamente. Tudo o que podemos fazer é evitar que eles nos cause problemas. Para evitar problemas de desorientação é importante se concentrar nos instrumentos, minimizar movimentos da cabeça e, se possível, voar em linha reta e nivelado para um minuto ou mais. Isto permitirá um “reset” dos mecanismos de equilíbrio e estabilização do seu corpo e vai reforçar a sua fé nos instrumentos da aeronave.

Estudos de Caso indicam que como não é possível evitar as ilusões sensoriais, obter informações e a sensibilização sobre o tema pode ajudar os pilotos a reconhecerem o início da desorientação e se prepararem para enfrentar tais ilusões.

Tipos de Desorientação

Na desorientação Tipo I, o piloto está distraído para o fato de que ele está desorientado e controla o avião completamente em resposta às falsas sensações de atitude e movimento dele ou dela.

Na desorientação Tipo II, o piloto imagina que algo esta errado com o modo do avião estar voando, mas NÃO imagina que a fonte do problema está na desorientação espacial.

Quando um piloto está extremamente ocupado manipulando os controles do cockpit, ansioso, mentalmente estressado ou fatigado, a proficiência do piloto sobre os instrumentos de voo é reduzida.

Quando um piloto está distraído nos cheques cruzados dos instrumentos, durante fases de voo com tarefas intensas e em condições marginais meteorológicas ou de visibilidade, a habilidade do piloto para reconhecer e/ou impedir desorientação espacial é severamente diminuída.

Muitos acidentes e incidentes com desorientação espacial têm sido relatados durante a penetração da curva, aproximação final, subida após a decolagem, perfil de subida.

No Tipo II existe uma grande probabilidade de que o piloto, caso não perceba a tempo que está num processo de desorientação, venha a ser vítima da falsa sensação e acabe levando a aeronave para uma atitude de voo tão crítica que sua recuperação se torna irreversível... e exemplos não faltam, veja este agora.

Aliás, mais recente e de grande repercussão, temos o exemplo do acidente em que morreu o Ministro Teori Zavascki. Veja o relatório final deste acidente aqui.

Veja então este vídeo que faz um repasse de todo comentário acima e deixa bem claro como até um experiente piloto pode sofrer com as desorientações espaciais.

Finalmente lembre-se: horas de vôo NÃO protegem um piloto experiente da desorientação espacial.