Universidade Sénior do Rotary Club de S. João da Madeira
Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga, foi o livro eleito pela turma de Português e Jornalismo da Universidade Sénior para o ano lectivo 2015/2016 que agora terminou. Depois de algumas sugestões do Dr. Celestino Pinheiro, Professor desta Disciplina, a escolha recaiu naquela obra e diga-se, em boa hora aconteceu, pois foi um livro que cativou o interesse de toda a turma que, em termos de frequência às aulas, atingiu números de presenças nunca antes verificados.
O livro de Miguel Torga “Novos Contos da Montanha” teve a 1ª edição em 1944 e, como disse Torga no prefácio da 5ª edição desta obra, “ é mais feliz do que o seu irmão gémeo, Contos da Montanha desterrado no Brasil” . É uma obra composta por vinte e dois contos que não são mais do que crónicas breves inspiradas na vida de um povo que habita em terras agrestes no meio de penedos algures em Trás-Os-Montes e Alto Douro, região que Miguel Torga conhece como ninguém.
São vinte e dois contos onde os factos, as personagens e as terras são-nos postas com um realismo e até um dramatismo por vezes chocante, colocando sempre a dúvida sobre onde começa e acaba a ficção.
Durante semanas a fio, ao longo do ano, e sob a superior orientação do Dr. Celestino Pinheiro, fomos lendo e interpretando todos os contos deste livro, cada um mais interessante do que o outro, embora muito diferentes e onde a linguagem dura de um povo sacrificado e esquecido no interior do País nunca deixa de estar presente . O livro abre com o conto “Alma Grande” que nos dá a conhecer a missão do “abafador” figura existente nessas terras isoladas e encravadas no meio dos montes e que era solicitado para um trabalho muito especial sempre que as famílias se deparavam com situações complicadas.
Em oposição a esse conto, através do qual Miguel Torga aborda o tema incontornável da doença e da morte, o escritor acaba com um bonito conto chamado “Senhor” em nome da glorificação da vida.
Mas no meio de mais de duas dezenas de contos muito interessantes que a todos nos encantou durante o ano, quero aqui destacar o conto “Natal” pois foi dos que mais me fascinou. É a história dum pedinte que ao deslocar-se de aldeia em aldeia atravessando serranias procurando sustento, é surpreendido por um nevão. Para se proteger da neve acolhe-se na Ermida da Senhora dos Prazeres. E como o nevão não passava, impedindo-o de seguir o seu caminho, resolveu fazer mesmo ali a ceia de Natal que entretanto chegara. Fez uma fogueira, puxou da navalha, sacou um pedaço de broa e uma febra que trazia no bornal. Foi ao altar buscar a imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus para lhe fazer companhia e ali os três celebraram a noite de Natal, fazendo ele mesmo o papel de S. José.
Já agora vale a pena citar uma parte do prefácio da 3ª edição saída em 1952.
“Aqui te apresento, o mais discretamente possível, a terceira edição deste livro. Almas penadas dum Portugal nuclear, todas as personagens dele ardem nas suas páginas como nas labaredas simbólicas de qualquer nicho dos caminhos. Por isso, de mãos erguidas, imploram de quem passa o piedoso silêncio que preceda um acto de respeito e de compreensão”…
Miguel Torga
E assim completamos mais um ano, ficamos todos mais ricos culturalmente e aguardamos pela reabertura do próximo ano lectivo, para o qual já há um autor referenciado. Trata-se de Ferreira de Castro que em 2016 celebra 100 anos de actividade literária.
Julho de 2016
Jorge Rui Oliveira