Lembro os leitores que as historinhas também dão ótimos teatrinhos. Veja aqui: HISTORINHAS
É bem simples e pode ser feito até dentro da igreja.
1º ATO
Comentarista- Dona Marly está pedindo para o padre Júlio que empreste o salão paroquial e o pátio para uma quermesse. Ela é milionária.
(Dona Marly em frente ao padre Júlio, ambos sentados e de lado para o público).
Padre- Como tem passado, dona Marly?
D. Marly- Ai, padre, só problemas! Só pro-ble-mas!
Pe- Como vai seu esposo?
D. M.- Ah! Ele está no Guarujá. O nosso iate está velho e ele foi trocá-lo por um novo!
Pe. Velho? Quantos anos vocês o possuem?
D.M.- Imagine, padre Júlio! Já faz três longos anos que o utilizamos! Não aguento mais navegar nessa “arca de Noé”!
Pe- Três anos? Só? Mas... D. Marly, é pouco tempo!
D.M.- Padre Júlio, o senhor não troca seu carro de vez em quando?
Pe.- O Xavier? Não! Ele é de 1985!
D.M.- Ah, Esqueci-me de que seu Uno se chama Xavier! Mas... por que ainda não o trocou?
Pe- Não tenho dinheiro suficiente. Mas a paróquia está pagando o consórcio de um pálio. O Xavier é meu, não é da paróquia. Vou dá-lo para a minha mãe, quando chegar o carro novo. Eu adoro esse carrinho!
D.M. Eu poderia ajudar a compra o carro, mas estamos com tantos gastos! O senhor sabe quanto vou pagar pela nova piscina que estamos instalando em nossa mansão?
Pe.- Não faço ideia. Mas... o que a trouxe aqui?
D.M.- Eu preciso de seu salão e do pátio para montar um desfile de modas beneficente.
Pe.- Para ajudar a quem? Os pobres da paróquia?
D.M.- Não! Os pobres o senhor já ajuda! É para o Natal dos cachorros de dona Dida! São oitenta! Vamos comprar uma carne melhor e leva-los a um salão de beleza canina! Vão ficar uns amores!
Pe.- Ah! Que interessante! (Olha para o público e faz um sinal de quem diz: “vejam se pode uma coisa dessas!” Olha novamente para ela e diz): mas eu pensei... eu pensei...
D. M.- (interrompendo-o) Ora, padre Júlio, o senhor já tem bastante gente que ajuda a “pobrada”!
Pe- Sim, mas há muitos pobres e o dinheiro é sempre pouco!
D.M.- Ora, padre, Sei que o senhor se vira!
Pe.- O Natal ainda demora alguns meses! E também por que a senhora quer usar o pátio?
D.M.- É que vamos fazer convites a determinado preço, com direito a certa quantia de salgadinhos e refrigerante, que serão servidos lá fora, em barracas.
Pe.- Bem... eu vou falar com o conselho de finanças e de festas e depois lhe dou a resposta. Ou melhor, eu a convidarei para nossa reunião. Tudo bem?
D.M.- (levantando-se e se despedindo)- Tudo bem, padre. Aguardarei com ansiedade! Obrigado! Os cachorrinhos de D. Dida já estão latindo de alegria!
Pe.- Passe bem, D. Marly, e que Deus a abençoe!
(Quando ela sai, o padre faz um sinal de protesto com o punho fechado e diz, virado para o público:) Só por cima do meu cadáver, D. Marly! Nunca vou deixar que isso aconteça! (fazendo careta) “Os cachorrinhos de D. Dida”... Só essa faltava!
Comentarista – (enquanto um rapaz de uns 18 anos ou pouco mais entra e senta-se em frente ao padre, que o está recebendo):Naquele mesmo dia, o padre Júlio recebe um jovem da pastoral da juventude.
Pe- Tudo bem, Carlos? Como vai?
Carlos- Tudo bem, padre.
Pe. E o grupo de jovens, a quantas anda?
C- Foi exatamente sobre isso que vim lhe falar. Estamos fazendo um trabalho no lixão da cidade...
Pe- Estão catando lixo?
C- Não, padre Júlio (rindo). Estamos dando assistência ao pessoal que trabalha lá sem condições! É uma tristeza!
Pe- Eu imagino! Com o meu trabalho na paróquia não tenho muito tempo de ir a esses lugares!
C- O senhor me perdoe, padre, mas deveria encontrar um tempinho! Valeria a pena!
Pe.- Fale-me um pouco do trabalho de vocês!
C- Falei com um rapaz, o Luís, e com sua mãe, Felisbina, entre outros, mas percebi que eles exercem uma certa liderança entre os catadores de papel e material reciclável!
Pe.- Que bom! E como eles vivem?
C- Numa miséria incrível! Bebem chá mate e pão duro que ganham. O dinheiro obtido com o lixo mal dá para o alimento básico!
Pe.- E o esposo de D. Felisbina?
C- Está preso! E eles não podem comer tudo o que vem no lixão, pois há muita coisa estragada, mas aproveitam certos tipos de alimentos, além de catarem o material que transportam para um local meio distante daqui, para a reciclagem. Nem sei como ainda não morreram envenenados!
Pe.- E o que vocês pretendem fazer para ajuda-los?
C- Criar um posto de reciclagem de lixo aproveitável!
Pe.- Que ideia boa!
C- Haverá melhores condições de separar o lixo e embalar o lixo reciclável para o envio às indústrias especializadas nisso!
Pe.- Mas não temos um lugar para isso!
C- Sei de alguém que tem um terreno com um barracão que está há muito tempo sem uso!
Pe.- E o dinheiro, como conseguirão?
C- É aí que o senhor entra na história. Precisamos do salão e do pátio, várias vezes, até o Natal, para quermesses, a fim de obtermos o dinheiro necessário.
Pe.- Tudo bem, concordo com a ideia, mas há um outro pedido de utilização do salão que preciso propor ao conselho de finanças. Convido você a participar de uma reunião em que resolveremos isso. Tudo bem?
C- O.K., padre. Voltarei nesse dia. O senhor me avisa?
(Carlos, já em pé, cumprimenta o padre)
Pe- (dando-lhe a mão)- Aviso. Até logo!
C- (saindo) Até! Vamos mudar a vida dessa gente!
2º ato
(D. Felisbina e o Luís, um rapaz de uns 15 ou 16 anos, mal vestidos. Eles estão num semi-círculo com o padre, o Carlos, D. Marly, e mais dois homens, o Gustavo e o Paulo, do conselho de finanças).
Comentarista- A tal reunião chegou. Após uma oração inicial, o padre Júlio explicou a todos o motivo da reunião. Estão ali o padre, o Carlos, D. Marly, o Luís, D. Felisbina, o Paulo e o Gustavo, que são do conselho de finanças e festas.
Pe.- Amigos, juntos vamos decidir quem vai e quem não vai utilizar o salão e o pátio nestes meses até o Natal. O Paulo e o Gustavo fazem parte do conselho de finanças. Vocês conhecem D. Marly, que não precisa de apresentação. Ela é nossa colaboradora
D.M (roubando a palavra)-E saibam que de onde veio o dinheiro com o qual por várias vezes ajudei a paróquia, tem mais!
Carlos- A senhora quer dizer com isso que se não for atendida vamos ficar sem a sua ajuda?
D. M.- É por aí! É dando que se recebe!
Paulo- Mas... padre Júlio! Isso é uma pressão! É injusto!
Gustavo-(meio afetado)- Gente, eu sempre fui fã de D. Marly e acho que ela sempre será bem vinda a esta paróquia. Atendê-la e dar a esses cachorrinhos um Natal mais gostoso vai custar menos e é algo mais realizável do que um posto de reciclagem, que demanda mais recursos materiais e humanos! A reciclagem pode esperar mais um tempo!
D.M- Seu Gustavo, muito obrigada! Quando o senhor precisar de alguma coisa, qualquer que seja, me procure!
Pe.- É... parece que já começamos a discussão!
Carlos- Ô, padre, a D. Marly é milionária e pode muito bem dar ela mesma os panetones para os cachorros, se quiser, e até mesmo uma cesta de Natal para cada um deles!(Todos riem, menos D. Marly). Mas as quermesses seriam muito úteis para a montagem do nosso posto de reciclagem!
D.M .- Não gosto de piadinhas maldosas, Sr. Carlos.
Pe. – Bem... vamos ouvir os outros dois, que ainda não falaram!
D.M-(interrompendo)- Antes que eles falem, devo dizer ao Sr. Carlos que não posso ajudar a D. Dida porque tenho que terminar a reforma de minha piscina e trocar o meu iate! Essas coisas custam dinheiro!
Pe. – Por favor, fale, D. Felisbina!
D. Felisbina- Ôceis mi discurpe d’eutá aqui, mais a recicrage vai sê bão pra muita genti! Vai dá mais dinhêro pros pobre como nóis!
Carlos- O Brasil desperdiça muito lixo reciclável e mujita matéria prima. Vejam estes dados (lê num papel): 50 Kg de papel usado substituem 1 árvore, que não precisa ser derrubada. 1000 kg de alumínio substituem 5000 kg de minério, que não precisa ser extraído! 1 kg de vidro quebrado dá exatamente 1 kg de vidro novo, mas se utilizarmos matéria prima, serão necessários 1 kg e 300 gramas para fazer 1 kg de vidro novo!
Pe.- Muito obrigado, Carlos, valeu! (Voltando-se à D. Marly) Dona Marly, a senhora já passou fome?
D. M.- Por que essa pergunta, padre?
Pe.- Simplesmente responda!
D.M.- Sim, por conta dos regimes que faço para emagrecer.
Pe- É bom passar fome?
D.M.- Eu detesto. Fico nervosa, angustiada, fraca.
Pe.- Quantas refeições a senhora faz por dia?
D.M- Bem... de manhã tomo o café da manhã
Pe. – Do que consiste?
D.M.- Ovos mexidos, iogurte, presunto, queijo, geleia, frutas, sucos naturais, bacon etc
Pe. –E o almoço?
D.M- O senhor se esqueceu do lanchinho das 10 hs: torradas com caviar e grapefruit (pronuncia-se greipefrut)
Luís- Nossa! U qui é issu, sô?
D. M.- É uma fruta chamada toronja. É parecida com a laranja, mas é importada. No almoço coisas mais simples: salmão, arroz à grega, molho tártaro, filé mignom com cogumelos ao molho suíço, salada mista.. às vezes capeletti ao molho de frango (o coordenador do teatrinho pode inventar outras comidas chiques).
Pe. – Sobremesa...
D.M.- Sorvete de nozes, ou doce de leite cremoso vindo diretamente da minha fazenda de Minas, ou coisas assim.
Pe. Café da tarde?
D.M. – Suco de laranja com bolo light.
Pe. – O jantar...
D.M- Salada mista, bisteca de boi ou de porco, sopa finlandesa, ou brodo italiano com vinho importado, ou presunto, ou simplesmente um xistudo, ou um prato árabe, como o tabule...
Pe.- E para o término da noite?
D.M.- Um aperitivo tipo Martini com petiscos, ou um achocolatado importado.
Pe. – Agora quero perguntar o mesmo a vocês dois (dirigindo-se ao Luís e à D. Felisbina). O que vocês tomam no café da manhã?
(D. Felisbina dá uma cotovelada no Luís, para ele falar)
Luís- Chá mate, quando tem, e, às veiz, pão duro qui a gente ganha da padaria. Num temo gais pra torrá u pão. Ás veiz a genti acha um pedaço de pissa (ele fala assim mesmo, com dois esses) no lixão (D. Marly faz uma careta de nojo)
Pe.- E o almoço?
Luís- Arrois, feijão, cebola cru
Pe.- Só cebola?
Luís – Não! Às veiz nóis encontra lata de sardinha ou ôtras coisa vencida, e ovo cuzido. Nóis num frita pruquê nóis num tem óio pra fritá.
Pe – Tem sobremesa?
Luís- Às veiz nóis comi fruita do lixão, ou pega fruita no fim da fêra. Só qui vai tanta genti qui quase num sobra.
Pe.- Comem alguma coisa à tarde?
Luís- Não. Só um chá mati, às veiz.
Pe.- E o jantar?
Luís- Nóis comi o qui sobra no armoço. Às veiz nóis consegui pão cum margarina, qui nóis come cum chá.
Pe- E para terminar o dia?
Luís-Chá mate. Às veiz, café, mais só di veiz im quando.
(Todos param de se movimentar, como se a cena se congelasse. O comentarista toma lugar à frente do palco ou de onde se está apresentando a peça e diz:)
Comentarista: Caros amigos e amigas: o autor deste teatrinho ficou em dúvida: Dona Marly se converterá ou não com essa demonstração de pobreza? Ela abriria as mãos para ajuda-los? Abriria mão de seu pedido para que eles conseguissem o dinheiro para o posto de reciclagem? Hoje em dia precisamos reciclar tudo o que for preciso, até a nós mesmos! Estamos falando do tempo de Natal, em que tudo é possível, os milagres acontecem... ou será que isso é apenas uma ilusão? Como ficará o coração de D. Marly? O Natal não se identifica com comes e bebes. Nós precisamos comemorá-lo mudando nossa vida para melhor! Jesus nasceu para tornar-nos cidadãos do céu, mas nós insistimos em viver aqui na terra, mesmo se isso for dolorido e penoso! Uma senhora, a D. Maria de Aguiar, filha de escravos, sempre dizia à uma sua amiga que fazia jejum no dia 24 de dezembro porque Maria, nesse dia, estava com todos os incômodos do nascimento de uma criança, no caso Jesus, e decerto não comeu nada! O Natal é a festa do amor que se encarnou, da misericórdia, da fraternidade, que muitas vezes confundimos com comes e bebes, e sempre com mais “bebes” do que “comes”! Que a comemoração do nosso Natal tenha esse sentido espiritual, e não material como costumamos fazer! Procuremos ser generosos e partilharmos com os que passam fome, não só nesse tempo, mas sempre! Mas agora vamos ver como o autor achou por bem terminar esta história!
(Dona Marly levanta-se, furiosa, dizendo:
DM- Isto é um complô contra mim! Foi tudo ensaiado! Nunca fui tão humilhada! Jesus mesmo disse que sempre haveria pobres! E ele deixou a pecadora ungir seus pés com perfume caro, em vez de gastar aquele dinheiro com os pobres do seu tempo! Padre Júlio, por favor, se esqueça de mim e do meu rico dinheirinho! (E sai, batendo os pés. Gustavo levanta-se e a segue, dizendo):
Gustavo- Eu vou acompanhá-la!
Pe.- Sr. Paulo, o que me diz?
Paulo- Sem dúvida alguma, padre, sou a favor da reciclagem1
Pe.- Que bom! É o melhor presente que esta comunidade recebeu! Não é um presente-consumo, comprado em lojas! (Dirigindo-se à D. Felisbina e ao Luís:) Quanto a mim, D. Felisbina, Luís, conhecê-los e fazer esta reunião foi o meu presente de Natal. Aproximou-me da classe mais humilde, falha esta que sempre quis superar, mas nunca tinha tido coragem ou oportunidade! Que bom é poder partilhar sempre (se abraçam).
D.Felisbina – Como o sinhô falô bunito!
3º ato
(Se se estiver na igreja, o comentarista fala:)
Comentarista: Já se passaram vários meses desde a reunião e estamos no final da missa de Natal. O padre Júlio terminou a missa e faz a apresentação final.
(Se não se estiver na igreja)
Comentarista – Este lugar agora representa a igreja, no final da missa de Natal, e vocês são os paroquianos do padre Júlio. Já se passaram vários meses desde aquela reunião. O padre Júlio terminou a missa e faz a apresentação final;
(Em cena D. Felisbina, Luís (bem vestidos), Paulo, Carlos).
Pe. Júlio- Caros irmãos e irmãs, oque há alguns meses parecia um sonho, agora tornou-se realidade. O posto de reciclagem foi montado com o dinheiro da quermesse, e já está funcionando. Os que trabalham no lixão agora ganham mais, são mais respeitados e vivem como todos os seres humanos merecem viver. Isto é Natal! Agradeço à D. Felisbina, ao Luís e ao conselho de finanças pela finalização deste projeto (todos fazem uma reverência, ao ser pronunciados seus nomes). Unidos, poderemos realizar esse sonho de tantos irmãos nossos, além de sabermos que muitos materiais, antes jogados fora, são agora reaproveitados. Espero que neste Natal todos nos tornemos verdadeiros irmãos, perdoando-nos mutuamente. É o amor verdadeiro, que dá sentido ao natal, e não o amor baseado em comes e bebes. Aliás, se nos dermos bem, se vivermos com amor, qualquer tipo de alimentação é aceito com alegria. UM FELIZ NATAL PARA TODOS, E UM ÓTIMO INÍCIO DE ANO NOVO
(Se houver tempo, colocar o que o Natal não é, que está no 9º dia da novena).
Este texto pode ser usado como jogral (mais fácil) ou teatrinho. Com os parêntesis, é teatro. Sem os parêntesis, é jogral.
(1ª CENA)
Comentarista (C): (mesa e cadeira no palco. Zaqueu está sentado e Obed em pé, diante da mesa). Zaqueu atende um judeu chamado Obed.
Zaqueu (Z)- Obed, você vai ou não pagar o imposto?
Obed (O)- “Seu” Zaqueu, é muito alto! O senhor está cobrando mais do que é justo! Não tenho como pagar tudo isso! Tenha piedade!
Z- Se não pagar, vou ficar com suas terras!
O- Mas é o único bem que possuo! E os meus filhos? Como vou cuidar deles?
Z- Você deveria ter pensado nisso antes de pô-los no mundo!
O- Me dê um tempo!
C- Zaqueu pensa um pouco (se for teatro, não é preciso dizer isso)
Z- Está bem! Só uma semana a mais!
O- (beijando a mão de Zaqueu). Obrigado, Seu Zaqueu, obrigado! O senhor não vai se arrepender! (e sai).
(2ª CENA)
(Zaqueu fica sozinho. Uma música lenta e triste toca ao fundo. O comentarista fala ao microfone enquanto Zaqueu olha para um papel sobre a mesa, pensativo).
C- Zaqueu vivia uma vida vazia, inquieta, triste. Não estava feliz com o que fazia, embora não tivesse forças ou incentivo para sair dela. Sentia falta de alguma coisa ou de alguém, que lhe mostrasse algo pelo qual valesse apena viver. Sua esposa e filhos viviam no luxo, financiado pelo dinheiro que ele roubava dos outros na cobrança de impostos. Chefiava não um grupo de trabalhadores, mas na verdade como que uma quadrilha organizada e apoiada pelo governo romano. Até quando viveria esse tipo de vida mesquinha e desonesta?
(3ª CENA)
(Zaqueu ainda está pensativo quando entra um de seus subordinados com um pequeno saco de dinheiro)
C- Certo dia, pensando nessas coisas, um de seus subordinados entra com um pequeno saco de dinheiro e lhe diz:
EMPREGADO (E)- Seu Zaqueu, eu consegui receber o imposto daquele homem que mora perto da pedra grande.
Z- (olhando para ele, após pegar o saco de dinheiro e guardá-lo numa caixa ou outro lugar). Muito bem! Você é o meu melhor empregado! Sempre consegue tirar dinheiro desses trouxas!
E- Eu estou achando o senhor meio cansado! O que houve?
Z-Nada, nada! Muito trabalho e problemas! O povo está sem dinheiro! Está difícil ganhar a nossa comissão!
E- Seu Zaqueu, não vá se zangar, mas não acha que estamos cobrando muita comissão?
Z- (olhando para cima e voltando a encará-lo). É o nosso ofício! Se abaixarmos o imposto, eles vão ficar sabendo que o imposto cobrado por Roma é bem menor do que o que cobramos!
E- É...isso é verdade! Eu preciso ir embora
Z- Dou sua parte na semana que vem!
E- Confio no senhor. Até amanhã!
Z- Até amanhã!
E- (voltando)Ah! Estava me esquecendo de dizer que está na cidade um cara famoso chamado Jesus. Dizem que é muito bom, não discrimina as pessoas, vive pobremente, não aceita subornos, cura doentes, fala bonito e até ressuscita mortos!
[no jogral o comentarista diz: Zaqueu olha para a janela]
(no teatrinho, Zaqueu olha para a janela)
Z-É! Já ouvi falar dele! Como eu gostaria de conhecê-lo! Deve ser um homem muito interessante! Mas deve ser como esses fariseus de uma figa, que se acham importantes e vivem separado dos que têm profissão como a nossa! Eu vou ser repudiado por ele, por causa da profissão. Mas não haveria um modo de vê-lo sem ser visto?
E- Suba numa árvore que as folham vão cobri-lo!
Z- É uma boa ideia! Vou pensar nisso!
(4ª CENA)
(Zaqueu fica outra vez sozinho, música bonita e lenta. Olha pela janela, para o infinito, passa a mão pelo queixo, num tom de quem está pensando).
C- Zaqueu não sabia ainda, mas estava para perceber que se sentia atraído por tudo o que falavam de Jesus, tão diferente dele. Será que ele o receberia? Ou lhe viraria o rosto? Zaqueu queria conhecê-lo, mas tinha medo de duas coisas: de que Jesus o rejeitasse e de que ele conseguisse penetrar seus pensamentos e visse que ele era pecador. Sentia-se incapaz de mudar de vida, pois não conseguiria viver de outro modo. Que vida estava agora vivendo? Uma vida vazia. Apesar de ser muito rico, não era feliz. Não percebera a graça de Deus já percorrendo seus ossos, seu corpo, sua alma, sua vida! De repente, Zaqueu avistou ao longe Jesus pela janela e disse, saindo correndo da casa:)
Z- É ele! É ele que está passando ali! (e sai correndo)
(5ª CENA)
(Zaqueu está de pé. Pode ser numa cadeira ou numa escadinha, com uma placa: ÁRVORE, num canto do palco, e Jesus está no outro canto).
C-Zaqueu subiu numa árvore, um pouco distante de Jesus, para vê-lo sem ser visto. Jesus estava dirigindo-se a outro canto da cidade, mas avistou Zaqueu (Jesus pára e olha para Zaqueu) e percebeu, mesmo de longe, que nele havia sinceridade no desejo de conversão, de mudança de vida. Jesus lê nossos pensamentos e enxerga as qualidades, às vezes adormecidas, que temos. Ele tem o poder de fazer frutificar essas qualidades e aumentá-las a tal ponto que superem, em muito, os defeitos. Uma pessoa, quando pede perdão de seus pecados, é plenamente perdoada, pode recomeçar vida nova. Entretanto, não devemos parar no pedido de perdão, mas ir além, mudando nosso modo de agir e de tratar as outras pessoas. Em resumo: mudar não só de ideias, mas de vida, nossa vida toda. Jesus muda de trajeto, vai para perto de Zaqueu e lhe diz:
JESUS- (Dirigindo-se a Zaqueu com algumas pessoas representando o povo que o seguia): Zaqueu! Desça dessa árvore porque quero jantar em sua casa!
Z- Mestre, como o senhor me viu?
C- Jesus não respondeu. Limitou-se a esperar que ele descesse da árvore.
Z- Será um grande prazer recebê-lo em minha casa!
(6ª CENA)
(Uma mesa. Jesus sentado numa ponta e Zaqueu na outra, ambos de lado para o público. Algumas pessoas estão sentadas ao redor deles, incluindo os dois homens que apareceram anteriormente).
C- Já na casa de Zaqueu, com vários convidados, entre eles os dois que haviam falado com ele, Zaqueu perguntou:
Z- Senhor, gostou do alimento?
J- Zaqueu, não vim até aqui exatamente para me alimentar, mas para alimentar a sua fome de Deus! Converta-se e creia em minhas palavras!
Z- Eu já ouvi falar do que o senhor faz e fala, e gostei de ouvir, mas sou muito pecador! Como posso mudar de vida?
Jesus- Desfaça as coisas erradas que você tem feito e seja misericordioso como o Pai é misericordioso. Seja santo como o Senhor é Santo!
C- Zaqueu fica um pouco pensativo. Após uns instantes de indecisão, olhando para o lado, levanta-se, num ímpeto de decisão, levanta-se, vai ao lado de Jesus, ajoelha-se, pega em sua mão e lhe diz:
Z-Senhor, de tudo o que roubei vou devolver quatro vezes mais, segundo manda a lei, e darei a metade do que tenho aos pobres!
J- (olhando para Zaqueu) Muito bem, Zaqueu! Você está fazendo o que agrada a Deus! (depois para os demais): E digo a todos vocês: Hoje a salvação entrou nesta casa, pois aqui está um verdadeiro descendente de Abraão, que abraçou a mesma fé que esse Patriarca. (O homem que devia a Zaqueu faz um gesto de alegria).
C- E assim, a paz entrou na vida de Zaqueu, que nunca a tivera antes. Vários dos seus amigos também se converteram, e pelo menos por um tempo, os pobres daquela cidade respiraram aliviados, até que o Império Romano nomeasse outro chefe de publicanos mais durão do que o que ficara no lugar de Zaqueu.
TODOS (ou do jogral ou que estão no palco, virados para o público:) E nós, a que precisamos renunciar para sermos santos?
FIM