Toda a vida litúrgica da Igreja está em função do Sacrifício Eucarístico e dos sacramentos que são o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem, o Matrimónio. Como forças que saem do corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante, ações do Espírito Santo em operação no seu Corpo que é a Igreja, os sacramentos são as obras-primas de Deus na Nova e Eterna Aliança.
Foram instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo. O sacramento não é realizado pela justiça do homem que o confere ou o recebe, mas pelo poder de Deus. Não depende da santidade do ministro. Os frutos do sacramento, entretanto, dependem também das disposições de quem os recebe.
Os celebrantes da Liturgia Sacramental, graças ao sacerdócio comum dos leigos, são toda a comunidade, o corpo de Cristo unido à sua Cabeça; é o povo santo, unido e ordenado sob a direção dos bispos. Não tem muito sentido a celebração individual ou quase privada. Certos membros da comunidade são escolhidos e consagrados pelo sacramento da ordem, através do qual o Espírito Santo os torna aptos a agir na pessoa de Cristo-Cabeça para o serviço de todos os membros da Igreja.
E, uma vez que o sacramento da Igreja manifesta-se plenamente na Eucaristia, é na presidência da Eucaristia que o ministério do Bispo aparece primeiro, e, em comunhão com ele, o dos presbíteros e diáconos. Há também outros ministérios particulares, não consagrados pelo sacramento da ordem: os ajudantes, os leitores, os comentaristas e os membros do coral, que desempenham um verdadeiro ministério litúrgico.
Quanto ao "como" celebrar os sacramentos, é preciso lembrar que na vida humana os sinais e símbolos ocupam um lugar importante, por ser o homem ao mesmo tempo um ser corporal e espiritual. Um ser social que precisa de sinais e símbolos para comunicar-se com os outros através de linguagem, gestos, ações, assim como para comunicar-se com Deus.
Deus fala ao homem através da criação visível: luz, noite, vento, fogo, água, terra, árvore, frutos. Da mesma forma lavar e ungir, partir o pão e partilhar o cálice podem exprimir a presença santificante de Deus e a gratidão do homem diante de seu criador.
A Igreja vê nos sinais da aliança: circuncisão, unção e consagração dos reis e dos sacerdotes, imposição das mãos, sacrifícios, páscoa, uma prefiguração dos sacramentos da Nova Aliança.
Na sua pregação, o Senhor Jesus serve-se muitas vezes dos sinais da criação para dar a conhecer os mistérios do Reino de Deus; realiza suas curas ou sublinha sua pregação com sinais materiais ou gestos simbólicos. Dá um sentido novo aos fatos e aos sinais da Antiga Aliança, particularmente ao Êxodo e à Páscoa, por ser ele mesmo o sentido de todos esses sinais.
Desde Pentecostes, é através dos sinais sacramentais que o Espírito Santo realiza a santificação. Os sacramentos da Igreja não anulam, mas purificam e integram toda a riqueza dos sinais e dos símbolos do cosmos e da vida social. Além disso, realizam os tipos e as figuras da Antiga Aliança, significam e realizam a salvação operada por Cristo, e prefiguram e antecipam a glória do céu.
A celebração sacramental, encontro dos filhos de Deus com seu Pai, em Cristo e no Espírito Santo, exprime-se como um diálogo, mediante ações e palavras, mesmo que as ações simbólicas sejam em si mesmas uma linguagem. A Palavra de Deus e a resposta de fé acompanham e vivificam essas ações, para que a semente do Reino produza seu fruto na terra fértil.
As ações litúrgicas significam o que a Palavra de Deus exprime: a iniciativa gratuita de Deus e ao mesmo tempo a resposta de fé do seu povo.
A liturgia da palavra é parte integrante das celebrações sacramentais, e leva a uma valorização necessária do livro da palavra (lecionário), sua veneração (procissão, incenso, luz), o lugar de onde é anunciado (ambão), sua leitura audível e inteligível, a homilia do ministro, que prolonga sua proclamação, as respostas da assembleia (aclamações, salmos responsoriais, ladainhas, profissão de fé etc.).
São o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia, e constituem os fundamentos de toda vida cristã: os fiéis, renascidos pelo Batismo, são fortalecidos pelo sacramento da Confirmação e nutridos com o alimento da vida eterna na Eucaristia.
É o sacramento da regeneração pela água na Palavra. É chamado de "o banho da regeneração e da renovação no Espírito Santo. Ele significa e realiza o nascimento a partir da água e do Espírito" (Jo 3,5).
É um sacramento ministrado desde o dia de Pentecostes para os que querem tornar-se cristãos. A pessoa pode ser balizada ainda quando criança ou quando adulta. No segundo caso, também é crismada e faz a primeira comunhão na mesma cerimônia.
Quem ministra o Batismo é o bispo, o padre e o diácono. Na prática, são os diáconos e os padres que ministram esse sacramento. O bispo pode, entretanto, dar a qualquer cristão o ministério de batizar. Tendo a intenção exigida pelas normas da Igreja, até mesmo quem não é batizado pode batizar outra pessoa que queira receber o Batismo. As duas condições para a validade do Batismo ministrado por leigos é que queiram fazer o que a Igreja faz quando batiza e aplicar a fórmula batismal trinitária: "Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".
O Batismo é necessário, para a Salvação, para aqueles aos quais o Evangelho foi anunciado e que tiveram a possibilidade de pedir esse sacramento, segundo as próprias palavras de Jesus, que ordenou que seus discípulos anunciassem o Evangelho e balizassem todas as nações.
Entretanto, Deus pode salvar a quem ele quiser, mesmo aos que não foram batizados, pois ele mesmo não está ligado aos seus sacramentos. É o caso das crianças mortas sem o Batismo, ou mesmo das pessoas que seguem religiões não cristãs.
Os dois efeitos principais do Batismo são a purificação dos pecados (pelo Batismo todos os pecados são perdoados, tanto o pecado original como os pecados pessoais, e também as penas do pecado) e o novo nascimento no Espírito Santo, ou seja, o que foi batizado se torna uma criatura nova, um filho adotivo de Deus que se tornou participante da natureza divina (2Cor 5,17; 2Pd 1,4).
A Santíssima Trindade dá ao batizado a graça santificante, pela qual ele pode crer em Deus, esperar nele e amá-lo, através das virtudes da Fé, da Esperança e da Caridade, pode viver e agir sob a moção do Espírito Santo pelos seus dons, e pode crescer no bem pelas virtudes morais.
O Batismo faz-nos membros do Corpo de Cristo, a Igreja, e faz-nos participar do sacerdócio comum dos fiéis. Desse modo, é chamado a servir os outros na comunhão da Igreja, a ser obediente e dócil aos chefes da Igreja e considerá-los com respeito e afeição. O batizado pode receber os sacramentos, ser alimentado com a Palavra de Deus e ser sustentado pelos outros auxílios espirituais da Igreja.
Uma vez batizado, o fiel se torna cristão e filho de Deus para sempre. O pecado, embora possa impedir o Batismo de produzir os frutos de salvação, de modo algum apaga essa marca. Não tem sentido, portanto, a pessoa "repetir" o Batismo. O Batismo é o selo da vida eterna.
É o sacramento necessário para consumar a graça batismal. Pelo sacramento da Confirmação, os fiéis são vinculados mais perfeitamente à Igreja, enriquecidos de força especial do Espírito Santo, e assim mais estreitamente obrigados à fé. Como verdadeiras testemunhas de Cristo, devem difundir e defender seu Evangelho tanto por palavras como por obras.
Consiste na imposição das mãos e na unção com o óleo perfumado (crisma). Quem crisma é o bispo ou, por ordem dele, o padre. Quando batizada adulta, a pessoa recebe uma só unção pós-batismal, a da Confirmação. Se for criança, o padre unge-a, depois do batismo, com o santo crisma; unção essa ligada ao rito batismal: ela significa a participação do batizado nas funções profética, sacerdotal e régia de Cristo.
Pela confirmação, o cristão é enraizado mais profundamente na filiação divina, une-se mais solidamente a Cristo, recebe mais os dons do Espírito Santo, torna-se vinculado à Igreja de modo mais perfeito, recebe uma força especial do Espírito Santo para difundir e defender a fé pela palavra e pela ação, como verdadeira testemunha de Cristo, para professar com valentia o nome de Cristo e para nunca sentir vergonha em relação à cruz.
Como o Batismo, do qual é a consumação, a Confirmação é dada uma só vez. Pode recebê-lo os que já foram balizados. É necessário estar em estado de Graça e, portanto, todos os que já foram batizados anteriormente, quando crianças, devem participar do sacramento da Penitência antes da Confirmação.
Somos ungidos na Crisma, e recebemos o Espírito Santo como Dom, para seguirmos Jesus Cristo e participarmos na Missão da Igreja, nas seguintes dimensões:
- no anúncio (querigma) de Jesus Cristo e sua mensagem;
- no serviço (diaconia): assumir a ação pastoral da Igreja a serviço do Reino de Deus;
- na comunhão (coinonia): promover a unidade, a fraternidade, a participação;
- no testemunho (martíria) da fé através de uma vida cristã e da defesa da justiça em favor dos enfraquecidos e pobres.
- na celebração (liturgia) do mistério de Cristo na vida da comunidade: eucaristia, sacramentos, festas litúrgicas, expressões da piedade popular.
A Crisma é o começo, e não o ponto de chegada! Muitos somem da igreja depois que recebem a Crisma!
É o sacramento pelo qual participamos, com toda a comunidade, do próprio sacrifício do Senhor na Cruz. Os demais sacramentos, assim como todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, ligam-se à sagrada Eucaristia e a ela se ordenam, pois a santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa.
A Eucaristia significa e realiza a comunhão de vida com Deus e a unidade do povo de Deus. Une a ação, pela qual Deus santifica o mundo em Cristo, e o culto que prestamos a Cristo, no Espírito Santo, e por Cristo, ao Pai. Pela Celebração Eucarística já nos unimos à liturgia do céu e antecipamos a vida eterna, quando Deus será tudo em todos. A Eucaristia é o resumo de nossa fé.
Os nomes que damos à Eucaristia:
1. Ação de Graças.
2. Ceia do Senhor: trata-se da ceia que o Senhor fez com seus discípulos na véspera de sua paixão, e da antecipação das bodas do Cordeiro na Jerusalém Celeste.
3. Fração do Pão: porque esse rito, próprio da refeição judaica, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como presidente da mesa, sobretudo por ocasião da Última Ceia. Quer dizer que todos comem do único pão partido, o Cristo, entram em comunhão com ele e já não formam senão um só corpo nele.
4. Assembleia Eucarística: porque a Eucaristia é celebrada na assembleia dos fiéis, expressão visível da Igreja.
5. Memorial da Paixão e da Ressurreição do Senhor.
6. Santo Sacrifício: porque atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador e inclui a oferenda da Igreja; ou também o santo sacrifício da Missa, "sacrifício de louvor", sacrifício espiritual, sacrifício puro e santo, pois realiza e supera todos os sacrifícios da Antiga Aliança.
7. Santa e divina Liturgia: porque toda a liturgia da Igreja encontra o seu centro e sua expressão mais densa na celebração desse sacramento; também chamado, nesse sentido, de Santos Mistérios. Também: Santíssimo Sacramento, porque é o sacramento dos sacramentos. Colocamos esse nome nas espécies eucarísticas guardadas no tabernáculo.
8. Comunhão: porque é por esse sacramento que nos unimos a Cristo, que nos torna participantes do seu Corpo e do seu Sangue para formarmos um só corpo. Também, nesse sentido, chamado de "as coisas santas", dando o primeiro sentido da "Comunhão dos Santos" do Credo.
9. Santa Missa: porque a liturgia na qual se realizou o mistério da salvação termina com o envio dos fiéis (missio) para que cumpram a vontade de Deus na sua vida cotidiana.
Encontram-se no centro da celebração da Eucaristia o pão e o vinho, os quais, pelas palavras de Cristo e pela invocação do Espírito Santo, tornam-se o Corpo e o Sangue de Cristo. Fiel à ordem do Senhor, a Igreja continua fazendo, em sua memória, até à sua volta gloriosa, o que ele fez na véspera de sua paixão. Ao se tornarem misteriosamente o Corpo e o Sangue de Cristo, os sinais do pão e do vinho continuam a significar também a bondade da criação.
Na Antiga Aliança o pão e o vinho são oferecidos em sacrifício entre as primícias (= primeiros frutos) da terra, em sinal de reconhecimento ao Criador.
No êxodo eles recebem um novo significado: os pães ázimos que Israel come cada ano na Páscoa comemoram a pressa da partida libertadora do Egito; a recordação do maná do deserto há de lembrar sempre a Israel que ele vive do pão da Palavra de Deus. Jesus instituiu a sua Eucaristia dando um sentido novo e definitivo à bênção do Pão e do Cálice.
Outros símbolos da Eucaristia são o milagre da multiplicação dos pães e a água transformada em vinho em Cana. Acolher na fé o dom da Eucaristia do Senhor é acolher a ele mesmo.
Vejam melhor a instituição da Eucaristia na própria Bíblia. Leiam Lc 22,7-20; Mt 26,17-29; Mc 14,12-25; 1Cor 11,23-30; At 2,42-46. Entre os primeiros cristãos, por exemplo, era principalmente no domingo, o dia da Ressurreição de Jesus, que os cristãos se reuniam "para partir o pão" (At 20,7). Ela continua sendo o centro da vida da Igreja.
O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício. "É uma só e mesma vítima, é o mesmo que oferece agora pelo ministério dos sacerdotes, que se ofereceu a si mesmo então na cruz. Apenas a maneira de oferecer é diferente."
Na Eucaristia, o sacrifício de Cristo torna-se também o sacrifício dos membros de seu Corpo. A vida dos fiéis, seu louvor, seu sofrimento, sua oração, seu trabalho são unidos aos de Cristo e à sua oferenda total, e adquirem assim um valor novo. O sacrifício de Cristo presente no altar dá a todas as gerações de cristãos a possibilidade de estarem unidos à sua oferta.
No santíssimo sacramento da Eucaristia estão contidos verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo.
A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura também enquanto subsistirem as espécies eucarísticas. Cristo está presente inteiro em cada uma das partes delas, de maneira que a fração do pão não divide o Cristo.
Devido a esse tão grande mistério da presença de Cristo é que devemos fazer a genuflexão sempre que entramos e saímos da igreja, onde há o sacrário com a sagrada comunhão, e respeitarmos o ambiente da igreja. Devemos comungar sempre que participarmos da Santa Missa, se estivermos preparados. O católico é obrigado a ir à Missa todos os domingos, ou no sábado, quando não der no domingo.
Quanto aos frutos da comunhão: Ela aumenta a nossa união com Cristo, separa-nos do pecado, preserva-nos dos pecados mortais futuros, promove a união nossa enquanto Igreja, compromete-nos com os pobres, promove a unidade dos cristãos.
Quanto às partes da Missa:
A. Ritos iniciais: A procissão de entrada do padre e ministros, a saudação inicial do padre, comentários iniciais, ato penitenciai, glória, oração inicial.
B. Liturgia da Palavra: Uma leitura do Antigo Testamento, um salmo, uma leitura do Novo Testamento (no Tempo Pascal ambas as leituras são do Novo Testamento), a aclamação, o Evangelho, a homilia do padre, o creio, a oração da comunidade.
C. Liturgia eucarística: A preparação das oferendas, a oração sobre as oferendas, o prefácio, a oração Eucarística.
D. Rito da Comunhão: O Pai-nosso e orações complementares, a comunhão, a Ação de Graças, a oração após a comunhão.
E. Ritos finais: O canto final, a bênção, a despedida do padre.
05/04/2020
Diz Santo Agostinho, baseado em sua teologia, que sentiu como se Jesus lhe dissesse: “Não me mudarás em ti ao me receberdes em comunhão, mas tu te mudarás em mim” (cf. Ofício das Leituras, 28 de agosto).
Num dia destes, eu estava meditando nessa frase e veio-me à mente que essa afirmação do santo equivale a dizer que, na comunhão que fazemos, ao comungar Jesus Cristo, na verdade é ele quem está nos comungando.
Isso pode ser confirmado em várias partes da bíblia, mas eu tenho à minha frente Apocalipse 3,20: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”!
Na bíblia se entende a refeição em comum muito mais do que em nossos dias: aceitar alguém para comer na mesma mesa que você, significa que você comunga com suas ideias, que você concorda com o seu tipo de vida. Veja por exemplo José e seus irmãos antes que José se revelasse a eles: na refeição, José sentou-se diante de uma mesa, os irmãos numa segunda e os egípcios que acompanhavam o encontro, numa terceira. Não havia comunhão entre eles. Vejam que é por isso que os fariseus criticavam Jesus quando comia com os pecadores!
Portanto, quando Jesus diz que vai entrar em nossa casa e comer conosco, significa muito mais do que uma refeição: significa uma comunhão muito íntima, significa que ele quer ser nosso amigo, além de já ser nosso Senhor, nosso Deus e, na Santíssima Trindade, nosso Criador.
Mais ainda, Jesus quer nos salvar, quer que estejamos juntos a ele na vida eterna. Ele deu a vida por nós. Ele se humilhou deixando de lado a vida de mordomia que tinha no céu para viver como um ser humano aqui na terra.
Em Mateus 26,53 Jesus fala, ao que havia decepado a orelha do servo do sumo sacerdote, que poderia naquele mesmo instante pedir ao Pai 12 legiões de anjos para vencer os soldados. Ou seja, ele aceitou morrer por nós. Ele poderia muito bem ter escapado das mãos dos judeus e das autoridades, pois 12 legiões são 72.000 (setenta e dois) anjos! E lembrem-se de que os anjos são imortais e não morreriam na luta contra os soldados.
Quando comungamos Jesus, na verdade estamos permitindo que ele nos receba, estamos dando plena permissão para que ele entre em nossas vidas e faça o que quiser conosco. Isso equivale a dizer que, quando o comungamos, na verdade é ele que nos comunga. Quando ele entra em nosso corpo, na verdade somos nós que entramos em seu corpo.
Aliás, o próprio São Paulo Apóstolo diz que somos parte do Corpo de Cristo, e Cristo é a cabeça desse corpo. Está tudo na Bíblia!
Amigos, amigas, na próxima comunhão de vocês sintam-se não só com Jesus no coração, mas também sintam-se dentro do seu Sagrado Coração!
10/01/18
O problema não é de hoje. Li no livro “A Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, escrito no século 15,
uma advertência para os que deixam a Eucaristia abandonada no sacrário de sua igreja para ir visitar e beijar relíquias de santos em outros países e igrejas. Veja o que o livrinho (depois da bíblia é o mais velho e difundido livro de leitura permanente) diz sobre esse assunto no livro quarto, capítulo 1, número 9 (em algumas versões, número 8):
8. Correm muitos a diversos lugares para visitar as relíquias dos santos, e se admiram ouvindo narrar os seus feitos; contemplam os vastos edifícios dos templos e beijam os sagrados ossos, guardados em seda e ouro. E eis que aqui estais presente diante de mim, no altar, vós, meu Deus, Santo dos santos. Criador dos homens e Senhor dos anjos. Em tais visitas, muitas vezes é a curiosidade e a novidade das coisas que move os homens; e diminuto é o fruto de emenda que recolhem, principalmente quando fazem essas peregrinações com leviandade, sem verdadeira contrição. Aqui, porém, no Sacramento do Altar, vós estais todo presente, Deus e homem, Cristo Jesus; aqui o homem recebe copioso fruto de eterna salvação, todas as vezes que vos recebe digna e devotamente. Aí não nos leva nenhuma leviandade, nem curiosidade ou atrativo dos sentidos, mas sim a fé firme, a esperança devota e a caridade sincera.
Já é hora de valorizarmos mais a Sagrada Eucaristia em nossas igrejas, e adorar com maior frequência o Santíssimo Sacramento, que é o próprio Jesus Cristo em Corpo, Sangue, Alma e divindade. Não estou dizendo aqui para se parar de visitar esses lugares sagrados ou de peregrinações, como Aparecida, ou a igreja do Divino Pai Eterno, ou o Padre Cícero, mas lembro que devemos dar mais valor à adoração de Jesus na Sagrada Eucaristia. Como diz o texto acima, Jesus está tão perto de nós e vamos buscar consolações espirituais em outros lugares...
Aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia divina o perdão da ofensa feita a Deus e ao mesmo tempo são reconciliados com a Igreja que feriram pecando, e a qual colabora para sua conversão com caridade, exemplo e orações.
Esse sacramento chama-se:
1. sacramento da Conversão (caminho de volta ao Pai);
2. da Penitência (esforço de conversão, de arrependimento e de satisfação por parte do cristão pecador);
3. da Confissão, porque a declaração, a confissão dos pecados diante do sacerdote é um elemento essencial desse sacramento, além da confissão que se faz da santidade de Deus e de sua misericórdia para com o homem pecador;
4. do Perdão, porque, pela absolvição sacramental do sacerdote, Deus concede "o perdão e a paz";
5. da Reconciliação: porque dá ao pecador o amor de Deus que reconcilia. Quem vive do amor misericordioso de Deus está pronto a responder ao apelo do Senhor: "Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão" (Mt 5,24).
A Confissão é necessária porque Jesus nos convida à conversão. A primeira e fundamental conversão é selada com o Batismo. A segunda conversão é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, e Cristo nos convida pela vida toda a realizá-la. Santo Ambrósio diz que na Igreja existem a água e as lágrimas: a água do Batismo e as lágrimas da Penitência.
Sem a penitência interior, entretanto, as obras de penitência externas são estéreis, vazias e enganadoras. A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às más obras que cometemos. É também o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda de sua graça.
A conversão é, antes de tudo, uma obra da graça de Deus que reconduz nossos corações a ele. É descobrindo a grandeza do amor de Deus que nosso coração experimenta o horror e o peso do pecado e começa a ter medo de ofender a Deus pelo mesmo pecado, e ser separado dele.
Somente Deus perdoa os pecados, mas confiou o exercício do poder de absolvição ao ministério apostólico (bispos e padres). Conferindo aos apóstolos seu próprio poder de perdoar os pecados, o Senhor também lhes dá a autoridade de reconcilia os pecadores com a Igreja.
A reconciliação com a Igreja é inseparável da reconciliação com Deus. O sacramento da Penitência foi instituído por Jesus para aqueles que, depois do Batismo, cometeram pecado grave e com isso perderam a graça batismal e feriram a comunhão eclesial. É uma nova possibilidade de converter-se e de recobrar a graça da justificação.
Há cinco condições para se fazer uma boa confissão (mais adiante repetimos essas condições com maiores detalhes):
1. Examinar a consciência, a fim de descobrir os pecados cometidos;
2. Arrepender-se dos pecados cometidos, ou seja, querer não cometê-los mais;
3. Propor não pecar mais. Sem esse propósito, a confissão fica nula.
4. Confessar os pecados ao padre. Somente se é obrigado a confessar os pecados graves, mas é aconselhável confessar todos, tanto os graves como os leves.
5. Cumprir a penitência que o padre determinar. A Igreja pede que o fiel se confesse ao menos uma vez por ano.
As graças que o sacramento da Penitência e Reconciliação nos oferece são: a reconciliação com Deus, pela qual o penitente recobra a graça; a reconciliação com a Igreja; a remissão da pena eterna devida aos pecados mortais; a remissão, pelo menos em parte, das penas temporais, sequelas do pecado; a paz e a serenidade da consciência, e a consolação espiritual; o acréscimo de forças espirituais para o combate cristão.
A confissão individual e integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua sendo o único meio ordinário de reconciliação com Deus e com a Igreja.
Marija Pavlovic, uma das videntes de Medjugorje, nos conta: -Durante a oração, a imagem de uma flor me apareceu três vezes. A primeira vez foi maravilhosa, fresca, colorida.
E fiquei feliz com isso! Então vi a mesma flor fechada, murcha, havia perdido completamente sua beleza. Eu estava triste! Mas eis que uma gota de água caiu sobre a flor murcha e ela imediatamente recuperou todo o seu frescor e esplendor!
Tentei entender o que essa visão poderia significar para mim, mas não consegui.- Então resolvi perguntar a Nossa Senhora durante uma de suas aparições. Eu disse a ela: "Minha Nossa Senhora, o que significa o que eu vi durante a oração? O que aquela flor significava?"
Nossa Senhora sorriu e respondeu: “Seu coração é como aquela flor. Cada coração é maravilhoso na beleza criada por Deus. Mas quando vem o pecado, a flor murcha e o brilho murcha. Essa gota que caiu sobre a flor para reanimá-la é o símbolo da Confissão. Você, quando está em pecado, não pode se ajudar, precisa de ajuda de fora.”
31/03/2019
Muitas pessoas se confessam para a primeira comunhão e depois nunca mais na vida se confessam. Entretanto, se têm a graça de se confessarem nas vésperas da morte, como ficam confortadas e morrem em paz! É impressionante os efeitos benéficos de uma confissão.
Já São Tiago diz, no capítulo 5, versículo 16: “Confessai, pois, uns aos outros os vossos pecados”.
O sacerdote, seja ele santo ou pecador, tem a autoridade para perdoar os pecados. No momento da absolvição, Jesus fica no lugar do sacerdote e é Jesus quem perdoa os pecados daquele penitente.
A absolvição dos pecados não depende do estado moral do confessor. Depende, isto sim, da sinceridade do penitente.
Havendo arrependimento dos pecados, a confissão é plenamente satisfatória e deixa novamente pura e “limpa” a veste batismal de quem está se confessando. Se morrer nesse estado, vai direto para o céu.
Se não houver um arrependimento total, mas houver um desejo sincero e forte de não mais pecar, a confissão será igualmente válida, os pecados confessados serão perdoados, mas o penitente fica devendo a satisfação daqueles pecados perdoados. Ou seja, se morrer nesse estado, vai ter que passar pelo Purgatório.
Deus não quer a perdição de nenhum de seus filhos(as). Vemos, por exemplo, em Ezequiel 18, 23, lemos que Deus não quer a morte (eterna) do ímpio, mas que ele se converta e viva (a vida no paraíso). Entretanto, Ele respeita a nossa liberdade e não vai nos salvar sem nossa permissão. Pecar e não pedir perdão é uma forma de dizer que não queremos nos salvar. Aí, Deus respeita a nossa decisão e a pessoa que morre nesse estado de não aceitação do perdão de Deus vai para o Inferno. É o tal “pecado contra o Espírito Santo”.
Foi Jesus que deixou os sacerdotes para perdoarem os pecados em seu nome: "Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23).
Essa autoridade para perdoar os pecados foi transmitida pelo sacramento da Ordem aos presbíteros, pela imposição das mãos desde os Apóstolos. É o que chamamos de Sucessão Apostólica. Por meio da ordenação o sacerdote pode também celebrar a Santa Missa “Na Pessoa de Cristo”.
A Igreja propõe cinco passos:
1- EXAME DE CONSCIÊNCIA:
Pesquisar quais pecados cometemos no nosso dia a dia. Isso deve ser feito com muita sinceridade, procurando evitar desculpas por ter agido deste ou daquele jeito. Tente lembrar-se dos pecados cometidos por pensamentos, palavras, atos e omissões. Peça a Deus, por Maria e pelo Anjo da Guarda, que lembre você dos pecados cometidos.
2- SENTIR PESAR POR TER PECADO
Peça a Deus que dê a você um arrependimento, uma dor sincera pelos seus pecados.
3- PROPOR NÃO PECAR MAIS
Acredito que seja o item mais importante. Sem esse propósito sincero, a confissão não vai ter valor.
4- CONFESSAR OS PECADOS AO PADRE
Confessar tudo, sem esconder nada, confiando que o padre guardará segredo de tudo o que você lhe falar. O segredo da confissão é algo real e 100% praticado. Diga ao padre quantas vezes fez tal e tal coisa e as circunstâncias. Por exemplo, tratar mal aos pais é mais grave do que tratar mal algum amigo (que, aliás, pode ser também pecado grave). Se se esquecer de alguns pecados, não se aborreça. Peça também perdão dos pecados esquecidos. Se você ocultar conscientemente algum pecado, a confissão não será válida. Não é preciso falar os pecados já perdoados, mas apenas os cometidos desde a última confissão bem feita.
5- CUMPRIR A PENITÊNCIA DADA PELO CONFESSOR
Que sempre se reduz a alguma oração rápida. Mas eu aconselho você a aprofundar essa penitência, fazendo, por exemplo, às quartas e sextas-feiras pelo menos uma penitência.
Na bíblia vemos muitos exemplos de pecadores arrependidos que obtiveram pleno perdão. Davi, por exemplo, que cometeu homicídio e adultério, mas se arrependeu e foi perdoado. A adúltera, que foi perdoada, mas recebeu o aviso de Jesus para não mais pecar. Em Miqueias cap. 7 vers. 18-20, lemos que Deus jogará nossas iniquidades no mais profundo do mar e esquecerá as nossas faltas.
Nossa Senhora, em suas aparições de Medjugorje, insiste muito na confissão para nossa santificação e garantia da vida eterna.
Deixe sua vergonha de lado (o padre, seja ele quem for também é pecador) e vá se confessar! É bom, é grátis, e nos deixa transformados. A graça de Deus pode fluir em nós.
É o outro sacramento de cura. Tanto o bispo como o sacerdote ungem o doente com o óleo sagrado pelo bispo e pelos sacerdotes na Semana Santa, a fim de que ele se cure, tenha seus pecados perdoados, e tenha paciência e paz suficientes para suportar a doença quando não acontece a cura.
De fato, a enfermidade tanto pode levar a pessoa à angústia, a fechar-se sobre si mesma, e às vezes até ao desespero e à revolta contra Deus, como pode tornar a pessoa mais madura, ajudá-la a discernir em sua vida o que não é essencial, para voltar-se àquilo que é essencial. Não raro, a doença provoca uma busca de Deus, um retorno a ele.
Na Bíblia, vemos muitas vezes a cura dos enfermos, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Jesus mandava que os apóstolos curassem os enfermos (Mc 6,12-13; Mc 16,17-18; Mt 10,8). Entretanto, é em Tg 5,14-1 5 que a Igreja conhece um rito próprio em favor dos doentes. Diz São Tiago: "Alguém de vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o porá de pé; e se tiver cometido pecados, estes lhe serão perdoados".
A graça especial do sacramento da Unção dos Enfermos tem como efeitos: a união do doente com a paixão de Cristo, para seu bem e o bem de toda a Igreja; o reconforto, a paz e a coragem para suportar cristãmente os sofrimentos da doença ou da velhice; o perdão dos pecados, se o doente não puder obtê-lo pelo sacramento da Penitência; o restabelecimento da saúde, se isso convier à salvação espiritual; a preparação para a passagem à vida eterna.
A Ordem é o sacramento que transforma o leigo em diácono, o diácono em sacerdote e o sacerdote em bispo. É o sacramento graças ao qual a missão confiada por Cristo a seus Apóstolos continua sendo exercida na Igreja até o fim dos tempos; é o sacramento do ministério apostólico. Possui três graus: o diaconato (para diáconos) o presbiterado (para padres) e o episcopado (para bispos).
O sacramento da Ordem insere a pessoa num determinado grupo de cristãos que exercem uma função específica em relação à do cristão leigo, graças à imposição das mãos do bispo e da oração consecratória.
Toda a Igreja é um povo sacerdotal, pois graças ao Batismo, todos os fiéis participam do sacerdócio de Cristo. O "sacerdócio comum dos fiéis" deve ser exercido por todos os cristãos.
O ministério conferido pelo sacramento da Ordem consiste num outro tipo de participação na missão de Cristo, ou seja, no serviço em nome e na pessoa de Cristo no meio da comunidade. Além disso, o sacerdócio ministerial confere um poder sagrado para esse serviço dos fiéis. Esse serviço consiste no ensino, no culto divino e no governo pastoral.
No serviço eclesial do ministro ordenado, é o próprio Cristo que está presente à sua Igreja enquanto Cabeça de seu Corpo, Pastor de seu rebanho, Sumo Sacerdote do sacrifício redentor, Mestre da Verdade. A Igreja expressa isso dizendo que o sacerdote, em virtude do sacramento da Ordem, age "In persona Christi Capitis", ou seja, na pessoa de Cristo-Cabeça.
O bispo é o único que pode tornar o leigo um diácono, sacerdote ou outro bispo. Para que isso aconteça e seja válido, o bispo ordenante deve ter sido validamente ordenado, isto é, que esteja na linha da sucessão apostólica, e em comunhão com a Igreja toda, principalmente com o Sumo Pontífice (o Papa).
Os padres somente podem exercer seu ministério na dependência do bispo e em comunhão com ele. Já para a legítima ordenação de um Bispo, é hoje exigida uma especial intervenção do Bispo de Roma (o Papa), por causa de sua qualidade de vínculo visível supremo da comunhão das Igrejas particulares (as dioceses) na única Igreja e garantia da sua liberdade.
A ordenação de mulheres não é possível porque o Senhor Jesus escolheu homens para formar o colégio dos doze Apóstolos, e os apóstolos fizeram o mesmo quando escolheram os colaboradores que seriam seus sucessores na missão. O colégio dos bispos, ao qual os presbíteros estão unidos no sacerdócio, torna presente e atualiza, até o retorno de Cristo, o colégio dos doze. A Igreja se reconhece ligada a essa escolha do próprio Senhor.
O sacramento da Ordem é concedido uma vez por todas, ou seja, não pode ser repetido, pois confere um caráter espiritual indelével, ou seja, para sempre. Assim, um padre que deixe o ministério para casar-se, por exemplo, continua sendo padre. Se ficar viúvo e quiser voltar a exercer o ministério, não precisa ser ordenado novamente, bastando seguir as orientações da Igreja a esse respeito.
Por falar nisso, é bom lembrar que na Igreja de rito latino somente o diácono pode ser casado; o bispo e o padre devem ser solteiros ou, em alguns casos, viúvos. Entretanto, se o diácono permanente casado ficar viúvo, não poderá mais se casar.
«O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus» (São João Maria Vianey)
Belíssimas palavras de São João Maria Vianey:
«Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia».
«Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação?
O sacerdote. Quem a há-de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu».
«Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, se não houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós».
Mãos Sacerdotais
Mãos do sacerdote, mãos predestinadas,
Mãos de Jesus Cristo, mãos divinizadas,
Feitas lá no céu de essências imortais.
Mãos do sacerdote, feitas sob modelo
Que Jesus traçara cheio de desvelo,
Desde todo sempre, mãos sacerdotais.
*
Mãos do sacerdote para a cruz voltadas,
Mãos de lírios roxos sobre a cruz pregadas,
Sempre, sempre abertas, sem fechá-las mais,
Mãos de sofrimentos, mãos de mil suplícios,
Têm as veias rubras feitas de cilícios,
Mãos de mil calvários, mãos sacerdotais.
*
Mãos do sacerdote, mãos de toda hora,
Quando a noite é negra, quando brilha a aurora,
Quando reina a calma, quando há temporais,
Mãos de sacerdote, mãos de toda gente,
Mãos do fervoroso, mãos do indiferente,
Mãos dos sofredores, mãos sacerdotais.
*
Mãos do sacerdote, mãos feitas de lodos,
Frágeis, passageiras, como as mãos de todos,
Filhas do pecado como as dos demais,
Mãos feitas de lodo, frágeis, pecadoras…
Mãos purificadas, santas, redentoras…
Beatificantes, mãos sacerdotais.
*
Quantas mãos existem. Que diversidade!
Mãos para a virtude, mãos para a maldade,
Mãos cheias de lodo, mãos cheias de luz.
Mãos que ferem, mãos que fecham as feridas,
Mãos que dão a morte, mãos que dão a vida,
Mãos que dão o diabo, mãos que dão Jesus.
*
Quantas mãos existem. Que diversidade!
Mas somente vós não sois como as demais.
Pois somente vós levais à eternidade;
E há recantos n’alma em que só vós tocais.
E há espinhos fundos que ninguém alcança,
E há doridos prantos que ninguém estanca
A não serdes vós, ó mãos sacerdotais!
*
Mãos do sacerdote, luz, calor, guarida,
Para cada morte trazem uma vida,
Para cada vida acendem mil fanais.
Mãos do sacerdote, báculo que arrima,
Bálsamo que alenta, asa que sublima,
Cofre dos consolos, mãos sacerdotais
Alguns testemunhos que nos tocam profundamente:
A venerável Catarina Vannini via, em êxtase, os Anjos que, durante a Missa, circundavam as mãos do Sacerdote e as sustentavam no momento da elevação da Hóstia e do Cálice.
Poderemos imaginar com que respeito e afeto a Venerável beijava aquelas mãos?
Santa Edviges, rainha, cada manhã assistia a todas as Santas Missas que eram celebradas na capela da Corte, mostrando-se muito agradecida e reverente para com os Sacerdotes que tinham celebrado: convidava-os entrar, beijava suas mãos com suma devoção, fazia que se alimentassem, tratando-os com as mais distintas honras. Ouvia-se como a rainha exclamava comovida: "Bendito seja quem fez Jesus descer do Céu e O deu a mim."
S. Pascoal Baylon era o porteiro do convento. Todas as vezes que chegava um Sacerdote, o Santo Fradinho se ajoelhava e lhe beijava respeitosamente as duas mãos. Dele foi dito, como de S. Francisco, que "era devoto das mãos consagradas dos Sacerdotes." Ele as julgava capazes de deter longe os males e cumular de bens a quem nelas tocasse com veneração, porque são as mãos das quais Jesus se serve.
E, como era edificante ver o Pe. Pio de Pietrelcina procurando beijar com amor as mãos de qualquer Sacerdote, às vezes até agarrando-as de surpresa! E, que dizer de outro Servo de Deus, Dom Dolindo Ruotolo, que não admitia que um Sacerdote pudesse negar-lhe “a caridade” de deixá-lo beijar-lhe as mãos?
Enfim, sabemos que este ato de veneração muitas vezes foi premiado por Deus com verdadeiros milagres. Na vida de Santo Ambrósio se lê que um dia, logo após a celebração da Santa Missa, o Santo viu aproximar-se dele uma mulher paralítica, que queria beijar suas mãos. A pobre mulher tinha grande fé naquelas mãos que tinham acabado de consagrar a Eucaristia: e ficou curada no mesmo instante. A mesma coisa aconteceu em Beneveto: uma mulher paralítica, havia quinze anos, pediu ao Papa Leão IX licença para beber a água por ele usada durante a Santa Missa, quando lavou os dedos. O Santo Papa atendeu aos desejos da enferma em seu pedido humilde, como o pedido da Cananéia, rogando a Jesus que lhe desse “as migalhas que caem da mesa do dono da casa” (Mt 15,27), e ficou imediatamente curada.
Catequista Maria Ângela
A aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão da vida toda, ordenada ao bem dos cônjuges e à geração e educação dos filhos, foi elevada, entre os que são batizados, à dignidade de sacramento, por Cristo Senhor.
Diz Jesus em Mt 19,6: "De modo que já não são dois, mas uma só carne". Isso mostra uma unidade profunda de duas vidas, confirmadas pelo pacto conjugal, ou seja, o consentimento pessoal irrevogável.
O sacramento do Matrimônio significa a união de Cristo com a Igreja.
Concede aos esposos a graça de se amarem com o mesmo amor com que Cristo amou a sua Igreja. A graça do sacramento leva à perfeição o amor humano dos esposos, consolida sua unidade indissolúvel e os santifica no caminho da vida eterna. Se os cônjuges separam-se, divorciam-se, separam algo que Deus uniu. O novo casamento dos divorciados ainda em vida do legítimo cônjuge contraria o desígnio e a lei de Deus, que Cristo nos ensinou. Eles não estão separados da Igreja, mas não têm acesso à comunhão eucarística. Levarão vida cristã principalmente educando seus filhos na fé.
O lar cristão é o lugar onde os filhos recebem o primeiro anúncio da fé. Por isso, o lar é chamado, com toda razão, de "Igreja doméstica", comunidade de graça e de oração, escola das virtudes humanas e da caridade cristã.
É preciso lembrar, ainda, que há certas situações que invalidam o matrimônio, ou seja, os noivos se casam à vista de todos, mas na verdade o casamento não valeu. Esses casos são resolvidos pelo chamado "Tribunal Eclesiástico" das Províncias Eclesiásticas. Exemplo: dois primos em primeiro grau somente podem casar-se com a autorização do bispo ou dos padres autorizados por ele. Se os noivos-primos se casam sem essa autorização (sem a devida dispensa), o casamento não valeu, está nulo.
Finalmente é bom lembrar que até para o Matrimônio é necessário ter vocação, sem ela muitos casamentos fracassam.
Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues
Conteúdo
1 Introdução
2 A Família em crise
3 A família à luz da revelação cristã
4 SEGUNDA PARTE : O DESÍGNIO DE DEUS SOBRE O MATRIMÓNIO
5 Conclusão
6 Citações:
Introdução
Este foi o tema do 47º Congresso Nacional da Escola de Pais do Brasil. Foi-me pedido colaborar nesse Seminário Regional da Escola de Pais em Sorocaba. Confesso que, lendo os anais de 47º Congresso Nacional, me senti pequeno diante da riqueza das reflexões profundamente atuais que então foram propostas.
Os desafios por que passa a Família exigem respostas concretas que ajudem os responsáveis maiores pela vida familiar, os pais, a garantirem que a família seja de fato o espaço da vivência de um amor verdadeiro, que contribua decisivamente para a paz. Penso que minha contribuição como bispo da Igreja Católica deverá situar-se no horizonte da compreensão com que a revelação cristã no decorrer da história foi iluminando e preservando o núcleo essencial do que se deve entender por família. Aqui já se coloca uma questão que é preciso logo ser resolvida.
O que se deve entender por família?
Vivemos um momento cultural onde as palavras deixam de significar uma realidade objetiva para significar os anseios de uma subjetividade insubordinada. Só a título de exemplo: o que é hoje um casal? O que de fato constitui duas pessoas como um casal? Historicamente casal e casamento são vocábulos que sempre se referiram à união de um homem com uma mulher. Também quando aplicado aos irracionais, não casamento - este supõe decisão consciente e livre -, a palavra “casal” sempre indicou um macho e uma fêmea.
A palavra “família” em seu sentido original e mais próprio historicamente quer significar a instituição que conjuga duas realidades intimamente conexas: a união de homem e mulher e o conseqüente fruto dessa união, a prole. Aí está a família-fonte sem a qual nem existiria a grande família humana. Existe hoje uma corrente de pensamento que pretende relativizar a família tal como tradicionalmente sempre foi entendida.”No plano ideológico e, especificamente, no âmbito da antropologia cultural, tem feito a sua aparição um virulento anti-naturalismo que, a partir do pluralismo diacrônico e sincrônico das formas históricas de família, nega a idéia de natureza humana em favor de uma visão radicalmente relativista.
Pelo contrário, pretende-se denunciar o caráter totalitário implicado pela idéia de uma família ‘natural’ que seria usada como instrumento para uma práxis de poder por parte das grandes culturas universalistas, como aquela do catolicismo. Em realidade, como têm mostrado os competentes estudos do decano dos sociólogos sobre a família, Claude Lévi-Strauss, recentemente falecido, mesmo que não se tenha tido uma única forma de família na história, existe todavia a possibilidade de individualizar um tipo de estrutura natural do dado familiar que é fundada sobre um dúplice vínculo: aquele que pode ser chamado de ‘horizontal’, presente pela relação sexual entre o homem e a mulher, e aquele ‘vertical’ presente na relação de geração entre genitores e filhos, que dá lugar à família como ‘fenômeno universal, presente em qualquer tipo de sociedade.
Trata-se desta forma, segundo as palavras do escritor italiano, Pierpaolo Donati, numa obra recente, de uma forma de relação primordial caracterizada por uma espécie de ‘genoma’, isto é, de maneira análoga à biologia dos organismos vivos, de uma característica latente, que vem vivida de maneira diversificada, mas que, por isso não cessa de ser o núcleo permanente desta realidade”.(1)
A Família em crise
A crise da família, bem como sua saúde, está inseparavelmente ligada à maneira como se concebe o matrimônio e seus fins, tradicionalmente entendidos como geração e educação da prole, e, dentro desse horizonte, como o mútuo auxílio, ou a comunhão entre os esposos, segundo ensinamento do Concílio Vat. II: “O matrimônio e o amor conjugal ordenam-se por sua própria natureza à geração e educação da prole. Os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimônio e contribuem muito para o bem dos próprios pais...
Os esposos sabem que no dever de transmitir e educar a vida humana - dever que deve ser considerado como a sua missão específica - eles são os cooperadores do amor de Deus criador e como que os seus intérpretes”(2). A articulação dessas duas dimensões, quais sejam, a comunhão de amor entre os esposos, que, de forma especial, se exprime e deveria crescer também por uma vida sexual amorosa, e a geração e educação dos filhos desse amor, vem sendo, nos últimos tempos, violentamente ameaçada pela difusão de uma forma de pensar – que começa a ganhar legitimidade jurídica – em que o casamento pode ser qualquer união livremente escolhida pelas pessoas, inclusive do mesmo sexo. Nesse contexto o casamento não se definiria mais com uma união fecunda que deve frutificar na geração de outros seres humanos e na sua educação.
O laço fundador da família vai sendo rompido gradativamente. Em nome do respeito “aos direitos do indivíduo” o Estado legisla, não pensando no bem da sociedade – a família é o bem maior -, mas nos desejos dos indivíduos. Assim comenta Jean Laffite , secretário do Pontifício Conselho para a Família: “A família, enquanto célula social fundamental e estrutural, não é mais considerada. O Indivíduo pode construir uma família segundo modelos mais variados e fantasiosos, dado que sua liberdade de escolha é um absoluto. Compreende-se que semelhante evolução carrega, em germe, a decomposição dos liames sociais e, de forma última, da sociedade livre.
Numa visão como tal, o matrimônio, no sentido próprio do termo, não pode mais ver reconhecido seu papel, nem garantidos seus direitos.”(3) Nesse contexto de uma liberdade a serviço de uma subjetividade sempre insatisfeita e caprichosa também o vínculo matrimonial fica enfraquecido e sujeito à instabilidade das pessoas. O compromisso matrimonial é relativizado e os casamentos duram o tempo que dura a satisfação dos desejos dos sujeitos.
A ideia de compromisso com uma realidade maior e de uma liberdade a serviço do bem comum da humanidade cede espaço a uma concepção de felicidade como satisfação dos próprio desejos. A vida íntima do casal perde o significado de expressão de uma doação profunda e total sempre em crescimento. O amor é confundido com sua expressão sexual e deixa de ser um vínculo definitivo que dá sentido e cresce com a vida íntima do casal. Outros desafios se põem ainda nesse contexto pelas novas possibilidades no que diz respeito a geração de novos seres humanos.
A reprodução assistida permite até mesmo a comercialização de óvulos e os bancos de esperma. Já há casais que excluem os filhos com o argumento de que os filhos atrapalham a felicidade do casal. O casamento se define em função da “felicidade” do casal. A reprodução assistida introduz a dissociação entre a geração e o ato humano destinado a gerar a nova vida e permite ainda a chamada “barriga de aluguel”.Ter fiho não é mais um dever, mas um direito a ser satisfeito por quaisquer meios. O filho deixa de ser fim para ser meio. Aí está, ainda que muito rapidamente, uma amostra dos reflexos na instituição familiar dos postulados de uma nova cultura que pretende erigir o indivíduo como fonte exclusiva dos “valores” que devem reger a vida em sociedade.
A família à luz da revelação cristã
Passo agora a propor, citando e fazendo breves comentários, textos do ensinamento da Igreja Católica, sobre a Família. Introduzo essa segunda parte de minha exposição retomando a constatação de Claude Lévi-Strauss de que “mesmo que não se tenha tido uma única forma de família na história, existe todavia a possibilidade de individualizar um tipo de estrutura natural do dado familiar que é fundada sobre um dúplice vínculo: aquele que pode ser chamado de ‘horizontal’, presente pela relação sexual entre o homem e a mulher, e aquele ‘vertical’ presente na relação de geração entre genitores e filhos, que dá lugar à família como ‘fenômeno universal, presente em qualquer tipo de sociedade’”(4).
Ora, o fenômeno universal está a nos indicar que existe uma estrutura básica que rege a família e que todas as culturas de certa forma lhe foram obedientes. A filosofia de inspiração cristã chama de lei natural, que deriva da própria natureza, os princípios fundamentais que devem orientar a vida humana na história, sob pena de o ser humano se desumanizar e destruir a própria natureza. Existe, pois, um conceito de família que se mostra na própria forma como a família vem se organizando através dos tempos, Definir uma realidade é dizer aquilo que esta realidade deve ser.
Tomemos com exemplo o próprio ser humano. O que ou quem é o ser humano? Por mais que historicamente o ser humano possa ter-se mostrado vil, injusto, aprisionado nos vícios ou deformado pelo gosto do poder, devemos defini-lo com um ser livre, inteligente e responsável, portador de uma dignidade inalienável e inviolável. Definimo-lo por aquilo que percebemos ser sua dignidade maior, sua essência. Assim também a família.
O que é a família? Uma comunidade de amor, onde a união profunda, selada por compromisso definitivo de um homem e de uma mulher, garante a geração e a educação de novos seres humanos. Definir uma realidade humana não se faz por votação, mas a partir da experiência e da reflexão, uma reflexão livre, ou seja, não sujeita às paixões momentâneas e a um marketing comprometido com ideologias de grupos de interesse ou de pressão; uma reflexão inspirada no desejo de construir uma sociedade justa, fraterna e pacífica.
A Revelação cristã trouxe, nesse sentido uma notável contribuição para consolidar uma estrutura familiar que atende de forma esplêndida ao que se deve esperar da família. Passo agora a citar e a refletir sobre alguns textos da Exortação Apostólica “Familiaris Consortio” de João Paulo II. A Exortação, promulgada pelo Papa João Paulo II em novembro de 1981, deu forma às propostas do Sínodo sobre a Família (26/09 a 25/10 de 1980), onde bispos, representantes dos episcopados de todos os países, manifestaram suas preocupações e ofereceram sob a forma de proposições valiosa contribuição sobre o tema.A Exortação está composta em quatro partes seguidas de uma Conclusão.
PRIMEIRA PARTE : LUZES E SOMBRAS DA FAMÍLIA DE HOJE
SEGUNDA PARTE : O DESÍGNIO DE DEUS SOBRE O MATRIMÓNIO
E SOBRE A FAMÍLIA :
TERCEIRA PARTE : OS DEVERES DA FAMÍLIA CRISTÃ
QUARTA PARTE : A PASTORAL FAMILIAR:
ETAPAS, ESTRUTURAS, RESPONSÁVEIS E SITUAÇÕES
CONCLUSÃO
Detenho-me em alguns textos da segunda parte sobre o “Desígnio de Deus sobre o Matrimônio e sobre a Família” e começo por afirmar que o núcleo essencial do que é a família, conforme Lévy-Strauss presente em todas culturas, recebe da revelação cristã uma luz que eleva a uma perfeição insuspeitada a grandeza e a beleza da família.
“Deus criou o homem à sua imagem e semelhança chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor.
Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano.
Enquanto espírito encarnado, isto é, alma que se exprime no corpo informado por um espírito imortal, o homem é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O amor abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do amor espiritual”.(5)
Assim começa Papa João Paulo II a segunda parte de sua exortação. Suas afirmações nos remetem a duas passagens do livro do Gênesis:
A)‘‘Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem e segundo nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais selvagens e todos os animais que se movem pelo chão”. Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem pelo chão
B) “E o Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda. Então o Senhor Deus formou da terra todos os animais selvagens e todas as aves do céu, e apresentou-os ao homem para ver como os chamaria; cada ser vivo teria o nome que o homem lhe desse. E o homem deu nome a todos os animais domésticos, a todas as aves do céu e a todos os animais selvagens, mas não encontrou uma auxiliar que lhe correspondesse. Então o Senhor Deus fez vir sobre o homem um profundo sono, e ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne.
Depois, da costela tirada do homem, o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. E o homem exclamou: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada ‘humana’ porque do homem foi tirada”. Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”.(6)
O pleno significado de ser a imagem e a semelhança de Deus só vai se manifestar com a revelação do mistério trinitário. Deus é comunhão infinita de amor. Três pessoas distintas e, ao mesmo tempo em tal comunhão de amor, que as três são um único ser. Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano experimenta um anseio de comunhão que o coloca na direção de Deus. Este anseio, esta orientação para o outro, constitui o dinamismo mais profundo do ser humano que se revela e se concretiza na história quando o ser humano consegue fazer comunhão com seus irmãos de humanidade.
O matrimônio é o lugar primeiro e privilegiado de se viver esse amor. Assim como o Amor de Deus Trino se manifestou no ato de criar, o amor humano não pode não ser fértil. O amor criador de Deus se prolonga na história através do amor fecundo dos casais. Sendo o homem um ser corpóreo, o amor humano se revela corporalmente. Nosso corpo não é instrumento do qual nossa liberdade possa dispor arbitrariamente. Nosso corpo é o lugar em que nos experimentamos como pessoas e somos para os outros. Se somos mais que corpo animal, esse “mais” se expressa e se comunica corporalmente.
Por paradoxal que possa parecer a cultura que prega o livre dispor do próprio corpo alimenta por ele um total desprezo. O corpo é usado como objeto. Subjugado aos caprichos do indivíduo sedento de prazer. Deixa de ser expressão de um amor que se comunica para ser instrumento para a satisfação de desejos egoístas. “O corpo é meu, faço dele o que quero”. Não. O corpo tem uma dignidade; ele é o lugar da comunicação das experiências mais profundas do amor.
“Por consequência a sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os atos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal. Esta realiza-se de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte. A doação física total seria falsa se não fosse sinal e fruto da doação pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente.
Esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais.
O «lugar» único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimônio, ou seja o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado.
A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjetivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora.”(7)
A revelação cristã dá ao matrimônio uma dignidade e um sentido insuspeitado quando, já no Antigo Testamento, se serve da união matrimonial para falar do amor de Deus pelo seu povo. A Aliança de Deus com seu Povo é descrita como uma entrega de amor definitiva, como um amor sem reservas, não obstante as infidelidades e fraquezas da esposa amada.(8)
No Novo Testamento a entrega de Jesus pela humanidade leva Paulo a retomar o matrimônio como símbolo vivo da relação de Cristo com a Igreja: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de santificar pela palavra aquela que ele purifica pelo banho da água. Pois ele quis apresentá-la a si mesmo toda bela, sem mancha nem ruga ou qualquer reparo, mas santa e sem defeito. É assim que os maridos devem amar suas esposas, como amam seu próprio corpo.
Aquele que ama sua esposa está amando a si mesmo. Ninguém jamais odiou sua própria carne. Pelo contrário, alimenta-a e a cerca de cuidado, como Cristo faz com a Igreja; e nós somos membros do seu corpo! “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne”. Este mistério é grande – eu digo isto com referência a Cristo e à Igreja (Ef 5,26-29). Em suma, cada um de vós também ame a sua esposa como a si mesmo; e que a esposa tenha respeito pelo marido.”( Ef 5,25 – 32).
Também no Apocalipse a Igreja – a nova Jerusalém – é descrita como esposa: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, vestida como noiva enfeitada para o seu esposo. Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: “Esta é a morada de Deus-com-os-homens. Ele vai morar junto deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será seu Deus. (Apoc 21,2-3).
E é comovente ler no último capítulo do Apocalipse o desejo da esposa de reencontrar-se com o esposo: O Espírito e a Esposa dizem: “Vem”! Aquele que ouve também diga: “Vem”! Quem tem sede, venha, e quem quiser, receba de raça a água vivificante. Para todo o que ouve as palavras da profecia deste livro vai aqui o meu
testemunho: se alguém lhe acrescentar qualquer coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão aqui descritas. E se alguém retirar algo das palavras do livro desta profecia, Deus lhe retirará a sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa, que se encontram descritas neste livro. Aquele que dá testemunho destas coisas diz: “Sim, eu venho em breve”. Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Apoc 22, 17-20).
“O matrimônio dos batizados torna-se assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo. O Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a Cruz.”
“Em virtude da sacramentalidade do seu matrimônio, os esposos estão vinculados um ao outro da maneira mais profundamente indissolúvel. A sua pertença recíproca é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja”. (9)
O revelação bíblico-cristã explicita de forma esplendorosa a natureza e o sentido do amor entre homem e mulher. Mesmo aqueles que não partilham conosco a fé cristã sabem que o ideal – o sonho possível – é um amor verdadeiro, sólido, entre esposo e esposa, fonte de vida e alimento que sustenta o crescimento dos filhos. A grande novidade da revelação cristã sobre o matrimônio é sua elevação à condição de sacramento, ou seja, o matrimônio entre batizados é fonte de santificação para o casal e para os filhos. O lar se torna lugar especial da presença de Deus, porque ali se faz atuante a ação de Cristo que santifica a Igreja.
Conclusão
Concluo manifestando a convicção de que a crise, que hoje atinge a família, com seus desafios, pede de todos um empenho renovado em promover a dignidade do matrimônio, fonte permanente de onde nasce sempre de novo a humanidade. A união dos esposos gera filhos e faz de sua casa o lar onde eles crescem alimentados pelo transbordamento de seu amor. Um matrimônio que se desfaz deixa os filhos sem chão e sem teto. Donde a urgente necessidade de educar para o amor as novas gerações. Família e escola devem estar unidas nessa missão. Inevitável a pergunta: em que nossas escolas têm ajudado a formar para os valores da Família? E por último um pensamento de Bento XVI: “Uma sociedade em que Deus está ausente não encontra consenso necessário sobre os valores morais e a força para viver segundo esses valores, mesmo contra os próprios interesses”.
Parabéns a Escola de Pais pelo belo trabalho que realiza em me nosso estado e em nossa Região.
Citações:
(1) Lívio Melina, capítulo I, “A missão da família cristã a trinta anos da Familiaris Consortio” em “Desafios e possibilidades da família no limiar do sec. XXI”, pág. 14. publicação da CNBB),
(2) Documentos do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, n. 50.
(3) “Desafios e possibilidades da família no limiar do séc. XXI”, pag. 87. publicação da CNBB),
(4) Lívio Melina, capítulo I, “A missão da família cristã a trinta anos da Familiaris Consortio” em “Desafios e possibilidades da família no limiar do sec. XXI”, pág. 14. publicação da CNBB),
(5) Familiaris Consortio , n. 11.
(6) Gên 1,26-28; 2,18-24.
(7) Familiaris Consortio, n. 11.
(8) Cf. Os. 1 a 3; Ml 2,14; Ez 16 e 23; Prov 2,17; Jer 3; 31,1-4; Is 54,5-8;
(9) Familiaris Consortio, n. 13
Sorocaba, 21 de novembro de 2012
Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues
Arcebispo de Sorocaba