03/03/2018
A liturgia do sábado da 2ª semana da quaresma conta a parábola do filho pródigo, no evangelho (Lucas 15,1-3.11-32), e o magnífico versículo de Miqueias 7, 19:
(Deus) “Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”.
Eu sinto muita alegria quando leio essa frase. Ela me traz uma paz incrível, que só mesmo a confiança na misericórdia divina pode trazer. Nada mais neste mundo pode nos levar a uma alegria realmente autêntica como saber que podemos ser perdoados de nossos pecados, desde que nos convertamos e nos proponhamos não pecar mais.
Para “arrematar” a minha alegria de hoje, vem o evangelho contando essa parábola fabulosa de um filho que abandonou a casa paterna para “se mandar” pelo mundão e, ao retornar, em vez de encontrar indiferença ou mesmo violência, encontrou acolhida e amor.
Lucas retrata com incrível sabedoria o que podemos conhecer do Amor infinito de Deus. Como Ele é infinito, nunca vamos alcançar a magnitude desse amor.
Sempre acho irrefletido o ato de alguns padres em trocar o “todo-poderoso” das orações litúrgicas pelo “todo-misericordioso”. Sabe por quê? Porque Deus só pode ser todo-misericordioso justamente porque é todo-poderoso! Se ele não fosse todo-poderoso também não poderia ser todo-misericordioso! E a misericórdia de Deus vem de sua Santidade, igualmente infinita.
Uma coisa que me deixa pasmo é o fato de que o filho pródigo não voltou a procurar o pai por estar arrependido. O texto não afirma isso. Ele queria apenas ser recebido como um empregado, ou seja, não esperava ser perdoado. Apenas “aturado” como um empregado. E, mesmo assim, o pai o perdoou e o vestiu com vestes limpas e dignas e com o anel, que indicava autoridade.
Isso me leva a dizer que, mesmo que não consigamos nos arrepender de coração dos pecados que fizemos no passado, mesmo que não sintamos no mais íntimo de nós o fato de termos pecado, se estivermos conscientes de nosso erro, pedirmos a Deus que nos dê a graça do arrependimento, e pedirmos perdão com a firmeza de não mais pecar, Deus nos perdoará. Talvez tenhamos que nos purificar no purgatório até que nos arrependamos, mas nos livramos do inferno. Se pedirmos a Deus que nos coloque no coração o sentimento de arrependimento, ele nos concederá essa graça.
Vou dar um exemplo: o menino rouba fruta no vizinho, é admoestado pela mãe, e promete não roubar mais. A mãe perdoa, mesmo sem se preocupar em saber se ele está arrependido ou não. Para a mãe, o importante é ele não roubar mais. Será que o menino se arrependeu de comer aquelas frutas tão saborosas?
Tenho a oportunidade de recomeçar a vida a cada dia. Não quero deixar passar essa oportunidade. Estar livre de pecados nos leva a mantermos ligação profunda com Deus, por Maria, com Jesus, e estaremos, assim, caminhando em direção à felicidade futura do paraíso.
As ilusões do mundo são fantásticas, mas mentirosas. Só nos trazem desgastes e sofrimentos. Dão um prazer imediato, mas desapontamentos futuros. A renúncia a tudo o que possa nos separar de Deus é difícil, mas se fizermos as contas, traz menos sofrimentos do que a consequência de nossos desmandos. A renúncia sempre é seguida pela paz, pela alegria, pela certeza de que estamos agradando ao nosso Deus e Senhor, que nasceu entre nós para nos levar ao seu Reino de Amor. Ele é apaixonado por nós.
Se você estiver lendo isto por acaso e não está nem aí com esse assunto, eu o (a) aconselharia a pensar um pouco. O filho pródigo pensou a tempo e voltou, mesmo sem ter sentido arrependimento. Eu já estou pensando no assunto e pedindo a Deus que não me abandone. E você, já está dando entrada a Deus em sua vida? A gente começa a fazer isso com a oração.
Se você não tem costume de rezar, comece dizendo: “Meus Deus, me ajude. Faça com que eu vos ame. Tende piedade de mim”! Repita isso o dia inteiro”! Foi assim que o Irmão Carlos de Foucauld se converteu.
Lc 19,1-10
(misturado com narração em forma de ficção)
Gosto muito de aplicar a história de Zaqueu em nossa própria vida. Zaqueu, o pecador (publicano, chefe dos cobradores de impostos, o que equivalia a dizer “Chefe dos ladrões”), e muito rico.
Ele ouvira dizer que Jesus estava passando por ali e se interessou em conhecê-lo, mas não queria se comprometer com o que ele ensinava. Quantas vezes fazemos isso! Falamos de Jesus, ouvimos o que ele disse, mas permanecemos de longe, sem nos comprometer! Muitas vezes chegamos até a discutir o Jesus Histórico, passagens da bíblia, mas não levantamos um só dedo para praticar tudo isso.
A multidão era grande e ele era muito pequeno. Não via nada. Então, resolveu subir numa figueira, para ver Jesus, sem ser visto por Ele.
As figueiras da Palestina são árvores frondosas, altas, mas não são encopadas, ou seja, os galhos são revestidos de folhas esparsas, que permite a alguém que nela suba ver tudo, apesar de não ficar muito à vista de quem ele estiver vendo .
Como seria o dia a dia de Zaqueu? Imagino, nas estrelinhas da bíblia (por isso é que dei esse nome a esta série), que era um homem muito ocupado, pois chefiava os cobradores de pesados impostos, que oprimiam o povo.
Tanto o Estado Judaico como o Estado Romano (A palestina era colônias do Império Romano), por meio desses impostos, eram monopolizadores da circulação das mercadorias, o que proporcionava vultuosas arrecadações. Esses impostos eram cobrados por esses cobradores que Zaqueu chefiava.
Além dos impostos, havia taxas para transportar mercadorias de uma cidade para outra e de um país para outro. Esses impostos e taxas se tornaram insuportáveis no tempo de Jesus Cristo (Notas da Bíblia Pastoral).
Os impostos eram: 1- O tributo (imposto pessoal e sobre as terras); 2- uma contribuição anual para o sustento dos soldados romanos que ocupavam a Palestina; 3 – imposto sobre a compra e venda de todos os produtos (B.P.)
Naquele dia Zaqueu havia se levantado bem de manhã e fizera uma reunião com os demais cobradores . Reclamava com eles que o imposto daquela semana havia sido pouco. Desconfiava que alguém havia pegado mais do que o devido como pagamento ( é assim que eles eram pagos: com uma porcentagem do que haviam recebido).
Um deles foi acusado pelos outros de ter roubado a coleta em quase metade, uma quantia muito superior à que lhe cabia. Zaqueu se irritou, mandou chamar o homem, que estrategicamente faltara à reunião e pediu-lhe a devolução de tudo o que coletara e roubara. Como ele devolveu, não o castigou como pedia a lei: apenas despediu-o de modo desonrado do grupo: ele ficara sem emprego.
Terminando a reunião, Zaqueu liberou os colegas para o trabalho. Pegou tudo o que o outro havia coletado e colocou no cofre destinado ao Império Romano. Em seguida, colocou tudo o que o outro havia roubado no seu cofre particular.
Estava irritado e aborrecido com tudo. Resolveu, então, dar-se um dia de folga naquele dia. Avisou o seu servo que o acompanhasse, com o necessário para a alimentação e um jumento com uma tenda. Foram a um lugar onde havia um tipo de caça pequena. Queria, mesmo, era ficar um pouco sozinho, longe de tudo.
Duas horas depois de tentar caçar, ele não conseguira nada. Entrou na tenda, comeu algo, tomou um pouco de coalhada. Sentia-se muito solitário, apesar de estar ali ao seu lado o seu servo, e de ter uma esposa maravilhosa e vários filhos.
Aquele deserto o oprimia. O que valia ali o seu dinheiro todo? Nada! Deixou seu servo ali sozinho, tomando conta das coisas e saiu um pouco. Queria pensar um pouco mais sobre esse assunto: como a riqueza é relativa.
Foi nesses momentos de solidão física, já que a solidão íntima ele já há muito sentia, que o Espírito Santo aproveitou uma brechinha para entrar na vida dele. É como diz o livro da Sabedoria 18,14-15:
“Enquanto um profundo silêncio envolvia todas as coisas e a noite estava pela metade, a tua palavra onipotente veio do alto céu, do teu trono real, como guerreiro implacável, e se atirou sobre uma terra condenada ao extermínio”.
Zaqueu, em pleno dia, estava com a alma obscurecida pelo pecado, pela ganância, pelo enfado do mundo. A palavra de Deus estava descendo para dentro dele, não para levá-lo ao extermínio, como o texto lido, mas para exterminar suas dúvidas, a insignificância de sua vida.
O enfado, o desânimo, o corriqueiro em nossa vida vem do fato de atendemos a todos os apelos de nosso corpo e de nossa carne. Tudo se torna muito comum, muito sem sentido.
A riqueza nos torna poderosos diante do mundo, diante dos outros, e nos tornamos pequenos “deuses”, achando que tudo está ao nosso alcance.
Entretanto, há uma hora (e ela chega para todos), em que nos chateamos com tudo o que é criado. Felizes os que descobrem que o único que nos pode tornar realmente felizes é o Criador, nosso Deus Pai/Mãe.
Como em Oseias 2,16, Deus seduziu Zaqueu, levou-o ao deserto para ali “conquistar-lhe o coração”. E colocou uma semente de dúvida lá dentro. A dúvida é o início de muitas conversões, de muitas mudanças de vida. Quando nos cimentamos numa ideia e não admitimos possibilidade de mudança, a graça de Deus nada poderá fazer. Talvez seja essa a “praga” do fanatismo, a idiotice dos fanáticos: não admitem que, se não tudo, pelo menos uma parte do que dizem pode estar errada.
Na sua caminhada, Zaqueu abrigou-se debaixo de outra sombra e lembrou-se de sua infância, em que as brincadeiras ocupavam a maior parte do seu tempo. Era livre, não tinha muitas preocupações, vivia feliz. E agora?
Olhou para o nada que se estendia à sua frente. Ali sua riqueza não tinha valor algum. Só sobravam ele mesmo e Obed, seu fiel servo, que o aguardava na tenda, a alguns metros dali. Tudo o que ele precisava, ali no deserto, era sua saúde, a água, um pouco de alimento, e a amizade. Só isso! Tudo o mais seria supérfluo e até inútil.
Zaqueu viu sua vida passar como num filme à sua frente e chorou: quantas desilusões, quanta solidão, quantas frustrações! Quanto desespero pelo dinheiro!
Lembrou-se do homem que deixara sem emprego, horas atrás, e de como fizera pior do que ele, ao apossar-se indevidamente do que não lhe pertencia. Como condenara alguém, se fizera pior do que ele? E ainda o prejudicara!
Um vazio encheu o lugar do seu peito onde havia, até a algum tempo atrás, um coração. Agora só havia um pedaço de pedra, que não sabia mais amar.
Sua avó, certa vez, lhe dissera um trecho do profeta Ezequiel 11,19:
“Darei a eles um coração íntegro, e colocarei no íntimo deles um espírito novo. Tirarei do peito deles o coração de pedra e lhes darei um coração de carne, para que possam amar”.
“Que poderei fazer para ser feliz?”- Perguntou Zaqueu para si mesmo. “O dinheiro é bom, mas como eu me sinto tão infeliz, apesar da riqueza? Onde está o meu erro? Será ainda possível para mim a felicidade?”.
Não sabia as respostas. Resolveu voltar à civilização, ao dinheiro, ao conforto de sua casa. Voltou ao local onde Obed o esperava e à tardinha já estavam na cidade, Jericó. Obed levou tudo para casa e Zaqueu parou na cidade para verificar o que fazia aquela multidão alvoroçada à sua frente. Disse alguém “É Jesus de Nazaré que chegou à nossa cidade! Ele é o maior profeta que existe! Faz muitos milagres! Suas palavras são doces como o mel, mas às vezes amargas como o fel!”.
Zaqueu ouvira muito falar de Jesus e suas curas, suas palavras profundas e questionadoras, andava pobremente pelas ruas e estradas, com um grupo de discípulos. Mas sobretudo, como era famoso! Pobre e famoso! Como isso é possível? - pensava Zaqueu. Decerto não havia solidão na vida daquele profeta. A riqueza, ao contrário da pobreza, nos consegue muitos amigos, mas todos ou quase todos falsos, o que dá muita insegurança.
A pobreza nos traz talvez menos amigos, mas todos sinceros e prontos para qualquer coisa para nos ajudar e defender.
Entretanto, Zaqueu não quis comprometer-se com aquele bando de andarilhos. Subiu, então numa figueira grande, que havia ali, para ver sem ser visto. O que viu lhe agradou muito: pessoas felizes, alegres, andando sorrindo e cantando ao lado de Jesus e falando com ele e entre si. Era uma alegria contagiante.
De repente, porém, Jesus mudou seu rumo e começou a caminhar em direção à figueira. À medida em que se aproximava, Zaqueu ficava gelado e quase caiu da árvore. Sentia que seu anonimato não ia durar muito. A bíblia nos conta essa parte:
“Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: 'Zaqueu, desça depressa dessa árvore, porque hoje preciso ficar em sua casa.” (Lc 19,5).
Quando os olhos de Jesus encontraram os de Zaqueu, saíram como que faíscas elétricas e foi transmitida ao baixinho uma paz que ele nunca antes havia sentido, uma tranquilidade só comparável às águas tranquilas de um lago.
“Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria.”(Lc 19,6).
Aqui começa o relato referente aos invejosos e caluniadores, essa corja que estraga a vida de muita gente:
“Vendo isso, todos começaram a criticar dizendo:'Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!'.” Todos se acham dignos de receber Jesus, mas são poucos que podem fazer isso de verdade, como diz Mateus 22,13: “Muitos são chamados, mas poucos os escolhidos”. Jesus entra onde ele é acolhido. Zaqueu o acolheu não só em sua casa, mas também em sua vida: “Recebeu Jesus com alegria”, diz Lc 19,6.
Hoje em dia criticam os que se misturam aos que vivem nas ruas e lugares não recomendados, como os homens e mulheres da “Aliança da Misericórdia”, os da “Toca de Assis” etc.
Chamam alguns tipos de apostolado ou de evangelização de “coisa de louco”. Pois Jesus deveria, então, ser chamado de “louco”, pois fazia coisas absurdas para a sociedade do tempo e daquele lugar, como enfrentar os ricos e poderosos, incluindo aqui as autoridades do tempo e do templo. Os próprios parentes dele achavam que ele estava louco, e queriam levá-lo para casa (veja o artigo anterior, sobre Jesus em Nazaré).
As atitudes de Jesus contrariavam tudo o que ele aprendera em casa e na sinagoga. Vinham de uma convicção superior e eterna; não eram muito bem entendidas para a mentalidade da época. Aliás, até hoje gera muita contestação.
Essas coisas que Jesus fazia, como encostar as mãos nos leprosos, doentes, mortos, estar e tomar refeição com os chamados “pecadores” da época, o deixavam impuro legalmente. Na verdade, os que gostavam de criticar talvez nem reparassem que, ao tocar nesses considerados impuros ou ao estar com eles, em vez de Jesus ficar impuro, eles é que se purificavam!
Jesus, ao entrar na casa de Zaqueu, não se preocupava se ia ou não se tornar legalmente impuro, mas tinha, sim, a intenção de purificar tudo e a todos, tornando aquela casa temente a Deus.
Zaqueu, extasiado com aquela presença santificadora, resolveu pôr em prática o que havia pensado tantas vezes:
“Zaqueu ficou de pé e disse ao Senhor: 'A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (Lc 19,8). Duas coisinhas:
1- ficar em pé é a atitude de quem está para fazer algo, de quem vai agir;
2-- devolver quatro vezes o que roubou era a lei do tempo para quem quisesse se redimir.
Quantas vezes estamos diante da Eucaristia, que é o mesmo Jesus com quem Zaqueu ficou frente a frente, e não sentimos essa presença santificadora. Por que será?
Jesus sorriu, deu um tapinha nas costas do baixinho e disse, com certa solenidade:
“Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. De fato, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,9). Em seguida, contou uma parábola para censurar os que haviam murmurado contra a sua atitude de ir à casa de Zaqueu.
Aqui cabe uma meditação profunda sobre o perdão que pedimos a Deus e o que muitos deveriam pedir e não pedem. Poderíamos parafrasear Jesus dizendo aos que pedem perdão, aos que querem sair da lama e recomeçar uma vida nova, como Zaqueu: “Hoje entrou a salvação em sua casa, porque você também é filho de Deus, eu enfrentei a paixão e a morte para salvar você, pois vim para procurar e salvar o que estava perdido. Seja bem vindo à minha celeste mansão!”
Entretanto é com muita tristeza que vejo muitos recusando o perdão divino por tantos motivos que nem quero ventilar aqui, pois poderia estar fazendo um mal juízo.
Busquemos em nossa vida quais amarras ainda temos com o pecado, com os vícios, com o mundo sem Deus! Quais coisas estão ainda travando e atrapalhando a nossa caminhada para a salvação eterna? Sejamos corajosos, enfrentemos a realidade de nossa vida e não desanimemos!
Se nos acharmos fracos e com medo, peçamos a força a Jesus! Diz a Joyce Meyer, pastora americana, que Jesus pediu que não tivéssemos medo, mas não nos pediu para não tremer e não suar frio. O medo é comum a todos nós, mas, mesmo com medo, peçamos a ajuda divina. Ele nos dará a coragem que nos falta, o apoio, a luz, a força, e aos poucos veremos nossa vida se transformar da água da mediocridade para o vinho da santidade, da terra árida para a fonte de água pura e fresca.
Muitas pessoas vivem para o dinheiro e para os bens materiais; outros, vivem para a estética do corpo e vaidades extremas; outros se isolam num mundo egoísta e individualista, vivendo uma vida mirrada de solidão maléfica.
Sim, pois há uma solidão maligna, a dos que se isolam por egoísmo, avareza e individualismo, e há uma solidão benigna, a dos que se isolam até diariamente, mas, como Jesus, para se encontrarem consigo mesmo e com Ele, na intimidade do silêncio do coração, e desse modo descobrirem o “outro”, a missão, o trabalho em favor dos necessitados e marginalizados.
A luz só tem sentido quando ilumina a casa, a todos. Se ficar escondida, por maior qualidade e intensidade tenha, não vai adiantar nada.
Ter coragem de receber Jesus, como Zaqueu, mesmo sendo ainda pecador, mesmo que ainda esteja no abismo, na lama, no pecado, e mudar tudo o que tiver de mudar na própria vida, eis o caminho, eis aqui a minha sugestão.
E digo mais: você consegue tudo do que precisa para a santidade, com a oração. Se não tiver ainda costume de rezar, comece com oraçõezinhas pequenas, como “Jesus, eu te amo”, “Jesus me ajude!” , “Maria, quero melhorar”, “Sagrados e Imaculados Corações de Jesus e Maria, sede minha alegria” , e assim por diante, muitas vezes por dia. Aos poucos vai crescendo em você a necessidade da oração. Se aumentarmos um minuto por semana o nosso tempo de oração, em um ano estaremos rezando 52 minutos. Se quiser ler mais sobre esse assunto, procure o texto “A oração”, neste site.
Era uma vez um publicano, cobrador de impostos. Seu nome era Mateus. Trabalhava na alfândega de Cafarnaum, na cobrança de impostos de importação. Era provavelmente alugada, com alguns funcionários a seu serviço. O negócio ia bem, cada vez mais próspero. Mateus, entretanto, não dormia bem havia dias. É que sempre via por ali um homem justo, chamado Jesus, que falava coisas tão bonitas, tão verdadeiras, tão justas! E ele se sentia tão preso àquele seu negócio lucrativo e tão próspero!
Entretanto, sentia que estava colocando alta demais a taxa de impostos sobre as importações. Se cobrasse menos do que aquilo ainda dava para pagar o aluguel e os seus funcionários. Mas... como é bom ganhar dinheiro! Nunca é demais! Come-se do melhor, bebe-se do melhor vinho... e os fariseus, que se danem com suas leis ridículas!
Mas a figura daquele homem simples não saía de sua mente, de seu coração. Que poder estranho ele possuía em seu olhar de pobre! Seu olhar penetrava fundo na alma, incomodava como um carvão em brasa a queimar o coração.
Imerso nesses pensamentos, não notara o olhar terrível de um fariseu que o censurava: "O que o senhor quer, sr. fariseu?"
perguntou-lhe Mateus, logo que o percebeu. -"Seu publicano de uma estúpido! Ladrão! Injusto! Comilão!" - respondeu-lhe o fariseu.
-"Eu sou santo! Sou perfeito!"-
berrou-lhe o fariseu. "Veja o que você fez! Emporcalhou-me com sua presença e sua conversa! Agora preciso ir ao templo para me purificar!"
Mateus sentiu um calafrio percorrer=lhe a espinha. Teve vontade de matar aquele fariseu nojento e fingido. Mas, ao vê-lo entrar no templo, sentiu sua cólera diminuir-se. Percebeu quão verdadeiras eram aquelas palavras. Resolveu ir ao templo também.
Quando Mateus entrou, o fariseu o viu e começou a orar em voz alta: "Ó meu Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens: ladrões, injustos, adúlteros, e nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos" (Lc 18,11b-12).
E saiu, batendo os pés, jogando um punhado de moedas no cofre, que tilintaram. Mateus, cabisbaixo, rezava em silêncio. Ele, na verdade, nem poderia fazer a Deus aquela oração do fariseu. Ele era realmente tudo aquilo que o fariseu disse não ser.
E sentiu um profundo arrependimento pela injustiça e desonestidade que até ali guiara sua vida. E sentiu a luz de Deus iluminar-lhe completamente o coração. E, caindo de joelhos, "manteve-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim, pecador' "(Lc 18,13).
E sentiu o perdão de Deus a purificar-lhe todo o ser. E lembrou-se daquele homem Jesus. Seu olhar dava aquela mesma sensação ao mesmo tempo de remorso e de bem-estar. Agradeceu e saiu,sorridente. Mas, a caminho de sua casa, viu uma multidão numa casa. Curioso, foi até lá e presenciou um milagre: a cura de um paralítico por Jesus. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi o que aquele homem disse ao paralítico: "Tem ânimo, filho; os teus pecados estão perdoados" (Mt 9,2).
Que maravilha! Esse homem é capaz até de perdoar pecados?! E acreditou nisso, porque o paralítico voltou a andar. Naquele tempo as pessoas acreditavam que o defeito físico era castigo pelos pecados cometidos. Se o paralítico se curou, pensavam eles, é porque Jesus perdoou mesmo os seus pecados. E se ele perdoou os pecados, ele é o próprio Deus, ou pelo menos tem muita amizade com Deus. Isso mostrava que Jesus era o Messias esperado.
Mateus saiu dali confiante, sorridente. Afinal conhecera alguém pelo qual valia a pena vive. E, ao chegar novamente à alfândega, tudo parecia mudado: tinha um gosto amargo. Que fazer? Como mudar uma engrenagem tão bem montada como aquela? Como mudar o sistema? E não conseguia encontrar uma solução, até que o sol começou a se enfraquecer: ia sumir no horizonte todo róseo. Mateus arrumou suas coisas e, sempre pensativo, ia embora.
Não sabia como dar o primeiro passo em direção a Jesus. De repente, ao olhar adiante, viu-se frente a frente com aquele homem Jesus. Seus olhos faiscavam a misericórdia de Deus. Mateus não pôde articular uma só palavra: estava aterrorizado! Aquele homem parecia ler os seus pensamentos! Procurou limpar a mente, para que ela não fosse lida!
Mas Jesus, com aquela humildade e mansidão de coração, tomou a iniciativa: estendeu a mão para Mateus e disse-lhe apenas uma palavra, mas que tinha o peso imenso de tudo o que Mateus já o vira fazer: "Segue-me"(Mt 9,9).
Mateus, como que dando um pulo no escuro, viu realizada aquela sua oração no templo. Confiou plenamente em Jesus. E o seguiu. mas, quando sua voz voltou, disse-lhe: "Mestre, vem jantar conosco!"
E Jesus foi à casa de Mateus, que lhe deu uma festa, para comemorar sua nova vida e, ao mesmo tempo, despedir-se de seus dias tristes e medíocres de publicano (Lc 5,29).
E todos os que haviam sido lesados, receberam de volta o que lhes tinha sido roubado pela equipe de Mateus, como também mais tarde iria ocorrer com Zaqueu. E Mateus tornou-se Apóstolo! Pobre como Jesus, mas rico como Deus.
(Parte deste texto é ficção)
Dimas, Jesus e um outro ladrão agonizavam no alto do Calvário. Nenhuma esperança aparente. Tudo havia terminado. Os sonhos acabaram!
Um misto de terror e desespero aflorou na face do rapaz. Não esperava terminar assim seus dias na terra.
Olhou, do alto de sua cruz, o horizonte de Jerusalém. A tarde começava. O sol estava a pino, num dia quente de primavera. As flores formavam tapetes multicores nas campinas dos arredores. São muito belas as flores de lugares desertos!
Dimas reviu sua infância e sua juventude: sua mãe fora apedrejada à sua frente, por fanáticas autoridades religiosas. Tinha ele, então, oito anos de idade. Só depois ele soubera ter sido sua mãe apanhada em adultério. Ele só não entendeu, anos mais tarde, por que não apedrejaram também o homem que estava com ela!
Ele, num esforço, olhou para o lado e viu aquele jovem de 30 a 33 anos que morria ao seu lado, com uma sangrenta coroa de espinhos. Ele o vira várias vezes pregando um reino esquisito, em que não havia necessidade de roubos, pois todos teriam tudo! Não haveria brigas, pois todos se amariam; não haveria luta pelo poder, pois todos teriam os mesmos direitos e possibilidades.
Aquele jovem, que sabia chamar-se Jesus, defendera uma senhora pega em adultério! E, como sua mãe, não havia o homem com quem ela pecara. Dimas parecida estar ainda vendo a cena (João 8,1-11): os fanáticos arrastaram a mulher para perto de Jesus e lhe perguntaram se deveriam ou não apedrejá-la.
Dimas conhecia bem aqueles acusadores e sua hipocrisia! Vários deles já tinham estado com aquela mulher, e o que com ela estivera na última vez estava também com uma pedra na mão para atirá-la na coitada. Fazendo isso, estaria mais livre de suspeitas. Acusar, muitas vezes, é o subterfúgio que muitos usam para ficarem livres das críticas e das acusações. Acusar leva a atenção de todos para o acusado.
Voltando a olhar para o horizonte, Dimas viu o local fora dos muros em que apedrejaram sua mãe. “Se esse homem estivesse lá, minha mãe não teria sido assassinada como aquela outra que Ele salvou e perdoou e talvez eu não a teria tido a vida maldita que tive!”
Lembrou-se, então, dos crimes que cometera: assaltos, assassinatos, prostituições...
Veio à sua mente o bandido que o adotara após a morte da mãe. Ele o usava para roubos menores, nas praças, onde as pessoas se apinhavam para as compras, nas tendas e barracas em que se vendiam de tudo.
Menor abandonado! Era isso que Dimas fora! Um menor abandonado por todos! Uma escória da sociedade.
Voltou a olhar para aquele jovem que, coroado de espinhos, agonizava ao seu lado. Viu, então, aos pés da cruz, a mãe dele e um rapaz muito saudável, de seus 17 anos (São João Apóstolo): “Ele não foi um menor abandonado como eu! Eis sua mãe! Ele não foi desprezado! Eis um de seus amigos!”
Jesus era pobre, simples, operário, mas nunca foi abandonado, nem na vida, nem na morte: sempre estava acompanhado por algumas pessoas. Seus discípulos o abandonaram na crucifixão, mas nem todos. Sempre há os que permanecem fiéis.
Dimas olhou para baixo e não viu ninguém aos seus pés. Ninguém! Por mais pobre que Jesus tenha sido, Dimas, naquele momento, tinha a pior pobreza deste mundo: o abandono, o desprezo, a solidão visceral.
Em sua lembrança veio algo que disseram que Jesus falara “Felizes os pobres porque deles é o Reino dos Céus” (Lucas 6,20). “Como posso ser feliz, como pobre, abandonado e relegado a uma morte tão infame destas?”
Nisso ele ouviu uma frase proferida com muita dificuldade por Jesus:
“Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem!”
“Pai, perdoai-os! - Esse homem é realmente o Filho de Deus, como várias vezes afirmou! E se ele está pedindo ao Pai que perdoe esses desgraçados que o crucificaram injustamente – sim, pois ele só fez o bem – pode também me perdoar das besteiras que fiz durante a vida!”
Seu pensamento foi interrompido pelas imprecações do outro ladrão: “Não sois o Messias? Salvai-nos a vós mesmo e também a nós!” (Lucas 23,29).
Dimas sentiu uma ânsia de vômito. Tirá-los dali para quê? Para que eles voltassem a pecar, a roubar, a matar? Pelo contrário, se Jesus saísse dali, poderia continuar a fazer o bem para todos, mesmo para os que queriam matá-lo!
Dimas tinha a convicção de que aquele homem ao seu lado era santo, e o poderia introduzir num lugar melhor do que até então tinha vivido, por meio do perdão. Ouvira falar dos seus milagres e que até ressuscitara mortos! Aí caiu em si: “Meu Deus! Um homem que ressuscita mortos, que anda sobre o mar, que multiplica os pães e os peixes, que perdoa e pede ao seu Pai que perdoe a seus assassinos...”
Interrompeu os pensamentos para ouvir outra palavra de Jesus, dirigindo-se a sua Mãe e a João:
“Mulher, eis aí o teu filho! Filho, eis aí tua mãe!”
E continuou seu pensamento: “...Um homem que se preocupa em deixar a mãe protegida, por ser viúva e sem filhos, dando-a à proteção do jovem seu amigo...”
Viu que o soldado deu algo para Jesus beber e ele recusou.
“...Um homem que recusa beber algo que aliviaria sua dor, mesmo depois de ter dito que tinha sede! Se tinha sede, por que não bebeu o fel com vinagre que lhe deram? De que tipo de sede ele falara?”
E continuou:
“Se esse homem, com todo esse poder e com todos esses bons relacionamentos...”
Viu a túnica de Jesus e os soldados disputando-a na sorte.
“...Se esse homem, que tinha possibilidade de se vestir com tamanha dignidade, não quis sair da cruz para retomar a sua vida tão maravilhosa que até agora viveu... É porque está indo para um mundo muito melhor, para um reino muito mais bonito e justo do que este! E eu quero fazer meu último roubo: quero entrar com ele nesse reino!”
Tomando coragem conseguiu um pouco mais de fôlego para dizer ao outro ladrão, repreendendo-o:
“Nem tu, condenado ao mesmo suplício, temes a Deus? Nós, na verdade, estamos condenados com justiça, pois recebemos o castigo merecido por nossas obras, mas este nenhum mal praticou!”.
E voltando-se para Jesus, implorou:
“Jesus, lembrai-vos de mim quando vierdes com vosso reino!”
Na verdade, não esperava resposta alguma. Talvez aquele homem também fosse desprezá-lo, o que seria justo e natural. Mas arriscara “roubar” aquele reino que deveria ser maravilhoso.
Qual não foi sua surpresa quando Jesus olhou-o por entre as gotas de sangue que caíam de seus cílios e, num esforço supremo, por estar quase sufocado, disse-lhe como ninguém antes lhe tinha dito, com uma ternura que nunca mais ouvira depois que perdera sua mãe:
“Ainda hoje estarás comigo no paraíso!”.
Essas palavras o envolveram como um abraço materno. Entraram pelos seus ouvidos diretamente até o seu coração, acelerando sua pulsação. Aliviaram um pouco os tormentos daquela morte inútil, fútil e desgraçada.
Dimas conseguiu, então, sorrir, pois uma paz incrivelmente celeste o envolveu. Sentiu-se amado, “paparicado”, sentiu-se, ele também, filho daquela mulher que perdia o fruto de suas entranhas, filho do próprio Deus.
Por alguns instantes Dimas bendisse aquela cruz e aquela morte que, afinal, não estava sendo tão besta assim. Descobriu que era amado por Deus, na pessoa de Jesus, ali ao lado. Sentiu-se importante, pelo menos uma vez na vida, por ser digno de morrer ao lado daquele homem abençoado e tão querido de seu Pai celeste. Ele conseguira fazer o seu último roubo, e o mais rico de todos: roubara a Vida Eterna!
Nesse momento o sol, até então tão forte, foi coberto por nuvens escuras. Trovões e relâmpagos iluminavam em flashes de indignação aquela terra tão amada por Jesus, e as poucas pessoas que ainda ali permaneciam. Dimas ainda ouviu-o dizer: “Tudo está consumado! Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!” - e morreu, em meio ao barulho ensurdecedor de um céu revoltado contra esse crime nefando: a criatura acabara de matar seu criador! O restante da criação não assumira esse crime. As aves do céu voavam em todas as direções, os animais uivavam de tristeza, a terra toda estremeceu, rompeu-se, e muitos corpos ressuscitaram. O terremoto atingiu o templo, e rasgando seu véu ao meio, apodrecido pela revolta de crime tão bárbaro.
Dimas, em meio a isso tudo, pela primeira vez sorriu, embora tudo lhe doesse terrivelmente. Olhou para as nuvens enegrecidas, para aquela verdadeira apoteose da natureza que chorava por ter perdido o seu criador, e, sorrindo, murmurou: “Daqui a pouco, Senhor, eu estarei livre para alçar voo até o vosso Reino! Daqui a pouco eu me libertarei desta vida de horrores para a vida eterna ao vosso lado! Daqui a pouco eu vos abraçarei no vosso reino!”
Após algum tempo chegou um oficial e enfiou a lança no lado de Jesus, fazendo brotar sangue e água. Dimas percebeu que chegara sua hora de morrer, pois o oficial lhe iria quebrar as pernas, tornando impossível a respiração.
Quando ele sentiu a pancada em suas pernas, deu um maravilhoso e sereno sorriso para aquele cenário tão inusitado e ainda teve tempo de balbuciar:
“Este foi o meu golpe de mestre! Meu melhor roubo! Obrigado, Senhor!”
(24/05/2005)
Estando sozinho lendo um livro de Augusto Cury (Nunca desista de seus sonhos), fiquei boquiaberto com o magnífico texto do autor à página 43, que fala da perspicácia de Jesus ao reestruturar as mentes e as vidas de seus apóstolos. Nessa página ele fala do amor tão profundo que Jesus sentia por todos, inclusive por Judas, que o traiu.
Naquele instante em que recebeu dele o beijo que ficou tão famoso, talvez Jesus não estivesse preocupado tanto com a morte, como pelo que seria de Judas dali em diante. O autor comenta: "Jamais uma pessoa traída (Jesus) amou tanto um traidor (Judas).
Olhei para o céu, que se mostrava cor de chumbo pelas nuvens de chuva, que se "derretiam" abundantes sobre o local em que eu me encontrava. Fiquei quase em êxtase quando aquele texto entrou no mais íntimo do meu coração, e eu passei a perceber quantas vezes a gente sente esse amor de Jesus em nossa vida, e quantas vezes nos acovardamos, como Judas, e não nos abandonamos a Jesus.
Judas poderia ter aproveitado aquele instante para mudar de vida. Se a mulher que tinha hemorragia curou-se apenas tocando com a mão a orla das vestes de Jesus, e se este sentiu que saíra dele uma força (Lc 22,48), quanto mais Judas não teria sentido a força divina de Jesus após beijá-lo?
Aquelas palavras de Jesus eram de indignação: "Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?"(Lc 22,48). Ao mesmo tempo eram de um desejo íntimo que Judas superasse a tentação e se convertesse, se colocasse totalmente ao amor de Jesus.
A santidade de Jesus talvez tivesse sido sentida por Judas. Ela nos incomoda, nos questiona e nos "põe contra a parede". Cabe a nós aceitá-la ou não em nossa vida, ou descartá-la, como fizera no início São Pedro, que depois resolveu aceitá-la:"Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador"! (Lc 5,8).
Essa santidade, Deus prometeu que nos transmitiria, se aceitássemos a purificação exigida e permitida por ele:"Deus nos purifica (com os sofrimentos) para que possa nos transmitir sua santidade " (Hebreus 12,10).
Quando sofremos, sentimos Jesus nos transmitindo um pouco de sua santidade e de seu amor. Com esse pouco, que só não é maior apenas pelo fato de que nos resta muita purificação ainda, já podemos sentir, como Jeremias20,9, o amor de Deus "concentrado nos meus ossos, como um fogo abrasador", quanto mais não teria sentido Judas, ao dar-lhe aquele beijo?
Duas forças puseram-se a lutar para tomar conta do coração dele: o amor misericordioso de Jesus, sua santidade, por um lado, e o sentimento de derrota, de culpa e de frustração, de fraqueza, por outro lado.
São Paulo passou, anos mais tarde, por esse mesmo dilema, venceu-o, como Jesus quer que também nós o vençamos. Sim, porque nós também sempre estamos entre essas duas forças, uma querendo nos arrastar para o individualismo, para o egoísmo, enfim, para o mal, e a outra, querendo nos elevar até o céu.
É o que diz S. Paulo em Rom 7,23: "Vejo nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito, e que me faz escravo da lei e do pecado, que está nos meus membros" (Rom 7,23).
S.Paulo conclui com palavras que nos fazem de Deus, que sempre nos perdoa quando nos propomos mudar de vida:"Assim, pois, eu mesmo sirvo à lei de Deus com o espírito, e sirvo à lei do pecado com a carne"(Rom 7,25). "Quem me livrará desse corpo de morte? Somente a graça de Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso" (Rom 7,24).
Já S.Pedro, no início, pedira a Jesus que se afastasse dele, como na citação acima de Lc 5,8). Entretanto, afirma com muita fé e amor: "Simão Pedro respondeu a Jesus: Senhor, para quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida eterna, e nós acreditamos e conhecemos que tu és o Santo de Deus!" (João 6,70).
Neste ponto do texto, eu não consegui continuar. Parei por uns instantes e contemplei novamente o céu chuvoso. Que palavras doces! "A quem iremos?(...)Só tu tens palavras de vida eterna!"
Fiquei com vontade de parar de escrever para saborear melhor essas palavras! "Só tu tens palavras de vida eterna! Só tu!" Só Jesus pode, realmente, nos confortar "Neste vale de lágrimas"! Só ele pode nos dar aquela segurança e confiança de que poderemos um dia morar com ele no paraíso!
"Uma só coisa peço ao Senhor, e só esta procuro: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar a doçura do Senhor e visitar o seu templo" (Salmo 26-27, v.4).
Voltando ao caso de Judas, podemos então imaginar o desgaste que ocorreu em sua mente quando ele se degladiava com essas duas forças. Quanta ternura ele sentira ao dar aquele beijo em Jesus! Em Jesus, que ele estava traindo!
Infelizmente seu desespero foi maior do que sua humildade, e acabou se enforcando. Cabe a nós não seguirmos esse mesmo caminho do desespero, mas o da confiança na poderosa misericórdia de Deus, como a sentiu S. Paulo, S. Pedro e tantos outros.
A quem iremos nós, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna! "O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o defensor de minha vida, diante de quem tremerei?" (Salmo 26/27, 1).