O heterônimo tropical
                                            Isaias Carvalho, 1999

O que deixaste para eu dizer, Pessoa?

Simulo a tua resposta, uma vez que te podes metamorfosear em tantos:

 

“por que queres dizer,

caro poeta?

Silencia e ouve o sibilo das formas,

vê como o real te vê,

senão por rima, por prazer... senão por quê?”

 

És tu, Fernando,

ou este outro que usa a segunda pessoa

para ver como soa?

Este muito consciente para ficar louco

ou vice-versa.

 

(Este heterônimo tardio, abandonado e duvidoso)

 

            Dele guardei este poema sem título e marcas profundas na minha alma, onde quer que ela more. Não lhe guardei o nome. Mas como ele tinha em abundância o que um nome não revela! Se era de fato um poeta vivente ou apenas uma miragem minha, não sei. Era.

            Anacrônico. Se não tinha cem anos, tinha mais. Não fosse a língua insuficiente para a descrição e não fossem as descrições tão incompletas, daria, porque o tenho em mim, um exato retrato do homem que conheci. Que nos bastem o seu nariz avantajado e já sem formas definidas – mero suporte para os óculos antigos -, seu corpo magro curvado em denúncia de uma grande estatura outrora, sua pele pálida – quase a ausência de cor -, suas roupas e seu chapéu pretos – já inerentes à sua figura fora de moda, fora de tudo.

            Aos fatos, se os há. A partir do momento em que me descobri um não-estético (não sei ao certo o que isso significa, apenas o sinto, sinto muito), o que coincidiu com a perda do meu status de cidadão casado e de todo tributável, passei a frequentar um bar no alto de um dos muitos morros com vista para o mar. Em Salvador, na Bahia, certamente, mas o nome aqui é prescindível.

-  O que são os nomes diante dos mistérios do mar? O meu, por exemplo, é menos que um nome.

Respondeu ele à minha curiosidade natural.

Notei que sempre sentava no mesmo canto, todos os dias. Todos os dias em que eu estava lá, lá estava ele, do meio da tarde ao meio da embriaguez e a da falsa escuridão metropolitana. Não me recordo de um “boa noite” ou de um “adeus”. Mas me lembro da primeira vez que o abordei, levado por um misto de impulso etílico e de comunhão circunstancial.

            Se, para mim, a realidade circundante não interessava, para ele, nem parecia existir. Rabiscava em guardanapos, pedaços de papel e velhos jornais, enquanto se mantinha em contemplação evasiva do mar e do ar. A primeira impressão que tive foi a de que ele sempre estivera ali. Antes da existência do bar. Antes daquele primeiro de junho de 1988, dada a justeza do conjunto que ele formava com a mesa, a cadeira e o que o seu olhar divisava. Me aproximei:

-  Com licença, não pude evitar...

Tentei esboçar uma abordagem formal, quando ele me interrompeu:

-  Pode sentar, meu caro.

Obedeci, meio tonto, mas prevendo a importância do que se sucederia.

-  Sem protocolos, camarada. Estamos aqui por motivos semelhantes.

Fiquei em silêncio. Tomei uma cadeira, sem lhe bloquear a visão do mar, que lhe enchia os olhos da mesma cor. Ele sabia, por razões além da minha consciência, que eu não precisava lhe fazer perguntas. Continuou:

-  Eu me recusei a seguir a teoria do mestre Caeiro, mas caí na mesma armadilha que ele e todos os outros histerônimos: procurei ordenar o caos pela linguagem. Hoje, sou apenas um fragmento exilado e esquecido do caso pessoano.

Eu era todo silêncio. Entendi o que ele tentava me dizer, mas não pude dialogar. Não percebi a extensão do momento. Sua voz saía como se de um baú antigo. De dentro de mim. Eu o ouvia primeiro em mim para depois sentir a realização física dos sons. O que aquele senhor pensava estar fazendo ao se integrar tão bem ao mundo pessoano, que sempre me fascinara, mas parecia ser a última coisa de que eu precisava naquele momento da minha existência duvidosa?

Em um outro momento dos nossos poucos encontros, ele me disse:

-  Nasci no mesmo dia e hora que Pessoa, de uma gestação múltipla e ubíqua. Mas naufraguei na grande barca da língua portuguesa. Desde sempre o mar me vomitou nesta nação-continente que, de Portugal, herdou a esperança do que nunca vem.

De biográfico, acrescentou ter ficado órfão, morrendo-lhe a mãe no parto, e ter sido adotado por todo o nonsense profetizado para o século XX. Para ganhar a vida, a qual me disse ter perdido profundamente, fez de tudo um pouco, menos o lícito.

O que dele mais me marcou, no entanto, foi o seu rancor para com o ortônimo, veladamente notado em seu poema:

            -  Se há alguém que tenha vivido plena e validamente, esse não fui eu. Uma palavra resume o meu fado: desilusão. Pessoa me fez acreditar que eu era outro. Nada me ilude hoje, nem o fato de eu ser o único genuinamente (mal) criado nos trópicos. Somos todos o mesmo na diferença. Foi mais uma sua brincadeira de ser Deus. Nunca o perdoei. E por isso abandonei a poesia, sem que ela me abandonasse, entretanto. Ela me foi uma maldição.

Diariamente, como um ritual, me sentei à sua mesa até o dia 13 daquele mesmo mês, daquele ano, a partir de quando nunca mais o vi. Não é pressa narrativa: é a insuficiência dos significantes para relatar a inconsistência dos fatos. Seu único poema talvez revele mais do que o meu vão relato.

            Quando procurei o meu amigo esquizofrênico (ou seria histeroneurastênico?), no dia 14 daquele junho, encontrei apenas uma mesa vazia e o poema já aqui transcrito, rabiscado em um guardanapo surrado. Sem assinatura. Teria morrido de velhice? Suicídio? Atirara-se ao vasto mar? A Portugal, finalmente? De nada adiantou inquirir dos garçons, pois eles nunca o viram. Nunca enxergaram um velho mais velho que a velhice em uma de suas mesas.

Desolado, percebi um espelho naquele canto privilegiado do bar. Nunca o vira antes, mas me asseguraram que ele sempre estivera ali.




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Ilustrações dos temas na base da página por: Wellington Mendes da Silva Filho



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