um quase livro


Livre é a pedra
que o pariu!
                                                              Isaias Carvalho, "Livre-arbítrio"; (in)versos (1999)

  

são traços e pedaços

de um romance experimental em construção




 O grand finale apenas virá com a morte, enquanto o grande feito de Quaseu ainda está em gestação, e nem os velhos deuses nem os que ainda estão por vir sabem o que será. Não há profetas disponíveis. Não há profecias que os mereçam.

 

A qualquer um apetece ser Deus ou o Diabo. Eu sou o D.

 

Até gostaria de acordar amanhã e amar o mundo, mas há essa incompatibilidade.

(e ainda guardo tantas flores que nunca te darei, outro!)

 

Apenas aquele ponto e a marginália pouca, mas aterrorizante, do grande livro do mundo.

 

(...) algum dia, tudo pode acontecer, exceto hoje. O hoje já está colonizado.

 

No horizonte do homem, um infinito nublado. Nações de palavras em formação, enquanto vocábulos tontos caem no esquecimento de si mesmos, ou se modificam perdidamente.



qual o trabalho humano mais desnecessário?
: a poesia.

Se o nome Quaseu - com suas significações inconfessáveis - pode soar como algum nome grandioso da mitologia-história grega, sua saga não será em (quase) nada uma epopéia da raça, nem o anúncio de uma nova era, nem a representação de um passado heróico.


 Por certo, há os que defendem a existência de duas categorias básicas de literatura: aquela menor, escrita em primeira pessoa, pesadamente confessional, em geral feita por iniciantes, e a outra madura, escrita em terceira pessoa, a pura ficção. Gostaria de pensar que não pertenço a nenhum dos dois extremos, mas que estou naquele lugar incerto, mas aberto à pluralidade, cujo nome está em voga na academia: o entre-lugar.

 Acordei, e era outro.

(...) Adormeci, e era eu.

 

O receio (ou a certeza?) de não ter algo a dizer, de estar apenas exercitando o exercício de outros...

 

Doer é doar um trocadilho infame à realidade.

 (ou não li Nietzsche corretamente?)

 E o que se sucedeu com os poetas e artesãos - 'eles-mesmos'? Transformaram-se no pó da história? Não. Transformaram-se em pó do chão, e todos os seus anseios ou ideais se diluíram no caos organizado dos registros antropológicos.

 

Amanhã, com a luz do sol e um pouco de ressaca, restabelecerei relações com as grandes idéias...

 

Enquanto isso, multidões de bois são conduzidas aos matadouros - a garantia do almoço da velha instituição! Enquanto isso, o esgoto de todas as cidades vai dormir nos rios e mares - a certeza da assepsia da velha instituição!

 

(mas quem explica a existência de escritores e artistas em geral?)


Fica, então, o parco legado, não um objeto de consumo, como a morte, mas o cumprimento vago de uma missão vaga: passear nos caminhos, nas impressões e nas imprecisões de um poeta, pelas veredas de uma existência que ainda não expirou enquanto matéria, pois há muitas cenas em ensaio, sem qualquer meta pré ou pós.