Fuligem Poética   


Depois de mais de um ano, um exercício poético. Deveria ter continuado em silêncio de versos?

Assassínio
                                 Isaias Carvalho, 06.05.2013

Acordo sonhando com um corpo no armário.
Concordo que ando meio torto e solitário,
mas o operário do porto inseguro que reformo -
a casa -
assassinei-o sem causa e o mantenho insepulto em meu armário.

Ou seria, meio ao contrário,
este eu que se encontra morto em seu armário, leitor?
Seria eu esse operário em putrefação?
Seria?
Por que não abre seu armário?


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Doses Poéticas

Isaías Carvalho (2009/2010)





Prontidão Poética
                                        

Pronto para a poesia?

Para remexer o lixo de si?
Profanar a sepultura do eu?
Já morta a criança?
Já perdidos todos amores?
Já pelejado o suficiente pela traição absoluta?
Já renegado três vezes mil e mais?
Já despedaçados os projetos postos outrora?

Já está pronto?
Pronto para a poesia?

Nunca se está pronto para a poesia.
A poesia nunca está pronta,
mas sempre em prontidão:
morrer já não basta.
Tudo morre,
tudo bosta.




Inospitalidade



Não é insônia.
É a madrugada que insiste em não dormir.
Persiste um outro defeito em mim:
sou inóspito, inabitável, intratável.
Assim me fiz (me fizeram, está feito)
um Midas invertido:
tudo que toco apodrece.
Maldito tanto quanto.
Outro, não sou digno de que entreis em minha morada,
mas, se disserdes um só palavra,
abro as portas e tudo perece.








Acordei, e era outro
                                                              


Acordei, e era outro.
 
Pensara fosse apenas ficção.
Kafka, D. Quixote, Alice...
O que fazer com estes restos?
Não reconheço rostos que dizem me amar,
não consigo parar de dizer ‘não’.
Não amo uma terra e raízes certas que me pariram,
não sinto dores pelas dores alheias,
não minto transcendências ou vazios,
minhas veias cheias de essências e cios
de qualquer
 
Sou o super-, o supra-, o sopro-homem,
o sonho cibernético:
uma máquina orgânica saturada de inteligências.
 
Adormeci, e era eu.






Criaturalidade



Minha mortalidade vai envelhecendo
e vou me criando uma concha,
tecendo uma carcaça dura,
uma troncha redoma
na qual vou acumulando os mucos
e dejetos de minhas criaturas:
caducos pensamentos abjetos
em torno da matéria criatural do eu,
tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas, vocês, aqueles, aquelas, estes, estas, esses, essas... aquilo:
Pinóquio, Pygmalion, Golem, Adão, Eva, Frankenstein, Jesus, Lúcifer...
Todos esses títeres, marionetes, autômatos e andróides que receberam vida
de onde só havia intenção inorgânica.

Minha mortalidade vai envelhecendo
e minha criaturalidade vai esculpindo meu esquife.

Onde diabos foi morrer o criador?







Poemeto à UESC                              



Universidade Estadual de Santa Cruz: 

sonolenta pedra imensa no meio do caminho 

entre os ilhéus de são Jorge Amado 

e as simplórias tabocas – vegetais e humanas – grapiúnas.





Poesia e Cultura
                        

Os poemas de cada local e suas cores: 

paráfrases uns dos outros. 

A trad(i)ução mais fiel que há.

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