Estendamos o Bem
"Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem."
— Paulo (Romanos 12:21)
O Espírito Emmanuel, no capítulo 35 da obra Fonte Viva — intitulado "Estendamos o Bem" —, comenta a passagem de Romanos 12:21. Na Carta aos Romanos, há seções dedicadas à doutrina da Igreja, às práticas exemplares e, especificamente no versículo 12:21, encontra-se o ponto culminante da ética paulina, profundamente enraizada nos ensinamentos de Jesus. Trata-se da aplicação prática da justificativa pela fé: quem foi vencido pela graça de Deus passa, agora, a vencer o mal com o bem.
Em seus comentários, Emmanuel chama a nossa atenção para os ensinamentos da natureza. A palavra natureza vem do latim natura, que significa “nascer”, e refere-se a tudo o que existe no mundo físico e material de forma espontânea, sem depender da intervenção humana deliberada. Inclui os fenômenos naturais — como terremotos, enchentes e erupções vulcânicas —, que ocorrem independentemente da ação do homem.
O mal — embora sentido como real no mundo relativo — pode ser considerado como a ausência do bem. Onde o bem ainda não se estabeleceu, observa-se a presença do mal, compreendido não como uma criação autônoma, mas como a imperfeição ou a falta do próprio bem. Do mesmo modo, o simples ato de deixar de praticar o mal já representa o primeiro passo na vivência do bem.
A Doutrina Espírita ensina que Deus quer apenas o bem; o mal, portanto, provém unicamente da ignorância e do livre-arbítrio imperfeito do ser humano. É por essa razão que Allan Kardec e os Espíritos instrutores, como Emmanuel e André Luiz, convidam-nos constantemente à prática ativa do bem e à transformação moral.
O bem, sob a ótica do Espiritismo, é definido como tudo aquilo que está em harmonia com a Lei de Deus. Na questão 621 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta: "Onde está escrita a lei de Deus?", ao que os Espíritos respondem: "Na consciência." O filósofo J. Herculano Pires comenta que a lei de Deus está gravada na consciência humana como a assinatura do artista em sua obra, cabendo-nos atualizá-la no dia a dia da nossa existência.
Nessa lição, o Espírito Emmanuel recorda-nos de que a própria natureza é pródiga em nos oferecer lições vivas para a nossa transformação comportamental. Logo após um temporal — evento muitas vezes encarado como um "mal" devido à aparente destruição da paisagem —, novas forças da vida organizam-se para o trabalho de reconstrução:
"O Sol envia luz sobre o lamaçal, curando as chagas do chão; o vento acaricia o arvoredo e enxuga-lhe os ramos; o cântico das aves substitui a voz do trovão... A árvore de frondes quebradas ou feridas regenera-se, em silêncio, a fim de produzir novas flores e novos frutos."
Em última análise, compreende-se que, na economia divina, todo mal encerra em si a semente ou a oportunidade para um bem maior. É natural que nem sempre estejamos capacitados a perceber essa finalidade imediata, dada a limitação do nosso entendimento frente às soberanas Leis de Deus. Contudo, a nossa confiança na Providência Divina e no amparo dos Bons Espíritos deve sobressair-se à nossa percepção ainda imperfeita da realidade.
Estendamos o Bem (Do ponto de vista filosófico)
Questões: O bem é objetivo ou relativo? Até onde vai a obrigação de promovê-lo? Como equilibrar o bem individual e o coletivo?
Estender o bem deve ser visto como a expansão deliberada de tudo aquilo que é benéfico, virtuoso ou generoso, não só no plano individual, mas também no plano coletivo. A reflexão sobre esse tema abre discussões sobre a natureza do bem, a responsabilidade em propagá-lo e o modo correto de fazê-lo.
Em termos filosóficos, o bem está fundamentado na ética. Para Platão, o bem é o princípio supremo que ilumina e ordena a realidade; “estender o bem” significa agir estritamente de acordo com essa ordem moral. Aristóteles conecta o bem à eudaimonia, uma vida regrada pelas virtudes, tais como a justiça, a bondade e a caridade.
A dimensão expansiva do bem pode ser vista nas correntes modernas, como o utilitarismo, no qual o bem é maximizado quando se promove a maior felicidade para o maior número de pessoas; “estender o bem” torna-se um cálculo e uma ação orientados ao benefício coletivo. Levinas, por sua vez, opta por considerar a expansão do bem como a responsabilidade ética que impulsiona cada indivíduo a ir além de si mesmo.
Em termos espirituais, a expansão do bem é uma prática central e um caminho de transformação interior. No cristianismo, a “regra de ouro” é irradiar o bem recebido. No budismo, a compaixão é cultivada para se estender a todos os seres, dissolvendo a separação entre “eu” e “outro”. Em tradições hinduístas, há orientações da ação que beneficia o mundo como expressão do divino. Em correntes místicas, “estender o bem” é alinhar-se com uma ordem superior.
Pontos para reflexão:
Expansão autêntica versus ação social imediata;
Nem toda “boa intenção” produz o bem real;
Relação entre bem material e bem espiritual;
Altruísmo genuíno versus a simples alegria de contribuir;
O autocuidado como parte do bem que se estende.
Em síntese, “Estendamos o bem” funciona como um imperativo ético-espiritual aberto: convida-nos a refletir sobre o que é o bem, a praticá-lo de forma consciente e a reconhecê-lo como algo que se multiplica quando compartilhado.
O Bem que Supomos Fazer e o Bem que Realmente Fazemos
Tese: O bem que imaginamos fazer, o bem que apenas aparenta sê-lo e o bem que realmente transforma o outro e a nós mesmos.
Nem todo bem que imaginamos fazer produz um benefício verdadeiro. Às vezes, confundimos generosidade com vaidade, sinceridade com agressividade, proteção com dependência e auxílio com interferência. Fazer o bem exige mais do que boa intenção: requer discernimento, humildade e compreensão das necessidades do próximo.
Analise as reflexões a seguir:
Reflexões complementares
Uma pessoa pode acreditar sinceramente que está fazendo o bem e, ainda assim, causar sofrimento. Por outro lado, uma atitude que inicialmente desagrada pode produzir um benefício verdadeiro.
Por exemplo, dizer uma verdade difícil não é necessariamente um erro. Em determinadas circunstâncias, alertar alguém sobre um comportamento prejudicial é uma forma genuína de cuidado. A questão fundamental está na motivação: falamos para edificar ou para ferir? Escolhemos o momento adequado? Nossa maneira de falar respeita a dignidade de quem nos ouve?
Da mesma forma, assumir a tarefa de outra pessoa pode ser um gesto nobre de solidariedade quando ela está doente ou temporariamente sobrecarregada. Entretanto, se fizermos sistematicamente aquilo que ela pode e deve aprender a realizar, estaremos, na verdade, limitando o seu desenvolvimento e autonomia.
O objetivo desta reflexão não é julgar ou condenar quem pratica um bem imperfeito, mas convidar à consciência: como transformar boas intenções em benefícios cada vez mais maduros, fraternos e efetivos.
Conexões entre a Lição 35 de Fonte Viva ("Estendamos o Bem") e a Cosmologia Estoica
Na lição 35 da obra Fonte Viva — articulada a partir do preceito paulino "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem" (Romanos 12:21) —, Emmanuel recorre a fenômenos da dinâmica planetária, como tempestades, enchentes e erupções vulcânicas, para evidenciar que eventos aparentemente nefastos ou destrutivos desempenham uma função indispensável de reequilíbrio, fertilização e renovação na economia da Terra.
Essa abordagem conceitual estabelece uma estreita correspondência com os fundamentos do estoicismo clássico em três eixos principais:
1. A Teleologia da Providência e a Perspectiva do Todo
No pensamento estoico, nenhum acontecimento no cosmos se dá de modo fortuito ou desconexo. O que sob o olhar humano fragmentado figura como infortúnio ou calamidade revela-se, sob a ótica da Razão Universal (Logos), como etapa necessária do ciclo de preservação e regeneração do ecossistema. Emmanuel alinha-se a essa concepção ao demonstrar como a natureza absorve e transmuta impulsos violentos em germes para a renovação da vida.
2. A Transmutação Moral do Obstáculo
Para ambos os sistemas de pensamento, o mal destitui-se de caráter ontológico absoluto; trata-se, antes, de uma potência em estado bruto ou de uma fase incipiente do desenvolvimento do ser. Assim como a Terra reconfigura o impacto das tempestades, o indivíduo é exortado por Emmanuel a atuar de forma análoga diante do conflito interpessoal: em vez de reagir à agressão com igual ímpeto destrutivo, cabe-lhe converter a ofensa em matéria-prima para o exercício da moderação, da paciência e da virtude.
3. A Cooperação Consciente com a Ordem Cosmólogica
O ideal estoico prescreve que o homem se torne um colaborador consciente da harmonia universal (sympatheia). Ao reconhecer a finalidade pedagógica e evolutiva oculta nas adversidades da existência, o ser humano supera a postura de revolta contra o encadeamento dos fatos e assume o papel de agente de pacificação. Emmanuel reafirma esse princípio ao propor que o espírito desperto estenda o bem de modo sistemático, pacificando o meio social à semelhança da atmosfera que restabelece sua estabilidade após o temporal.
Em síntese, tanto a ética estoica quanto a perspectiva espiritualista de Emmanuel convergem na premissa de que a ordem física e a ordem moral são regidas pelas mesmas leis de interdependência e causalidade. O pretenso "mal" revela-se uma força transitória que, longe de exigir oposição cega, demanda discernimento para ser canalizada na edificação do bem.
A Justificação pela Fé e a Lei de Causa e Efeito
Questão: Como uma pessoa pode ser aceita, perdoada e declarada "justa" diante de um Deus perfeito?
Esta é a pergunta central de Paulo — explorada principalmente nas cartas aos Romanos e aos Gálatas —, que fundamenta a sua tese da justificação pela fé.
Paulo parte da seguinte premissa: todos pecaram, tanto os que seguem a lei de Moisés quanto os gentios que a ignoravam. Ele pressupõe a insuficiência das obras da lei para a salvação. As obras podem revelar a culpa, mas não têm o poder de salvar; a salvação está na graça e na obra de Cristo. Nesse contexto, a justificação vem de Deus e não de méritos próprios, tratando-se de uma iniciativa inteiramente gratuita.
No texto bíblico, "justificar" funciona como uma declaração judicial: não significa tornar alguém perfeito de imediato, mas declará-lo livre de culpa. Deus, por sua graça, absolve o pecador — ato tornado possível por meio da morte de Jesus na cruz.
Para Paulo, se as obras não justificam, a fé o faz. Assim, a fé não é um mero esforço mental ou uma "crença" vazia, mas a confiança total na obra salvífica de Jesus Cristo. No Antigo Testamento, havia a circuncisão, mas no Novo Testamento, o que conecta o crente à graça divina é a fé.
Ser justificado pela fé muda radicalmente a posição e a vida da pessoa diante de Deus e do mundo. Há o fim da inimizade entre o ser humano e o Criador; o crente deixa de ser visto apenas como réu absolvido e passa a ser adotado como filho de Deus. Além disso, a justificação gera transformação moral e a atuação do Espírito Santo na vida do crente, produzindo frutos de amor e justiça.
Na ética paulina, a justificação pela fé é um presente de Deus, recebido não através do cumprimento de leis ou méritos humanos, mas por meio da confiança absoluta em Jesus Cristo.
Princípio Único no Taoísmo e no Estoicismo
Questão: O princípio único tem o mesmo significado tanto no taoísmo quanto no estoicismo? Há alguma diferença? Qual?
Resposta: Embora haja semelhanças, o princípio único no taoísmo é o Tao (o Caminho), e no estoicismo é o Logos. Ambos representam a ordem fundamental e unificadora do universo, a fonte de todas as coisas e o padrão com o qual o sábio deve se alinhar. Contudo, diferem em natureza, acessibilidade e implicações práticas.
As semelhanças residem no fato de que tudo emerge desse princípio e que viver em harmonia com ele é o caminho para a serenidade e a vida boa. Ambas as filosofias enfatizam a aceitação do fluxo natural das coisas, em vez de lutar inutilmente contra o que não se pode controlar.
No taoísmo, o Tao é a fonte misteriosa e o padrão espontâneo de todas as coisas. No estoicismo, o Logos é a razão divina, a alma racional e providencial do universo (frequentemente associada a um fogo inteligente ou a Zeus).
Dessa forma, destacam-se as seguintes diferenças:
Natureza: no taoísmo é espontânea; no estoicismo, racional.
Conhecimento: no taoísmo baseia-se na intuição; no estoicismo, na razão.
Ação ideal: no taoísmo é o Wu wei (não-ação ou ação sem esforço); no estoicismo, é a distinção e foco no que está sob nosso controle.
Abordagem: o taoísmo possui uma dimensão mística e contemplativa; o estoicismo, uma ética de disciplina e dever.
Em suma, ambos apontam para a harmonia com o cosmos. No entanto, o caminho estoico privilegia o domínio racional de si e o cultivo ativo da virtude, enquanto o taoísta valoriza a entrega ao fluxo natural, a simplicidade e a ação espontânea. São convergentes na meta (a serenidade e o alinhamento com a natureza), mas divergentes no método e na concepção desse princípio último.
"Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem." — Paulo (Romanos 12:21)
1. INTRODUÇÃO
Qual é a origem e o contexto desse tema? Por que Emmanuel insiste na explicação sobre a natureza e os fenômenos naturais? O mal realmente existe ou deve ser entendido como a mera ausência do bem? Por que não devemos nos deixar vencer por ele?
2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O Espírito Emmanuel, no capítulo 35 da obra Fonte Viva — intitulado "Estendamos o Bem" —, comenta a passagem de Romanos 12:21.
Paulo passou por uma transformação radical em sua vida: de perseguidor dos cristãos, tornou-se perseguido após o seu marcante episódio na estrada de Damasco. Depois de se refazer e fortalecer durante três anos no deserto, deu início à pregação do Evangelho de Jesus Cristo.
Com o tempo, passou a escrever suas famosas epístolas — cartas endereçadas às comunidades cristãs que havia fundado e a outras que solicitavam sua orientação.
Nesta Carta aos Romanos, do capítulo 1 ao 11, Paulo desenvolve a parte doutrinária, abordando o pecado e a salvação da alma. Já dos capítulos 12 ao 15, o apóstolo exorta os fiéis a porem em prática a teoria apresentada anteriormente.
Do versículo 12 ao 21 do capítulo 12, ele trata especificamente do comportamento cristão diante da hostilidade e da maldade. Para isso, Paulo cita e adapta ensinamentos de Jesus (especialmente os do Sermão do Monte) e princípios do Antigo Testamento.
Romanos 12:21 representa o ponto culminante da ética paulina de não retaliação e de amor aos inimigos, enraizada tanto no ensino de Jesus quanto na esperança escatológica de que Deus fará justiça. É a aplicação prática da justificativa pela fé: quem foi vencido pela graça de Deus passa, agora, a vencer o mal com o bem.
3. NATUREZA
3.1. CONCEITO
Natureza vem do latim natura, que significa "nascer". Embora seja um conceito amplo — envolvendo análises científicas, filosóficas e religiosas —, de forma geral, refere-se ao conjunto de tudo o que existe no mundo físico e material espontaneamente, sem depender da intervenção humana deliberada. Inclui os fenômenos naturais, que ocorrem independentemente da ação do homem.
3.2. MANIFESTAÇÕES E FENÔMENOS NATURAIS
A natureza manifesta-se por meio de diversos fenômenos, tais como terremotos, enchentes e erupções vulcânicas. Alguns desses eventos, embora sejam essencialmente naturais, podem ter a sua intensidade ou frequência agravadas pela ação humana. De qualquer modo, são realidades que existem objetivamente, cabendo-nos aprender a conviver com elas, quer queiramos, quer não.
3.3. COMPREENDENDO A NATUREZA
Em síntese, a natureza é o conjunto de todos os seres, processos, forças e fenômenos do mundo físico que existem e operam de modo autônomo, regidos por leis próprias, independentemente da vontade ou do arbítrio humano. A natureza nasce, cresce e se transforma por si mesma; já o que o ser humano fabrica pertence ao domínio do cultural e do artificial.
4. O MAL
4.1. AS CAUSAS DO MAL
Há duas espécies de males: aqueles que podemos evitar e aqueles que ocorrem independentemente da nossa vontade. Dada a limitação do nosso conhecimento, muitas vezes não conseguimos vislumbrar o conjunto da obra divina e, por isso, consideramos más e injustas certas ocorrências que, sob uma perspectiva mais ampla, revelam-se profundamente boas e justas. Um exemplo disso é o fato de nem sempre percebermos, de imediato, o bem proporcionado por uma tempestade ou chuva torrencial.
4.2. A UTILIDADE DOS MALES
Uma das principais utilidades dos males naturais e das intempéries é o incentivo à busca por meios de prevenção e proteção. Esse esforço constitui um valioso exercício para a inteligência humana e para o desenvolvimento de suas faculdades físicas e morais. Como costuma ressaltar a visão espírita, a dor atua como um aguilhão que impele o homem para a frente na jornada do progresso. Sem as dificuldades e sem a dor, dificilmente encontraríamos a motivação necessária para avançar em nosso aprimoramento espiritual.
4.3. O MAL COMO AUSÊNCIA DO BEM
Onde o bem ainda não se estabeleceu, observa-se a presença do mal — compreendido não como uma criação autônoma, mas como a imperfeição ou a ausência do próprio bem. Do mesmo modo, o simples ato de deixar de praticar o mal já representa um primeiro passo na prática do bem.
A Doutrina Espírita ensina que Deus quer apenas o bem; o mal, portanto, provém unicamente da ignorância e do livre-arbítrio imperfeito do homem. É por essa razão que Allan Kardec e os Espíritos instrutores, como Emmanuel e André Luiz, convidam-nos constantemente à prática ativa do bem e à transformação moral.
5. O BEM
5.1. CONCEITO
Em sentido amplo, o "bem" designa a conformidade entre o que uma coisa é e o que ela deve ser. Trata-se da atualização das potencialidades inscritas na própria natureza do ser, estando intimamente relacionado às ideias de perfeição e de perfectibilidade. Sob a ótica do Espiritismo, o bem é definido como tudo aquilo que está em harmonia com a Lei de Deus.
5.2. TEMPO, AUTOMATISMO E RESPONSABILIDADE
O verdadeiro progresso humano passa a se fundamentar de forma sólida a partir do momento em que passamos a valorizar a dimensão moral. No livro Evolução em Dois Mundos, psicografado por Francisco Cândido Xavier, o Espírito André Luiz traça a trajetória do princípio inteligente ao longo de sua evolução pelos diversos reinos da natureza.
Durante as fases iniciais dessa jornada, o princípio inteligente é tutelado e conduzido pelos "Operários Espirituais". A constante repetição das experiências gera o hábito, fixando a herança biológica e os automatismos psíquicos. Ao atingir o reino hominal, a alma adquire o pensamento contínuo, a razão e o livre-arbítrio. À medida que a consciência se desenvolve, os benfeitores espirituais vão transferindo ao ser a condução do seu próprio destino. A partir daí, sob a responsabilidade do livre-arbítrio, o indivíduo passa a responder por suas escolhas, cuja finalidade última é o aprendizado e a prática do bem.
5.3. A NATUREZA PRÓDIGA EM EXEMPLOS
O Espírito Emmanuel recorda-nos de que a própria natureza é pródiga em nos oferecer lições vivas para a nossa transformação comportamental. Logo após um temporal — evento muitas vezes encarado como um "mal" devido à aparente destruição da paisagem —, novas forças da vida organizam-se para o trabalho de reconstrução:
"O Sol envia luz sobre o lamaçal, curando as chagas do chão; o vento acaricia o arvoredo e enxuga-lhe os ramos; o cântico das aves substitui a voz do trovão... A árvore de frondes quebradas ou feridas regenera-se, em silêncio, a fim de produzir novas flores e novos frutos."
6. CONCLUSÃO
Em última análise, compreende-se que, na economia divina, todo mal encerra em si a semente ou a oportunidade para um bem maior. É natural que nem sempre estejamos capacitados a perceber essa finalidade imediata, dada a limitação do nosso entendimento frente às soberanas Leis de Deus. Contudo, a nossa confiança na Providência Divina e no amparo dos Bons Espíritos deve sobressair-se à nossa percepção ainda imperfeita da realidade.
Estendamos o bem
“Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem”. — Paulo. (Romanos, 12:21.)
Repara que, em plena casa da Natureza, todos os elementos, em face do mal, oferecem o melhor que possuem para o reajustamento da harmonia e para a vitória do bem.
Quando o temporal parece haver destruído toda a paisagem, congregam-se as forças divinas da vida para a obra do refazimento.
O Sol envia luz sobre o lamaçal, curando as chagas do chão.
O vento acaricia o arvoredo e enxuga-lhe os ramos.
O cântico das aves substitui a voz do trovão.
A planície recebe a enxurrada, sem revoltar-se, e converte-a em adubo precioso.
O ar que suporta o peso das nuvens e o choque da faísca destruidora, torna à leveza e à suavidade.
A árvore de frondes quebradas ou feridas regenera-se, em silêncio, a fim de produzir novas flores e novos frutos.
A terra, nossa mãe comum, sofre a chuva de granizos e o banho de lodo, periodicamente, mas nem por isso deixa de engrandecer o bem cada vez mais.
Por que conservaremos, por nossa vez, o fel e o azedume do mal, na intimidade do coração?
Aprendamos a receber a visita da adversidade, educando-lhe as energias para proveito da vida.
A ignorância é apenas uma grande noite que cederá lugar ao sol da sabedoria.
Usa o tesouro de teu amor, em todas as direções, e estendamos o bem por toda parte.
A fonte, quando tocada de lama, jamais se dá por vencida. Acolhe os detritos no próprio seio e, continuando a fluir, transforma-os em bênçãos, no curso de suas águas que prosseguem correndo, com brandura e humildade, para benefício de todos. (Cap. 35 de Fonte Viva, pelo Espírito Emmanuel)
Insistamos no Bem
Alguém recusou a verdade e a bênção de que te fizeste mensageiro?
Insiste ainda.
Não abandones o ensejo de estender o bem.
Não profiras palavra de maldição, não acuses, não critiques.
Cada criatura vive no centro de problemas nem sempre acessíveis ao nosso primeiro olhar.
Persevera nas demonstrações de bondade e compreensão.
É possível que a tua frase contundente fira o próximo.
Ministremos a cada doente o remédio que lhe corresponde.
O sorriso de fraternidade, a ajuda silenciosa, a humildade sem alarde, a flor da gentileza e o gesto amigo cabem, prodigiosamente, em qualquer parte.
Acima do “convencer”, permanece o “auxiliar”.
Ao grelo tenro não se pedem os frutos da árvore venerável e do vinagre compacto não se deve esperar a corrente de mel.
Aproveitemos o tempo, espalhando o amor com que o Cristo nos dotou os corações.
É possível que o veio de ouro esteja profundo na montanha da ignorância e da maldade...
Insistamos, porém, e lavremos a terra, penetrando-lhe os recessos, sem ruído e sem ofensa.
Dificuldades incontáveis ocultam, ainda hoje, a visão da riqueza escondida?
Não importa.
Amanhã, o sol reaparecerá, outra vez, no horizonte, a chuva da divina misericórdia terá lavado os detritos do solo e atingiremos a glória da realização.
Atende ao bem, agora, em paz, hoje e amanhã, aqui e onde estiveres, porque Jesus igualmente persiste nele e prometeu que o Reino da Luz será conferido a quantos saibam perseverar até o fim. (Nosso Livro, pelo Espírito Emmanuel)
Três verbos existem que, bem conjugados, serão lâmpadas luminosas em nosso caminho:
Aprender
Servir
Cooperar.
Três atitudes exigem muita atenção:
Analisar
Reprovar
Reclamar.
De três normas de conduta jamais nos arrependeremos
Auxiliar com a intenção do bem
Silenciar
Pronunciar frases de bondade e estímulo.
Três diretrizes manter-nos-ão, invariavelmente, em rumo certo:
Ajudar sem distinção
Esquecer todo mal
Trabalhar sempre.
Três posições devemos evitar em todas as circunstâncias:
Maldizer
Condenar
Destruir.
Possuímos três valores que, depois de perdidos, jamais serão recuperados:
A hora que passa.
A oportunidade de elevação.
A palavra falada.
Três programas sublimes se desdobram à nossa frente revelando-nos a glória da Vida Superior:
Amor
Humildade
Bom ânimo.
Que o Senhor nos ajude, pois, em nossas necessidades, a seguir sempre três abençoadas regras de salvação:
Corrigir em nós o que nos desagrada em outras pessoas.
Amparar-nos mutuamente.
Amar-nos uns aos outros. (Nosso Livro, pelo Espírito André Luiz)
Agindo Conforme a Natureza
Monge e discípulos iam por uma estrada. Quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho nas mãos. Quando o trazia para fora, o bichinho o picou, e, por causa da dor, o bom homem deixou-o cair novamente no rio. Foi então à margem, tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou.
Voltou o monge e juntou-se aos discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados:
— Mestre, deve estar doendo muito! Por que foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda! Picou a mão que o salvou! Não merecia sua compaixão!
O monge ouviu tranquilamente os comentários e respondeu:
— Ele agiu conforme sua natureza e eu, de acordo com a minha.
Agora é o seu mais belo momento para realizar o bem. Ontem passou e amanhã está por vir. (André Luiz, no livro Passos da Vida)
Exalte o bem. Entretanto, não destaque o mal. (André Luiz, no livro Passos da Vida)
O segredo da paz íntima é agir um tanto mais além de nossas supostas possibilidades na construção do bem. (André Luiz, no livro Canteiro de Ideias)
Antes de ser médium dos fenômenos comuns, não olvide que todo aquele que dá de si mesmo a mais singela colaboração à obra do bem é instrumento de Jesus no aperfeiçoamento do mundo. (Agar, no livro Nosso Livro)
Acima do “convencer”, permanece o “auxiliar”. (Emmanuel, no livro Nosso Livro)
"Fazer o pior parece a melhor decisão." (Aristóteles)
"Os maiores males sempre se infiltraram na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem." (Erasmo de Rotterdam)
"Os males que não são percebidos são os mais perigosos." (Erasmo de Rotterdam)
"Na maioria das vezes, deixar um bem presente por medo de um mal futuro é loucura." (F. Guicciardini)
"Dever-se-ia pensar mais em fazer o bem do que em estar bem: e assim também se acabaria por estar melhor." (A. Manzoni)
"Se eu pudesse, seria mais sensata; mas uma força nova / me arrasta contra a minha vontade, e o desejo / me atrai a uma direção, e a razão, a outra: / vejo e aprovo o melhor, mas sigo o pior." (Ovídio)
"Dizem que é infelicíssimo / quem reconhece o bem mas é obrigado / a manter-se longe dele." (Píndaro)
"Não existe o bom ou o mau; é o pensamento que os faz assim." (W. Shakespeare)
"Ainda não é o pior / enquanto pudermos dizer: 'Isto é o pior.'" (W. Shakespeare)
1 Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
2 E não sejais conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.
3 Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um.
4 Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação,
5 Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.
6 De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé;
7 Se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino;
8 Ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria.
9 O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem.
10 Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.
11 Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor;
12 Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração;
13 Comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade;
14 Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis.
15 Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram;
16 Sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos;
17 A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens.
18 Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.
19 Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.
20 Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
21 Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.
Romanos 12 faz parte da Epístola aos Romanos, carta escrita pelo apóstolo Paulo (provavelmente por volta de 55–57 d.C., durante sua estadia em Corinto, no final da terceira viagem missionária). O destinatário era a comunidade cristã de Roma — uma igreja que Paulo ainda não havia visitado pessoalmente, composta tanto por judeus convertidos quanto por gentios.
Estrutura geral da carta
Capítulos 1–11: parte doutrinária. Paulo expõe o evangelho: a justificação pela fé (não pelas obras da Lei), a universalidade do pecado, a graça de Deus em Cristo, a eleição e o plano de salvação para judeus e gentios.
Capítulos 12–15: parte prática/exortativa. Depois de estabelecer o fundamento teológico (“portanto…”), Paulo mostra como essa verdade deve se traduzir em vida concreta.
O capítulo 12 começa exatamente com essa transição:
“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12,1).
A partir daí, Paulo trata de:
renovação da mente e discernimento da vontade de Deus (vv. 1-2);
humildade e uso dos dons no Corpo de Cristo (vv. 3-8);
amor genuíno, hospitalidade, serviço, alegria, paciência, oração (vv. 9-13);
relacionamento com inimigos e com o mal (vv. 14-21).
Contexto específico de Romanos 12,14-21
Esta seção final do capítulo trata do comportamento cristão diante da hostilidade e da maldade. Paulo cita e adapta ensinamentos de Jesus (especialmente do Sermão do Monte) e princípios do Antigo Testamento:
abençoar os que perseguem (v. 14);
alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram (v. 15);
não retribuir o mal com o mal (v. 17);
viver em paz, na medida do possível (v. 18);
deixar a vingança nas mãos de Deus (v. 19 — citação de Deuteronômio 32,35);
alimentar o inimigo se ele tiver fome (v. 20 — citação de Provérbios 25,21-22).
Romanos 12,21 em particular
O versículo 21 resume e fecha toda essa seção:
“Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem.”
(ou, em traduções mais literais: “Não sejas vencido pelo mal, mas vence o mal com o bem.”)
Significado no contexto:
“Não te deixes vencer pelo mal” = não permita que a maldade do outro determine a sua resposta. Se você revida com o mesmo mal (ódio, vingança, violência), você foi derrotado por ele.
“Vence o mal com o bem” = a verdadeira vitória cristã não é a destruição do inimigo, mas a superação do mal por meio do bem ativo (perdão, generosidade, bênção, oração, serviço).
Este versículo não é um idealismo ingênuo. Ele pressupõe:
A justiça final pertence a Deus (v. 19).
O cristão já foi justificado e transformado pela graça (capítulos 1–11).
O “bem” com o qual se vence o mal é o bem que flui da nova vida em Cristo, não um esforço moral autônomo.
Em resumo: Romanos 12,21 é o ponto culminante da ética paulina de não-retaliação e de amor aos inimigos, enraizado tanto no ensino de Jesus quanto na esperança escatológica de que Deus fará justiça. É a aplicação prática da justificativa pela fé: quem foi vencido pela graça de Deus agora vence o mal com o bem.