Sou nova, entre aquelas tantas outras que fui. Algumas ainda me visitam.
Necessito aprender a dizer-lhes adeus com paz, para que possam partir tranquilamente.
Quero trabalhar arduamente, não para anular o passado, mas para aceitar-me e deliciar-me com a vida, através desta nova que começa a crescer em mim.
Sou filha de seres que, em qualquer parte do Universo, antes da vida terrena, quase atingiram a perfeição. Mas, como entre o quase e o completo habitam falhas, foi-lhes requerida uma volta à escola. Desceram à Terra. Provavelmente amaram-se e, de um momento de entrega, nasci eu, que também necessitava de aperfeiçoamento. Os dois já partiram, com um défice maior de perfeição.
Apesar de tudo, sou grata pelo que me ensinaram e continuo empenhada no crescimento, para que a minha vinda à vida tenha um resultado positivo. Isso significa dar asas à minha essência, aprender a amar-me para poder amar todas as coisas.
Vivi a ditadura e o dia em que nos libertamos dela.
Da História de Portugal antes do 25 de Abril? Até então, eu conhecia-a através da matéria que dera na Escola de Ensino Primário e no Ciclo Preparatório. Matéria apenas para decorar. Era proibido sentir e levantar questões. Guardo na memória a sala de aula na pequena escola da aldeia. Sem me aperceber, tudo ali era comandado pelos ideais políticos de um só homem; Salazar. Todas as manhãs, antes do início das aulas, ficávamos de pé, solenemente direitos, para cantar o Hino Nacional. Este ritual obrigatório, estendia-se e fazia-se sentir em toda a nossa educação. Muito mais tarde, viria a entender a presença da enorme cruz, no meio das molduras escuras, com as fotos a preto e branco do Presidente da República e do Presidente do Concelho.
Até ali, Salazar não passara de mais um personagem nas histórias que o meu avô contava. Anos depois compreendi o verdadeiro significado do tom mais baixo que ele usava quando falava do Estado Português. Algumas vezes, em jeito de segredo, dizia para a minha avó: “Fulano falou demais e ninguém mais soube dele.”
A minha entrada no Liceu coincidiu com a chegada da liberdade. Não foi fácil a adaptação.
Mais tarde aprendi que a liberdade não depende apenas de um estado político.
Celeste e Francisco. A junção dos dois foi a ferramenta para aprender letras, arrumar palavras e dar vida a histórias.
coordenadora do blog e participante na revista.. Revista e programa Ponto & Vírgula
Ada Abaé nasceu em Portugal e vive na província de Alberta, no Canadá, possuindo dupla nacionalidade.
A sua escrita abrange poesia, contos e outros textos narrativos, combinando raízes portuguesas e experiências canadenses.
É autora de vários livros, colabora na revista Ponto & Vírgula, é criadora de sites e trabalha com revisão de textos.