(15/02/16)
A primeira coisa a fazer é conhecer-se. Para isso, pergunte aos que vivem com você quais são os seus defeitos e virtudes.
A segunda é aceitar-se como se é. Não adianta acharmos que somos outras pessoas! Se você tiver algum defeito físico, assuma-o, até que possa, talvez, fazer algo para eliminá-lo.
Numa conversa, não invente coisas que você não tem fez, nem minta sobre sua condição social e de instrução. Seja o que você é diante de Deus.
Se você é alcoólatra, aceite isso e aí vai conseguir ficar sóbrio. Se está envelhecendo, assuma isso! Não viva como se fosse um adolescente! É ridículo!
Tenha cuidado a quem o (a) atrai, para não trair sua esposa (esposo) ou cometer alguma besteira.
Se nunca viajou ou nunca foi à praia, não minta. Seja você mesmo (a).
Aceite a realidade como ela é. Veja a realidade a seu redor e aprenda a conviver com ela, lutando sempre para melhorá-la, é claro.
Todos vivemos num determinado lugar, mas muitos vivem num lugar mas têm a mente em outro(s). A consequência (uma delas) é que não vai viver bem nem no mundo real, nem no imaginário. É como o turista que se preocupa tanto em tirar fotos que não aproveita a viagem. Ele vai mostrar as fotos de um lugar do qual muitas vezes nem tomou conhecimento.
Para mudarmos qualquer realidade, é preciso primeiramente encará-la como ela é e aí, sim, planejar as mudanças necessárias.
Quem não é realista vive no mundo da fantasia, sofre muito, vive alienado e cai em depressão ou em atitudes parecidas.
Depois de estudar a realidade, ver o que é bom, o que precisa ser mudado, revise as suas “armas”, o que você tem em mãos para melhorá-la, quais são as suas capacidades, suas possibilidades, a quem pode recorrer, e como as mudanças podem ser feitas, e, claro, se são possíveis. Se não são possíveis, sempre há um modo de adaptar a situação.
Nesse caso, se as mudanças são difíceis ou impossíveis, eu sugiro isto:
- Faça um círculo de amigos constantes e reúna-se sempre com eles;
- Reze (ore) várias vezes por dia;
- Medite diariamente sobre um texto bíblico;
- Aproveite o que há de melhor onde você vive, se for coisa honesta e boa. Peça a Deus e converse entre vocês para vencerem o que for coisa má.
- Assuma suas tarefas diárias com alegria ou, pelo menos, em paz, confiando na graça de Deus;
- Ocupe constantemente seu corpo e sua mente e nunca fique no ócio, ou seja, sem fazer nada, a não ser quanto estiver rezando (orando) ou meditando.
- Ofereça tudo a Deus, que o (a) ouvirá, o (a) acolherá e o (a) ajudará a transformar, se não a realidade, os corações dos com quem você vive.
E se nada disso der certo, simplesmente abra uma cerveja, ou um refrigerante, e relaxe.
A tradução é “curta o momento”, “aproveite o dia”.
Vivemos fazendo tudo correndo, apressadamente, para nos sobrar tempo... para fazermos desesperadamente outras coisas.
Quando nos encontramos numa situação em que somos impedidos de agir livremente, aí aprendemos que é besteira fazermos as coisas abestalhadamente, apressadamente.
Começo esta reflexão com o salmo 126(127), 2: “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, para comer o pão de um duro trabalho, pois Deus o dá aos seus amigos até durante o sono”.
Quem realmente confia no Senhor não faz tudo como se dependesse apenas de si próprio. Lembro também Lucas 10,40-42:
“Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada”.
Já em João 21,1-14, após a sua ressurreição, Jesus apareceu a Pedro, Tomé, Natanael, João, Tiago e outros dois dos seus discípulos... e comeu peixe assado com eles, na praia! Tanta gente para converter, tantas coisas para ensinar, mas eles ficaram fazendo um “piquenique” na praia. Os entendidos no assunto dizem que esses dois de quem não sabemos os nomes, somos nós!
Em Lucas 9, 10: “Os apóstolos, ao voltarem, contaram a Jesus tudo o que haviam feito. Tomando-os ele consigo à parte, dirigiu-se a um lugar deserto para o lado de Betsaida”. Em Marcos 6, 32: “Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco”!
Dois jovens bancários trabalhavam num mesmo serviço, mas em turnos diferentes: um de manhã e outro à tarde. O da manhã era meio ateu, e o da tarde muito religioso. Trabalhava tranquilamente. Como era chefe de secção, apenas coordenava o trabalho. Na hora do café aproveitava para ir rezar com os monges no mosteiro vizinho. O da manhã era impaciente e apressado. Punha-se a fazer o trabalho dos escriturários que lhe eram submissos. Resultado: o da tarde rendia mais que o da manhã. Às vezes o da manhã se queixava com o da tarde, quando lhe passava o serviço. O da tarde ria, e aconselhava o colega a fazer o trabalho da coordenação, e não fazer o trabalho pelos subordinados. E que rezasse, entregasse o trabalho a Deus.
O segredo é manter-se “em dia” com Deus, pela oração, e fazer tudo com calma, sem afobação, sem desespero, sabendo que Ele nos está ajudando, estamos sob sua proteção. “Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga”, diz um ditado baseado no salmo 126.
Eu soube disso desde criança. Certo dia minha mãe chegou da fábrica, tudo por fazer, um metro de louça na pia, dois metros de roupa no tanque, camas para arrumar...Ela já havia trabalhado oito horas em pé na tecelagem!
Meu pai havia comprado laranjas, quando viera almoçar em casa (a minha mãe almoçava na fábrica mesmo), e estavam espalhadas sobre a mesa. Ela, desanimada, sentou-se à mesa e, deixando tudo pra lá, começou a chupar laranjas. Depois foi tirar uma soneca. Eu nunca me esqueci disso! Percebi que ela confiava em Deus e sabia que mais tarde, um pouco mais descansada, daria conta do trabalho.
Tenho vários amigos afobados, desesperados para fazerem qualquer tipo de trabalho. Parecem que querem salvar o mundo. Jesus já fez isso! Há um deles que está sempre correndo, também, mas tem tudo milimetricamente planejado, inclusive as horas (exatíssimas) para dormir, acordar, comer, tomar banho, fazer sua caminhada (conta quantos quilômetros andou)...
Temos que acreditar que Deus tem conhecimento de tudo e é misericordioso. Ele nos tem em suas mãos. Não há necessidade de correria, a não ser, é claro, nas emergências. “Respiro já aqui na terra o ar do paraíso”! –dizia Santa Faustina. E uma autora, Mônica S., diz em seu livro sobre Santa Teresinha que ela achava que “A alegria não está nos objetos, mas no mais íntimo do coração; podemos senti-la no mais luxuoso palácio ou na mais triste prisão”.
Essa alegra só é possível com a paz, a serenidade, a confiança na ação de Deus no trabalho que fazemos. Quando tentamos fazer algo e não dá certo, após várias tentativa, deixemos na mão de Deus e façamos o pouco que podemos. Se Deus não está tão preocupado com isso, pois não está nos ajudando, por que deveríamos estar nós?
Isso ocorreu com o Cônego José Allamano, em Turim, fundador dos missionários e missionárias da Consolata. Os institutos não iam para frente de jeito nenhum. Estava tudo emperrado. Ele fez o que podia, e, no Santuário da Consolata, muito famoso, disse a Maria: “Maria, a obra é tua! Eu lha entrego! Fiz o possível! Se não quiseres essa tua obra, desfaze-a! O problema não é mais meu. Eu nada mais posso fazer! Foi uma oração mais ou menos como essa.
A partir desse momento, a obra deslanchou, foi para frente, e dura até hoje.
O Eclesiastes (Coilet) percebeu bem isso e nos transmitiu: “Não há outra felicidade para o homem além de comer, beber e gozar do bem-estar, fruto do seu trabalho. Notei que isso vem da mão de Deus, pois “quem pode, sem mim, comer e cuidar de si”? (Ecl 2,24).
É claro que isso tem que ser lido à luz do Novo Testamento e da crença da ressurreição final e na vida eterna, o que estava apenas se formando como ideia naquela época.
Se isso que estou aqui dizendo eu tivesse cumprido quando mais jovem, eu teria evitado uma porção de problemas e fatos acontecidos em minha vida. Houve uma época em minha vida que eu era um desses que trabalhava como louco. Havia me esquecido da lição desses dois amigos do banco. Eu me prejudiquei muito por causa disso. Por isso é que eu estou insistindo: oremos mais, coloquemos nossas ações e nossa vida nas mãos de Deus, que nunca “quebraremos as pernas”.
Digo, pois aos e às evangelizadores (as) que aproveitemos bem o nosso tempo com paciência, atendamos bem às pessoas, pois isso valerá a pena, mas deixemos Deus cuidar daquilo que não estiver ao nosso alcance! ”Lançai sobre ele vossas preocupações, porque ele cuida de vós”!(1ª Pedro 5,7).
Realmente, você acredita nisso?
07/07/12-
Estava fazendo a Via Sacra, dentro da Hora Santa quando, na terceira estação, a queda de Jesus, veio-me à mente o fato de que, se Jesus caiu no caminho do Calvário, é porque Ele pegou a Cruz: ele não a recusou! É porque Ele estava de pé! Se Ele não a tivesse pegado, nunca teria caído!
Em nossa vida, muitas vezes caímos porque estávamos de pé, estávamos tentando fazer alguma coisa boa para os outros e talvez fomos caluniados, ou vítimas de invejosos! O pior seria se nunca tivéssemos caído! Seria pelo motivo de que nunca estivéramos erguidos, tentando caminhar e ajudando outras pessoas a caminharem! De fato, quem se arrasta no chão, nunca vai cair! Quem rasteja no caminho, como uma cobra, não terá chance de cair!
Jesus caiu uma, duas, três vezes! Ele ia morrer mesmo! Por que simplesmente não largou a Cruz e deixasse que o matassem? Seria menos doloroso! Algum soldado talvez lhe enfiasse uma lança no peito e Ele não teria sofrido tanto!
Jesus não desistiu de sua Cruz : levou-a até o fim! E por tê-la levado, caiu. Fracassou? Aparentemente, sim! Mas não fez nenhum ato de fracassado: foi, vitoriosamente, caminhando para o suplício, suplício cruel, sangrento e extremamente doloroso.
A morte de Jesus foi tão bárbara que Pôncio Pilatos foi, alguns meses depois, destituído de seu posto de governador. Ele exagerou na dose e até as autoridades romanas reconheceram isso, ao destituí-lo.
Nós gostaríamos de nunca termos caído em pecado, de nunca termos desistido disto ou daquilo, não é mesmo? Mas, se caímos, é porque estávamos tentando andar, tentando caminhar no caminho que Jesus indicou.
Há diferença entre cair numa caminhada para o Reino de Deus e vivermos caídos! Os que vivem no crime, no pecado, na ambição, não estão no caminho! Nunca vão cair de lugar algum, pois já estão no chão! Talvez um dia estivessem, mas pode ser que desistiram e ficaram caídos. Se Jesus tivesse desistido, ficasse caído, teria sido morto ali mesmo. Não teria levado a Cruz até o Calvário.
Vamos ajudar os caídos? Vamos erguê-los? Aproveitemos o tempo em que estamos caídos, nossas quedas, em que estamos também “rastejando”, no mesmo nível que eles, para que nos reergamos com eles! Levantar-se juntos é mais realizável do que estender a mão de cima para baixo.
Essa é a diferença de quem tem fé em Deus, confiança no Amor Misericordioso de Jesus: sabe que ele sempre está com as mãos estendidas para nos pegar, com os braços abertos, como na Cruz, para se erguer conosco, a fim de que ressuscitemos com ele.
Veja bem: ressuscitarmos COM Jesus. Ele não nos puxa para cima, mas sobe conosco! Ele esteve conosco todo o tempo!
Deus não nos puxou para cima: Ele desceu, ficou conosco no mesmo nível apesar de nunca ter pecado, e substituiu-nos na Cruz: levou-a até o fim, mas caiu três vezes.
E nós? Quantas vezes caímos? Não importa. E Deus nos diz, como naquela canção antiga: “ Amigo, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!”
Se caímos, amigos e amigas, ânimo! Retomemos o caminho e vigiemos, par não cairmos mais! Se você permanecer em pé, tentar ajudar os outros, talvez vá cair, sim, algum dia. Mas... Jesus também caiu por tentar levar a Cruz. Ele conhece bem o assunto!
(Set. 2016)
Até que ponto nós somos católicos? No quê realmente acreditamos? O que realmente entendemos dessa religião?
Vejo, com dor no coração, que muitos (muitos mesmo!) não entendem o valor e o conceito de muitas verdades de nossa fé. Eu mesmo, após 20 anos de estudo (contados com o primeiro grau) ainda não entendo direito várias coisas!
Dou um exemplo da Eucaristia. Quantos conseguem ver, de verdade, Jesus presente na Sagrada Hóstia, na Sagrada Partícula?
Jesus está ali, na nossa frente, em corpo, sangue, alma e divindade. Mas muitos veem, ali, apenas um pedaço de pão e um pouco de vinho! Não conseguem sentir a presença de Jesus. Vejam que maravilha é o Milagre de Lanciano (clique para ver).
Eu me coloco entre os que às vezes se esquecem disso. Quando faço minha Hora Santa diária, diante do Santíssimo, minha mente fica poucos minutos atenta a essa verdade. Numa boa parte do tempo a divagação vai longe, vai a lugares longínquos, ao ponto até de eu me esquecer que estou fazendo a oração e até cochilo!
Será que eu me portaria assim se visse Jesus em carne e osso à minha frente?
Quando percebo isso, peço logo perdão e volto à contemplação.
O Pe. Howard, que trabalhava em Nova Yorque, no Brooklin, com os latinos, falou-nos, numa pregação de retiro em Mogi das Cruzes, que, na Hora Santa, se conseguirmos ficar cinco minutos de verdadeira contemplação, já ganhamos a hora toda, já valeu a pena.
Isso quer dizer que mesmo ele, com um nível de abnegação altíssimo para trabalhar naquele lugar sinistro, com tamanho grau de santificação e de apostolado genuíno, mesmo ele sente dificuldade em concentrar-se nas orações.
Pelo menos estejamos conscientes do fato de que Jesus está ali, à nossa frente! Mesmo que não sintamos nada, creiamos nisso e façamos tudo como se ele estivesse ali em carne e osso, e não em forma de pão!
Outro sacramento em que não acreditamos muito é o da penitência ou confissão. Será que realmente acreditamos que Jesus nos perdoou depois que o padre nos deu a absolvição?
Miqueias diz que Deus pisará as nossas iniquidades, e as jogará no mais fundo odo mar, ou seja, ele as esquecerá (Miqueias 7,18-19). Acreditamos ou não nisso?
Se formos perdoados, deixemos o passado pra lá e recomecemos uma vida nova! Deus é misericordioso e realmente nos perdoa!
São Paulo nos diz em Filipenses 3,13-14 que ele se esquece das coisas que passam e lança-se para as que estão à sua frente. Isaías também fala nisso em Isaías 43,18-19: “ Não lembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconhecereis”?
Estudemos melhor a doutrina da Igreja e procuremos entendê-la! Em nossos blogues e sites eu falo muito disso. Sobretudo é bom sempre conferir na Bíblia tudo o que Jesus nos ensinou, e veremos que o que ensina a nossa Igreja Católica é verdadeiro e nos conduz ao caminho da santidade. Quantas coisas bonitas ela nos mostra! Que pena que muitos passam a vida sem percebê-las!
Estamos… cheios de nada e vazios de tudo
Redação (Segunda-feira, 11-03-2019, Gaudium Press) Suportamos uma verdadeira torrente de informações. No mundo dos meios -escritos, orais ou televisivos-, ou navegando nos espaços da internet a partir do computador e celular, 'chovem' todo tipo de notícias. Verdades, meias verdades ou falsidades -a já famosa e qualificada como epidemia mundial da desinformação: 'fake news'-, catástrofes que causam tristeza e nos fazem elevar uma oração pelos que sofrem essas terríveis situações, as que beiram o ridículo ou a loucura e nos deixam pensativos.
A tudo isso estamos, queridos leitores, submetidos diariamente. Somos receptores de verdadeiros impactos psico-visuais. Ficamos envergonhados, assustados, espantados, poucas vezes bem informados e, raramente cheios de alegria e esperança.
É que nos enchem de nada e nos deixam vazios de tudo!
Alguém dirá que sempre foi assim, que não é para se preocupar. Penetremos um pouquinho neste mundo das informações; algumas nos farão rir do ridículo, outras nos provocarão mal estar ao ver o grau de degradação no pensamento dos homens, há ainda as que nos causarão amargura. Ali concluiremos, se é para não se preocupar.
Há pouco saiu uma singular notícia, a foto que mais entradas teve, até o momento, no Instagram. Milhões que a viram, lhe deram seu 'like'. Pensarão: deve ser uma coisa tão maravilhosa e fora do comum, que temos que vê-la e dar 'like'. Não se espantem, era a foto de um ovo! Sim, um simples ovo de galinha. Em menos de duas semanas havia superado os 24 milhões de 'likes', chegando depois quase aos 30. Os criadores se identificaram com o nome de a galinha 'Henrietta', seu ovo se chama 'Eugene'. Esta excentricidade foi reconhecida depois pela 'World Record Egg' que afirmava: "Isto é uma loucura, que tempos vivemos" (El País. Espanha, 14-1-2019). A autora da foto 'vencida' -havia tido mais de 18 milhões de 'likes'-, zomba de sua derrota, simplesmente, quebrando um ovo no pavimento asfáltico quente... e com isso consegue mais de 4 milhões e meio de 'likes'.
Mas, percorramos um pouco mais esta 'selva' de informações 'vazias de tudo'.
Uma gata de nome 'Choupette', linda, por certo, recebe grande herança de seu falecido proprietário, um dos mais famosos designers do mundo. Herdeira feliz: "tem duas empregadas encarregadas de pentear seu pelo branco quatro vezes por dia, dar tratamento aos seus olhos azulados e levá-la ao veterinário uma vez ao mês, distraí-la e brincar com ela". E ainda que não acreditem, já que vivemos um mundo 'especial', tem até Twitter, Instragam e Facebook, com seguidores desde 45 até 145 mil. Seguidores! Também ostenta um site. A gata não sabe escrever... já que os 'dedinhos' se atrapalham no teclado, mesmo assim, a Choupette agradece ao falecido seu carinho (La Prensa Gráfica, 19-2-2019).
Como podemos ver: há de 'tudo', para encher-se de 'nada'.
Não há mais do que um mês atrás líamos a notícia, verdadeira ou falsa, não sabemos, mas publicada em vários meios: um homem de 27 anos teve a ideia incomum de levar seus pais ao tribunal por trazê-lo ao mundo sem o seu consentimento prévio. Este personagem é parte, na Índia, daqueles que promovem uma sociedade "sem crianças", com um nome singular: Movimento Voluntário de Extinção Humana, eles sustentam que as crianças não devem ser trazidas ao mundo. (La Nación, Buenos Aires, 4-2-2019).
Um ovo, um gato, a exigência de uma criança, uma sociedade livre de crianças, que elenco singular de loucura do mundo moderno. Nesta perspectiva, não nos surpreende, ver homens e mulheres no auge da riqueza e da fama, cometendo suicídio.
E isso: como é possível se eles têm "tudo" e não lhes falta "nada"?
No ano de 2018 houve episódios, de grande destaque publicitário, que deixaram perplexos aqueles que chegaram a conhecer as circunstâncias de sua morte; eles tinham tudo para ser felizes. Um vocalista de uma banda de rock popular, um grande designer de moda, uma atriz, um famoso ator de cinema, um prestigiado chef, um modelo e um artista conhecido. Alguns se enforcaram, outros tomaram a fatal decisão com uma arma, a maioria com substâncias químicas. Declarava a família de um deles: "queria encontrar a paz, lutou e refletiu sobre o sentido da vida e da felicidade, mas, não pode fazer mais" (La Vanguardia, 13-6-2018).
A esse singular paradoxo de ter mais ou de ser famoso optar por tirar a própria vida, ocorre a circunstância de que, nos países mais desenvolvidos -mais "felizes"-, a taxa de suicídios é maior. Nos EUA, há mais mortes por suicídio do que por acidentes automobilísticos ou armas de fogo. Na Espanha, é a primeira causa de morte não natural.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que, embora seja um tema relacionado à depressão, ocorre em esferas de maior poder aquisitivo, quando há transtornos decorrentes do consumo de álcool e abuso de substâncias. Aproximadamente um milhão de pessoas no mundo tiram suas vidas a cada ano -quase 3 mil por dia- sem considerar aqueles que tentam e não cumprem sua tarefa sinistra (La Vanguardia, Barcelona, 13-6-2018). Em El Salvador, estamos, entre 2016 e 2018, com 1327 suicídios: 442 por ano; a faixa etária que mais registra casos é entre 20 e 24 anos.
A solidão está onipresente entre as multidões, e dentro delas, nos jovens. Uma pesquisa da empresa 'YouGov' no Reino Unido, com adolescentes, nos apresenta o que qualificam de "geração de suicidas". Vejam as respostas: "não vale a pena viver" (18%); sua vida "não tem propósito" (27%); "ansiedade sobre o futuro" comparando-se com seus amigos "online" (48%); as redes sociais exercem uma "pressão esmagadora" sobre eles para serem bem sucedidos (57%). (El Mundo, Madri, 15-2-2019).
Há um tédio da vida em lugares qualificados como felizes. "Apesar da fama e do dinheiro nenhuma destas enche a essência do ser humano. Existe um profundo vazio que implica na tristeza e mais delicado ainda à depressão, que é considerada uma das principais razões que impulsionaram estes a tirar a vida" (Listin Diario, Santo Domingo, 1-3-2019). Profunda observação.
Solidão, abatimento, vazio, tristeza, depressão. Creem ter tudo, mas, se dão conta que no fundo não tem nada, estão vazios. Diagnóstico singular de uma humanidade que cada vez mais se distancia de Deus e seus Mandamentos. Não poderiam ser outras as graves consequências que se manifestam.
"Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu os aliviarei" (Mt 11, 28), assim é que convida Nosso Senhor Jesus Cristo aos homens de todos os tempos. Quando se sentir sozinho, desconsolado, deprimido, "cheio de nada e vazio de tudo", recorrei a quem diz de si mesmo: "aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrarei descanso para vossas almas: porque meu jugo é suave e meu fardo é leve" (Mt 11. 29-30). Que a Santíssima Virgem Maria, Medianeira Universal de todas as graças, pouse seu olhar misericordioso sobre este mundo de filhos necessitados.
(Publicado originalmente em La Prensa Gráfica, 10 de março de 2019)
Por Padre Fernando Gioia, EP
Traduzido por Emílio Portugal Coutinho
Nasci e fui criado numa cidadezinha do interior em que havia, à margem de um rio, uns 25 chiqueiros, com porcos cuidados pelos moradores. Cada chiqueiro era de um dono diferente, Naquele tempo não havia roubos: os chiqueiros eram fechados apenas com trincos.
Havia uma porca muito gorda, de meu pai, que dera cria: 12 leitõezinhos. Infelizmente ela deitou em cima de 11, matando-os, só sobrando um. Eu implorei a meu pai que o levasse para casa. Eu tinha uns 10 anos. Meu pai o levou e nós o criamos em casa, primeiro com mamadeira, depois com leite misturado com pão. Nós pregamos numa tábua 2 latas de goiabada e ali púnhamos a água e a sopinha de pão.
Chiquito (esse é o nome que dei ao porquinho) crescia forte e bonito. Era ainda novo, pequeno, quando uma galinha chocou uma ninhada de pintinhos que começaram a “invadir” as latas de alimentação dele. Ele agia como as pessoas pão-duras, egoístas e avarentas: não deixava os pintinhos comerem com ele.
Na vida é assim mesmo! Muitas vezes temos medo que nos falte o alimento, ou as nossas coisas, e não vemos as necessidades dos outros.
Precisamos confiar em Deus, que não nos deixa faltar nada se lhe formos fiéis, se o amarmos e o obedecermos. O Chiquito não era gente, e por isso não sabia que nunca deixaríamos que lhe faltasse alguma coisa!
Alguns dias depois das brigas do Chiquito com os pintinhos, aconteceu dele descobrir um buraco na porta de casa e por ele pôde sair para a rua. “Que beleza!” - deve ter pensado eles. “o mundo não é só o meu quintal! É também a rua!”
O padeiro passava por ali todos os dias às três horas da tarde, vendendo pão a domicílio, com um ford 1929 ou pouco mais novo. Ele deu um pãozinho para o Chiquito, que adorou a ideia e ficou freguês.
Todos os dias, quando o padeiro buzinava, o porquinho saía numa disparada e ia comer o seu “pãozinho de cada dia”. Meus colegas da rua coçavam sua barriga e ele deitava com as quatro patas para cima.
Uma coisa surpreendente aconteceu então: por ter o pãozinho diariamente lá for a, o Chiquito passou a deixar que os pintinhos comessem sua comida nas latas de goiabada.
Ele deitava-se ao lado e via os pintinhos que, abusados, começaram a subir nele e a bicar sua pele. A amizade entre eles começou a existir.
Nós tivemos um problema financeiro e vendemos (bem caro) o Chiquito a um homem que diariamente implorava que nós o vendêssemos. Soubemos depois que ele cresceu e vivia na casa dos novos donos, que nunca conseguiram matá-lo para comê-lo: o Chiquito morreu de morte natural, bem velhinho.
A moral da história: Quando nós finalmente descobrirmos que nossa vida não é só esta, mas continua na eternidade, não vamos mais nos apegar de modo exagerado ao que temos e vamos procurar ajudar mais as pessoas! Você topa? Não dá para aprendermos com o porquinho Chiquito?
Um comodato é algo que alguém empresta para outra pessoa com determinado prazo para devolução. Para que se caracterize como comodato, essa transação deve ser feita de modo gratuito.
Pois bem: pensando com meus botões num dia destes, vi-me diante da realidade de que minha vida, meus bens, o mundo em que vivo é um comodato que Deus fez comigo. Vou ter que deixar tudo isso e devolvê-lo algum dia.
O que se espera da pessoa que está usufruindo do comodato? Uma das coisas é que zele pelo bem que usa e o devolva como o recebeu, ou com algumas melhorias.
Vendo o mundo ao meu redor, encho-me de tristeza, pois não é bem isso que estamos fazendo com o mundo. Vamos entregá-lo sujo, devastado, desarborizado, poluído, desarmonizado.
Você pode me replicar: ”Eu não tenho poder sobre o que os outros fazem”. Concordo. Entretanto, há uma parte deste mundo que foi-nos dada como comodato. Está incluída, nessa parte, a nossa vida. Como vou devolvê-la a Deus na hora de minha morte? (Para mim vai ser logo, pois já sou idoso). Ainda temos tempo de fazer uma reforma em nós mesmos, por meio de uma boa e sincera confissão, a busca da comunhão frequente, a oração diária um pouco mais longa, se ainda a fazemos curtinha e do modo que São João Maria Vianney criticava com palavras semelhantes a estas: “Nós, ao invés (ele acabara de falar dos santos que rezavam de modo perfeito), quantas vezes entramos na igreja sem saber o que iremos pedir. E, no entanto, sempre que vamos ter com alguém, sabemos perfeitamente o motivo por que vamos. Há até mesmo pessoas que parecem falar com Deus deste modo: ‘Só tenho duas palavras para vos dizer e logo ficar livre de vós…’. Muitas vezes penso nisto: quando vamos adorar a Deus, podemos alcançar tudo o que desejamos, se o pedirmos com fé viva e coração puro” (Tirado da segunda leitura do Ofício das Leituras referente ao dia 04 de agosto, dia em que se comemora esse santo).
E eu acrescento: se cuidarmos melhor de nosso mundo e de nossa vida, Deus vai nos ajudar de modo incrível e profundo!
14/10/2024 - Teófilo Aparecido de Jesus
Este texto não é um trabalho científico, mas apenas uma reflexão sem maiores pretensões.
Nossa mente é dividida didaticamente em três partes: EGO (eu consciente), SUPEREGO (nossas aquisições morais e de costumes), e o ID (inconsciente).
O EGO trabalha no hoje e no agora. Todas as coisas que nos são conscientes estão no EGO. As coisas que esquecemos estão no ID ou inconsciente. O que dirige tudo isso é o SUPEREGO.
Quando vamos fazer algo que contraria nossos preceitos morais adquiridos com nossa educação, família, escola e convivência, o SUPEREGO nos adverte que aquilo pode nos prejudicar.
Por outro lado, o ID ou inconsciente não tem passado nem futuro: é sempre atual. Não importa quando é que você fez alguma coisa, é como se você estivesse fazendo a coisa agora. Apesar do inconsciente ser uma gravação de coisas passadas, elas funcionam como se fossem presentes. Desse modo, uma coisa passada pode nos prejudicar e nos levar a cometer besteiras, justamente porque o problema, para o ID, ocorreu agora e não a quinze anos atrás.
Os psicólogos promovem a conscientização desse problema ou acontecimento passado para que, no consciente, você tome conhecimento dele, o aceite e então poderá ser mudado e sanado o problema pelo qual você passa. Suas atitudes passam a ser outras, mais sadias, porque você passa a dominar a situação e consegue superá-la.
Um exemplo: uma pessoa que conheço era muito tímida até os 24 anos e só ficou mais ousada quando, após uma série de sessões de psicanálise, fora colocada para chefiar um setor na firma onde trabalhava. Essa pessoa percebia que sua timidez não lhe era natural, pois em sua infância era extrovertida e animada.
Depois de uma série de sessões de psicanálise, descobriu que uma das causas de seu comportamento tímido fora o costume que uma de suas professoras do jardim de infância tinha de colocar esparadrapo em sua boca por falar demais na classe. Isso, aliado a problemas familiares, como os ataques de histeria do pai, que a colocava de castigo em frente dos outros, levou-a a uma timidez doentia. Perdeu toda a confiança e segurança próprias. Quando na firma alguém confiou nela e a colocou como chefe do setor, a autoconfiança lhe voltou. Foi uma espécie de complemento ao tratamento psicológico a que se submetera.
O esparadrapo físico fora tirado, mas o “esparadrapo” simbólico ficara, até que ela descobrisse esse mecanismo de “castração” psicológica.
Outra coisa interessante são os sonhos: o nosso inconsciente coloca nossos problemas na consciência, mesmo adormecida, e o SUPEREGO os disfarça, a fim de que possamos dormir mais tranquilamente.
No caso de um pesadelo, ele faz o contrário: faz com que acordemos, para não acontecer nenhum dano à nossa mente ou mesmo para não morrermos de infarto.
Vou dar um exemplo para ser melhor entendido: quando o rapaz ama a namorada de seu melhor amigo, nunca vai sonhar que está beijando ou fazendo carinho a ela, mas simplesmente que a está confortando, por exemplo, por seu amigo estar distante ou mesmo ter morrido (no sonho). Esse disfarce é obra do SUPEREGO. Ele controla nossa mente, quando estamos dormindo, para que possamos continuar dormindo em paz, e não sermos atormentados pelos nossos sentimentos de culpa.
Quando você tiver um sonho, pense no que aquilo possa simbolizar dentro dos seus conhecimentos do dia a dia, costumes, símbolos aprendidos desde a infância e aos poucos, você vai, por meio da autoanálise, descobrindo-se aos poucos, desvendando os seus problemas, suas causas e os porquês de seu desânimo e compreensão diante de suas atitudes.
Uma coisa é certa: não é uma atitude correta interpretar os sonhos como premonições do futuro. Pode ser que alguma pessoa que tenha poderes parapsicológicos consiga isso, mas é uma coisa muito rara. O normal é procurar interpretar os sonhos desse modo que falamos acima: ver o simbolismo em nossa vida de cada coisa que sonhamos.
06/11/18
Eis algumas dicas para nós prevenirmos o estresse da vida moderna :
1- Fazer uma coisa de cada vez, caprichada, sem se preocupar com as outras obrigações ou preocupações do restante do dia. Vou dar um exemplo de desperdício: quando você estiver comendo frango assado, não fique comentando com o outro comensal sobre picanha ou outro tipo de comida. Aprecie o frango assado! É tão comum as pessoas comerem uma coisa comentando sobre outra!
2- Gandhi diz que caminhar é o melhor remédio para a saúde. Procure caminhar pelo menos 45 minutos diariamente!
3- Quando estiver fazendo algo, pare um pouco, respire fundo, dê alguns passos no ambiente mesmo em que está, dê uma relaxada e depois volte a fazer o que fazia. Não fique trabalhando direto. Isso vale, sobretudo, para quem trabalha diante de um computador. Lembro-me sempre de minha mãe. Eu me debruçava sobre os livros, quando estudava, e ela, mesmo tendo pouca instrução escolar, quando eu já estudara bastante, fechava o meu livro e me expulsava da casa: “Vá brincar um pouco e depois você volta”. É, gente, eu era muito “Caxias”. Ô mãe abençoada que eu tinha!
4- Siga o que já dizia Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa. A paciência tudo alcança. Deus nunca muda. A quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!”. Ou seja: não fique preocupado(a) com as tarefas que tem que realizar durante o dia. Faça coisa por coisa, sem pressa, sem se afobar. Confie em Deus. Acredite que ele está presente e pode lhe ajudar sempre. Nem um fio de cabelo cai de nossa cabeça sem que Deus consinta. É verdade que muitas desgraças acontecem sem que tenha sido da vontade dele, mas ele consente. Se você tiver contato constante com Deus, creia que ele não vai permitir algo que possa impedir você de se salvar. Sim! Nós nos preocupamos muito com esta vida, mas Deus pensa muito além disso: ele quer preservar-nos para a vida eterna e é por isso que ele permite certas desgraças e coisas ruins em nossa vida. Pode ser que aquela coisa não seja tão ruim assim se, por exemplo, livrou-nos da perdição eterna!
5- Tudo o que você tem que fazer e não gosta, faça oferecendo aquilo para reparar seus pecados, ou para alguma outra intenção, como penitência. O hábito vai acabar tornando aquilo agradável. O meu tio, quando éramos crianças, repetiu o que seria hoje a oitava série por causa da matemática. Naquele tempo havia 2ª época para quem não conseguisse a nota necessária na primeira prova. Ele estudou tanto para passar que acabou gostando da matemática e tornou-se engenheiro eletricista. Atualmente, com 77 anos de idade, já aposentado, foi chamado pela firma em que trabalhava para resolver alguns problemas que eles não estavam conseguindo resolver. Ele voltou a trabalhar, pois não achava o que fazer em casa. O trabalho dele é em São Paulo, mas ele mora numa cidade vizinha. Sobre a demora do trânsito, ele me disse: “O tempo em que eu fazia nada em casa, faço nada no trânsito! É a mesma perda de tempo! Só que agora sou remunerado para isso”. E ele tem razão...
6- Diariamente tire um tempo, além do trabalho, para a oração e para uma “happy hour”, ou seja, um tempo de descontração, de lazer. Passe diariamente um tempinho com a família. Se você mora sozinho(a), leia os vários artigos deste site e os siga.
7-Enfim, por mais complicada esteja sua situação familiar, econômica, social, pessoal, lembre-se de que SEMPRE HÁ UMA SAÍDA e de que Deus nos ama infinitamente. Coloque tudo nas mãos de Deus, confie em sua Providência Divina, e reze. Se você não conseguir ficar um tempo maior em oração, reze orações curtas, como “jaculatórias”, muitas vezes ao dia. É o costume dos monges orientais. São “pequenos tiros” de esperança que lançamos para o Céu. Exemplo dessas pequenas orações: “Senhor Jesus, Filho do Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador”. Outra: “Jesus, eu te amo, me ajude!”. Ou ainda: “Jesus, Maria, José, aumentai minha fé”. José, Jesus, Maria, sede minha alegria!”. “José, Maria, Jesus, que eu saiba levar minha cruz!”. E outras, parecidas com essas. Você nem faz ideia de como isso ajuda! Eu, pelo menos, faço sempre essas pequenas orações.
Parece que não acreditamos quando lemos na bíblia e ouvimos da Igreja a grande verdade de que Deus perdoa realmente as nossas faltas e se “esquece” delas. A condição, entretanto, é que nós não as cometamos mais! Não adianta pedir perdão e não lutar para não mais pecar. Se fizermos isso, nosso perdão está garantido, os pecados pertencem ao passado, que não mais existe. Não desconfie do seu perdão, perdoe-se a si mesmo, perdoe aos demais, lute contra o pecado.
Temos tanta vergonha de falar ao padre nosso pecado! Aliás, muitos nem se confessam direito, por conta dessa vergonha, o que só nos trará problemas diante do “tribunal” divino.
A sinceridade ao pedir perdão é o mais importante para sermos perdoados. Se não os cometermos mais, não precisaremos relatar aquilo outra vez a ninguém! Perdoado é perdoado, esquecido! Acho que lutar é sacrificante, mas compensador, pois não passaremos mais vergonha!
Tenha coragem, vá a um padre, conte tudo o que você fez de errado, sem esconder nada, e tudo o que deveria ter feito de bom e não o fez! E confie no perdão.
Perdoar aos outros é outra condição essencial. Quem não perdoar, não será perdoado. Veja, então, o que a bíblia fala do perdão divino!
Diz o Beato Carlos de Foucauld: “As faltas passadas não me assustam; (...) Deus perdoa porque Ele apaga até as manchas e torna à sua plenitude a nossa beleza primeira”.
Miquéias 7,18-19: Deus vai atirar no fundo do mar os nossos pecados, após havê-los pisado.
Isaías 38,17: “Tu preservaste a minha alma do abismo do nada. Lançaste atrás de ti todos os meus pecados”.
Jeremias 7,1-11: “Vocês matam, pecam, e depois vêm ao templo, acham que está tudo certo e continuam a vida de pecado!” De Deus não se zomba! O arrependimento deve ser sincero.
João 8,10- Jesus pede à pecadora que não peque mais.
João 5,14-“não peques mais para que não te suceda algo pior” (=o inferno).
1ª Cor 10,13- Deus não permite que sejamos tentados acima de nossas forças. Ele nos dará os meios e a força para sair das tentações ou suportá-la (não há desculpa para o pecado).
Tiago 1,14- nem sempre é o demônio que nos tenta. Às vezes é nossa própria concupiscência!
Tiago 1,12- Suportar com paciência a provação, para recebermos a coroa da vida, que o Senhor concede aos que o amam.
Isaías 65,17- “As coisas de outrora não serão lembradas”.
Isaías 43,18-19- “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos!” (Perdão recebido, vida nova!)
Fil 3,13-14- Esquecer do que fica para trás e lançar-se para o que está na frente.
Mateus 6,14-15 e Col 3,13- Perdoar para ser perdoado.
Mateus 18,21-22- Perdoar sempre, sem medidas.
1ª João 4,18- Não há temor no amor. Por que ter medo, se fomos perdoados?
Isaías 55,6-7- Procuremos Deus enquanto Ele se deixa encontrar e nos perdoará, porque Deus “è rico em perdão”.
Hebreus 12,14- Resistir até ao sangue na luta contra o pecado.
Deixe para lá o passado e, perdoado, viva bem o tempo presente, o Agora. Habitue-se a viver o que você está vivendo neste momento. Treine-se para aprender a não pensar quando você não quiser fazer isso.
Eckhart Tolle ensina que um método: feche os olhos e, sem pensar nada, imagine os seus órgãos internos e externos; cabeça, mãos, pés, coração, fígado... Depois fixe-se no que está ao seu redor, à sua frente, ao seu lado. Contemple a natureza ou o local em que você está. Aos poucos você sentirá paz, e saberá viver uma vida nova, sem o pecado. Lute só por hoje, só por agora. Não se preocupe demais com o futuro, mas apenas com o que for necessário (Eckhart Tolle, “ O poder do agora”, ed. Sextante).
31/03/2019
Muitas pessoas se confessam para a primeira comunhão e depois nunca mais na vida se confessam.
Tenho atendido confissões de pessoas em vésperas de morrer e vejo como ficam confortadas e como morrem em paz! É impressionante os efeitos benéficos de uma confissão.
Já São Tiago diz, no capítulo 5, versículo 16: “Confessai, pois, uns aos outros os vossos pecados”.
O sacerdote, seja ele santo ou pecador, tem a autoridade para perdoar os pecados. No momento da absolvição, Jesus fica no lugar do sacerdote e é Jesus quem perdoa os pecados daquele penitente.
A absolvição dos pecados não depende do estado moral do confessor. Depende, isto sim, da sinceridade do penitente.
Havendo arrependimento dos pecados, a confissão é plenamente satisfatória e deixa novamente pura e “limpa” a veste batismal de quem está se confessando. Se morrer nesse estado, vai direto para o céu.
Se não houver um arrependimento total, mas houver um desejo sincero e forte de não mais pecar, a confissão será igualmente válida, os pecados confessados serão perdoados, mas o penitente fica devendo a satisfação daqueles pecados perdoados. Ou seja, se morrer nesse estado, vai ter que passar pelo Purgatório.
Deus não quer a perdição de nenhum de seus filhos(as). Vemos, por exemplo, em Ezequiel 18, 23, lemos que Deus não quer a morte (eterna) do ímpio, mas que ele se converta e viva (a vida no paraíso). Entretanto, Ele respeita a nossa liberdade e não vai nos salvar sem nossa permissão. Pecar e não pedir perdão é uma forma de dizer que não queremos nos salvar. Aí, Deus respeita a nossa decisão e a pessoa que morre nesse estado de não aceitação do perdão de Deus vai para o Inferno. É o tal “pecado contra o Espírito Santo”.
Foi Jesus que deixou os sacerdotes para perdoarem os pecados em seu nome: "Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23).
Essa autoridade para perdoar os pecados foi transmitida pelo sacramento da Ordem aos presbíteros, pela imposição das mãos desde os Apóstolos. É o que chamamos de Sucessão Apostólica. Por meio da ordenação o sacerdote pode também celebrar a Santa Missa “Na Pessoa de Cristo”.
A Igreja propõe cinco passos:
1- EXAME DE CONSCIÊNCIA:
Pesquisar quais pecados cometemos no nosso dia a dia. Isso deve ser feito com muita sinceridade, procurando evitar desculpas por ter agido deste ou daquele jeito. Tente lembrar-se dos pecados cometidos por pensamentos, palavras, atos e omissões. Peça a Deus, por Maria e pelo Anjo da Guarda, que lembre você dos pecados cometidos.
2- SENTIR PESAR POR TER PECADO
Peça a Deus que dê a você um arrependimento, uma dor sincera pelos seus pecados.
3- PROPOR NÃO PECAR MAIS
Acredito que seja o item mais importante. Sem esse propósito sincero, a confissão não vai ter valor.
4- CONFESSAR OS PECADOS AO PADRE
Confessar tudo, sem esconder nada, confiando que o padre guardará segredo de tudo o que você lhe falar. O segredo da confissão é algo real e 100% praticado. Diga ao padre quantas vezes fez tal e tal coisa e as circunstâncias. Por exemplo, tratar mal aos pais é mais grave do que tratar mal algum amigo (que, aliás, pode ser também pecado grave). Se se esquecer de alguns pecados, não se aborreça. Peça também perdão dos pecados esquecidos. Se você ocultar conscientemente algum pecado, a confissão não será válida. Não é preciso falar os pecados já perdoados, mas apenas os cometidos desde a última confissão bem feita.
5- CUMPRIR A PENITÊNCIA DADA PELO CONFESSOR
Que sempre se reduz a alguma oração rápida. Mas eu aconselho você a aprofundar essa penitência, fazendo, por exemplo, às quartas e sextas-feiras pelo menos uma penitência.
Na bíblia vemos muitos exemplos de pecadores arrependidos que obtiveram pleno perdão. Davi, por exemplo, que cometeu homicídio e adultério, mas se arrependeu e foi perdoado. A adúltera, que foi perdoada, mas recebeu o aviso de Jesus para não mais pecar. Em Miqueias cap. 7 vers. 18-20, lemos que Deus jogará nossas iniquidades no mais profundo do mar e esquecerá as nossas faltas.
Nossa Senhora, em suas aparições de Medjugorje, insiste muito na confissão para nossa santificação e garantia da vida eterna.
Deixe sua vergonha de lado (o padre, seja ele quem for também é pecador) e vá se confessar! É bom, é grátis, e nos deixa transformados. A graça de Deus pode fluir em nós.
28/04/2019
A conversão não é coisa de um determinado dia em nossa vida, mas um processo que dura a vida toda.
Recebi a carta de uma amiga que conheço há várias décadas, que conta um “insight” que ela teve.
“Insight” pode ser entendido como uma tomada repentina de consciência das besteiras que fazemos mas não percebemos.
Eu tive um insight desses há uns 17 anos, devido a um acontecimento trágico em minha vida.
Quando a gente sente essa auto conscientização repentina, percebe que estava cego(a) durante todo o tempo, e tudo o que as pessoas nos falaram nos admoestando em relação ao que fazíamos, tomam um sentido novo, autêntico, sem subterfúgios. A isso chamam, na vida espiritual, de "segunda conversão".
Amigos e amigas, a coisa é séria. Podemos estar no caminho errado e não percebermos. É preciso ser sincero (a) em fazermos um exame de consciência realista e imparcial sobre nossa vida. Não espere acontecer uma tragédia em sua vida para tomar essa auto conscientização, esse “insight”.
A seguir, a carta da minha amiga.
TEMPO PERDIDO
24/04/2019
Quanto tempo perdido!
Meu Deus, como eu sou burra!
Eu lia na vida dos Santos que eles faziam penitência e ficava indignada, pois, ao meu ver, eles sofriam tanto, apesar de viver uma vida correta! Eu perguntava: “Jesus por que eles fazem isto? Por que eles se flagelam e se martirizam”?
Hoje eu vejo claramente. Parece que hoje é a minha vez! Como tenho vontade de pegar um porrete de marmelo e socar no meu lombo! Sinto vontade de bater minha cabeça numa pedra. Como pude ser tão burra assim?
Deus me amou tanto, me deu tantas oportunidades, tem sido tão misericordioso, falou tanto comigo e eu, burra, não soube acolher suas palavras.
Jogando, aos poucos, tudo para o alto com a minha arrogância, minha antipatia, meu jeito orgulhoso de querer saber tudo, de não aceitar os defeitos dos outros, achando que tudo está errado e que não tem ninguém bom.
Meu Deus, quanta vergonha! Que vontade de fazer como os primeiros discípulos: me enrolar em cinzas, rasgar minhas vestes, me enrolar em sacos, nem sei se eu mereço enrolar em sacos! Acho que basta cobrir-me de cinzas.
Quanta besteira eu cometi! Quanto tempo perdido! Pra quê ou por quê?
Tudo em vão, a troco de nada.
Nesta quaresma fiz um propósito, apenas um propósito, de fazer a Via Sacra Eucarística na capela, onde Jesus olha pra mim e eu olho pra Ele, onde Ele fala comigo e eu falo com Ele.
Ali Ele mostrou toda a minha miséria, quanta podridão eu insistia em carregar, coisas que vários padres tentaram me mostrar, mas eu insistia em ficar com a teimosia que me cegava não deixava ver.
Jesus me pedia tão pouco! E eu insistia em fazer tanto!
O que Ele mais esperava de mim é que eu O amasse.
Mas meus pecados sempre me distanciavam dele Ele.
Eu ali, lutando para mostrar para o ser humano quem eu era e o que eu era capaz de fazer, querendo me justificar a todo custo.
Quanto murro em ponta de faca! Quanto sofrimento! Na minha pobre inocência, pensava que estava ajudando, achando que podia tirar as pessoas do erro, mas fazendo engolir gatos inteiros, empurrando goela abaixo.
Com este desejo de ajudar a salvar as pessoas, só as magoei! Quanta gente eu magoei e ofendi sem saber e sem querer! Eu não tenho que consertar ninguém! Se tem alguém que precisa de conserto, sou eu!
Eu só preciso amar.
E Jesus sempre perto de mim, me conduzindo, não me deixou desviar do caminho reto e nunca desistiu de mim.
O amor Dele é tanto, que sabia que se me tratasse como eu trato os meus irmãos, ia sair feito uma louca e não voltava mais. Eu não preciso me preocupar nem pedir nada pra alguém. Basta eu me entregar pra Jesus, pois Ele é o justo Juiz que conhece todos os segredos humanos e ELE sabe quem pratica a injustiça e quem as sofre. Disse Jesus que irá julgar o culpado e também o inocente, que sempre dá um tempo de sofrimento para provar um e o outro secretamente.
Dei trabalho pra Jesus. Ele ficou 62 anos me lapidando e mostrando a realidade do mundo e cativando-me, de modo que fui me apaixonando cada dia mais por ELE e pelas suas obras.
Mas ainda eu não amava Sua mãe como deveria, e isso muito O magoa.
Ele me deu a oportunidade de ver e relembrar de um fato que marcou muito minha história.
Para meditar sobre a Sua mãe, eu tinha que levar uma foto dela. Procurei várias, e no exato momento acabei não levando nenhuma. No curso que eu fazia, pequei uma, que fez estremecer o meu coração, ao ver que era uma que um sacerdote usava nos nossos encontros da Pastoral Carcerária, e em que o manuseio contínuo fez aparecer como que uma lágrima a rolar de seu olho. Nesse dia eu percebi isso de modo mais profundo. A dirigente pediu para observar a estampa e eu deparei com uma coroa de espinhos pontiagudos enfiados poderosamente em seu coração. Na hora que ela disse olhe nos olhos dela e veja o ela quer dizer! Ao olhar naqueles olhinhos cheios de lágrimas e duas gotas rolando em seu rostinho, aí eu pude sentir o que ela quis mostrar para mim: Ela sendo a Mãe de Jesus, aceitou todo sofrimento sem sequer poder reclamar, nem mesmo aos pés da cruz.
"Eu lhe darei o que prometi, cumprirei o que lhe disse, contando que seja fiel e me amar até o fim. Escreva minhas Palavras em seu coração, considere-as atentamente, porque lhe serão muito necessárias no tempo da tentação. O que agora você não entende ao ler, entenderá quando eu visitá-la. Tenho dois modos de visitar meus escolhidos: permitindo-lhes a tentação e consolando-os. Dou-lhes cada um duas lições: repreendo-lhes os vícios e estimulo-os a que se adiantem mais e mais na virtude”.
Senhor, obrigada, eu te amo! Meu Deus ,como sou burra! Dá-me a Tua Graça, Senhor! Eu quero viver pra Te amar e Amar-TE para viver, e esquecer o mundo.
Comentário feito a partir do parágrafo 1485
DO DIÁRIO DE SANTA FAUSTINA.
É um texto belíssimo, em que Jesus fala de toda a misericórdia que se acumula em seu Sacratíssimo Coração. Suas primeiras palavras me fizeram lembrar Isaías 49,16: “Eu te tatuei na palma de minha mão!” Lembra em seguida à alma para não fugir dele. Afinal, a iniciativa da aproximação é dele, Jesus, e não da alma. Jesus quer nos perdoar e nos cumular com Suas graças.
A alma se esquiva, por se achar pecadora e indigna, sem forças. Jesus lhe diz que Ele é a nossa força, que Ele nos dará poder para a luta. A alma, então, lhe diz que tem medo dele. Jesus responde que Sua santidade não lhe impede de ter misericórdia de nós. Diz que fundou Seu trono de misericórdia aqui na terra, que é o SACRÁRIO. No sacrário temos acesso a Jesus a qualquer momento!
A alma continua suas lamúrias, lembrando a Jesus que tem muitos pecados e isso muito a atemoriza. Jesus lembra-nos, então, que a misericórdia dele é muito maior que nossos pecados e os pecados do mundo todo! E faz uma retrospectiva de tudo o que Ele fez por nós, com estas palavras: “Por ti desci do céu à terra, por ti permiti que Me pregassem na Cruz, por ti permiti que Me pregassem na Cruz, por ti permiti que fosse aberto pela lança o Meu Sacratíssimo Coração e, assim, abri para ti uma fonte de misericórdia. Vem haurir graças dessa fonte com o vaso da confiança. Nunca rejeito um coração humilhado. A tua miséria ficou submersa no abismo da Minha misericórdia!”
Se nós ouvirmos o convite de Jesus e nos aproximarmos do Sacramento da Penitência, ou seja, procurarmos um sacerdote e a ele confessar todos os nossos pecados, Jesus nos garantirá isto (lembro que estas são palavras que Jesus pediu a Sta. Faustina que escrevesse e divulgasse): “Filha, não fales mais da tua miséria, porque já não Me lembro dela. Ouve, Minha filha, o que desejo dizer-te. Reclina-te em Minhas Chagas e absorve da fonte da vida tudo o que teu coração possa desejar. Bebe abundantemente da fonte da vida e não desfalecerás no caminho. Olha pra os esplendores da Minha misericórdia e não temas os inimigos da tua salvação. Glorifica a Minha misericórdia”.
Gente, tenhamos confiança no perdão divino em relação aos nossos pecados, mas também lhe peçamos força e coragem para não voltarmos a pecar. Na história temos o exemplo de muitos pecadores que se tornaram santos: Carlos de Foucauld, Paulo Apóstolo, Agostinho, e várias mulheres. Eles confiaram no perdão divino e na força que Jesus nos dá se quisermos lutar e vencer o maligno e o mal que nos atrai.
Não só amar, mas deixar-se amar: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir-me a porta, cearei com ele e ele comigo” (Apoc 3,20). Deixar que Jesus entre em nossa vida e nos ame!
Quando nós amamos, procuramos as pessoas por mim amadas quando e como julgar necessário; quando nos deixamos amar, são as pessoas que nos procuram quando e como acharem necessário, e é aí que se encontra a dificuldade; às vezes não estamos muito dispostos a ouvir ninguém, nem atender ninguém!
Eu recebia, às vezes, a ligação de um vigia noturno que frequentava a paróquia, que me acordava às 2 ou 3 horas da madrugada. Tinha medo de ser assaltado e ficava meia hora falando comigo. Eu apenas o ouvia, quase não dizia nada, mas ele se contentava com isso.
S. Pedro disse a Jesus: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (como quem diz: e quero continuar “numa boa”) (Lucas 5,8).
“O meu jugo é suave, o meu peso é leve”. (Mt 11,30). Percebam que Jesus pede que nós o deixemos amar-nos, mas isso vai ter um preço: o seu jugo. Mas é um jugo suave, um peso leve.
Adão e Eva cometeram a mesma besteira: não quiseram deixar-se amar por Deus. Quiseram ser “os donos dos seus próprios narizes “ e deu no que deu.
Jesus, pelo contrário, não fez sua própria vontade, mas deixou-se amar pelo Pai e por nós. Deixar-se amar por Deus é, como Jesus fez, fazer a sua vontade plenamente, seja ela qual for, porque confiamos plenamente em Deus e sabemos que ele só vai fazer e querer o bem para nós.
Referindo-se a outras pessoas, sempre tomemos cuidado para que ela (s) não queira (m) exclusividade em nossa amizade e coloquemos um limite em suas atitudes. Há casos de apegos doentios que devemos evitar.
Deus nos ama com um amor eterno (Jeremias 31,3).Tudo o que temos que fazer é deixar que ele nos ame como e quando ele quiser. Ele vai nos conduzir à luz da Verdade, mesmo nos permitindo horas difíceis, e teremos sua companhia no céu, para sempre.
16/08/2018
É muito comum nos depararmos numa situação em que o desânimo nos pega de surpresa. Às vezes nem conseguimos atinar ao certo com a causa. Jogamo-nos no sofá da sala, ligamos algum aparelho que nos permita ouvir músicas de “down”, as lágrimas correm pela nossa face (olhe que romântico), abrimos uma caixa de bombons, ou tomamos uma(s) dose(s) de uísque ou, se não tivermos uísque, vai cachaça mesmo, mas lá fora a vida continua, e se não tomarmos cuidado, vai continuar nos arrastando.
Muitas vezes o desânimo vem do nosso orgulho refinado. Uma pessoa realmente humilde quase nunca cai em desânimo, porque conhece seus limites e suas fraquezas.
Minha mãe, certa vez, chegou da fábrica de tecidos onde trabalhava em pé, das 4:30 h da manhã até 13:00 h, e havia um metro de louça para lavar, um metro e meio de roupa, casa para limpar, incluindo fogão (a lenha e a gás), quintal, banheiro, quartos (as camas ainda estavam desfeitas), e outras coisinhas mais.
Meu pai almoçava em casa e deixara várias laranjas sobre a mesa. Eu passara a manhã na escola e havia almoçado com o meu pai. Eu ajudava em alguma coisa, varria aqui e ali, mas era quase nada.
Minha mãe, sabiamente, deixou tudo pra lá, sentou-se e começou a comer laranjas (em casa aprendi a comer as laranjas com bagaço). Terminando, foi deitar-se para descansar um pouco. A casa ficou para mais tarde, quando ela já estava mais descansada.
Quando você tiver uma crise de desânimo, deixe tudo pra lá e faça uns momentos de relax, faça uma caminhada, ou tome um banho, ou coma (ou chupe) algumas laranjas, e quando puder, quando estiver com ânimo, reze.
O padre Celso Pedro, de São Paulo, sempre diz: “Não sabe o que fazer? Reze. Não sabe o que rezar? Reze o Pai-Nosso”!
O desânimo vai sair de sua vida quando você aprender a fazer estas coisas:
1- Ter à sua frente seus limites e imperfeições. Conhecer-se. Saber até onde pode ir.
2- Rezar sempre, colocando-se diante de Deus, apresentando o pouco que conseguiu fazer de bom, valorizando tudo o que fez, e pedir-lhe forças para melhorar sua eficiência.
3- Nunca comparar-se aos outros, nem aos santos. Cada um é cada um, cada um tem seus problemas, suas capacidades e suas limitações.
4- Viver cada dia, sem muitas pretensões, sem muitos planejamentos, apenas o necessário.
5- Ter certeza de que amanhã será um dia melhor, você poderá recomeçar tudo do zero, se for necessário. Aí entra e muito a humildade. Quando não nos conformamos com alguma coisa que fizemos errada, é porque não somos humildes. A humildade nos leva sempre a reconhecer que somos fracos, propensos ao pecado, e nunca nos assustarmos quando o que fizemos não saiu como planejamos. Simplesmente pedimos perdão, se for o caso, perdoamo-nos, e continuamos simplesmente a nossa vida. Sem desânimo.
6- Por último, saber que Deus não é cego, nem mudo, nem surdo. Ele nos ouve, fala conosco por vários canais, nos vê e, sobretudo, está sempre conosco e a fim de nós.
Já planejei a lápide do meu túmulo. Nela vai estar escrito: “Aqui jaz um homem que nunca desanimou”.
No livro 4 de “A Imitação de Cristo”, de Thomas de Kempis, capítulo18 lemos: “Bem-aventurada é a simplicidade, que deixa os caminhos dificultosos das discussões para andar no cominho plano e firme dos mandamentos de Deus!”.
Sem Deus, nada podemos fazer. A Igreja precisa ser, realmente, “A Igreja dos pobres!”. A pobreza, na Igreja, é seguida por grupos de homens e mulheres, mas se olhamos a verdadeira pobreza e a verdadeira simplicidade, sobram poucos desses grupos. A maioria das congregações religiosas se distanciou muito da ideia inicial de seus fundadores e não vive mais a pobreza evangélica.
Já dizia São João Crisóstomo, pelos anos 400: “Qual é o proveito se a mesa de Cristo está coberta de taças de ouro, se ele próprio morre de fome?” (Na pessoa do pobre) “Sacia primeiro o faminto e depois, do que sobrar, adorna a sua mesa!”.
Enquanto houver tanta pobreza e miséria, não podemos nos dar a certos luxos, a certas frivolidades. Pessoas morrem de fome, de ignorância, de insalubridade, enquanto as dioceses estão preocupadas com reformas, construções e tantas outras coisas às vezes secundárias e até descartáveis.
Os meios pobres de evangelização trazem um maior apoio da graça de Deus. Se apelarmos a muitas técnicas e parafernálias, acabamos nos acostumando a elas e achando que são elas que nos ajudarão, e não a graça de Deus. Não podemos justificar o luxo e as coisas supérfluas como desculpa para a evangelização. Diz Lc. 10,4 (No Apostolado) “Não leveis bolsa, nem alforje, nem calçados”.“abismo atrai outro abismo” (Salmo 42, 7). Ou, como diz 2°Cor 12, 10, “Quando sou fraco então sou forte”.
Certa vez minha mãe chegou da fábrica, após 8 horas de trabalho, em pé, na tecelagem. A casa sem empregada (éramos pobres), estava uma bagunça! Ela, cansadíssima, deixou de lado todo o serviço e, calmamente, descascou e chupou algumas laranjas que meu pai deixara sobe a mesa quando ele viera também da fábrica, para almoçar.
Esse fato marcou-me profundamente! Percebi que nunca devemos nos apavorar com o trabalho, e sempre agir em parceira com Deus. Confiar na Providência Divina!
Quando eu tinha uns dez anos, criamos um porquinho, a quem chamamos “Chiquito”, em casa. O Chiquito nunca deixava uma nossa galinha choca e seus vários pintinhos comer de seu pão com leite. Um dia, porém, ele achou um jeito de ir para a rua e começou a receber pãozinho do padeiro das 15 h, que entregava o pão num Ford “bigode”. Todos os dias o Chiquito comia pão e era acariciado pelas crianças. Nunca mais ele se importou com a galinha e seus pintinhos: deixava-os comer á vontade, pois ele tinha coisa melhor lá fora!
Isso nos mostra que não devemos nos desesperar com o medo da solidão, da pobreza, do anonimato! Por que essa busca desenfreada pelo poder (mesmo na Igreja!) e pelo dinheiro? Até o porquinho Chiquito aprendeu a ser generoso, sabendo que tinha bens melhores lá fora. Se nós temos o céu, a vida eterna, por que o medo? Por que não confiamos que Deus realmente nos ama e é um “Pai que nos ama com um coração de mãe” (C. Mesters) e NUNCA VAI NOS ABANDONAR? Trabalhemos e vivamos com simplicidade, com pobreza, com amor, com despojamento, e Deus nos ajudará.
Nós pregamos que Deus é um Deus poderoso e misericordioso, mas, na prática, achamos que Ele é mentiroso e nos mentiu quando mandou que deixássemos tudo, todo o poder, para confiar nele. Vejam estas citações. A simplicidade de Cristo: 2° Cor 11, 3; Paulo vive na simplicidade e sinceridade: 2° Cor 1, 12; As bem-aventuranças: Mt 5, 1-12; Confiar na Providência Divina: Mt 6, 24-34; Lc 12, 22-34; Renunciar a tudo para obter a graças de Deus: Lc 14, 25-35. Como Jesus, devemos servir e não sermos servidos (Lc 12,37; João 13,1-16).
10/03/16
Amós5,24: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. O tema da Campanha da Fraternidade deste ano é: Casa comum, nossa responsabilidade, e é ecumênica (participação de várias denominações religiosas).
Conversamos em grupo sobre esse assunto, agora há pouco, e comentamos quanto desperdício promovemos no nosso dia a dia. Quanta água desperdiçada quando, por exemplo, muitos escovam os os dentes, ou cortam a barba, enquanto no Nordeste muitos até chegam a morrer de sede!
Conversamos sobre o que poderíamos fazer para sanar esse problema mas, a não ser pessoalmente, em nossos hábitos, nada mais conseguimos, e na conscientização dos amigos e pessoas que convivem conosco.
Escrevi uma poesia sobre esse assunto. É assim:
A DEVASTAÇÃO DA NATUREZA
Poetas, não poetas,
todos concordam:
Mundo veloz,
mais atraente,
mas sem beleza,
sem natureza,
sem a singeleza
com que foi criado.
Flores vertem cicuta,
nada vale a labuta
dos trabalhadores,
pobres operários.
Homens se trucidam,
muitos se suicidam,
morrem em vão.
O mar vira aquarela,
a natureza, antes bela,
nunca se recuperarão.
Peixes sem rumo,
sem oxigênio,
morrem a céu aberto.
Na Amazônia, logo logo
veremos sua última árvore,
sem muito alarde,
ser destruída
por um simples raio
dando nome a um novo deserto:
o Deserto Amazônico!
Foi Deus que o mandou?
Não sei.
Mas se Ele eu fosse,
Nunca sequer nos criaria.
Quando Deus criou o mundo tinha consciência de que haveria problemas a resolver, como secas, frio ou calor intenso, parasitas, vírus etc.
Ele se daria a nós como uma árvore da vida, onde poderíamos buscar auxílio para todas as imperfeições. Seu auxílio às imperfeições seria algo constante e ininterrupto.
Entretanto, o ser humano fez pouco caso da Árvore da Vida e comeu o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ou seja, o livre-arbítrio, o estar independente de Deus. Deu no que deu: só contamos com a sabedoria humana (que nesse assunto foi burrice humana) para resolver os problemas.
Mas Deus ainda nos ajuda, se lhe pedirmos: “pedi e se vos dará”. Precisamos contar sempre com Deus em nossa vida, pois “Sem Deus a criatura se reduz a nada”, diz a Lumen Gentium. Os problemas do mundo são muitos, e sofremos muito se vivermos longe dele.
O que faz a pessoa relutar tanto contra Deus? Por que é assim tão difícil acreditar em sua mensagem, dada a nós por Jesus Cristo? O que nos faz tendermos tanto ao materialismo? Nossa vida é uma luta constante e renhida entre corpo e alma, material e espiritual, santo e profano...
Estamos imersos no profano, e as coisas santas tornam-se não coisas normais, mas exceções. Se quisermos abraça-las, temos que fazer violência contra nós mesmos. “Ainda não derramastes sangue na luta contra o pecado”! (Hebreus 12,4).
Quantas pregações nós já ouvimos? Mas quantas nós seguimos de verdade? De quantos retiros já participamos? Eu mesmo, de uns 70, no mínimo! E eu pergunto: nós já nos tornamos santos? Se tivéssemos seguido as palavras desses retiros, já o seríamos.
Às vezes eu me pergunto se nós realmente acreditamos que a Igreja fala a verdade quando nos mostra, com Jesus, o caminho da salvação. O céu existe, Deus existe, o inferno é uma realidade, a salvação que Cristo nos trouxe é uma realidade e, o mais precioso conhecimento que temos, a MISERICÓRDIA DIVINA é uma realidade. Muitas vezes, infelizmente, trocamos a felicidade eterna por... um prato de lentilhas, como Esaú o fez!
08/03/2106-
Na revista Ultimato de março/abril 2016, nº 359, à página 12, vi uma pesquisa sobre a pastores evangélicos que deixaram o pastorado. A pergunta feita, nos Estados Unidos, era: “Por que você deixou o pastorado”?
Em relação aos padres é mais fácil imaginar o motivo, em sua maioria: o casamento. Mas em relação aos pastores, as respostas foram diversas: por mudança de chamado, por conflito na igreja, por finanças pessoais, por questões familiares, esgotamento (bournout).
Esses 734 pastores abandonaram o “pastorado”. Será que são mesmo esses os motivos que levam as pessoas a abandonarem o pastorado, ou o apostolado (na nossa linguagem)? Quantos padres deixaram o ministério!
Eu estava escrevendo isto quando um homem veio me pedir que opinasse sobre um poema que ele escrevera para o dia da mulher, que é comemorado hoje. Ei-lo:
“ Não quero que você me ame/ só pelo simples fato de te amar/; quero que me ame pelo simples fato de merecer te amar;/ não quero que se preocupe comigo só porque eu me preocupo com você; quero que se preocupe comigo/ porque faço da sua preocupação a minha própria!/ Não quero que chore por alegria ou até mesmo por tristeza por mim, / mas, se chorar, / chore por saber que eu estou sempre aí para enxugar, / com todo o meu amor e coração,/ suas lágrimas, / oferecendo sempre um ombro amigo/, para sempre desabafar./ Não peço e nunca irei pedir que você me ame/, mas farei por merecer ser amado por você/, sempre e no final,/ você apenas irá me amar,/ sem precisar falar ou mostrar./ Amor a gente não pede, não se mede,/ apenas deixa transparecer”.
Você gostou? Depois ele me mostrou as dez coisas que mais gosta em sua esposa. Veja se bate com a sua opinião sobre esse assunto:
1- Seu caráter incomparável
2- Seu carisma único no mundo
3- Sua beleza sem comparação
4- Guerreira sem limite quando quer ou acredita em alguma coisa
5- Nunca desiste de nada que acha certo
6- Uma mulher, mas sem perder o jeito e a essência da menina.
7- Nunca vê maldade em ninguém. Ajuda sem querer nada em troca.
8- Tem rostinho de criança, mas um corpo fenomenal de mulher.
9- Delicada e sensível, mas ao mesmo tempo a pessoa mais forte e correta que conheci em toda a minha vida.
10- O que mais adoro e admiro em você: ser sempre você mesma!
Diz uma música antiga de Carnaval que o casamento é uma loteria “pra quê, pra quê que eu vou casar”? Esse meu amigo, antes de ir embora, me disse que, se casamento fosse loteria, ele tinha ganhado a sorte grande. Fico feliz que existem casais que se amam desse modo!
Esse assunto combinou com o que eu estava falando, sobre o abandono do apostolado. O mesmo acontece com o abandono do casamento, as separações. Ambas as coisas aborrecem e perturbam muito a vida das pessoas envolvidas, tanto o abandono do pastorado como o abandono do esposo ou da esposa.
Os padres não se casam justamente porque o casamento exige dedicação integral, 24 horas por dia, dificultando um pouco (ou muito) a vida dedicada ao sacerdócio, ao apostolado.
Creio que o “segredo” para que essas coisas não aconteçam, é a oração. A oração sustenta qualquer tipo de caminhada. Oração convicta, piedosa, realista e, principalmente, humilde.
A humildade é a fonte de nossa segurança. Colocar-se humildemente aos pés do Senhor, falando-lhe todas as nossas dificuldades. Ele nos prometeu, nos Evangelhos, que nunca iria nos abandonar. Nunca!
Pe. Ademir Guedes Azevedo, cp
Estamos atravessando muitas mudanças nos vários âmbitos da vida. A política sofre uma contundente degradação. O respeito pelos direitos básicos à vida, sobretudo dos mais vulneráveis, não entra no princípio elementar do bem comum. Na verdade, vê-se a garantia dos interesses dos mais fortes. A religião, por sua vez, assiste a uma errônea interpretação dos seus fundamentos, principalmente no que toca a busca profunda por Deus e o amor ao próximo. Veja-se, por exemplo, as críticas de baixo calão nas redes sociais dirigidas aos irmãos e irmãs que se empenham em viver uma fé inserida na concretude cotidiana. Essa atitude de agressão dos assim chamados conservadores pode ser interpretada como um grito de ressentimento: os outros não merecem mais do que nós. Somos nós, os verdadeiros guardiões da fé, que merecemos a melhor parte, tendo em vista que nos mantemos fiéis ao dogma. Mas será que esses nossos irmãos ressentidos interpretam o dogma com honestidade?
Esse tipo de ressentimento nos remete aquela história dos dois filhos da parábola de Lc 15,11-32. O mais jovem, regressando à casa, foi acolhido sem objeções pelo seu pai que faz festa com o reencontro. O filho mais velho, tomado de ressentimento, não admite isso porque se julga verdadeiro merecedor pelo fato de estar sempre com o pai, considera-se o senhor da verdade. Essa história tem seus desdobramentos. O filho mais jovem aprende com as quedas e decepções. Ele cresce com a vida e amadurece à medida que descobre a misericórdia do Pai quando já está afogado la lama dos porcos. Esse filho mais jovem, na verdade, encontra Deus na kénosis da existência, naquelas experiências mais humilhantes e dolorosas. Mas é só assim que amadure a sua fé.
Por outro lado, o filho mais velho age motivado por certezas abstratas. Como não fez a experiência kenótica, sente-se seguro dentro dos seus padrões dogmáticos, nas suas certezas descontextualizadas. Insiste que a ideia é superior à realidade, ou seja, é seguro que são os outros que estão errados, que são estes que devem adequar-se a uma ideia de Deus pré-estabelecida. Possuído por um narcisismo dogmático, escolhe permanecer fechado na casa do pai, distanciando-se da cultura. Para ele, o mundo lá fora é cheio de pecado porque não conhece ainda o pai. Como ele está sempre ao lado do pai, mas separado das relações, plasma uma relação meramente vertical – eu e Deus basta – a qual nutre desconfiança para com o mundo do outro. Esse é o pior dos ressentimentos.
Tudo indica que é também esta a causa das confusões eclesiais que estamos testemunhando hoje. Os esquecidos, invisíveis, abandonados, irmãos e irmãs que eram olhados por baixo, hoje mais do que nunca, são a motivação de uma nova eclesiologia que se baseia no estilo de Jesus. A acolhida, sem aquela cega racionalização que fecha os olhos às necessidades mais urgentes, é a ponte que nos faz experimentar a festa da misericórdia. Sair para procurar o filho mais jovem é a urgência pastoral por excelência que assume o primeiro lugar no discurso do Papa Francisco e daqueles que se deixam modelar pelas experiências fortes da vida, as quais amadurecem a nossa fé.
É justamente a não aceitação deste programa pastoral, contido em Evangelii Gaudium, que está gerando o ódio no coração do filho mais velho, representado hoje sobretudo por teólogos, adeptos de partidos políticos de extrema direita que se agarram a um discurso nacionalista, nutrindo ódio aos estrangeiros e aos pobres. Esses irmãos ressentidos criam canais no youtube e usam as outras redes sociais para propagar terrorismo com uma hermenêutica equivocada dos documentos do magistério, divulgam notícias descontextualizadas e tentam convencer os internautas que a verdadeira Igreja de Cristo não tem nada a ver com as questões sociais nem com as necessidades urgentes da vida. Enfim, insistem em viver exclusivamente na casa do pai, separados da cultura e da realidade, como o filho mais velho da parábola.
Diante de tanta confusão, a melhor opção é aquela da Misericórdia e do diálogo aberto que curam o nosso ressentimento e aquela presunção diabólica de querermos ser melhores que os outros. Assim, poderemos limpar a nossa alma, nutrindo o nosso coração com os mesmos sentimentos de Jesus e aceitar a festa da misericórdia que o Pai nos oferece cada vez que nos amamos e nos respeitamos.
Durante uma Hora Santa, diante do sacrário, minha mente viajou um pouco até o deserto do Saara, em Tammanrasset e Assekren, onde nosso querido irmão Carlos de Foucauld fazia suas horas santas, mais santas e prolongadas que as minhas.
Jesus, o Deus Todo-poderoso e infinito, se encerrou como prisioneiro de um pedaço de pão, a hóstia consagrada. Não é mais pão, mas sim o seu Corpo, Sangue, alma e divindade. Quanta nobreza e santidade! Eu me sinto um nada diante de tanta majestade, mas assim uma dignidade que só o é por causa da sua bondade e da sua misericórdia.
Por outro lado, vejo muitos padres, nas missas, trocarem o “Deus Todo-poderoso” por “Deus misericordioso”. Entendo a boa intenção deles, mas... como eu escrevi a um padre de Aparecida que sempre faz isso, e não diz uma só vez o “Deus Todo-poderoso”, penso eu que só tem sentido Deus ser misericordioso se ele for Todo-poderoso! É porque ele é poderoso que pode ser misericordioso. Quanto mais poderosa uma pessoa é, mais tem sentido a sua misericórdia. Ninguém supera Jesus em sua humildade, justamente porque ninguém também o supera em seu poder.
Diante do sacrário, como o Irmão Carlos de Foucauld, sinto minha miséria e meu nada. Mas estou numa situação privilegiada, ao poder estar aqui diante de Jesus Eucarístico, como esses santos todos que o adoraram na Eucaristia. E só agora entendi o que Jesus disse em Marcos 10,30: ”Quem deixar (tudo)(...) por meu amor, receberá o cêntuplo nesta vida e, no século futuro, a vida eterna” . O cêntuplo que esses santos todos receberam é a paz e a ternura que sentiam emanar da Eucaristia e se irradiar em suas vidas, envolvendo-=os totalmente. Escolheram não ter família de sangue, mas onde estiveram, encontraram suas famílias espirituais.
É o que disse o Cardeal Van Thuan ao ser preso logo depois de ser ordenado bispo, no Vietnam, em que passou 13 anos na cadeia, sendo 9 de solitária, ao se ver sem todo aquele apostolado que teve de deixar: “Escolhi Deus, e não as suas obras”. Servir a Deus em qualquer lugar, sem estar preso a nada e a ninguém, esse é o “cêntuplo” prometido por Jesus, pois disso provém uma paz indescritível, seja qual for a situação do indivíduo, seja qual for a comunidade em que ele esteja inserido (ou mesmo obrigado a ficar).
Vejo tantos e tantas se lamentarem por mil e um motivos muitas vezes até fúteis, viverem sempre aborrecidos e tristes, por terem suas vidas limitadas por isto ou aquilo. Quem escolhe servir a Deus não tem nada a desejar, pois, como disse Santo Agostinho, “Quando Deus for tudo em todos não haverá mais desejos, pois Deus é tudo o que alguém pode desejar”.
Ao lado do altar diante do qual estou, há um vaso com uma folhagem que deve ter uns 40 cm de altura. Olhei para ele e, a muito custo, vi umas florezinhas bem pequenas, de um vermelho muito vivo, muito bonitas. Elas nasceram ali e talvez vão morrer sem que ninguém mais as vejam ou as tenham visto.
Pois é isso mesmo que eu vejo acontecendo com todas essas pessoas negativistas: toda uma vida floresce, e poucos tomam consciência disso. O próprio Jesus nos mostrou isso, ao contar-nos parábolas sobre o Reino de Deus, como as da semente, que cresce sem que ninguém perceba, e dá frutos e flores. Ou mesmo como o fermento que leveda, mas se perde na massa, ou ainda como o açúcar, que, para adoçar, tem que desaparecer no líquido em que é colocado.
Vejo isso acontecendo entre nós: o isolamento e o sofrimento a que a vida submete as pessoas, por doenças ou impossibilidades, podem estar escondendo flores bonitas, coloridas, vivas, regadas pelo próprio Deus, com suas generosas graças. São pessoas às vezes destruídas física e espiritualmente, sofridas, mas frequentemente o são por causa dos vícios, pecados, egoísmo, vaidade, prepotência, ambição exagerada, orgulho... É preciso uma purificação, como diz Hebreus 12, 10, a fim de que “Deus possa nos infundir sua santidade” .
Este instante de deserto, diante do Santíssimo, é muito fértil! Estes momentos de união com Jesus Eucarístico alimentam minha vida de modo surpreendente. Vejo que isso ocorreu, com muitos mais frutos, com os santos, como o Irmão Carlos, Irmãzinha Madalena, Santa Catarina de Sena, Sta. Teresa de Ávila, Sta. Teresinha, S. João da Cruz, S. João Maria Vianney, Pe. René Voillaume, Dom Helder, Irmã Doroty... e, neste instante, eu me uno, pequenino e imperfeito, a todos eles. Meu quarto, neste instante, mesmo rodeado de ruídos, é o Assekren do Ir. Carlos. Como Eremita de Jesus Misericordioso, saboreio o silêncio do meu coração e o de Jesus, à minha frente.
Maria, cuja imagem está ao lado da Eucaristia à minha frente, faz-me lembrar que ela foi o primeiro sacrário, o sacrário vivo de Deus na terra. E sinto um tremor de emoção. Lembro-me da Irmã Ildefonsa (IMC), nas missas em latim, dizer, em português, na hora da consagração, algo parecido com isto, comporto pelo Dom Henrique Golland Trindade:
“A consagração. Grande silêncio, recolhimento profundo. Momento soleníssimo, santamente terrível, em que tremem os anjos e todos os que têm fé. O Deus vivo, santo e justo, diante de nós. Adoremo-lo, e digamos, como o Apóstolo (Tomé), antes incrédulo, olhando para a hóstia e para o cálice: 'Meu Senhor e meu Deus' – é o corpo e o sangue de N. Sr. Jesus Cristo”.
A irradiação da Eucaristia, como dizia o Pe. Teillard de Chardin (veja texto neste blog), é uma realidade inquestionável (pelo menos para nós, católicos). Da hóstia em que se encerra, Jesus se irradia em todo o redor, e aglutina tudo a si. Como Jesus disse a Santo Agostinho, “ao me receberes, não sou eu que me transformo em tua carne, mas és tu que te transformas em mim”.
30/10/16
Estar diante do sacrário, diante do Santíssimo, é como estar no céu, diante de Deus. O próprio Jesus está ali, à nossa frente, ouvindo-nos e falando conosco.
A vantagem é que nós não precisamos deixar de lado nosso dia-a-dia, o “mundo”, mas podemos trazer tudo o que estamos vivendo e coloca-lo diante do Senhor.
Ele é homem como nós, de Deus como o Pai e o Espírito Santo, e intercede por nós diante de Si mesmo, pois é 100% Deus. É o homem sentindo nossas queixas humanas, mas acolhendo-as como Deus que é.
Hoje é domingo. Tive um dia cheio, muitas conversas, muitas distrações. São 18 horas e estou terminando a minha Hora Santa diária. Coloquei tudo o que vivi hoje diante de Jesus, pena que de modo imperfeito, às vezes com cochilos e distrações involuntárias, mas com resultado incrível de paz e de harmonia internas. Eu rezei também por você, leitor (a).
A contemplação não é uma ilusão, mas uma veraz realidade, maravilhosa, que nos une amorosamente com nosso Salvador e Redentor.
Eu não sei o que seria de mim se não fosse a Eucaristia. É Jesus Eucarístico que tem-me dado forças e coragem para vencer tudo o que eu tenho passado na vida. Quem me conhece sabe do que estou falando.
Aqui eu estou simplesmente repassando para vocês o que tenho sentido e vivido todos esses anos de minha velhice: estar com Jesus Eucarístico é estar no paraíso, é fortalecer-se, irmanar-se, é perceber o quanto Deus nos ama.
E, diante do sacrário, dentro de uma harmonia maravilhosa, sinto também a presença viva de Maria, que nunca deixa Jesus, e do meu anjo da guarda, o Ambrósio.
Não sei mais o que dizer para explicar essa maravilha. Só lhes digo uma coisa: estar diante do sacrário é o paraíso.
A PROPÓSITO DE ALGUMAS OBJEÇÕES CONTRA A DOUTRINA DA IGREJA ACERCA DA RECEPÇÃO DA COMUNHÃO EUCARÍSTICA DA PARTE DE FIÉIS DIVORCIADOS RECASADOS (1)
Joseph Card. Ratzinger (atual papa Bento 16)
A Carta da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a recepção da Comunhão eucarística da parte de fiéis divorciados recasados, de 14 de Setembro de 1994, teve um forte eco em diversas partes da Igreja. Em paralelo com muitas reações positivas ouviram-se também não poucas vozes críticas. As objeções essenciais contra a doutrina e a praxe da Igreja são apresentadas a seguir de forma simplificada.
Algumas objeções mais significativas – sobretudo a referência à praxe considerada mais flexível dos Padres da Igreja, que inspiraria a praxe das Igrejas orientais separadas de Roma, assim como a chamada aos princípios tradicionais da epiqueia e da «aequitas canonica» foram estudadas de modo aprofundado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Os artigos dos Professores Pelland, Marcuzzi e Rodriguez Luño(2) foram elaborados durante este estudo. Os resultados principais da pesquisa, que indicam a orientação de uma resposta às objecções feitas, serão aqui igualmente resumidas.
1. Muitos consideram, alegando alguns trechos do Novo Testamento, que a palavra de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio permite uma aplicação flexível e não possa ser classificada numa categoria rigidamente jurídica.
Alguns exegetas realçam criticamente que o Magistério em relação à indissolubilidade do matrimônio citaria quase exclusivamente uma só perícope – isto é Mc 10, 11-12 – e não consideraria de modo suficiente outros trechos do Evangelho de Mateus e da primeira Carta aos Coríntios.
Estes trechos bíblicos mencionariam uma certa «exceção» à palavra do Senhor sobre a indissolubilidade do matrimônio, isto é, no caso de «porneia» (Mt 5, 32; 19, 9) e no caso de separação por motivo de fé (1 Cor 7, 12-16). Estes textos seriam indicações de que os cristãos em situações difíceis teriam conhecido já no tempo apostólico uma aplicação flexível da palavra de Jesus.
A esta objeção deve-se responder que os documentos magisteriais não pretendem apresentar de modo completo e solícito os fundamentos bíblicos da doutrina sobre o matrimônio. Eles deixam esta importante tarefa aos peritos competentes. Contudo o Magistério ressalta que a doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio deriva da fidelidade em relação à palavra de Jesus.
Jesus define claramente a praxe veterotestamentária do divórcio como uma consequência da dureza do coração humano. Ele remete – além da lei – para o início da criação, para a vontade do Criador, e resume o seu ensinamento com as palavras: «Não separe o homem aquilo que Deus uniu» (Mc 10, 9).
Por conseguinte, com a vinda do Redentor, o matrimônio é reconduzido à sua forma originária a partir da criação e subtraído ao arbítrio humano – sobretudo ao arbítrio do marido; na realidade, não havia de fato para a esposa a possibilidade de divórcio. A palavra de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio é a superação da antiga ordem da lei na nova ordem da fé e da graça. Só assim o matrimônio pode fazer plenamente justiça à vocação de Deus ao amor e à dignidade humana e tornar-se sinal da aliança de amor incondicionado de Deus, isto é, «Sacramento» (cf. Ef 5, 32).
A possibilidade de separação, que Paulo expõe em 1 Cor 7, refere-se a matrimônios entre um cônjuge cristão e um não-batizado. A reflexão teológica sucessiva esclareceu que só os matrimônios entre batizados são «sacramento» no sentido estreito da palavra e que a indissolubilidade absoluta é válida só para estes matrimônios que se situam no âmbito da fé em Cristo. O chamado «matrimônio natural», tem a sua dignidade a partir da ordem da criação e, por conseguinte, está orientado para a indissolubilidade, mas pode ser dissolvido em determinadas circunstâncias por motivo de um bem maior – no caso, a fé.
Assim a sistematização teológica classificou juridicamente a indicação de São Paulo como «privilegium paulinum», isto é, como possibilidade de dissolver para bem da fé um matrimônio não sacramental. A indissolubilidade do matrimônio verdadeiramente sacramental permanece salvaguardada; portanto, não se trata de uma exceção à palavra do Senhor. Sobre este aspecto voltaremos mais adiante.
Em relação à recta compreensão das cláusulas sobre a «porneia» existe uma vasta literatura com muitas hipóteses diversas, até contrastantes. Entre os exegetas não existe absolutamente unanimidade sobre esta questão. Muitos consideram que se trata aqui de uniões matrimoniais nulas e não de excepções à indissolubilidade do matrimônio. Contudo a Igreja não pode edificar a sua doutrina e a sua praxe sobre hipóteses exegéticas incertas. Ela deve ater-se ao ensinamento claro de Cristo.
2. Outros objetam que a tradição patrística deixaria espaço a uma praxe mais diferenciada, que melhor faria justiça às situações difíceis; a propósito, a Igreja católica poderia aprender do princípio de «economia» das Igrejas orientais separadas de Roma.
Afirma-se que o Magistério atual se apoiaria unicamente sobre um fundamento da tradição patrística, mas não sobre toda a herança da Igreja antiga. Ainda que os Padres se ativessem claramente ao princípio doutrinal da indissolubilidade do matrimônio, alguns deles toleraram a nível pastoral uma certa flexibilidade em relação a situações particularmente difíceis.
Sobre este fundamento as Igrejas orientais separadas de Roma teriam desenvolvido mais tarde juntamente com o princípio da «akribia», da fidelidade à verdade revelada, o da «oikonomia», da condescendência benévola em determinadas situações difíceis.
Sem renunciar à doutrina da indissolubilidade do matrimônio, eles permitiriam em determinados casos um segundo e até um terceiro matrimônio, que por outro lado é diferente do primeiro matrimônio sacramental e está marcado pelo caráter da penitência. Esta praxe nunca teria sido condenada explicitamente pela Igreja católica. O Sínodo dos Bispos de 1980 sugeriu que se estudasse a fundo esta tradição, para fazer resplandecer melhor a misericórdia de Deus.
O estudo do Padre Pelland mostra a direção, na qual se deve procurar a resposta a estas questões. Para a interpretação de cada um dos textos patrísticos permanece naturalmente competente o historiador. Devido à difícil situação textual as controvérsias também no futuro não diminuirão. Sob o ponto de vista teológico deve-se afirmar:
a. Existe um consenso claro dos Padres em relação à indissolubilidade do matrimônio. Considerando que ela deriva da vontade do Senhor, a Igreja não tem poder algum em matéria. Precisamente por isto o matrimônio cristão foi desde o início diverso do matrimônio da civilização romana, mesmo se nos primeiros séculos ainda não existia qualquer ordenamento canônico próprio. A Igreja do tempo dos Padres exclui claramente divórcio e novas núpcias, e isto por fiel obediência ao Novo Testamento.
b. Na Igreja da época dos Padres os fiéis divorciados recasados nunca foram admitidos oficialmente à sagrada comunhão depois de um tempo de penitência. Ao contrário, é verdade que a Igreja nem sempre revogou rigorosamente aos países individualmente concessões em matéria, mesmo se elas eram qualificadas como não compatíveis com a doutrina e com a disciplina. Parece ser verdade também que alguns Padres, por exemplo Leão Magno, procuraram soluções «pastorais» para raros casos extremos.
c. Em seguida chegou-se a dois desenvolvimentos contrapostos:
Na Igreja imperial pós-constantiniana procurou-se, depois do enlace cada vez mais forte entre Estado e Igreja, uma maior flexibilidade e disponibilidade ao compromisso em situações matrimoniais difíceis. Até à reforma gregoriana manifestou-se também uma tendência semelhante em âmbito gálico e germânico.
Nas Igrejas orientais separadas de Roma este desenvolvimento prosseguiu ulteriormente no segundo milênio e levou a uma praxe cada vez mais liberal. Hoje em muitas Igrejas orientais existe uma série de motivações de divórcio, aliás, existe já uma «teologia do divórcio», que de modo algum é conciliável com as palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio. No diálogo ecumênico este problema deve ser absolutamente enfrentado.
– No Ocidente foi recuperada, graças à reforma gregoriana, a concepção originária dos Padres. Este desenvolvimento encontrou de certa forma uma sanção no Concílio de Trento e foi reproposto como doutrina da Igreja no Concílio Vaticano II.
A praxe das Igrejas orientais separadas de Roma, que é consequência de um processo histórico complexo, de uma interpretação cada vez mais liberal – e que se afastava sempre mais da palavra do Senhor – de alguns obscuros trechos patrísticos assim como de uma influência não negligenciável da legislação civil, não pode, por motivos doutrinais, ser assumida pela Igreja católica.
A este propósito não é exata a afirmação segundo a qual a Igreja católica teria simplesmente tolerado a praxe oriental. Certamente Trento não pronunciou condenação formal alguma. Apesar de tudo, os canonistas medievais falavam dela continuamente como de uma praxe abusiva. Além disso há testemunhos segundo os quais grupos de fiéis ortodoxos, que se tornavam católicos, tinham que assinar uma confissão de fé com uma indicação clara da impossibilidade de um segundo matrimônio.
3. Muitos propõem a autorização de exceções da norma eclesial, com base nos princípios tradicionais da epiqueia e da aequitas canonica.
Alguns casos matrimoniais, assim se diz, não podem ser regulados em foro externo. A Igreja poderia não só enviar para normas jurídicas, mas deveria também respeitar e tolerar a consciência dos indivíduos. As doutrinas tradicionais da epiqueia e da aequitas canonica poderiam justificar do ponto de vista da teologia moral, isto é, do ponto de vista jurídico, uma decisão da consciência que se afaste da norma geral. Sobretudo na questão da recepção dos sacramentos a Igreja deveria aqui fazer progressos e não só opor proibições aos fiéis.
As duas contribuições do Padre Marcuzzi e do Prof. Rodríguez Luño ilustram esta complexa problemática. A este propósito devem-se distinguir claramente três âmbitos de questões:
ª Epiqueia e aequitas canonica são de grande importância no âmbito das normas humanas e puramente eclesiais, mas não podem ser aplicadas no âmbito de normas, sobre as quais a Igreja não tem qualquer poder discricional. A indissolubilidade do matrimônio é uma destas normas, que remontam ao próprio Senhor e por isso são designadas como normas de «direito divino». A Igreja também não pode aprovar práticas pastorais – por exemplo, na pastoral dos Sacramentos -, que estejam em contradição com o claro mandamento do Senhor.
Por outras palavras: se o matrimônio precedente de fiéis divorciados recasados era válido, a sua nova união em circunstância alguma pode ser considerada em conformidade com o direito, e por isso, por motivos intrínsecos não é possível uma recepção dos sacramentos. A consciência do indivíduo está vinculada a esta norma, sem excepções.3
b. Ao contrário, a Igreja tem o poder de esclarecer quais condições devem ser cumpridas, para que um matrimônio possa ser considerado indissolúvel segundo o ensinamento de Jesus. Em sintonia com as afirmações paulinas em 1 Coríntios 7 ela estabeleceu que só dois cristãos podem contrair um matrimônio sacramental. Ela desenvolveu as figuras jurídicas do «privilegium paulinum» e do «privilegium petrinum».
Com referência às cláusulas sobre «porneia» em Mateus e em Atos 15, 20 foram formulados impedimentos matrimoniais. Além disso, foram indicados cada vez mais claramente motivos de nulidade matrimonial e foram amplamente desenvolvidos os andamentos processuais. Tudo isto contribuiu para delimitar e esclarecer o conceito de matrimônio indissolúvel. Poder-se-ia dizer que deste modo também na Igreja ocidental foi dado espaço ao princípio da «oikonomia» sem contudo tocar a indissolubilidade do matrimônio como tal.
Situa-se nesta linha também o ulterior desenvolvimento jurídico no Código de Direito Canônico de 1983, segundo o qual também as declarações das partes têm força probatória. Em si, segundo o parecer de pessoas competentes, parecem praticamente quase excluídos os casos nos quais um matrimônio nulo não é demonstrável como tal por vias processuais.
Dado que o matrimônio tem essencialmente um caráter público-eclesial e é válido o princípio fundamental «Nemo iudex in propria causa» («Ninguém é juiz na própria causa»), as questões matrimoniais devem ser resolvidas em foro externo. No caso em que fiéis divorciados recasados considerem que o seu precedente matrimônio nunca tinha sido válido, eles são por conseguinte obrigados a dirigir-se ao competente tribunal eclesiástico, que deverá examinar o problema objetivamente e com a aplicação de todas as possibilidades juridicamente disponíveis.
c- Certamente não se exclui que em processos matrimoniais ocorram erros. Nalgumas partes da Igreja ainda não existem tribunais eclesiásticos que funcionem bem. Por vezes os processos duram de maneira excessivamente longa. Nalguns casos terminam com sentenças problemáticas. Não parece aqui, em linha de princípio, estar excluída a aplicação da epiqueia em «foro interno».
Na Carta da Congregação para a Doutrina da Fé de 1994 este aspecto é mencionado, quando é dito que com os novos procedimentos canônicos deveria ser excluída, «na medida do possível», qualquer diferença entre a verdade verificável no processo e a verdade objectiva (cf. Carta 9). Muitos teólogos são do parecer que os fiéis devam absolutamente conformar-se também em «foro interno» com os juízos do tribunal a seu parecer falsos.
Outros consideram que em «foro interno» são concebíveis excepções, porque no ordenamento processual não se trata de normas de direito divino, mas de normas de direito eclesial. Contudo, esta questão exige ulteriores estudos e esclarecimentos. Com efeito, deveriam ser elucidadas de maneira muito clara as condições para o verificar-se de uma «excepção», com a finalidade de evitar arbítrios e de proteger o caráter público – subtraído ao juízo subjectivo – do matrimônio.
4. Muitos acusam o atual Magistério de involução em relação ao Magistério do Concílio e de propor uma visão pré-conciliar do matrimônio.
Alguns teólogos afirmam que na base dos novos documentos magisteriais sobre as questões do matrimônio estaria uma concepção naturalista, legalista do matrimônio. A ênfase seria dada ao contrato entre os esposos e aos «ius in corpus». O Concílio teria superado esta compreensão estática e descrito o matrimônio dum modo mais personalista como pacto de amor e de vida.
Assim teria aberto a possibilidade de resolver de maneira mais humana situações difíceis. Desenvolvendo esta corrente de pensamento alguns estudiosos perguntam se não se pode falar de «morte do matrimônio», quando o vínculo pessoal do amor entre dois esposos já não existe. Outros levantam a antiga questão se não tem o Papa, em tais casos, a possibilidade de dissolver o matrimônio.
Mas quem ler atentamente os recentes pronunciamentos eclesiásticos reconhecerá que eles, nas afirmações centrais, se fundam em «Gaudium et spes» e com características totalmente personalistas desenvolvem ulteriormente, no sulco indicado pelo Concílio, a doutrina nela contida. É contudo inadequado introduzir uma contraposição entre a visão personalista e a jurídica do matrimônio.
O Concílio não se afastou da concepção tradicional do matrimônio, mas desenvolveu-a ulteriormente. Por exemplo, quando se repete continuamente que o Concílio substituiu o conceito estreitamente jurídico de «contrato» com o conceito mais amplo e teologicamente mais profundo de «pacto», não se pode esquecer a propósito que também no «pacto» está contido o elemento do «contrato» mesmo se é colocado numa perspectiva mais ampla.
Que o matrimônio vá muito mais além do aspecto meramente jurídico mergulhando na profundidade do humano e no mistério do divino, na realidade foi sempre afirmado com a palavra «sacramento», mas certamente com frequência não foi realçado com a clareza que o Concílio conferiu a estes aspectos. O direito não é tudo, mas é uma parte irrenunciável, uma dimensão do todo.
Não existe um matrimônio sem normativa jurídica, que o insere num conjunto global de sociedade e Igreja. Se a reorganização do direito depois do Concílio se estende também ao âmbito do matrimônio, então isto não é traição do Concílio, mas execução da sua tarefa.
Se a Igreja aceitasse a teoria segundo a qual um matrimônio morre quando os dois cônjuges deixam de se amar, então com isto aprovaria o divórcio e defenderia a indissolubilidade do matrimônio só verbalmente, e não de modo factual.
A opinião, segundo a qual o Papa poderia eventualmente dissolver um matrimônio sacramental consumado, irremediavelmente fracassado, deve portanto ser qualificada como errônea. Um tal matrimônio não pode ser dissolvido por ninguém. Na celebração nupcial, os esposos prometem reciprocamente a fidelidade até à morte.
Ao contrário, exige ulteriores aprofundados estudos a questão sobre se cristãos não crentes – baptizados, que nunca creram ou já não crêem em Deus – podem deveras contrair um matrimônio sacramental. Por outras palavras: dever-se-ia esclarecer se deveras cada matrimônio entre dois baptizados é «ipso facto» um matrimônio sacramental. Com efeito, também o Código indica que só o contrato matrimonial «válido» entre baptizados é ao mesmo tempo sacramento (cf. CIC, cân. 1055, § 2). A fé pertence à essência do sacramento; falta esclarecer a questão jurídica sobre qual evidência de «não fé» tenha como consequência que um sacramento não se realize.(4)
5. Muitos afirmam que a atitude da Igreja na questão dos fiéis divorciados recasados é unilateralmente normativa e não pastoral.
Uma série de objecções críticas contra a doutrina e a praxe da Igreja refere-se a problemas de carácter pastoral. Diz-se por exemplo que a linguagem dos documentos eclesiais seria demasiado legalista, que o rigor da lei prevaleceria sobre a compreensão de situações humanas dramáticas.
O homem de hoje já não poderia compreender esta linguagem. Jesus teria sido disponível para com as necessidades de todos os homens, sobretudo daqueles à margem da sociedade. A Igreja, ao contrário, mostrar-se-ia mais como um juiz, que exclui dos sacramentos e de certos encargos públicos pessoas feridas.
Pode-se sem dúvida admitir que as formas expressivas do Magistério eclesial por vezes não são vistas como facilmente compreensíveis. Elas devem ser traduzidas pelos pregadores e pelos catequistas numa linguagem, que corresponda às diversas pessoas e ao seu respectivo ambiente cultural.
O conteúdo essencial do Magistério eclesial a este propósito deve contudo ser mantido. Não pode ser alterado por supostos motivos pastorais, porque ele transmite a verdade revelada. Certamente é difícil tornar compreensíveis ao homem secularizado as exigências do Evangelho. Mas esta dificuldade pastoral não pode levar a compromissos com a verdade. João Paulo II na Carta Encíclica «Veritatis splendor» rejeitou claramente as soluções chamadas «pastorais», que se colocam em contraste com as declarações do Magistério (cf. ibid. 56).
No que diz respeito à posição do Magistério sobre o problema dos fiéis divorciados recasados, deve-se ainda frisar que os recentes documentos da Igreja unem de modo muito equilibrado as exigências da verdade com as da caridade. Se no passado, na apresentação da verdade, por vezes a caridade não resplandeceu o suficiente, hoje ao contrário, existe o grande perigo de silenciar ou de comprometer a verdade em nome da caridade. Sem dúvida a palavra da verdade pode ferir e ser desagradável. Mas é o caminho rumo à cura, rumo à paz, rumo à liberdade interior. Uma pastoral que pretenda deveras ajudar as pessoas, deve fundar-se sempre na verdade. Só aquilo que é verdadeiro pode decisivamente ser também pastoral. «Conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á» (Jo 8, 32).
Notas
1. Este texto retoma a terceira parte da Introdução do Cardeal Joseph Ratzinger no número 17 da Colecção «Documentos e Estudos», dirigida pela Congregação para a Doutrina da Fé, Sulla pastorale dei divorziati risposati, LEV, Città del Vaticano, 1998, p. 20-29. As notas foram acrescentadas.
2. Cf. Angel Rodríguez Luño, L'epichea nella cura pastorale dei fedeli divorziati risposati, ibid., p. 75-87; Piero Giorgio Marcuzzi, S.D.B., Applicazione di «aequitas et apikeia» ai contenuti della Lettera della Congregazione per la Dottrina della Fede, 14 de Setembro de 1994,ibid., p. 88-98; Gilles Pelland, S.J., La pratica della Chiesa antica relativa ai fedeli divorziati risposati, ibid, p. 99-131.
3. A este propósito é válida a norma reafirmada por João Paulo II na Carta apostólica pós-sinodal «Familiaris consortio», n. 84: «A reconciliação pelo sacramento da penitência - que abriria o caminho ao sacramento eucarístico - pode ser concedida só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. Isto tem como consequência, concretamente, que quando o homem e a mulher, por motivos sérios - quais, por exemplo, a educação dos filhos - não se podem separar, “assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos actos próprios dos cônjuges”». Cf. também Bento XVI, Carta apostólica pós-sinodal «Sacramentum caritatis», n- 29.
4. Durante um encontro com o clero da Diocese de Aosta, realizado a 25 de Julho de 2005, o Papa Bento XVI afirmou em relação a esta difícil questão: «é particularmente dolorosa a situação de quantos tinham casado na Igreja, mas não eram verdadeiramente crentes e só o fizeram por tradição, e depois, contraindo um novo matrimônio não válido, converteram-se, encontraram a fé e agora sentem-se excluídos do Sacramento. Este é realmente um grande sofrimento e quando fui Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé convidei várias Conferências Episcopais e especialistas a estudarem este problema: um sacramento celebrado sem fé. Se realmente é possível encontrar nisto uma instância de nulidade, porque ao sacramento faltava uma dimensão fundamental, não ouso dizer. Eu pessoalmente pensava assim, mas dos debates que tivemos compreendi que o problema é muito difícil e ainda deve ser aprofundado».
SENTIDOS DA PRÁTICA OIKOUMENE EM TEMPOS INCERTOS
cedido pelo site http://www.oraetlabora.com.br/artigos/ecumenismo_e_macro.htm
Claudemiro Godoy do Nascimento[1]
Joana D’arc de Moraes[2]
Klaus Paz de Albuquerque[3]
Resumo: Este artigo pretende discutir exatamente este princípio do valorar humano em sua importância de se trabalhar o ecumenismo nas diversas instâncias sociedade civil e política (Gramsci, 1985 e Gohn, 2001). Em um primeiro momento estar-se-á refletindo sobre a cosmogênese dos movimentos ecumênicos e macro ecumênicos. Posteriormente, buscar-se-á refletir a partir de uma leitura dos escritos joaninos a fim de realizar uma fundamentação teórica tendo como pano de fundo a mensagem do Evangelho. E, por fim, estar-se-á demonstrando o possível de uma experiência macro-ecumênica realizada a partir de duas realidades concretas vivenciada pelas Irmãzinhas e os Irmãozinhos de Jesus que possuem a espiritualidade do Irmão Charles de Foucauld e pelos Irmãos da Comunidade de Taizé.
Palavras-Chaves: ecumenismo, religião, movimentos sociais, libertação, cristianismo.
Os fatos ocorridos no início do séc. XXI, especificamente, aos 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque nos Estados Unidos da América desencadeou dúvidas e reflexões em todo o planeta. A queda do Word Trade Center motivou a revolta dos proclamadores da neo-Pax Romana, ou como diz Dom Pedro Casaldáliga[4], a Pax Americana que se intitula a grande defensora dos direitos humanos e da democracia mundial. Justificados por este acontecimento (ao qual considera-se um ato de desumanidade) os promotores da paz mundial declaram a guerra (também um ato desumano) no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003) a fim de instaurar dias melhores e redimir aquelas nações e, consequentemente, seus povos com suas culturas e etnias diversificadas.
A ideia de redenção está bem presente nos discursos proferidos pelo presidente W. George Busch motivando a todos os cidadãos norte-americanos, bem como, todas as nações “amigas”[5] a lutarem contra toda e qualquer forma de terrorismo. A conclamação inicia-se invocando “o nome de Deus” e termina dizendo “Deus Salve a América”. Há uma conotação não-direta do povo para lutarem em nome do Deus Cristão contra o Mal, os infiéis e encarnados na cultura islâmica, pois os muçulmanos foram os primeiros acusados de realizarem o atendo do dia 11 de Setembro. Assim, fica evidente que o Bem pertence ao mundo Ocidental e o Mal está presente no mundo Oriental, especificamente, no mundo muçulmano. Os norte-americanos desenterraram a velha idéia de Guerra Santa que remota à época das Cruzadas Medievais onde os cristãos queriam salvar, “redimir” o mundo, destruindo os infiéis mouros-muçulmanos. Mas salvar de que? A idéia de cristandade permeava todo o universo de representações simbólicas existentes na Idade Média, por isso, era preciso salvar o mundo do Mal, do não-cristão, pois estes se tornaram uma ameaça à fé da Igreja e dos bens materiais que a mesma possuía
Os conflitos atuais imbuídos de apelos religiosos caracterizam o mesmo perfil medieval, apenas com uma pitada de transformações nos arsenais de guerra. Ao invés da espada e do escudo, típicas armas medievais, utilizam-se agora mísseis teleguiados por computadores a milhares de Km de distância, com aviões sub-atômicos e com milhares de tanques com um poder bélico de fogo não imaginado. E o mais sensacional disto: tudo supervisionado por satélites espaciais[6].
Estes conflitos atuais encharcados de sentimentos de vingança e utilizando-se de conceitos religiosos fundamentalistas trazem uma grande preocupação para as religiões, as pessoas de boa fé e, em especial, os movimentos ecumênicos e macro ecumênicos que acreditam e propagam que é possível uma boa e saudável convivência numa mesma morada, pois todos pertencemos à mesma casa universal, todos somos parte do mesmo ethos que compreende toda a dimensão do humano (Boff, 1999 e 2003). Vários grupos religiosos se pronunciaram contra a Guerra e fizeram ações concretas através de passeatas, vigílias, fóruns de debates e manifestações em conjunto com outros movimentos como o Movimento antiglobalização (Gohn, 1994). Também, estes movimentos ecumênicos e macro ecumênicos se pronunciaram em relação à utilização do nome de Deus por parte de Busch a fim de justificar a guerra que se torna sagrada para o povo norte-americano ferido em sua honra. Na verdade, a critica não foi somente ao fato do presidente Busch utilizar o nome de Deus para promover a Guerra, mas também, para todos aqueles que se utilizam do nome de Deus com interesses sui generis como os próprios grupos islâmicos, entre eles, o Taleban e a Al Quaeda.
Interpelados por este contexto político-religioso faz-se necessário discutir os diálogos inter-religiosos a fim de incentivar a importância do ecumenismo e do macro cumenismo na sociedade atual que vive momentos de incertezas. Entende-se aqui ecumenismo como meio de bons relacionamentos e da propagação da paz, da justiça, da igualdade entre os povos e, na perspectiva do Fórum Social Mundial, da possibilidade questionadora – Um outro mundo é possível? Na verdade, o Movimento Ecumênico possui várias experiências que demonstram que é possível sim viver esta utopia de uma sociedade plural, diferente, que respeite o princípio da alteridade, ou seja, o outro como expressão maior da Pessoa Humana (Mounier, 1976).
Este artigo pretende discutir exatamente este princípio do valorar humano em sua importância de se trabalhar o ecumenismo nas diversas instâncias sociedade civil e política (Gramsci, 1985 e Gohn, 2001). Em um primeiro momento estar-se-á refletindo sobre a cosmogênese dos movimentos ecumênicos e macro ecumênicos. Posteriormente, buscar-se-á refletir a partir de uma leitura dos escritos joaninos a fim de realizar uma fundamentação teórica tendo como pano de fundo a mensagem do Evangelho. E, por fim, estar-se-á demonstrando o possível de uma experiência macro-ecumênica realizada a partir de duas realidades concretas vivenciada pelas Irmãzinhas e os Irmãozinhos de Jesus que possuem a espiritualidade do Irmão Charles de Foucauld e pelos Irmãos da Comunidade de Taizé.
1. O ecumenismo e o macroecumenismo: Origens e Princípios
Neste princípio torna-se necessário pensar de forma concreta a significação de uma primeira definição de ecumenismo. Assim, ecumenismo é, antes de tudo, pensar e agir de maneira coerente a fim de que a fé venha ultrapassar todas as barreiras dos preconceitos, das violências, do desamor, das divisões entre os irmãos e irmãs, dos racismos, enfim, das denominações que se dá a essa fé ou crença. Assim, ecumenismo vem do grego (OIKÓS = que significa casa) e a palavra menismo que também é proveniente do grego (MENEN = que significa morar, habitar, conviver). Algumas palavras muito comuns ao nosso vocabulário possuem a mesma raiz, como por exemplo: ecologia, ecossistema, economia e ética. Por isso, significa etimologicamente morar na casa, habitar a casa e convivência na casa, comum a todos os homens e mulheres da Terra (a grande morada humana). Ela não possui nenhum sentido ou conotação religiosa em sua origem, pois era utilizada pelos gregos para demonstrar exatamente a relação do Homem (antropos) com a Casa Comum à qual todos habitamos (Oikoumene).
A divisão ocorrida no século XV entre protestantes e católicos trouxe para a humanidade dias melhores (mais pessoas podendo ler e escrever e com direito de possuir a Bíblia em língua nacional, chamada de vernácula) e, também, tristes dias (divisões, guerras e perseguições). Somente cinco séculos mais tarde é que se pode observar uma ação conjunta entre diversas Igrejas cristãs, no esforço de acabar com as velhas diferenças e agressões mútuas. Igrejas diferentes sentando para dialogar, acolhendo membros de outras denominações, assumindo posturas e ações conjuntas em benefício da humanidade, principalmente, dos mais necessitados. Surge, assim, no século XX o movimento ecumênico.
O Movimento Ecumênico tem suas raízes fundadas dentro dos movimentos missionários protestantes do século XIX e dentro dos movimentos sociais[7] que lutavam por melhorias de vida. Diversas entidades evangélicas ecumênicas começam a surgir no século XIX com objetivos missionários para evangelizações de povos não-cristãos, bem como, contra a corrupção do cristianismo (os cristãos não estão mais sendo fiéis aos princípios do evangelho), pois não possuem uma vida simples, piedosa e com ênfase na santificação. Surge em 1847 a Aliança Evangélica Mundial e, em 1878, a Associação Cristã de Moços, ambas pregavam a unidade. Surge, também, anos mais tarde a Federação Universal das Associações Cristãs de Estudantes, fundada por John Mott, juntando 13.000 jovens de diversas denominações para missões na Índia.
Devido às dificuldades encontradas nas missões de evangelização aos povos não-cristãos, aparecem preocupações que levam os evangélicos de várias igrejas a se reunirem em conferências globais sobre as missões, tendo a sua primeira conferência realizada em 1810, na cidade do Cabo (África do Sul), continente africano, com meia dúzia de entidades protestantes. A partir de então, diversas denominações resolveram continuar se reunindo para estudar a resistência à mensagem cristã pregada pelos evangélicos de diferentes igrejas. O resultado desses estudos culminou na fundação de diversas entidades ecumênicas, já citadas acima. Porém, a problemática continuou. Não havia unidade na missão, ou seja, estavam falando “línguas diferentes”.
Um século após, em Edinburg, na Escócia, foi realizada a primeira Conferência Missionária Universal (1910), sendo a maioria dos participantes, delegados oficiais de suas missões e igrejas, que trabalhavam entre os povos não cristianizados. Essa Conferência é conhecida como o marco do movimento ecumênico moderno. Dela surgiram: o Conselho Internacional de Missões, a Conferência Vida e Atividade (tratando de problemas sociais) e a Conferência de Fé e Ordem (tratando das diferenças doutrinárias entre os cristãos). Daí em diante iniciou-se a preparação da criação da proposta de fundir os Movimentos Fé e Ordem com a Vida e Ação. Nasceria assim, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que devido a Segunda Guerra Mundial, só foi possível constituí-lo em 1948. O CMI hoje tem 324 igrejas filiadas. Sendo que na sua fundação reuniu 147 igrejas evangélicas.
O Conselho Mundial de Igrejas se define como uma “comunhão de igrejas que aceitam Jesus Cristo como Deus e Salvador, segundo as escrituras, e por isso buscam cumprir em conjunto sua vocação cristã para a glória de Deus Pai, Filho e Espírito Santo” (CONIC, 2004: www.conic.org.br). Agrega muitas outras agências ecumênicas espalhadas por todo mundo, como por exemplo, a CLAI (Conselho Latino Americano de Igrejas), CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil) e o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos).
O movimento ecumênico no Brasil surge somente a partir do século XX, dividindo-se em três fases distintas: o primeiro foi um ecumenismo inter protestante (1903-1960); o segundo um ecumenismo bilateral, a partir dos católicos e anglicanos (1960-1982) e, por último, um ecumenismo que poder-se-á afirmar que inicia-se com a fundação do CONIC (1982).
O ecumenismo inter protestante se caracterizou por três elementos fundamentais: herança comum, tanto das orientações dos seus fundadores como também da acentuação no caráter da conversão pessoal; na unificação dos projetos de evangelização; e, o terceiro, uma forte oposição a Igreja Católica Romana.
A segunda fase do movimento ecumênico no Brasil dar-se-á com as iniciativas da Igreja Católica e da Igreja Episcopal Anglicana. Na segunda metade dos anos 50, membros da hierarquia Católica começaram a se preocupar e a realizar encontros com diferentes grupos de tradições cristãs que tinham abertura para o diálogo ecumênico. Estes encontros se realizaram somente entre as Igrejas ditas históricas, localizadas na região sul do país. Por sua vez, em 1966, a Igreja Episcopal Anglicana no Brasil institui a Comissão de Ecumenismo, viabilizando contatos bilaterais com as demais igrejas cristãs evangélicas. Já em 1968 realiza encontros com a Igreja Metodista, para estudos teológicos a fim de verificar as semelhanças e diferenças entre as duas.
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) antes do Concílio acompanhava à distância o movimento ecumênico brasileiro. Porém, após o término do Concílio Ecumênico Vaticano II[8] (1965) ela começou a pensar o ecumenismo de forma mais articulada e explícita com os seguintes elementos: a formação da consciência ecumênica, o desenvolvimento de relações institucionais com outras confissões cristãs e a publicação de orientações teológico-pastorais sobre ecumenismo (Wolff, 2002).
O Concílio Vaticano II foi sem dúvida, um marco para o ecumenismo católico, tanto do Brasil como para o restante do mundo. Conclamava a Igreja para uma tomada de consciência ecumênica. O próprio Concílio se auto proclamou como ecumênico[9]. Neste intuito foram convidados a participar, como ouvintes, cristãos não-católicos. Foi produzido um documento conciliar, Unitatis Redintegratio, que reconhece o movimento ecumênico como graça do Espírito Santo (UR 2-4) e trata do ecumenismo prático, principalmente o espiritual (UR 5-12), e também em compreender e melhorar os relacionamentos entre as Igrejas e as Comunidades Eclesiais Separadas da Sé Apostólica Romana, tratando de forma separada as igrejas orientais e as ocidentais (UR 19-23). Embasados nos documentos conciliares do Vaticano II, o Papa João Paulo II, em preparação para a festa do Grande Jubileu cristão de 2000, escreve a Encíclica: Ut Unum Sint (1996) (Para que todos sejam um), novamente conclamando toda a Igreja a dar uma especial atenção ao diálogo religioso a fim de que o ecumenismo se efetive entre os cristãos. E fala dos mártires de diversas igrejas, como exemplo a ser seguido. Diz o Papa: “Isto não poderá deixar de ter uma dimensão e uma eloqüência ecumênica. O ecumenismo dos santos, dos mártires, é talvez o mais persuasivo. A communio sanctorum, fala com voz mais alta que os fatores de divisão” (CNBB, 2000: 5-6).
O CONIC foi a expressão mais importante da história do ecumenismo no Brasil. Produto da caminhada ecumênica mundial e especificamente brasileira. Fundado no contexto da Teologia da Libertação e das preocupações pela a melhoria e a defesa da vida humana, independente dos credos e igrejas. No ano 2000, na festa jubilar, o CONIC realizou a primeira Campanha da Fraternidade[10] (CONIC-CNBB, 1999) em suas Igrejas membros, e no ano 2005 promoverá novamente (com o tema Paz). Uma outra atividade que há anos vem se realizando é a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Ultimamente vem crescendo a participação a cada ano e tornando-se um momento forte de encontros e estudos a respeito do diálogo inter-religioso e ecumênico.
O termo ecumenismo foi apropriado por determinados grupos participantes da casa cristã, mesmo de diferentes igrejas, tendo como objetivo diminuir as seculares distâncias, as divisões e as tenções entre as históricas Igrejas Cristãs. Mais especificamente foi utilizando-se, a partir da criação do Conselho Mundial de Igreja.
A discussão ecumênica avançou bastante a ponto de ultrapassar as barreiras da “casa cristã”, para chegar a outras expressões de fé, a grupos que invocam o Outro. Esse avanço não é menos tenso que o diálogo no seio dos seguidores de Cristo, ao contrário, as resistências são bastantes maiores, visto que, essas expressões e grupos religiosos são “desconhecidos”, ou seja, não são da linhagem cristã. Para designar esse diálogo entre as religiões usa-se bastante a expressão macro ecumenismo ou diálogo inter-religioso. Esta palavra foi cunhada publicamente nos encontros da APD (Assembléia do Povo de Deus) (CASALDÁLIGA, Pedro. In: TEIXEIRA, Faustino, 1997: 33).
Há quem prefere usar também a palavra ecumenismo, dando um “novo” conceito, para relacionar ao diálogo das diferentes religiões, tendo como princípio a própria raiz grega da palavra: habitantes da mesma casa, aqui entendendo como a casa-mundo-planeta-universo-cosmos-infinito. Somos todos filhos e filhas do Ser Sagrado, criador de todas as coisas, portanto, irmãos e irmãs pela humanidade e com a humanidade mátria e pátria, mas, diferentes ao falar e se expressar para se relacionar com Ele. No Brasil, as idéias macro ecumênicas encontram terreno fecundo, devido à natureza sincrética do catolicismo brasileiro, que de certa forma, influenciou a sociedade brasileira e a mentalidade religiosa do país. Segundo Dom Pedro Casaldáliga, os traços mais importantes do macro ecumenismo são: a maturidade e a liberdade da afirmação da identidade própria, a escuta ao Deus da Vida que continua se revelando e a paixão por seu projeto de libertação plena, e a abertura fraterna-irmã a todas as pessoas, culturas, religiões e ao diálogo sincero em pé de igualdade (CASALDÁLIGA, Pedro. In: TEIXEIRA, Faustino, 1997: 38).
Apesar de todas as dificuldades e problemáticas a serem ainda resolvidas, encontra-se exemplos concretos da vivência ecumênica e macro ecumênica por todo o mundo. Escolhe-se aqui, portanto, duas experiências para validar toda a discussão do diálogo entre os cristãos e entre as religiões, que serão apresentadas mais adiante. A primeira é referente à vivência das Irmãzinhas e Irmãozinhos de Foucauld e, em um segundo momento, o caso da Comunidade de Taizé.
Discípulos de Jesus: permanecei unidos
Neste século XXI, os cristãos são convidados a permanecerem unidos. Como já foi dito, é causa de escândalo para a sociedade a divisão entre os cristãos em várias denominações, cada qual procurando realizar uma espécie de mercado do sagrado onde se vende o Jesus católico, o Jesus da Assembléia, o Jesus Metodista, enfim, todos são interpelados pela força do Evangelho a assumir a dimensão da aceitabilidade do outro como o meu irmão e irmã de fé, mesmo sabendo que nossas diferenças que hoje são causas de separação, amanhã (com a conversão do espírito = ruah) deverão ser motivos de alegria, pois o louvor a Deus, “Verbo que se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1, 14). Pela fé dos cristãos, Deus vem morar com a gente, assume a condição de fraqueza e tentações humanas (Mt. 4, 1-11; Mc. 1, 12-13; Lc. 4, 1-13) e a imortalidade de todos. É o Verbo de Deus que se encarna entre os homens, em uma cultura, com suas formas variadas de vida, ou seja, até mesmo o Verbo já nos ensina ao vir ao mundo, pois cumpre fielmente o mandato que diz: “(...) tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex. 3, 5).
Como cristãos todos são convidados a anunciar o amor do Pai, um amor que não exclui ninguém. Quem vai acreditar nesse anúncio se produzirmos disputas internas e não nos unirmos para construir um mundo mais justo, fraterno e de paz? Quem vai acreditar no Pai e no nosso amor para com Deus, se formos indiferentes ao sofrimento dos irmãos? A história das nossas relações com os que sofrem e os caídos, é o retrato da sinceridade das nossas relações com Deus. E isso não é novidade. No começo do primeiro milênio, a Palavra de Deus já nos advertia: "Aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê" (1Jo 4, 20).
O diálogo e a cooperação mútua das Igrejas Cristãs são um sinal luminoso para o mundo que não crê e para todos os que acham que a competição e a violência terão sempre a última palavra. Ecumenismo não é uma política de boa vizinhança entre Igrejas, mas o testemunho indispensável para sermos fiéis ao mandato de Jesus: “Nisto todos saberão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34-35), e para termos credibilidade ao anunciar a salvação. Igrejas se comportando como irmãs e aliadas, em vez de se apresentarem como concorrentes, são um sinal poderoso da gestação do novo, da força da graça redentora, da possibilidade de reescrever a história na direção do Reino de Deus.
Em Jo. 17 Jesus aponta os rumos para seus discípulos e lhes dá um ensinamento para que permaneçam unidos na fé e na oração. A chamada oração sacerdotal que Jesus faz antes de assumir a hora crucial de sua vida representa um alerta para os cristãos de hoje. Ele ao se glorificar ao Pai, dá a vida eterna a todos nós, cristãos ou não-cristãos. Significa que a mensagem da salvação é para todos. Pela nossa fé somos chamados a vivenciar os mandamentos de Jesus o que não nos dá o direito de monopólio de Deus que pertence a todos os Povos da Terra que o louvam conforme suas culturas, suas simbologias e suas linguagens.
Todos são interpelados a conhecer o projeto de Jesus que é o projeto do Pai. Jesus não aponta exigências doutrinais e, muito menos, dogmáticas para se viver o Evangelho. Assim, compreende-se que a mensagem dos escritos joaninos abre-se para a dimensão universal da proposta salvadora. Com isso, todos, independentemente de raça, etnia ou credo podem seguir Jesus. Não se pode esquecer que no Congresso latino-americano da Juventude realizado na Nicarágua na década de 80 do século XX, uma jovem indígena entregou a Bíblia ao Papa João Paulo II anunciando que a mensagem de vida contida nas Sagradas Escrituras serviram somente para causar guerras, mortes, desesperanças... Assim, seu povo a devolvia, pois já viviam no cotidiano a proposta do Evangelho.
Jesus se manifesta no amor a todos os homens da terra. Por isso, os discípulos Deles são chamados a realizar o mesmo. O amor aqui significa compromisso com o projeto do Reino e os cristãos são intimados a assumir este engajamento. Disse Jesus: “Agora reconheceram que tudo quanto me deste vem de ti, porque as palavras que me deste eu as dei a eles, e eles as acolheram e reconheceram verdadeiramente que saí de junto de ti e creram que me enviaste” (Jo. 17, 8).
A prece que Jesus faz ao Pai causa muita emoção, pois pede e roga ao Pai que faça os seus permanecerem unidos na fé. Ele roga por todos, pois toda humanidade permanece no mundo. Ele pede ao Pai que os guarde. Guardar significa evangelicamente cuidar, e só cuida quem ama. Guardar “em teu nome que me deste, para que sejam um com nós” (Jo. 17, 11). Jesus repete duas vezes que os que querem seguir o projeto não são do mundo, pois estão marcados a lutar pela vida e dignidade, assim como Ele não é do mundo.
O amor exige santificação de vida e conversão de espírito para que a Verdade possa ser anunciada. O Pai enviou seu Filho Jesus para dar a Boa Nova ao mundo e todos são continuadores deste projeto, pois, pelo Batismo e pela fé em Cristo Jesus são também enviados a anunciar a mensagem de vida contida no Evangelho e a denunciar todo sistema de morte. Os crentes são todos aqueles que praticam a Verdade que é Jesus na vida, no cotidiano. Esta Verdade é, antes de tudo, amor pleno. E só tem amor aquele que dá a vida pelo amor sempre no seguimento do projeto de Jesus que afirma: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10, 10).
Por três vezes Jesus pede ao Pai para que seus discípulos permaneçam unidos (Jo. 17 11.21-23). A união tem aqui um significado especial. Não significa de forma alguma uniformidade ou adestramento a um pensamento único, mas o ato de aceitar a dimensão do outro como meu irmão e que tem a sua fé diferente da minha o que não significa que ele esteja errado. Dessa forma, os cristãos são convidados por Jesus: “(...) para que todos sejam um como nós. (...) a fim de que todos sejam um. Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: (...) para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim”.
Por isso, sonha-se que se possa rezar juntos a oração que Jesus de Nazaré nos ensina hoje e sempre, na esperança de conseguir com que os cristãos deem o testemunho do Reino já presente. Assim, diz o final do Texto-Base da Campanha da Fraternidade Ecumênica (Cf. CONIC-CNBB, 1999) de 2000, fazendo com que nossos sonhos num mundo de justiça e dignidade se fortaleçam a partir das ações concretas.
Para todos o Pai, o pão e a paz
Os cristãos aprenderam de seu Mestre a oração do Pai Nosso. Não é só uma prece; é o próprio programa do Reino que Jesus nos ensinou a pedir. Pedindo nos comprometemos com esse programa em nossa vida e afirmamos a confiança na graça que torna possível que venha a nós o Reino do Senhor.
Pai nosso que estás nos céus
Ao dizermos Pai Nosso já estamos afirmando a dignidade de todos, sem exclusão: ninguém, qualquer que seja a sua situação deixa de ser filho (a) do Pai de todos. O outro não é um desconhecido que podemos ignorar, um estorvo que se deve descartar, nem um competidor contra o qual tenho que me prevenir. É um irmão, uma irmã, para amar, defender e valorizar, como se espera que aconteça em qualquer família digna desse nome.
Santificado seja o teu nome
A santificação do sagrado Nome de Deus-Pai está ligada à defesa da dignidade humana e ao diálogo cristão. Desprezamos o Pai quando permitimos o descarte daqueles (as) que Ele ama. Desqualificamos nosso discurso sobre a glória do Pai quando nos apresentamos divididos diante do mundo que não crê.
Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade.
O Reino de Deus e vontade do Pai passam por relações mais do que justas: fraternas, solidárias generosas e, portanto, construtoras de paz.
Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia
O pão nosso de cada dia não pode faltar, em nenhuma casa. Ele é o sinal concreto que mostra se estamos ou não sendo fiéis ao projeto do Pai. Não é o pão do exagero, da acumulação; é o pão das necessidades humanas atendidas com digna simplicidade, bem repartido para que o supérfluo de uns não seja a carência de outros.
Perdoa as nossas dívidas assim como nós nos perdoaremos
O perdão das dívidas deve estar presente na vida pessoal, para que ressentimentos não envenenem a paz nas casas e nas comunidades. Deve estar presente também entre as Igrejas que precisam curar as feridas de séculos de separação e enfrentamento. Mas tem que estar presente também no resgate das dívidas sociais que esmagam os filhos e filhas de Deus.
Fortalece-nos na tentação; livra-nos do mal
Ideias sedutoras e sistemas que não reconhecem o valor da pessoa estão aí prontos para serem usados como desculpa para deixar tudo como está. Jesus disse que as portas do inferno não prevaleceriam sobre a sua Igreja. Temos o direito e o dever de pedir ao Senhor da História que nos ajude a construir um novo milênio parecido com a Nova Jerusalém, onde o mal vai sendo vencido e as lágrimas vão dando lugar à alegria.
Teu é o reino, o poder e a glória
Não sonhamos utopias vazias. O nosso sonho vem assinado por Deus, selado com o sangue do Cordeiro, aquele que vence o mal e a morte e que reinará para sempre.
É verdade que a grande virada da Igreja Católica em relação ao ecumenismo aconteceu após o Concílio Vaticano II. No entanto, havia movimentos ecumênicos não "oficiais" e não hierárquicos dentro da própria Igreja Católica que, de certa forma, contribuíram para se falar de ecumenismo no Concílio, a partir de algo concreto, vivido. Eram as fraternidades de Foucauld e a Comunidade de Taizé. Vamos primeiro abordar o ecumenismo Macro das irmãzinhas e dos irmãozinhos de Foucauld. Em seguida, ver-se-á o Micro de Taizé.
3.1 O seguimento do projeto do Reino na perspectiva das fraternidades de Foucauld
O movimento ecumênico hoje suscita um alargamento no seu conceito, incitando a uma abertura maior para o diálogo. Dialogar com aqueles que também não fazem parte da oikos cristã. Essa é apenas uma resposta para os dias atuais, de intensa aproximação dos povos através dos rápidos e poderosos meios de comunicação e transporte? O Macro-ecumenismo é uma necessidade apenas de hoje? É necessário passar pelo ecumenismo cristão para depois para o macro ecumenismo?
As fraternidades de Foucauld fizeram um caminho "às avessas"; começaram sua "missão" ecumênica do macro (global) para o micro (local). Desde suas fundações, as comunidades se inseriram no mundo não cristão, especificamente, na convivência com os povos islâmicos. Essa intuição advém do próprio inspirador e místico, Irmão Charles de Foucauld, que iniciou a espiritualidade de Nazaré, deixando escritos e um legado, no qual seus inspirados deram continuidade e a propagaram por todo o mundo.
Charles de Foucauld nasceu em Estrasburgo, na França, no ano de 1859. Ainda criança, ficou órfão de pai e mãe, sendo criado com o avô. Quando jovem, torna-se herdeiro de uma grande fortuna e vai servir o exército na Argélia, sendo repreendido várias vezes por indisciplina e má conduta. Em 1882 sai do exército e planeja uma viagem de exploração "secreta" ao Marrocos. De junho de 1883 a maio de 1884 permanece clandestinamente no Marrocos, estudando a geografia daquele país. Ao voltar para Paris, ganha um importante prêmio da Sociedade Geográfica Francesa, aumentando seu prestígio. Nesse mesmo período é ajudado por sua prima a reencontrar o caminho do cristianismo e acontece sua conversão. Vai em peregrinação à Terra Santa em 1889 e ao voltar entra na Ordem Trapista, no Convento Nossa Senhora das Neves. Passa sete anos na Ordem, abandonando-a em seguida, para viver mais radicalmente seu ideal de pobreza e aproximação de Jesus através da convivência com os mais pobres. É ordenado padre e vai para o deserto do Saara, morar junto com o povo islâmico, no oásis de Bani-Abbés, Argélia.
O "ecumenismo" de Foucauld, com as pessoas de orientação muçulmana se aprofunda com o passar dos anos de convivência. Não faz proselitismo e sua missão é de imitar Jesus no escondido de Nazaré, no silêncio do deserto e na contemplação. Seu apostolado é de ser "um irmão universal" de todas as pessoas, levar Jesus Cristo pela vida. Eis o que escreve sobre o como viver esse apostolado cristão:
Como ser Apóstolo?
Pela bondade e pela ternura, pelo amor fraterno, pelo exemplo de virtude, pela humildade e doçura sempre e tão cristãs.
Com alguns, sem lhes dizer nunca uma palavra sobre Deus ou sobre religião, sendo bom como Deus é bom, sendo irmão no afeto e nas preces.
Com outros, falar de Deus na medida em que podem assimilar.
Sobretudo, ver em cada homem um irmão (...).
Ver em cada homem um filho de Deus, um homem resgatado pelo sangue de Jesus (...).
Afastar de nós o espírito conquistador (...).
Como é grande a distância entre a maneira de fazer e de falar de Jesus e o espírito conquistador daqueles que não são cristãos ou são maus cristãos e só vêem inimigos a serem combatidos. (LEPETIT, 1982: 153-154).
Foucauld abre sua casa para acolher os pobres e os viajantes. Cria fortes amizades com vizinhos e moradores da localidade. Num dado momento de sua vida no deserto, ficou muito doente, e como morava só, teve somente as amizades muçulmanas para o socorrer. Foram seus vizinhos e amigos que cuidaram dele até sua recuperação, salvando sua vida. Com uma forte paixão por aquele povo, foi morar mais adentro do deserto, com os Tuaregues em Tamanrasset, sul da Argélia. Neste momento de sua vida, de tanta identificação com aqueles pobres, escreve o primeiro dicionário Tuaregue-francês. É a prova do amor e identificação com aquele povo. Em plena Primeira Guerra, Foucauld é assassinado no dia primeiro de dezembro do ano de 1916. Morreu sem deixar nenhum discípulo ou discípula, como queria. Deixou seu legado espiritual através de vários escritos. A partir de 1933, dezessete anos após sua morte, as fraternidades que tanto desejou em vida, começam a ser fundadas. As palavras de Jesus, o qual chamava de Bem-amado, se cumpriu: "Se o grão de trigo não morre, fica só, mas se morre produz muitos frutos".
As primeiras comunidades que surgiram para viver a espiritualidade de Nazaré, nos passos do Irmão Carlos[11], foram as Irmãzinhas do Sagrado Coração, os Irmãozinhos de Jesus e as Irmãzinhas de Jesus. Depois, não parou de surgir grupos e mais grupos, por todo o mundo, que alimentados pela espiritualidade de Foucauld desejam ser "fermento na massa", ser irmãos e irmãs universais.
Desde as primeiras Fraternidades[12], a ida ao encontro do "outro" foi envolvida de sentimentos macro-ecumênicos: o amor, o respeito, o ouvir e o aprender com os não cristãos. As Irmãzinhas e os Irmãozinhos de Jesus iniciaram sua missão em território não cristão, na terra onde Foucauld tinha vivido seu apostolado, ou seja, na Argélia. Portanto, um forte motivo para o macro ecumenismo. Sendo que, as irmãzinhas de Jesus surgiram para se dedicarem às populações muçulmanas, tendo suas primeiras fraternidades em territórios islâmicos. Essas fraternidades foram enviadas aos quatro quantos do mundo. E nessa expansão das fraternidades, René Voillaume, fundador dos Irmãozinhos de Jesus, por ocasião da instalação de uns irmãozinhos entre a tribo dos Uldemês, em 1951, no norte do Camarões, África, escreveu para seus irmãozinhos:
Por mais que pareçam longe de nós e tão difíceis de compreender em certos dias, não devemos nunca cessar de amá-los com infinito respeito (...) Todo o esforço de vocês, deve visar compreendê-los, amá-los e respeitá-los, como o faria Jesus, se vivesse entre eles (...) não os julguem, jamais zombem deles, jamais sejam irônicos a seu respeito! Jesus não o faria. (VOILLAUME, 1967: 50-51).
As Irmãzinhas de Jesus a partir de 1946 deixaram a exclusividade para os muçulmanos e foram também habitar e partilhar a vida dos mais pobres de todo o mundo, dos mais esquecidos, àqueles que ninguém quer ir. A Irmãzinha Madalena, fundadora das Irmãzinhas de Jesus dizia: "Procurem no mapa mundi e escolham viver entre os pobres e os mais abandonados, entre os nômades ou outras minorias ignoradas e desprezadas, inatingidas por outras formas de apostolados".[13] Quando envia suas irmãzinhas às diversas partes do mundo, as instruem sobre a abertura para todos, independente da crença e religião:
Gostaria que vocês acreditassem que pode existir uma amizade verdadeira, um afeto profundo entre as pessoas que não são da mesma religião, nem da mesma raça, nem do mesmo ambiente. É preciso que seu amor cresça e se aprofunde e se matize de delicadeza. O amor generoso se encontra facilmente, mas o amor delicado e respeitoso por todos é raro.[14]
Surgiram as primeiras freiras operárias, as primeiras freiras ciganas, as primeiras freiras presidiárias, as primeiras freiras nômades das tendas, as primeiras freiras de circo... Freiras assumindo a vida dos pobres e dos abandonados do século XX. Missionárias e contemplativas no cotidiano da vida. Mas, seu apostolado é o do amor, da amizade gratuita, a simples presença, no se fazer igual a seus vizinhos. Disse Irmãzinha Madalena: "(...) faça-se toda a todos: árabe no meio dos árabes, nômades no meio dos nômades, operária no meio dos operários, mas antes de tudo, humana no meio dos humanos. (...) que seja uma só coisa com todos"[15].
As Fraternidades de Foucauld estão no Brasil desde 1952, com a chegada das Irmãzinhas de Jesus, para fundar a primeira fraternidade na América Latina. Em 1985, Irmãzinha Genoveva, uma das primeiras que vieram, e continua até hoje na aldeia Tapirapé, conta como foi esse início:
Então, vocês estão vendo aqui, todas essas casas, que tem umas... vinte casas, agora, nessa aldeia. Que são uns duzentos e dez tapirapé hoje. E quando nós chegamos aqui, eram somente cinqüenta.
Então nós viemos aqui, já faz trinta e dois anos. E quando foi para escolher uma fraternidade aqui no Brasil, foi escolhido justamente os índios, por ser os mais... que não interessava muita gente. E a tribo dos tapirapé foi escolhida por ser justamente um número resumido e eles estavam em fase de extinção. Foi a razão pela qual viemos aqui. Sem outra intenção, à não ser viver com eles. E valorizar, assumir a vida deles, pra que eles acreditem que ela tem valor. Isso que nós fizemos.
É claro que naquele tempo estávamos muito isoladas. A Igreja num... era uma coisa nova, num se entendia, mas como éramos muito isoladas, ninguém nos atrapalhou, primeiro.[16]
A tribo cresceu, multiplicou-se. Hoje já são duas aldeias com mais de 500 da tapirapé. E as Irmãzinhas de Jesus continuam morando lá.
Essa forma missionária entres os índios do Brasil, sem intenção de fazê-los crentes em Jesus, de presenteá-los com Bíblias ou contar-lhes as "maravilhas do mundo civilizado", ajudou a inspirar e fazer surgir o CIMI - Conselho Indigenista Missionário (em 1972), uma organização da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na missão da promoção e dos direitos dos povos indígenas, sem fazê-los católicos apostólicos romanos e nem cristãos, mas que fortaleçam sua cultura e suas crenças.
Sem nenhuma presunção de converter "o mundo pra Jesus", as fraternidades de Foucauld estão em diversos países de todos os continentes em nome de Jesus, do Deus-Amor, na missão do amor incondicional. Talvez as palavras da Irmãzinha Madalena possa resumir bem essa forma ecumênica de viver a fé na espiritualidade Macro Ecumênica:
Permaneçamos as pequenas irmãs de todos, que possamos responder lealmente aqueles que nos colocam a questão: 'É porque você quer me converter que procura a minha amizade? - Não, eu o amo porque você é meu irmão em Deus'. É nesse sentido que eu digo, algumas vezes, que devemos ir entre os povos com uma amizade 'gratuita' que ama sem procurar um retorno, sem calcular os resultados obtidos. Por isso, ficamos desconcertadas quando nos perguntam: 'Quais são os resultados de seu apostolado? Que influência vocês tem sobre aqueles que as rodeiam?'. É uma linguagem que não corresponde a nada para nós. Nossa vocação é fazer amar o Cristo através de nós, sem procurar conhecer os resultados. Deus os conta, Deus os vê.[17]
O ecumenismo foi algo constante nas fraternidades. As Irmãzinhas de Jesus, por exemplo, deram passos muito ousados e proféticos: desde a década de 70, a congregação começou a ter irmãzinhas que não eram católicas. Em 1981, no quinto capítulo geral da congregação, um problema surgiu a respeito das irmãzinhas não católicas, a Cúria Romana atesta a inviabilidade de outras cristãs, que não sejam católicas, se tornarem parte de uma congregação de direito pontifício. A fundadora, diante dessa situação dolorosa, diz: "Aconteça o que acontecer, elas não devem se tornar católicas".[18] Apesar de poucas irmãzinhas não-católicas terem podido participar plenamente da fraternidade como Irmãzinha Madalena desejava, tinham chegado a um acordo: os votos das irmãzinhas não-católicas não seriam feitos "nas mãos" da responsável geral, mas na sua presença. Em setembro de 1996, duas irmãzinhas da Igreja Reformada Suíça, fazem seus votos definitivos na celebração presidida por um pastor evangélico, assim as portas do ecumenismo se mantiveram abertas para os evangélicos.
3.2 O testemunho evangélico dos Irmãos de Taizé
A Comunidade de Taizé[19] surgiu no ano de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, quando o Irmão Roger (pertence a Igreja Calvinista da Suíça), deixando a Suíça, país que não se manteve neutra na guerra, comprou uma pobre casa abandonada, no interior da França, para servir de acolhida aos refugiados e aos perseguidos políticos e judeus. Repetindo um gesto de amor e solidariedade, que sua avó fez na Primeira Guerra Mundial.
O respeito aos não cristãos e o amor àqueles que sofrem, esteve desde o início da Comunidade, fazendo de Taizé, um lugar aberto aos crentes e não crentes em Jesus, portanto, ecumênica.
Irmão Roger não se limitou apenas em ficar acolhendo pessoas por tempo provisório. Não se limitou em tratar os outros não cristãos, os que não comungavam com sua forma de rezar e acreditar em Deus, somente com sentimentos de solidariedade emergencial. Ele ousou mais; acreditou que o diferente poderia viver em comunidade, na partilha cotidiana pela sobrevivência e na cooperação por uma causa a mais; que os cristãos de diferentes denominações e tradições religiosas poderiam dar testemunho dessa possibilidade; que os seres humanos podem ser felizes juntos, vivendo em paz, sem guerra, sem mortes e sem estarem divididos.
Mas como podemos imaginar que membros de igrejas historicamente divididas, com doutrinas e teologias diferentes, podem conviver e partilhar a fé e a vida, numa comunidade de vida comum?
Assim como as Fraternidades de Foucauld, Taizé nasce num espírito essencialmente ecumênico. No seu início, os irmãos de Taizé eram de origem evangélica, mas, logo católicos juntaram-se aos evangélicos, tornando-se uma comunidade de diversos credos cristãos, de diversas denominações cristãs: luteranos, calvinistas, presbiterianos, anglicanos, católicos e outros. Convivem sobre o mesmo teto, dormem na mesma casa, partilham os trabalhos e as refeições e, sobretudo, oram e lutam juntos pelo bem de todas as pessoas. São aproximadamente uns cem irmãos morando no vilarejo de Taizé, na França e em outras partes do mundo, como em Bangladesh e no Brasil, entre outros países; morando em bairros e lugares marginalizados, junto com os mais pobres.
Desde 1957, a Comunidade de Taizé tem acolhido jovens vindos de várias partes da Europa e do mundo, para passarem dias ou semanas de oração e convivência. Com o intuito de proporcionar essa partilha de oração na espiritualidade de Taizé, os irmãos começaram a ir a diversos países promovendo Jornadas da Confiança. No Brasil, a Comunidade chegou em 1966, e desde 1978 os irmãos moram em Alagoinhas-BA, a 110 km da capital do Estado, vivendo na periferia da cidade. Desde 1997, realizam a Jornada da Confiança a nível nacional. Este ano acontecerá na Cidade de Goiás, nos dias 08 a 12 de outubro. Esses encontros com a juventude, não têm por objetivo criar ao redor de Taizé um movimento particular, mas incentivar os jovens "a tornarem-se, nos locais onde moram, criadores da paz, portadores de reconciliação na Igreja e de confiança sobre a terra, comprometendo-se no seu bairro, na sua cidade, na sua paróquia, com todas as gerações, desde as crianças até as pessoas de idade".[20]
Olhando para as Fraternidades de Foucauld e a Comunidade de Taizé, percebe-se a realidade, a possibilidade concreta do ecumenismo. Um ecumenismo que não esperou as resoluções eclesiásticas, não esperou que fossem decididas e assinadas leis ecumênicas, pela hierarquia. Mas um ecumenismo feito por cristãos, livres e não desacreditados com o essencial da vida humana, da bondade e esperança que habita em cada pessoa, desejosos por uma "vida boa", de paz e felicidade para o mundo; cristãos que colocaram em prática tão somente o mandamento do amor, deixado pelo próprio Cristo: "para que o amor com que me amaste esteja neles".[21]
BIBLIOGRAFIA
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.
______________. Ethos Mundial. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
CNBB. O que é ecumenismo? Uma ajuda para trabalhar a exigência do diálogo. Coleção: Rumo ao Novo Milênio. 4a. edição. São Paulo: Paulinas, 2000.
CONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade 2000 (Ecumênica) – Dignidade Humana e Paz. São Paulo: Editora Salesiana Dom Bosco, 1999.
CONIC. Internet > http: www.conic.org.br . Brasília, 2004.
DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II (1962-1965) / [organização geral Lourenço Costa; tradução tipográfica Poliglota Vaticana]. São Paulo: Paulus, 1997.
DONEGANA, Costanzo (org.). Mulheres geradoras de fraternidade. In: Mundo e Missão, maio de 2004, ano 11 Nº 82.
FRUTOS DO DESERTO. Vídeo sobre a herança de Carlos de Foucauld. São Paulo: Verbo Filmes, 2003.
GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais e educação. 2ª. Edição. São Paulo, Cortez, 1994.
______________. Educação Não-Formal e Cultura Política. 2a. edição. São Paulo, Cortez, 2001. 120 p.
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 5ª. Edição. São Paulo, Civilização Brasileira, 1985.
LEPETIT, Charles. O Parceiro Invisível. São Paulo: Paulinas, 1982.
MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. 4a. Edição. Lisboa, Martins Fontes, 1976. 210 p.
SPINK, Kathryn. O Chamado do Deserto. Biografia de Ir. Madalena de Jesus. São Paulo: Loyola, 1997.
TEIXEIRA, Faustino. Teologia das Religiões. São Paulo: Paulinas, 1995.
VOILLAUME, René. Nos Caminhos dos Homens. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1967.
WOLFF, Elias. Caminhos do ecumenismo no Brasil. São Paulo: Paulus, 2002.
[1] Filósofo. Especialista em Ciências da Religião/UCG. Mestre em Educação/Unicamp. Membro do GEMDEC/Unicamp. Membro da Rede de Movimentos Sociais na América Latina (REDEMS).
E-mail: prof.claudemiro@uol.com.br
[2] Licenciada em Geografia. Bacharel em Administração. Especialista em Psicopedagogia/UFU e Metodologia do Processo de Ensino-Aprendizagem em Geografia/Universidade São Luís em Jaboticabal-SP. Especialista em Ciências da Religião/UCG. Professora na Rede Estadual de Ensino no Estado de Goiás – Ensino Fundamental e Médio. Coordenadora Pedagógica do Ensino Fundamental I e II da Rede Municipal de Ensino em Goiatuba – GO.
E-mail: joanadarcgtba@hotmail.com
[3] Articulador Estadual em Goiás do Movimento de Adolescentes e Crianças (MAC). Historiador e Teólogo. Especialista em Formação Sócio-Econômica do Brasil/Universo. Especialista e Mestrando em Ciências da Religião/UCG. Professor da Rede Estadual de Ensino em Goiânia. Leciona no Ensino Fundamental e Médio na cidade de Goiânia.
E-mail: klausalbuquerque@bol.com.br
[4] Bispo Católico da Prelazia de São Félix do Araguaia – MT.
[5] Não se pode esquecer que a fiel escudeira dos Estados Unidos é a Inglaterra que tem como ministro Tony Blair, um trabalhista que assume toda a ideologia de poder sendo cooptado pela lógica do capital.
[6] Na verdade, os Estados Unidos da América gastou em torno de US$ 400 bilhões com a Guerra do Iraque em 2003. Desde quando o presidente Busch assumiu o poder na Casa Branca, iniciou-se um grande programa (retoma-se o modelo da Guerra Fria) chamado “Guerra nas Estrelas” com a finalidade de realizar maiores investimentos em arsenais bélicos que seriam utilizados contra países que viessem a se tornar infiéis aos acordos unilaterais organizados pelos USA.
[7] Os movimentos sociais surgem com toda a força no séc. XIX devido ao auge das chamadas Revoluções Industriais. A II Revolução Industrial foi o fim da era da passividade dos trabalhadores culminando na chamada revolução proletária fazendo surgir na sociedade os movimentos operários, os conselhos de fábricas e as reivindicações populares em busca de mais dignidade e vida para todos. Os cristãos vão aos poucos se inserindo nesta luta. Não se pode esquecer da Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII.
[8] O Concílio Vaticano II aconteceu entre 1962-1965 sob os pontificados de João XXIII e de Paulo VI. A respeito do Ecumenismo e do Macro-Ecumenismo pode-se citar três documentos importantes que são: NA (Nostra aetate – Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs); a UR (Unitatis Redintegratio – Decreto sobre o ecumenismo) e a GS (Gaudium et Spes – Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje). Neste sentido, conferir Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, 1997.
[9] Torna-se importante destacar que vários consultores de outras igrejas foram convidados para participar do Concílio como observadores ad hoc.
[10] O tema da Campanha da Fraternidade foi Dignidade Humana e Paz com o lema: Novo Milênio sem exclusões.
[11] É também conhecido no Brasil como Irmãozinho Carlos de Jesus.
[12] Este nome é empregado para todos os grupos que fazem parte da Família de Foucauld, sejam as congregações religiosas, as associações de leigos ou dos padres diocesanos.
[13] MADALENA, Irmãzinha. Frutos do Deserto. Vídeo sobre a herança de Carlos de Foucauld. Verbo Filme, São Paulo, 2003.
[14] Op. cit. Pela Revista Mundo e Missão. Maio de 2004, ano 11 Nº 82, pg. 24.
[15] Idem. pg. 24.
[16] GENOVEVA, Irmãzinha. Frutos do Deserto. Vídeo sobre a herança de Carlos de Foucauld. Verbo Filme, São Paulo, 2003.
[17] MADALENA, Irmãzinha. Op. cit. Pela Revista Mundo e Missão. Maio de 2004, ano 11 Nº 82, pg. 24.
[18] MADALENA, Irmãzinha. In: SPINK, Katryn. O Chamado do Deserto. São Paulo: Loyola, 1997.
[19] Nome do vilarejo francês onde surgiu a comunidade.
[20] DONEGANA, Costanzo, (Org.) Revista Mundo e Missão, julho-agosto 1999 - ano 06 Nº 34, pg. 23.
[21] JOÃO, Evangelho Segundo, capítulo 17, versículo26b
13/05/2019
Ele tem mais de trinta anos. Viveu solteiro até o início deste ano, quando resolveu morar junto com a namorada numa casa pequena.
No início tudo ia bem, mas foi aí que ele percebeu que ela usava drogas. Ela começou a agredi-lo. Ele é um jovem muito bondoso, amigo de todos, pacífico, trabalhador. Várias surras depois, ele a mandou embora da casa. Ela não quis ir. Ele não estava mais suportando a situação. Ficou com medo de revidar às agressões. Limitava-se a defender-se.
Certo dia, tendo ela se drogado a mais da conta, dormia profundamente. Ele não pensou duas vezes: subiu no telhado e desparafusou as telhas de amianto e o sol bateu em cheio na cabeça de sua amásia, que acordou irritada e sem saber ao certo o que estava acontecendo.
Ele foi para a casa de seu irmão. E tudo se resolveu: ela pegou suas coisas e foi embora. Não conseguiria morar numa casa sem teto!
Eu fui visitar esse meu amigo e tive a ideia de escrever este texto, lembrando a todos a situação precária em que estão os casais atualmente.
Não há muita perseverança naquele “amor” que se juravam mutuamente. Não há consistência nesse desejo de felicidade. Os motivos são vários, mas a meu ver uma boa parte deles vem da falta de oração. Sem a oração não há vida familiar que aguente. Aliás, nenhum tipo de vida aguenta firme sem a oração. E não é uma oração de cinco minutos! A oração deve ser mais prolongada, mesmo que seja intercalada durante o dia.
Nos tempos antigos também havia problemas. Minha avó casou-se grávida de três meses, em 1920! Foi muito discreta para esconder a barriga, pois naquele tempo isso era coisa gravíssima! Mas parece que as pessoas tinham mais cacife para resolver os percalços da vida.
Será que havia mais religião ou mais medo da agressão?
Quantos problemas os casais enfrentam! Eles deveriam completar-se, tornar-se “um só”, como disse Jesus ao falar do matrimônio. Mas isso, que deveria ser regra, atualmente é exceção. Quantas brigas! Quantas reclamações! Quanto tempo perdido em dissenções!
Meu amigo não pensou duas vezes: destelhou a sua casa e seus problemas se acabaram, magicamente.
Mc 10,45-52/ (30/10/2012)
É o evangelho do 30º domingo do tempo comum B. Bartimeu percebeu que Jesus passava e, cego que era, gritou “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”. Entretanto, aqueles que sempre rodeiam o “chefe” para poderem controlar tudo, o impediram. Em nossa vida do dia a dia é comum esse tipo de coisa: há pessoas que controlam ou tentam controlar o “poder” em suas mãos e dificultam o contato nosso com a pessoa desejada. Tal era o caso de Bartimeu, que, corajoso, continuou a gritar mais forte ainda e conseguiu ser atendido. Nunca devemos desanimar de nossas lutas em busca de Deus e da verdadeira felicidade, que obteremos com nossa humildade, constância e fé.
Os doutores da lei manipulavam o acesso a Deus, e a Igreja Católica fez, também, esse tipo de coisa durante muito tempo. Só agora descobrimos que “o Espírito sopra onde quer” e que Deus não é uma “mercadoria” que guardamos em nosso cofre para controlarmos sua posse.
Você já reparou que somos obrigados a chamar este de “vossa excelência”, aquele de “vossa alteza”, o cardeal de “vossa eminência”, o juiz de “meritíssimo”, o reitor de “vossa magnificência”, o papa de Vossa Santidade, o patriarca da Igreja Ortodoxa de “vossa beatitude”?
E agora eu pergunto: como chamamos Deus, nosso Criador, criador de tudo o que existe, principalmente na pessoa de Jesus Cristo, nosso redentor? Nós o chamamos simplesmente de Senhor ou mesmo de Você, Vós, Tu..., sem nenhum título honorífico, e ele nos deu certeza de atender-nos, conforme nossa fé, nossa sinceridade e nossa necessidade.
Gritando ainda mais forte, o cego foi ouvido por Jesus e, dando um pulo, “jogou fora o seu manto”. Ele se desvencilhou da única coisa que possuía para alcançar Cristo e segui-lo! Será que nós temos essa coragem? O que simboliza, em nossa vida, esse manto do Bartimeu? Casa? Família? Carro? Outros bens? O trabalho? Nossas ideias?
Jesus diz, em vários lugares, que precisamos renunciar a tudo para segui-lo, pois só então teremos sua graça e sua mão para puxar-nos. O cego teve fé, pois jogou fora o manto, sabendo que ia ser curado e que não precisaria mais dele.
Temos apego a nossas coisas e queremos, muitas vezes, seguir Jesus sem deixar nada de nós mesmos. O pior é quando nosso apego não é referente a coisas, mas a nós próprios e aos nossos pecados. Aí é que a “vaca vai pro brejo”, ou melhor, que nós vamos para o brejo.
Jesus curou o cego talvez porque ele tenha tido coragem de ficar sem seu manto e ir até ele, embora não enxergasse o caminho. Não consta que ele tenha voltado para pegar o manto. Só diz que “seguiu Jesus pelo caminho”.
Cena contrária a essa é a de Jesus em João, no lava-pés: não diz lá que ele tenha tirado a toalha que cingira na cintura, após ter lavado os pés dos discípulos: Jesus continua lavando os pés dos que o buscam!
Amigos, esse texto me apaixona porque explica os outros textos em que Jesus fala da renúncia como condição para segui-lo. Vamos abrir o nosso “baú” e procurar tirar dele as coisas velhas, já passadas e perdoadas. Vamos procurar nos despir do homem velho, jogar fora nosso manto e revestir-nos do homem novo, revestir-nos de Cristo, para “segui-lo no caminho”. Vale a pena! A vida eterna nos espera! Que Jesus cure a nossa cegueira. Amém!
12-07-2013
Durante milênios Deus aguardou o momento exato de criar Maria no seio de Santa Ana. Durante os anos em que Maria esteve na terra, todos a esperavam no paraíso: Deus, os anjos e santos que lá estavam antes dela.
No dia determinado por Deus, Maria foi avisada de sua passagem desta vida para a vida eterna. O próprio Jesus veio avisá-la.
Na verdade, após a morte de Jesus, Maria nunca o sentira longe dela: eles estavam tão ou mesmo mais unidos do que quando ainda estavam juntos aqui na terra, pois em seus três anos de vida pública, Jesus ficara mais fora do que dentro de sua família!
Maria, como sempre, nada falou a quem quer que fosse. Naquele tão belo dia, levantou-se como sempre, fez a refeição para São João Apóstolo, com quem morava a pedido de Jesus na cruz, e entrou em oração contemplativa.
Ela poderia ter talvez uns 60 anos? São João teria talvez uns 30?
A dado momento, ela sentiu que chegara a hora. Chamo aos que moravam ali, os amigos, e então lhes disse a novidade: "Hoje vou me encontrar com meu Filho amado! Quero que todos vocês se alegrem! Agradeço a todo pela acolhida que fizeram a Jesus em seus corações, e a que a mim fizeram. Peço perdão se desgostei a alguém. Continuem firmes no amor a Deus, que é meu Pai, meu Filho e meu divino esposo, e no amor aos demais! O amor vence tudo! Pela misericórdia, todos poderão ir para o céu!"
Maria deitou-se e fechou os olhos, movida por um repentino cansaço. Todos ali reunidos cantaram um cântico de louvor e agradecimento a Deus. Eles não ouviram, mas os anjos os acompanhavam com o coral celeste. E esse mesmo coral celeste veio buscar Maria. Ninguém viu os anjos, mas viram o corpo desaparecer da vista deles e ficaram estupefatos!
Ao chegar ao paraíso, Maria viu que todos a aguardavam ansiosos. Cores maravilhosas alternavam-se, e a luz de Deus iluminava tudo surpreendentemente. Um átimo de luz divina, segundo uma visão de São João Bosco, seria suficiente para iluminar todo o universo!
Maria olhava para Deus, em suas três pessoas: o Pai, o Filho Jesus, o Espírito Santo. Maria participa das três pessoas: o Pai, que a criou, o Filho que dela nasceu na terra, o Espírito Santo que O gerou em seu seio.
Maria fez algo impossível! Aumentou a alegria e a beleza do céu! Amigos, amigas, podem crer no que digo: COM MARIA, O CÉU NUNCA MAIS FOI O MESMO! (Este é, obviamente, um texto de ficção, mas que pode muito bem ser verdadeiro)
Todos nós somos chamados à santidade: “Sede perfeitos, como vosso Pai que está nos Céus é perfeito” (Mt 5,48); “Sede santos, porque eu sou santo” (Lev 20,7 e 1a Pd 1,16).
O fato de que somos todos pecadores não significa que tenhamos pecado. Somos pecadores na teoria, no sentido de que, se não vigiarmos, poderemos cair em pecado. Não somos pecadores na prática, necessariamente. Se Deus nos convidou à santidade e à perfeição, isso significa que a perfeição é possível!
O meio para atendermos a essa vocação para a santidade está na vocação particular que Deus dá a cada um de nós. Sendo assim, podemos nos santificar tanto no sacerdócio como no laicato, no casamento como no celibato. Dentro do estilo de vida escolhido, podemos ainda escolher qual será nossa profissão. Praticando-a honestamente, poderemos ser santos.
Eis algumas das grandes vocações da bíblia: Sam 3,10: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta”; Isaías 6,8: “Eis-me aqui, Senhor, enviai-me!”; Jer 1,5 e 20,7: “Antes que fosses formado no seio de tua mãe, eu já te chamei para ser meu profeta”; Elias:1a Reis 17,2-5; 19,8-15; Eliseu: 2a Reis 2,9; Maria: Lucas 1,38; Apóstolos (Mt 10,1-5); São Paulo (Atos 9,1-18), e muitos outros. Todas as vocações estão baseadas no amor, na misericórdia, no desapego dos bens terrenos e na gratuidade (não querer nada em troca).
No Evangelho, Jesus chamou várias pessoas a segui-lo, e enviou 72 discípulos a pregarem o Evangelho, dois a dois, na simplicidade e na pobreza (Lucas 10,1-12). Há, no entanto, três grandes vocações, no Novo Testamento, que quase englobam as demais:
1) A do jovem rico (Lucas 19,22-23): vocação para ser apóstolo. Pobreza radical;
2) A de Zaqueu (Lucas 19,1-10): leigo engajado. Pobreza moderada;
3) A do Geraseno (Lucas 8,38-39): única vez em que Jesus manda alguém dizer a todos o que Ele lhe fez. Nas outras vezes Jesus proíbe que se fale alguma coisa. Para o Geraseno, Jesus não exige nenhuma renúncia dos bens. Talvez porque o rapaz já fosse pobre.
O que não podemos fazer é tomarmos a vocação do jovem rico, por exemplo, e ficarmos nos lamentando porque temos família e não podemos renunciar a tudo. Cada um deve descobrir sua própria vocação e pô-la em prática. Deus nos ajudará. Seja qual for sua vocação, Jesus nos dá, A TODOS, uma ordem: a de AMARMO-NOS UNS AOS OUTROS. Veja em João 13, 34, João 15,17, 1a João 4,20, 1a João 3,14. Esse amor deve ser o mesmo que Jesus tem pelo Pai, e o Pai por nós (João 17,11; João 17,26 e João 13,34).
“As coisas impossíveis para os homens, são possíveis para Deus” (Lc 18,27; Mt 17,20 e 19)
A palavra “santo” significa “consagrado”. Pelo batismo nós nos tornamos santos, ou seja, consagrados. O cálice da missa, por exemplo, é santo, ou seja, consagrado, para nele ser colocado o Corpo e o Sangue de Cristo. Nós nos chocaríamos, nos escandalizaríamos se víssemos alguém tomar uma pinga ou mesmo café no cálice consagrado. No entanto, fazemos muito pior com o nosso corpo e a nossa alma, profanando-os com tantas coisas perniciosas.
Em 8/3/2021 eu tive um sonho muito bonito em que eu pregava em estradas poeirentas e para grupos de pessoas reunidas ao longo dessas estradas. A principal frase da pregação que eu fazia, lembro-me de que era mais ou menos isto:
"A chave da santidade é o reconhecimento dos próprios pecados. Geralmente temos mais facilidade em reconhecer os pecados dos outros do que o nosso. E eu sou um deles".
O pecado pode ser grave (mortal) ou leve (venial). Diz São João em 1ª João 5,17: “Toda iniquidade é pecado, mas há um pecado que não conduz à morte”. E no vers. 16B, acrescenta: “...Existe um pecado que conduz à morte”.
A Igreja ensina que há três condições para que um pecado seja grave:
primeira – a matéria seja grave;
segunda- a pessoa tenha consciência do que está fazendo;
terceira- a pessoa tenha pleno consentimento do que está fazendo.
Por exemplo: nem sempre matar uma pessoa é pecado. Vou dar dois exemplos: um ladrão mata alguém para roubar: isso é pecado grave. Mas se alguém, que estava sendo roubado, mata o ladrão em legítima defesa: isso não foi pecado algum. Veja bem:
1- a matéria foi grave nos dois casos, pois alguém morreu.
2- nos dois casos houve plena consciência do que se estava fazendo. Ou seja, os dois estavam conscientes e sabiam que matar é pecado e crime.
3- Não houve pleno consentimento por parte daquele que estava sendo roubado, ao passo que houve pleno consentimento naquele que estava roubando. Aí está a diferença entre pecado e não pecado.
Devemos buscar a santidade por vários motivos:
-sermos agradecidos a Deus que nos criou, nos redimiu, nos dá uma vida eterna;
-para participarmos dessa vida eterna;
-para estarmos mais de acordo com o projeto de Deus ao nos criar. Como o liquidificador não foi feito para lavar meias (e não fazemos isso), o nosso corpo não foi feito para o pecado (e fazemos isso). Pecar é, portanto, como lavar meias no liquidificador. Nós somos a imagem e a semelhança de Deus. Quanto mais nos adequarmos a essa semelhança, mais feliz seremos.
-para sermos realmente felizes. O pecado, principalmente quando é um vício, nos escraviza. A santidade nos liberta e nos enche de alegria, paz, bem-estar e uma verdadeira segurança.
No mundo de hoje, é muito difícil seguir o caminho da santidade. Há maneiras muito fáceis de se voltar contra o que Deus quer para nós. A felicidade nos é apresentada nas coisas materiais e na satisfação de nossas necessidades biológicas, e, pior ainda, nas falsas necessidades biológicas. O que foi criado conosco, por Deus, para conseguirmos viver uma vida tranquila na Terra antes de irmos à nossa morada definitiva no céu, torna-se, graças aos vícios e ao mal, um verdadeiro inferno.
A santidade não depende apenas de nosso empenho pessoal: é preciso que a peçamos constantemente, diariamente a Deus. Ele facilitará nosso caminho se o deixamos agir em nós. Ele nos dará forças para atingirmos a santidade. Peça-a em todo o seu tempo de oração. Não deixe de pedi-la um dia sequer!
Sugestões:
1- Em primeiríssimo lugar, reconhecer os próprios pecados da mesma maneira como reconhecemos de imediato os pecados alheios.
2- Procurar ser perfeito em tudo o que faz;
3- Pedir humildemente perdão quando errar, e recomeçar a luta.
4- A santidade não está em não pecar, mas em não desistir da luta e sempre procurar estar na presença de Deus.
– 09/03/16
Eu estava fazendo uma meditação num local arborizado e caiu no meu livro um tipo de besouro que me lembrou o bicho barbeiro. O Mal de Chagas é transmitido por esse bichinho.
A Irmã Clara tinha essa doença. Às vezes ela ia conosco nas escaladas dos montes de Minas, mas tinha que ser sempre amparada. Ela nos acompanhava quando íamos ao monte Itaguaré, que é de fácil acesso. Mas na última vez um padre Belga, forte, teve que trazê-la carregada para casa. Ela faleceu pouco tempo depois. Todos a amavam.
A doença nos prepara para a morte, e prepara também os que cuidam de nós e nos amam.
Meu pai deu exemplo de coragem e paciência quando sofreu por um ano com um câncer que lhe ceifou a vida. Se ele fez alguma coisa errada na vida, corrigiu-a com esse exemplo de atitude diante da doença. Não sei se tenho toda essa coragem! Anteontem ele faria 95 anos...
Quando a pessoa sofre muito, chegamos a dar graças a Deus quando morrem, não é mesmo? Isso aconteceu com a morte de minha mãe. Eu dei graças a Deus de livrá-la do sofrimento inevitável.
A morte é apenas uma passagem. Muitas vezes eu conversei com a minha mãe sobre sua possível morte. Ela levava na brincadeira, mas proibiu-me que cantasse determinada música no velório. Eu a desobedeci.
Deus não olha a morte como nós a vemos. Ele nos vê tanto do lado de cá como do lado de lá, como se estivéssemos abrindo um portão num muro: o observador do 5º andar nos antes e depois de atravessá-lo, e o mesmo ocorre com Deus. Para Ele, não existe a morte. Existe apenas uma passagem, que, se nos conservarmos fiéis a Ele, será uma passagem suave, sem problemas.
O segredo para essa passagem tranquila é uma vida santa, sem conluio com o pecado. Confiar em Jesus, que por nós morreu, morreu por amor.
Isaías 49,14-16, a leitura de hoje, nos diz: “Sião dizia: “O Senhor me abandonou; o Senhor se esqueceu de mim”. Por acaso pode a mulher se esquecer da criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Mas ainda que as mulheres se esquecessem de seus filhos, eu não me esquecerei de ti! Eu te tatuei na palma de minha mão”!
Gente, como isso é bonito! Veja que Deus não fala que tatuou o nosso nome na palma de sua mão, mas tatuou a nós, nossa pessoa.
Diz o Beato Carlos de Foucauld que, quem crê realmente, não tem medo, porque sabe que Deus está sempre por perto e pronto para nos ajudar.
Caros leitores, animem-se! Levantemo-nos de nossas poltronas, larguemos um pouco o bendito computador ou o celular, peguemos um copo de qualquer coisa (suco, vinho, refrigerante, leite), e demos um “tim-tim” à nossa vida! E digamos: “Eu sou tatuado(a) na palma da mão de Deus! Ele me ama e nunca me abandonará, como a maioria das mães, que não abandonam os seus filhos.
MATEUS 2,1-12
A festa da Epifania refere-se à manifestação de Jesus Cristo a todos os povos pagãos (=nações) simbolizados pelos três magos. Os três presentes que eles deram são altamente simbólicos: Incenso: Jesus é Deus; Ouro: Jesus é rei; Mirra: Jesus é homem.
Essa realidade se repete em nós pelo Batismo, mas com uma diferença: Jesus se torna homem, mas nós nos tornamos "divinos" = filhos de Deus.
As últimas estatísticas mostram que somos três bilhões de cristãos num mundo de sete bilhões de pessoas. Os quatro bilhões que não conhecem ou não seguem a Cristo, são esses nossos "reis" magos atuais. E como os três do evangelho de hoje, eles também querem nos oferecer seus dons, suas qualidades, algumas virtudes que talvez ainda não temos. Se nós, cristãos, aceitássemos ouvir o que eles têm a dizer, talvez prestassem mais atenção no que nós temos a dizer.
A grande diferença entre nós, cristãos e eles, não-cristãos, é que eles praticam (e às vezes selvagemente) o que pregam; nós, como dizia Jesus aos judeus, não movemos, muitas vezes, nem uma só unha para praticar o que pregamos.
O padre Carlos de Foucauld, agora beatificado, foi viver sua vida entre os tuaregues, o povo mais atrasado da terra. Ele nunca pregou uma só palavra: sua pregação era a ação. Dizia sempre: "Devemos gritar o evangelho com a nossa vida!".
Na primeira leitura, Isaías diz que Jerusalém era a luz que norteava os outros povos; no evangelho, Mateus diz que Jesus é essa luz que atrai a todos, sem distinção. S. Paulo, na segunda leitura, diz que o Evangelho, praticado, é a luz visível que vai atrair aos demais para a luz invisível, que é Cristo.
Seja a nossa vida de tal modo agradável a Deus, que possa também iluminar aos que ainda vivem nas trevas, para que encontrem Jesus, o caminho da luz, e a própria luz!
Na dita Epístola de Barnabé (2ª leit. 4ª f. 18ª sem. com.) vemos um resumo de como deve ser a vida do cristão católico:
- Amarás quem te criou;
- Terás veneração por quem te formou;
- Darás glória a Jesus, que te remiu da morte;
- Serás simples de coração e rico no espírito;
- Não te juntarás aos que andam pelo caminho da morte;
- Terás aversão por tudo quanto desagrada a Deus;
- Odiarás toda simulação;
- Não desprezes os mandamentos do Senhor;
- Não te exaltes a ti mesmo. Sê humilde em tudo!
- Não procures a tua glória;
- Não faças mau projeto contra o próximo;
- Não te entregues à arrogância;
- Ama teu próximo mais do que a tua vida;
- Não mates o feto por aborto nem depois do nascimento;
- Tem em mãos teu filho ou tua filha e desde criança ensina- lhes o temor do Senhor.
- Não cobices os bens do teu próximo, nem sejas avaro.
- Não te unas de coração aos soberbos, mas sê amigo dos - humildes e justos;
- Tanto quanto te acontece, recebe-os como um bem, - sabendo que nada se faz sem Deus;
- Não sejas inconstante e sem palavra;
- É laço de morte a língua dúplice;
- Partilharás tudo com o teu próximo e não dirás ser propriedade tua o que quer que seja.
- Se sois coerdeiros das realidades incorruptíveis, quando mais sois coerdeiros daquilo que se corrompe!
- Não sejas arrebatado de língua;
- A boca é cilada mortífera.
- Tanto quanto puderes, por tua alma sê casto;
- Não tenhas a mão estendida para recebe e encolhida para dar!
- Ama como à pupila dos olhos todo aquele que fala a Palavra do Senhor, guarda na memória, dia e noite, o dia do juízo e procura diariamente a presença dos santos, estimulando pela palavra, exortando e meditando como salvar a alma por tua palavra ou trabalhar com tuas mãos para a remissão dos pecados;
- Não hesites em dar, nem dês murmurando, pois bem sabes quem é o remunerador da dádiva;
- Guarda o que recebeste, sem tirar nem pôr;
- Seja-te perpetuamente odioso o maligno;
- Julgarás com justiça;
- Não fomentes dissídios, mas esforça-te por restituir a paz, reconciliando os contendentes;
- Confessarás teus pecados. Não vás às orações com a consciência carregada. TAL É O CAMINHO DA LUZ!
O Livro do Eclesiástico 2,1-6, lembra que seremos provados no decorrer de nossa vida, mas devemos, com muita paciência, não nos separar de Deus, não ter pressa nos momentos das adversidades, e aceitar tudo o que nos acontecer, pois sabemos que Deus é misericordioso, é nosso Pai e nossa Mãe, e não vai nos deixar para trás. Termina no versículo 11: "Deus é compassivo, misericordioso, perdoa os teus pecados e te salva na tribulação".
22/02/2019
Vi uma escada que terminava numa parede, sem continuidade. Eu participava da Santa Missa numa das igrejas da cidade. Ela não leva a lugar algum! Fiquei refletindo sobre isso. Lembrei-me que os vícios são como essa escada: não levam a lugar algum.
A escada é bem feita, está conservada, é bonita, mas não tem serventia, não conduz a nada. Os vícios também são vistosos, prazerosos num primeiro momento, mas empacam nossa vida, ou até pior, levam-na ao abismo.
A escolha mais inteligente de uma pessoa que tenha algum vício é deixá-lo. E o primeiro passo para deixá-lo é conscientizar-se dele, ou seja, admitir que tem aquele vício.
É muito comum os viciados em droga, ou álcool, ou cigarro, dizerem que deixam o vício quando bem entenderem.
Não é bem assim. É difícil, doloroso e requer ajuda. Sem ajuda dificilmente alguém consegue deixar qualquer vício.
A liberdade se mostra agradável e dá à pessoa um alívio incrível! Ele muda de escada: da escada que não leva a lugar algum, ele passa a galgar uma escada que a leva ao Paraíso.
Há escadas que não levam a lugar algum, como os vícios. Há escadas que levam ao céu, como as virtudes.
(outubro 2016)
Em Lucas 10,17-24), Jesus diz aos setenta e dois discípulos para se alegrarem não por eles poderem vencer os demônios ou pisar em cobras e escorpiões, mas porque seus nomes estão escritos nos céus. Como fazer para ter o nome escrito no céu?
O Cônego Celso Pedro da Silva, nosso amigo, na agenda bíblica de 2016, comenta esse trecho no dia 01/10, contando que o Dom Luciano Mendes de Almeida, bispo famoso de São Paulo, estava concelebrando a missa em rito oriental, muito mais solene que o nosso rito latino, com toda aquela pompa, na Ucrânia, na cidade de Kiev, presidida pelo Metropolita (o bispo da cidade).
Uma criança não se comportava, “escapava da mãe, tentava entrar no espaço fechado do altar oriental: a criança corria, a mãe corria, a missa longa, todos em pé. Dom Luciano, sentado na entrada do altar, pegou a criança” e a segurou nos braços. (Penso naqueles homens rudes pasmos por vê-lo fazer isso, indignados com a criança e a mãe).
Terminada a missa, a criança correu pra a mãe e a mãe gritou para D. Luciano: “Teu nome está escrito no céu”! Conclui o Cônego: “Eis o que escreve o nosso nome no céu”!
Lembro outro fato ocorrido com ele: na assembleia dos bispos, muitas vezes ele ficava no salão varrendo o chão para as reuniões do outro dia, sem ninguém ver (Se eu estou contando isso, é porque um dia alguém viu).
Meditando sobre isso, tentemos perceber em nossa vida fatos que permitiram ter o nosso nome escrito no céu, baseado nesse comentário do Cônego Celso Pedro!
Você vai ver como muitas vezes atos até impensados de caridade foram mais fortes para que o nosso nome esteja escrito no céu, do que outros, aparentemente santos, mas que foram feitos com arrogância, ou para “cumprir tabela”, ou porque não havia um jeito de escapar daquilo, ou feitos sem amor, apenas por pura obrigação.
São os pequenos gestos que nos aproximam de Jesus, como o fez Santa Teresinha, que comemoramos nestes dias (2/10). Para termos nosso nome escrito no céu, é preciso amarmos como Jesus amou, como Jesus nos ama.
Por que muitos católicos mudam de religião?
Eu acredito que o motivo mais comum é porque lá eles se acham acolhidos e na Igreja Católica, não.
É impressionante o pouco caso que muitas vezes fazemos em relação aos que nos procuram! Às vezes os atendemos fazendo outras coisas, como se eles estivessem nos incomodando. Aliás, muitas vezes o objetivo é esse mesmo: mostrar-lhes que estão incomodando! E fazemos questão de olharmos para o relógio se a pessoa estiver demorando!
Jesus sempre encontrava tempo para atender a todos. Quando ele não podia atender, se retirava a lugares desertos ou ia para outros lugares. Sabia que, se ficasse, iria atender. Nós reservamos nosso tempo para aquilo que achamos mais importante. Entretanto, pergunto: o que é, realmente, importante?
Segundo a bíblia, o primeiro mandamento é o amor a Deus. O segundo, amar ao próximo. Nunca vi na bíblia que o segundo mandamento seria celebrar a missa, ou benzer a água e objetos, ou fazer casamentos, ou coisas desse tipo que damos como “álibi” para não atendermos pessoas que não “programamos” atender naquele dia.
Talvez quando assim procedemos, queiramos ser tratados como “egrégios senhores” e não como humildes servidores, humildes pastores do povo. Ora, não somos senhores! Somos pastores, vivemos ou pelo menos deveríamos viver no meio do povo!
É incrível como certos evangelizadores, como nós, sacerdotes, somos tratados como “egrégios senhores”!
Precisamos, pois aprender com Jesus a sermos acolhedores, e com muitos outros evangelizadores de outras denominações religiosas.
Precisamos também aprender com os profissionais de marketing de vendas. Eles atendem bem para ganharem compradores e manterem seus empregos. Nós devemos trabalhar e atender bem para ganharmos pessoas para o Reino de Deus. Se não fizermos isso, quem não vai pra lá somos nós!
Os católicos que se reúnem em comunidades de base ou em grupos pequenos perseveram mais na religião. Os que só vão à missa dominical e não participam de mais nada, esses são os que mais mudam de religião. Não têm raízes que os pequenos grupos fazem aparecer.
Quando eu era criança um tio meu que nunca tinha ido à missa, foi, certo dia. Ele não tinha uma das pernas. Sentou-se no lado esquerdo e um congregado mariano disse que lá era lugar deles. Foi para o lado direito e uma senhora do Apostolado lhe disse que lá era o lugar delas. Ele saiu dali e nunca mais voltou à igreja.
Os católicos que continuam católicos o fazem por garra, por amor, pois, se dependessem de nosso bom atendimento... Lembro que a equipe de acolhida não substitui a boa acolhida que o padre ou o evangelizador deve proporcionar.
“Eu vim para servir e não para ser servido” (Mateus 20, 28; Marcos 10, 45).
Outra coisa importante é que não precisamos ter sempre respostas para tudo que nos perguntam. Quando você não souber resolver a questão, diga isso! Seja honesto (a) com os que o (a) procuram! Pelo menos a pessoa conseguiu desabafar-se, e isso talvez era a única coisa que ela queria.
Dar uma solução ou uma resposta precipitada e sem conhecimento de causa pode piorar a situação da pessoa. Não sou dono da verdade só porque sou padre, ou pastor, ou quem atende. Muitas vezes respondemos logo, nem ouvimos direito a pessoa, para nos livrar dela. Isso é quase um homicídio!
Tive um amigo que era muito mau. Resolveu mudar de vida e procurou um padre para se confessar. Queria falar com o padre, e não apenas pedir perdão. O padre ouviu todas as barbaridades que ele lhe falou e, em vez de orientá-lo, mandou que ele rezasse algumas ave-marias e não lhe disse nenhuma palavra. O rapaz saiu da igreja e acabou entrando nas Testemunhas de Jeová. Eu o conheci já nessa seita. Eles o atenderam bem!
As pessoas que nos procuram precisam saber quais pontos de suas vidas estão corretos. Às vezes não precisamos dar uma nova “receita” de vida. Elas precisam perceber os caminhos do Espírito Santo em suas vidas. Se lhes dermos respostas prontas, sem levar isso em consideração, estamos “matando” a vida espiritual das pessoas, e tudo o que elas já conseguiram de bom nesse aspecto.
O Espírito Santo não está apenas com o (a) evangelizador (a), mas “Ele está no meio de nós”! Se ele está no meio de nós, por que não considerarmos válidas certas ações e conquistas das pessoas que nos procuram?
O melhor modo de cumprirmos o primeiro mandamento é capricharmos no segundo, ou seja, amarmos o próximo, atendermos o próximo quando de nós se aproxima. Esqueçamos o resto, ou, se não pudermos, marquemos um outro encontro. Ela vai entender.
Certo dia um confrade de Santo Tomás de Aquino o interrompeu de seu estudo gritando: “Frei Tomás! Venha ver um boi voando! Santo Tomás levantou-se e foi à janela ver o boi que voava. O seu colega, rindo, lhe disse: “Que ingenuidade, frei Tomás! O senhor sabe que bois não voam”! E Santo Tomás replicou com tristeza: “Pois eu preferiria ver um boi voando a ver um religioso mentir”!
É impensável a um evangelizador mentir, mesmo por brincadeira. Quando não der para falar a verdade, é melhor não dizer nada, ou simplesmente tornar pública a impossibilidade de se falar naquele assunto, mas nunca, nunca mentir.
Diz Jesus em Mt 5,37: “Seja teu falar sim, quando for sim; não, quando for não. Tudo o mais procede do maligno”.
Não é bem uma mentira, mas é incrível como no seminário, principalmente nos missionários, escondem a verdade das missões. Fazem teatrinhos mostrando coisas poéticas, melosas, e não mostram a realidade nua e crua das terras inóspitas que os coitados dos missionários vão enfrentar. Que haja, sim, um pouco de poesia, mas não se esconda a dificuldade da missão. Vai para as missões quem achar que é, realmente, sua vocação. Ninguém seja “enganado” nesse assunto!
EFÉSIOS 4,32-5,3.6-8.13
Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo. Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados;
E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave.
Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.
Portanto, não sejais seus companheiros.
Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz.
Vers. 13: “Tudo o que é condenável e é manifestado pela luz, é luz”.
Quando a pessoa se arrepende de algum pecado e o confessa com sinceridade, sem mentiras, isso se torna luz, esse ato de amor e de sinceridade se torna um elemento verdadeiro para a santidade.
SÃO CARLOS BORROMEU (1538-1584)
Texto pronunciado no último sínodo de que participou (Of. Leit. 4 de novembro)
“Somos todos fracos (...) mas o Senhor Deus nos entregou meios com que, se quisermos, poderemos ser fortalecidos com facilidade. Para ter vida íntegra, ser continente, ter um comportamento santo, é preciso jejuar, orar, fugir das más conversas, fugir das familiaridades nocivas e perigosas”.
O santo cardeal continua, lembrando que devemos nos preparar mentalmente para a oração comunitária, a fim de a aproveitarmos.
SE uma fagulha do amor divino já se acendeu, não mostrá-la logo, não expô-la ao vento; manter encoberta a lâmpada para não se esfriar e não perder o calor, ou seja, fugir das distrações, ficar recolhido em Deus.
Para uma boa pregação, estudar e se preparar. Pregar primeiro com a vida e com o comportamento, para não pregar uma coisa e fazer outra. Não negligenciar a si mesmo.
A oração mental que precede acompanha e segue todos os nossos atos: meditar no que está fazendo, elevando aquilo a Deus; não fazer nada distraidamente.
Acho esse trecho do discurso dele muito útil para a vida dos evangelizadores. Às vezes lemos as leituras do Ofício das Leituras (quando as lemos!) tão automaticamente que nem tomamos conhecimento do que lemos (infelizmente eu sou um deles).
São Carlos Borromeu lembra: meditar sempre, nunca se distrair nas orações.
Já o Padre Howard, que nos anos 90 trabalhava no Brooklin (lugar pobre) dos USA, disse num retiro de Atibaia que se aproveitarmos pelo menos cinco minutos de nossa Hora Santa, já a aproveitamos bem.
Fica aí o impasse. Eu prefiro mais a opinião do Howard. Devemos caprichar, mas se não conseguirmos, não desanimar: aproveitar os minutos que conseguimos nos concentrar.
Para ouvir enquanto lê o artigo: MISSA DE ANGELIS- (YouTube): https://www.google.com/url?q=https%3A%2F%2Fyoutu.be%2F37q9zIznj2M&sa=D
Fiz uma experiência num mosteiro que fica no interior do Estado. Quis fazer uma experiência de vida contemplativa.
Deram-me a maior cela do noviciado: uma cama, uma pia, uma mesa e um guarda-roupa. Fiquei, portanto, no “coração” da casa.
Suas janelas davam para um bananal, em que trabalhei no período da tarde, desmatando-o: o capim “gordura’” estava do tamanho de um metro.
Cheguei lá à noite. No dia seguinte, acordei com os monges, às 4:30 hs, tomei banho num dos chuveiros do andar (eram cinco banheiros com chuveiros) e, às 5 horas, participei com eles do Ofício das Leituras, Laudes e meditação particular.
Chamou-me a atenção o fato deles valorizarem e muito o sacerdócio! Eu era tido como “mais importante” do que eles! Isso ajudou-me muito na compreensão do meu sacerdócio, da dignidade mas também da responsabilidade sacerdotal.
Às 7 horas eles foram para a missa conventual na igreja pública do mosteiro, mas eu combinei de celebrar a missa para alguns monges que não podiam ir à igreja por vários motivos, sobretudo de saúde.
Às 7:45 hs foi servido o café, com pão feito em casa, manteiga e mel (produzido lá mesmo).
Após o café, fui encarregado de transcrever os sermões de um dos monges, muito inspirados, para um livro. O livro foi impresso e eu ganhei um exemplar. Realmente, os sermões eram inspirados. Gostei muito de ouvi-los para digitá-los.
À tarde eu capinava entre as bananeiras, também num certo caminho de via-sacra num pequeno bosque, e o cemitério deles e a horta.
Às 9 e às 15 havia uma pausa para a Noa e a Tértia (oração das 9 e das 15). Às 15:15hs havia um lanche (que ninguém é de ferro), constituído por frutas ou café com leite e pão ou com bolo ou coisas desse tipo.
O almoço vinha precedido da oração do meio dia e seguido de um tempo de descanso até às 13 horas quando se reiniciava o trabalho.
Ás 17 horas se parava o trabalho e quem quisesse podia tomar banho. Logo após havia as Vésperas, o jantar e um tempo em que a conversa era permitida, num espaço de uma hora mais ou menos. Às 20:30 íamos para a igreja rezar as Completas (oração para o repouso noturno) e nos recolhíamos às 21 horas, em que se observa o silêncio rigoroso.
A alimentação era frugal, pouca carne. Muitas vezes a mistura era apenas batata doce frita.
Em todas as refeições são lidos livros: no café da manhã, a Imitação de Cristo e a Filoteia (de S. Francisco de Salles). No almoço e no jantar, um romance de aventura “light”. Lemos naqueles meses o desbravamento do Polo Norte.
Televisão, nem pensar. Jornal, só de três dias atrás, o Estadão. Só em grandes ocasiões se via tevê, como na visita do Papa ao Brasil, numa sala especial.
O cemitério é feito de covas rasas, apenas com uma cruz e o nome do monge falecido.
O vinho é servido nas grandes festas religiosas e quando morre um monge. Aí pode-se conversar no almoço, que é feito apenas com uma leitura do evangelho. A morte do monge é tida como a festa de sua entrada no céu. Isso é que é fé!
Pedi ao superior que me deixasse rezar as orações fora do grupo dos monges, porque eu não sabia acompanhar aqueles belos cantos gregorianos e tinha medo de errar. Ele permitiu. Eu rezava ali mesmo, mas sem fazer parte do grupo. Eles têm um costume rígido. Por exemplo, quando um monge erra na melodia dos salmos, tem que ajoelhar no meio da igreja como pedido de perdão!
As bibliotecas eram um caso a parte. Havia duas: a que eu frequentava, dos noviços, e uma outra, fechada a sete chaves, em que só os monges podiam entrar, por causa dos livros raros que ali são guardados. Eu apenas a visitei e vi uma bíblia autografada por Santo Antônio Maria Claret!
No meu trabalho externo de capinar era acompanhado, vez por outra, de um ou dois noviços, com quem eu trocava ideias sobre aquele tipo de vida. Outros três trabalhavam na limpeza interna. Eu limpava dois pátios, além do que já falei.
Uma das conclusões a que cheguei é que é loucura querer viver um tipo de vida desses sem ter uma profunda vocação. Quem a procurar por timidez, ou por não querer enfrentar os problemas que o cerca, não vai aguentar: vai cair numa depressão profunda. Não é uma vida fácil!
Entretanto, nunca vou me esquecer das horas maravilhosas que ali passei, diante do Santíssimo, naquele silêncio delicioso!
Eu me sentava no chão da capela dos noviços, quando estava sozinho, para fazer a Hora Santa seguida da Via-Sacra.
O bosque também é propício para uma boa e silenciosa caminhada: as árvores são altas, com bastante espaço para se transitar entre elas.
Meditei também muito sobre a Eucaristia, com um livro do Pe. Teilhard de Chardin: quem comunga, como numa corrente elétrica, recebe toda a energia positiva contida na Eucaristia, que a absorveu dos “elementos cósmicos que a rodeavam” (diz o T. Ch.).
A Eucaristia absorve tudo o que é bom ao seu redor e neutraliza tudo o que é mau.
Concluindo, digo que aproveitei muito esses meses de mosteiro. Nunca vou me esquecer da hospitalidade. No refeitório há sempre uma mesa preparada com pratos e talheres para possíveis visitantes.
Foi lá que tive a ideia de continuar em casa, no meu dia-a-dia de aposentado, uma vida de eremita autônomo, não só orando, mas também me preparando para participar dos problemas dos que sentem dificuldades em muitos aspectos da vida externa, fazendo o que for do meu alcance.
Precisamos encontrar mais tempo em nossa vida para uma oração vibrante, gostosa, como aquela chuva fina que vence a seca pela constância em cair, mesmo fraquinha. Aprendemos a rezar, rezando. Se a gente acrescentar 1 minuto por semana à nossa oração, vamos estar rezando uma hora a mais no final de um ano.
Também há o fato de aprendermos a nos colocar desarmados diante de Deus, pobres, humildes, desnudados de nossas vaidades e ambições, a fim de nos capacitarmos num melhor atendimento das pessoas e nos achegarmos, por meio delas, a Deus. Graças vos dou, meu Deus, por todas essas oportunidades de crescimento que me destes!