Um dos dias mais dolorosos da minha vida foi sem dúvida o dia da morte do meu irmão.
Soube do acontecimento, tinha terminado um concerto que decorreu de forma maravilhosa. Depois de a orquestra interpretar todo o repertório de forma fantástica, o público fez questão de não arredar pé, aplaudiu durante cerca de dez minutos, pelo que, pela primeira vez na minha carreira enquanto maestro, fiz a orquestra regressar ao seu lugar e tocar quase mais meia hora.
Diz-se por vezes que dois acontecimentos fantásticos nunca se seguem consecutivamente... E assim foi nessa noite, à saída daquele excelente auditório em Berlim, onde um público oriundo de um povo ao qual chamam de "frio", mas que nos proporcionou a maior ovação de sempre: muito gratificante para um artista! E foi assim nessa noite, dizia eu, que ao chegar ao final de tão empolgante evento, recebi um telefonema para me informarem da morte do meu irmão, vítima de um trágico acidente de carro. Ele tinha contratado pela primeira vez na sua vida um motorista, uma vez que queria aproveitar as deslocações ao máximo para trabalhar... - Ele era um daqueles casos de pessoa doente pelo trabalho - alguém que não respeitou o sinal vermelho de um semáforo num cruzamento da cidade e que chocou com a sua frente precisamente na porta de trás onde o meu irmão seguia trabalhando. Foi uma morte trágica! Viveu a sua vida trabalhando, morreu trabalhando... Graças a Deus, que durante a sua vida, também soube ter os seus momentos, conhecer coisas, conhecer o mundo, criar uma família! A família dele é a minha família... Que foi ambição que nunca tive em possuir... Por isso, ainda bem que o meu irmão teve cinco filhos, fê-los por ele e fê-los por mim!
Nessa altura, também o meu pai já tinha desaparecido e a minha mãe encontrava-se a gozar a sua abençoada e merecida reforma, espalhando charme pelo mundo, acompanhada por uma amiga nas mesmas condições... Podia, queria e merecia! Ainda bem! Apoio e fico feliz por ela! Apesar dos seus cerca de setenta e cinco anos nessa altura e depois de ter ultrapassado o ataque que sofreu do cancro, a vida parece que lhe revisitou o corpo e a mente e voltou a ser nova outra vez... A sua amiga, cerca de 15 anos mais nova e que ela conheceu nas aulas de ginásio e de hidroginástica, após o falecimento do meu pai, fez-lhe muito bem na sua vida! Penso que a minha mãe nunca tinha usufruído de uma amizade daquelas em toda a sua vida!
Após ter conseguido manter o património intacto deixado pela família e que o meu pai tão bem geriu, apesar de todas as crises económicas e financeiras porque tem atravessado o mundo, o meu irmão finalmente parecia começar a relaxar um pouco da azáfama, desacelerar um pouco a pressão que, como o sangue, lhe corria nas veias... Tentava o meu irmão acompanhar mais a minha mãe nas suas prodigiosas e bem planeadas viagens... Quando lhe acontece isto: este brutal acidente!
Há muito que a família não se reunia no Arvorete! Infelizmente, o motivo não era festa, mas o velório do meu irmão. Alguns dos meus primos pequenos, filhos dos primos alentejanos, ainda eu não os conhecia ou alguns mal os tinha visto a correr... Os mordomos do Arvorete de antigamente, também já tinham falecido - eles já eram velhinhos quando eu era criança. Isto de ser um cidadão do mundo, sem saber onde se reside, que passa mais tempo em hotéis em qualquer canto do mundo, do que na sua própria casa... É uma missão difícil. A vida passa ao nosso lado e não damos por isso! Até a pronúncia do português correto me parecia que já o tinha perdido um pouco... Mas lá estavam todos: os filhos e os netos do Aníbal e da Maria da Cruz, meus tios alentejanos, gente boa, humilde, simples, simpática, apesar de rica, mas principalmente de alma rica! Dulcineia, o grande amor do meu irmão, toda a vida inseparáveis, lá estava, sempre formosa, dentro da sua introspetividade enlutada, apoiando os seus filhos, agora órfãos de pai. O motorista recentemente contratado, apesar de ter sobrevivido, pois a pancada foi no lado oposto do carro e não o atingiu, encontrava-se ainda internado, pois havia apenas três dias sobre o dia do acidente. Aproveitei para consolar a inconsolável minha querida mãe, Lúcia, sempre acompanhada pela sua amiga Fátima, da qual recebia também todo o apoio e carinho no consolo. Todas as restantes caras eram estranhas para mim: empregados das empresas, colaboradores diretos ou indiretos do meu irmão.
Nesse dia, após uma longa conversa com a minha mãe, que apesar de coração esmagado, nunca perdia a racionalidade nos momentos... Nessa altura, era ela a anciã, da qual deveriam emanar todas as decisões importantes para o futuro. E assumiu de facto essa posição, para me tentar convencer do que eu não queria que acontecesse. Nem isso me tinha alguma vez passado pela cabeça! Mas pela cabeça da minha mãe passou... Propôs-me ela, quase me obrigou, a tomar as rédeas dos negócios e substituir o meu malogrado irmão. Eu ainda argumentei que não tinha formação em gestão, nem prática, que não conhecia os negócios por dentro, que tinha a minha carreira internacional de músico e maestro... Ao que ela me respondeu que muito pior estaria Dulcineia, que eventualmente poderia ser a segunda opção, mas que não era do sangue da família... Que tínhamos que proteger o nosso património... Transmitir às pessoas responsáveis nas empresas e todos os colaboradores que a família continuava a ter a principal voz nas decisões das mesmas. Apesar de eu não ter formação adequada, ainda assim tinha formação e conhecimento... Depois de "enterrar" o meu irmão, demorei dois ou três dias em reflexão e por fim decidi-me! Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida! Suspender a minha "brilhante" carreira de músico e maestro de orquestra internacional (passo a falta de modéstia), para me passar a dedicar à carreira da gestão!
A morte é de facto um tema sobre o qual a maioria das pessoas foge de abordar e tenta passar ao largo, fingindo que nada tem a ver consigo. Apesar de ser um "lugar-comum", a realidade é que a morte é aquilo que mais temos decerto ao nascer. Assim como a única certeza que temos antes de nascermos, para além dessa (da morte), que é de todos vimos despidos ao mundo. Despidos de tudo e em bruto... Despidos não só de roupa, mas principalmente e logicamente de ideais, de educação, de formação, de conceitos e preconceitos. Somos uma pedra em bruto, cuja diferença que temos de um diamante é o facto de trazermos connosco a capacidade para aprender, para sentir, para falar, para amar, um potencial de crescimento físico e intelectual sem limites. Tudo coisas boas, portanto, mas que, com o tempo e consoante as criaturas e vivências que vamos adquirindo, assim ficamos bons como nascemos ou nos tornamos maus, conforme as circunstâncias que a vida nos proporcionar.
A vida é portanto um caminho de enriquecimento cuja meta única que sabemos é a morte. A morte que, para os materialistas é o final de tudo e para os que acreditam na eternidade, é apenas uma passagem para o bem e para a purificação do espírito e o reencontro com o Criador e o contacto com toda a beleza e amor que o nosso conceito de paraíso nos pode proporcionar. Morrer é assim para estes o final de um estado material. E tudo o que aprendemos, fizemos, criámos, realizámos e manifestámos não se queda pelo corpo, mas continua para sempre.
Muitos dirão que a morte não é justa... Mas o que é justo? Viver em sofrimento? Viver em estado vegetativo? Viver em estado de coma, sem a tomada de conhecimento do que se passa à nossa volta e sem podermos reagir perante os acontecimentos? No caso do meu irmão... Deixou 5 filhos. Mas, seria mais grave deixar 5 filhos e uma fortuna, ou deixar 5 filhos e sem condições de sobrevivência? Qual das mortes seria mais injusta? A justiça é também um conceito não consensual: o que para uns é considerado justo, para outros nem por isso... Portanto, a única justiça que existe é aquela que é vista pelo lado e com os olhos do amor e da misericórdia e não, a que é vista "sem olhos" e se torna por isso cega.