Durante a minha vida, foram algumas as viagens que realizei. Umas idealizadas, outras inesperadas, umas em trabalho, outras apenas para conhecer o mundo e passear.
A certa altura da minha vida, decidi que não iria conhecer mais do mundo, enquanto não conhecesse mais do meu país. Viajei por isso sozinho ou acompanhado com amigos, umas vezes homens, outras vezes mulheres, conforme a paixoneta do momento, um pouco por todo o Portugal.
Como já conhecia melhor o Algarve, uma das minhas primeiras viagens mais a sério foi pelo Alentejo litoral e costa Vicentina. Rumei a sul, de carro, pelas povoações mais junto à costa: após a cidade de Setúbal, contornei o estuário do Rio Sado, passei em Alcácer do Sal e desloquei-me à costa apreciar a zona da Comporta. Depois, desci em direção a Grândola, Melides, Santo André, Santiago do Cacém e Sines. Todos os caminhos, todas as paisagens, a flora e a fauna, são de uma riqueza imensa. Estava passado o primeiro dia. Em Sines havia hotel reservado e lá foi também o jantar e a preparação e descanso para continuar a viagem. No dia seguinte, o passeio continuou perto da maravilhosa costa. E por entre arvoredo, chegando perto de praias desertas e outras nem por isso, com a sorte de o estado do tempo estar propício a belas fotos e excelentes avistamentos de mar e serra, segui mais para sul, visitando sucessivamente o Cercal, São Luís, Vila Nova de Milfontes e a vila de Odemira, sede do maior concelho em área do país. A tarde desse dia, levou-me a penetrar o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, lugar quase inexplorado no nosso país, onde o mar se junta à terra ora em praias quase selvagens, ora em fortes arribas de rocha impenetrável. São Teotónio seria a próxima paragem, antes de rumar ao Oeste Algarvio, por onde se entra em Odeceixe. Esta demorada e pouco movimentada estrada por esta altura do ano, ainda nos conduz a Aljezur, Bordeira e Vila do Bispo. Por umas povoações, apenas uma passagem lenta é necessária, mas por outras, é essencial parar, apreciar e respirar. No caso de Sagres, ponta mais a sudoeste de todo o continente europeu e onde termina esta viagem, é mesmo necessário sentir o arrepio causado pela vertigem da arriba de rocha onde o mar vem beijar a terra rochosa e fazer colidir a espuma do seu imenso azul contra a parede cinza e húmida. O local que une o Atlântico Oeste do Atlântico mediterrânico do sul de Portugal é o símbolo do ponto de partida de todas as descobertas e conquistas portuguesas além-mar. Muitas estórias teriam estas terras para contar, se à palavra lhe fosse dada a virtude.
Outra viagem de que recordo bem foi a que realizei pelo interior do Alto Alentejo e Beira Baixa. Após curta paragem em Estremoz, iniciou-se oficialmente a viagem na cidade alentejana de Elvas e visitada a Albufeira da Barragem do Caia. De facto, locais onde existe água, sempre são atrativas para mim. A imensidão da água transmite-me tranquilidade, harmonia, paz. Faz-me recordar todos os momentos bons e calmos da vida e desperta em mim o que de melhor existe de bom e pacífico. Em oposição ao plano da água e continuando rumo a norte, avista-se ao redor a linda cordilheira do Parque Natural da Serra de São Mamede. O almoço foi em Portalegre, num restaurante bem no alto, com vista espetacular sobre a restante planície que jazia silenciosa e calma. A tarde ofereceu uma visita ao deslumbrante alto do castelo de Marvão, de onde se avista uma imensidão soberba. Aproximando-se a noite, o rumo foi a capital da Beira Baixa, a cidade de Castelo Branco, onde o jantar esperava no hotel onde repousei para ganhar forças para nova jornada. No dia seguinte, o rumo foi a Serra da Estrela, após um pequeno desvio por Idanha-a-Nova, visitei o Fundão e entrei definitivamente na famosa Cova da Beira, uma das regiões mais frutíferas do país, que goza de um microclima único e de onde vêm as mais famosas, gostosas e brilhantes cerejas do mundo. Apresenta-se a imponente cordilheira da Serra da Estrela, que se nos depara pela frente, quase parecendo que nos quer engolir. Subindo metade da serra, procurei na Covilhã lugar para almoçar, tirar mais umas fotos em lugares únicos, para a seguir continuar a viagem rumo à cidade da Guarda, sem antes visitar a vila mais judia de Portugal - Belmonte e contornando a montanha por leste. Após a visita à cidade da Guarda, voltei à serra para passar em Manteigas e subir à Torre, teto de Portugal continental, onde pernoitei até ao dia seguinte, dia de regresso a casa.
Habitualmente as minhas viagens pelo país resumiam-se a três ou quatro dias. O país não é muito grande e as estradas já eram boas quando comecei a tentar conhecer melhor o meu país. A certa altura, dilatei um pouco mais o tempo de viagem, para realizar uma incursão pelo norte do país. A minha primeira paragem foi em Aveiro, a chamada Veneza portuguesa, devido aos seus canais por uma parte da cidade, pelos quais realizei um passeio muito reconfortante. Rumando mais a norte, visitei o mítico Castelo de Santa Maria da Feira, que possui uma arquitetura completamente original, quando comparado com os outros castelos da mesma altura... O almoço foi na praia de Espinho, local também muito atrativo, onde o imponente mar do norte já faz notar a sua potente violência, bem visível na espuma das ondas deixadas pelo mar na areia e nas rochas dos seus pontões. A tarde trouxe uma visita à baixa do Porto, à Foz do Douro e Ribeira e à imperdível subida à Torre dos Clérigos e um passeio na Rua de Santa Catarina, onde se incluíram umas compras de artigos a preços nunca vistos noutro lugar. Após uma dormida e um excelente pequeno-almoço, sem ter esquecido o jantar de Francesinha, rumei a Braga, onde após uma pequena visita pelo centro da cidade, subi até ao Bom Jesus e depois até ao Sameiro, descendo depois a Guimarães, onde não esqueci a visita ao Palácio dos Duques e ao Castelo Berço da Nacionalidade! Lugares lindos, históricos, onde parece que as pedras nos falam para nos contar cada etapa da história de Portugal. Foi em Guimarães que pernoitei. O dia seguinte foi dedicado ao Minho: Viana do Castelo, onde subi até ao alto de Santa Luzia, depois segui para Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença, Monção e Melgaço, onde passei a noite, num excelente Solar histórico e percorrendo assim o território, lado a lado com o lindo Rio Minho, que divide as fronteiras de Portugal e Espanha neste local do país, assim como outros cursos de água o fazem noutros locais fronteiriços. No dia seguinte, bem cedo, sempre com o Parque Natural da Peneda Gerês à vista, visitei Arcos de Valdevez, seguindo depois para Montalegre, excelente vila de granito, onde a arquitetura é soberbamente cuidada e rumando depois até à cidade de Chaves para lá almoçar. Chaves, que nos mostra a sua ponte romana e onde podemos visitar o espetacular museu flaviense. Aqui foi o almoço. Aproveito sempre para experimentar as iguarias locais, em qualquer lugar que visite. Após o almoço, rumo a Bragança, a capital distrital mais periférica de Portugal Continental, quiçá também a mais pequena, mas com grandes pergaminhos em termos históricos, uma vez que é da Casa de Bragança a herança régia do país. Pelo meio, passei por Vinhais, contornando a sul, o Parque Natural do Montesinho, outra imponente cordilheira, que separa Portugal do resto do mundo... No extremo norte! Em Bragança fiquei o restante dia em visita e por lá passei a noite, exausto de tantos quilómetros percorridos e de tanta riqueza visionada! De regresso a casa, passei ainda por Macedo de Cavaleiros, Mirandela e Vila Real, tendo ido almoçar ao Peso da Régua, cidade plantada por entre socalcos de vinha estrategicamente alinhados à beira do Rio Douro, que por aquela zona oferece vistas deslumbrantes. Ainda tive tempo para dar um "pulinho" a Lamego, passei nas Termas de São Pedro do Sul e não parei mais até chegar a casa. Esta incursão pelo norte do país, soube a pouco! Necessitava do dobro dos dias disponíveis, para visitar mais e conhecer mais.
Todo o nosso país, apesar de pequeno em área, quando comparado com os maiores da Europa, é um grande país em riqueza natural, cultural e histórica. Um país onde, felizmente, nunca existiu uma guerra devastadora, onde muitos monumentos milenares ainda se conservam intactos, onde uma costa atlântica invejável nos abraça constantemente ao mar e nos transporta para as maravilhas e mistérios do além-mar ainda inexplorado. Onde a montanha abraça e até parece engolir o vale e a planície. Onde encontras desde o clima de zero aos quarenta graus, onde encontras altitude dos zero aos dois mil metros, onde encontras cidades que aliam a história à modernidade, cidades que nascem à beira dos cursos de água que descrevem os mais maravilhosos percursos, por entre montado em socalcos, onde se cria o gado que alimenta os homens e a flora que alimenta o gado, o cultivo da videira de onde nascem sabores únicos em todo o mundo, como o Vinho do Porto ou o Vinho Verde a norte, no sul o Medronho, o Moscatel e os inconfundíveis maduros néctares vinícolas do Alentejo, frutados e quentes mediterrânicos. Um sem fim de maravilhas, ainda só descobertas por uma pequena parte da humanidade.
Mas nem tudo é fantasia, maravilha e deslumbramento numa viagem... Que o digam o meu irmão Filipe e a sua Dulcineia, que na sua viagem de sonho, na viagem das suas vidas, na viagem da sua Lua-de-mel pelo Mediterrâneo e norte de África, sofreram aquele acidente. Naquele fatídico dia, depois da queda da avioneta em que seguiam e após o piloto ter tentado a todo o custo amenizar as consequências desse acidente, a mesma começou a incendiar-se. O meu irmão foi o único que ficou todo o tempo consciente. Com o incêndio a deflagrar, era eminente a explosão da avioneta, por via da inflamação do combustível. Filipe tentou acordar a inconsciente Dulcineia, mas não estando a conseguir, pegou-a ao colo, dirigiu-se para a porta da avioneta, que estava meio encravada e por isso deve que a pontapear com violência por diversas vezes... Após ter conseguido sair, foi colocar a Dulcineia em local seguro e voltou à nave para tentar salvar mais gente. Quando corria para a aeronave, esta explodiu e Filipe não conseguiu lá entrar. Com o ruído da explosão, Dulcineia acordou e Filipe foi lá consolá-la e ali estava ela a chorar e ele a ela abraçado, ambos com um ar de pânico, a olhar para a avioneta a arder. Nesse dia, apenas eles sobreviveram e quanto ao resto da tripulação, todos faleceram naquele acidente. Quando se restabeleceram, puseram-se a caminho, tendo ido dar a um caminho, que percorreram durante alguns quilómetros, até que chegaram a uma povoação, onde foram acolhidos e aí, narraram o acontecido às autoridades locais, que logo iniciaram uma busca aos locais indicados por Filipe e Dulcineia, na expetativa de recuperarem os corpos carbonizados para os entregarem às enlutadas famílias e para depois ser peritada a avioneta. Uma vez que eles nada sofreram em termos de danos físicos, recuperaram a sua viagem no ponto onde conseguiram "apanhar" os restantes viajantes do seu grupo.