O Amor?
Como já referi anteriormente, a minha vida amorosa, de facto nunca o foi, nunca existiu. Existiram amores fortuitos, amizades floridas, umas mais demoradas que outras, mas sempre esporádicas e não definitivas. Aliás, nada nesta vida é definitivo... Na realidade, essa nunca tinha sido a minha opção de vida. Se nunca encontrei a alma gémea? Talvez não... Se alguma vez estive próximo? Nunca! Nunca senti a necessidade de algo que me completasse para além de mim mesmo. Sempre me senti o todo da laranja. Sempre senti que todos os gomos cabiam dentro de mim e nenhum deles faltava. Talvez a minha vida fosse demasiado preenchida e eu não tivesse dado espaço para a existência de mais alguém... Cônjuge, filhos...
Apesar de todos estes anos sem sentir essa necessidade, o meu caminhar para além da meia-idade e após já terem passado cerca de dez anos sobre o meu regresso dos Estados Unidos, a minha influente atividade nas empresas da família e finalmente após uma maior estabilização profissional, o meu coração foi aos poucos a chamar-me a reparar em outras coisas que até aí não reparara com tanta intensidade e a preocupar-me com coisas que até aí não me preocupara com tamanha veemência.
Por essa altura e como era hábito acordar e erguer-me cedo, por coincidência, cruzava-me sempre com as mesmas pessoas em casa, tanto família como empregados e empregadas. De manhã cedo, Mary Smith já deambulava pela casa, com a preocupação de que as lides domésticas se iniciassem sem sobressaltos e com organização. Era ela quem organizava os turnos dos empregados, as suas folgas, entradas e saídas, refeições, limpezas, tratamento das roupas, jardinagem e restantes atividades. Por essa altura, tinha mais tempo para reparar nas pessoas e nas atividades que desenvolviam na casa. E comecei a reparar e meter conversa de ocasião com certa empregada. Ao ponto de dar por mim a registar os seus movimentos e tempos, para fazer coincidir os meus com os dela. Até me parecia que aquela figura não me era totalmente estranha. Os anos que tinham passado por mim, também tinham passado por ela. Era mulher para possuir mais ou menos a minha idade... Se bem que nas mulheres é sempre mais difícil atribuir idade! Um dia metia conversa e colocava-lhe uma questão, noutro dia colocava-lhe outra e, aos poucos fui sabendo mais coisas acerca da senhora. Indo mais a fundo, fiquei a saber que a Gabriela tinha frequentado a mesma escola que eu. Quando soube o seu nome, a escola preparatória onde tinha feito estudos e os anos em que os tinha feito, admirei-me de espanto, pois por essa altura e nessa escola, tive o meu primeiro namoro de adolescente com uma Gabriela... No entanto, pelo que me recordava dela, aquela não era a sua face, estava bastante transformada. Recordei-me que por essa altura, talvez no nosso sexto ou sétimo ano de escolaridade, a Gabriela tinha deixado de ir à escola, a meio do ano, e até ao final desse ano letivo, não mais voltou. Recordei-me que quis na altura visitá-la, mas a sua família a vedou a visitas. Dia após dia me vinha à memória mais um facto, mais um episódio. Senti nesta altura, que nesse passado muito distante, tinha ficado alguma coisa por resolver no meu coração. Terá sido por esse motivo que nunca mais ele esteve disponível para outras pessoas? Será que, no fundo, esse terá sido o amor que nunca foi preenchido em todos estes mais de trinta anos? Nunca mais soube do paradeiro de tal rapariga. Terá sido por motivos de acidente ou de doença que desapareceu da escola?
Um dia, não resistindo mais a essa ansiedade e inquietação, resolvi arriscar e perguntar se ela seria mesmo aquela Gabriela que eu conhecera e pela qual estive enamorado. Coloquei várias questões. Perguntei-lhe se também se recordava de mim. No entanto, ela sempre negava e desmentia factos que, para mim, já seriam indesmentíveis. Após várias investidas ao ponto de a situação me estar já a perturbar e o mistério se estar a agudizar na minha cabeça, aproveitei o facto de não estar ninguém por perto, agarrei-a com convicção e carinho, olhei-a nos olhos e beijei-a. Esse beijo fez-me despertar e recordar beijos antigos. Senti o mesmo do seu lado. Após estarmos ali algum tempo abraçados e a beijar-nos, entre olhares mútuos no fundo dos olhos e sem repararmos ao certo no tempo que já tinha passado, ouvimos passos aproximarem-se. Era Mary Smith. Separámo-nos de imediato e ficámos com a certeza de que Mary não tinha notado a nossa cumplicidade. Eu estava de saída. Despedi-me e fui-me embora.
Todo esse restante dia estive com a mente ocupada a pensar naquela mulher. Será que se sentiu aproveitada? Será que ela própria se estava a aproveitar da situação? Porque não tinha eu sentido nada daquilo anteriormente? A que horas iria sair do trabalho? Teria marido? Filhos? Após muito hesitar, liguei para casa. Atendeu Mary e eu sem saber o que lhe perguntar. O que me saiu foi questioná-la sobre os empregados, denunciando que estava preocupado com os seus direitos: a que horas entravam e saíam do serviço, quanto recebiam, se tudo estava em ordem com eles, subsídios, descontos, regalias sociais... Bom, após diversas perguntas de circunstância que Mary estranhou, devido a eu nunca as tinha colocado até então, fiquei a saber tudo! Até consegui que me enviasse por correio eletrónico um ficheiro com os seus dados, com o pretexto de a minha contabilista verificar se estava tudo bem! De entre os dados, encontrava-se aquele que mais me interessava: o número de telefone da Gabriela. Na altura em que ela estava a sair do trabalho, liguei-lhe e consegui falar com ela um pouco. Fiquei a saber que não tinha naquela hora qualquer compromisso, apenas iria fazer umas compras. Consegui por isso combinar encontro no local das suas compras.
Encontrámo-nos. Decidimos ir lanchar antes das compras que ela tinha para fazer. Depois, acompanhei-a nas suas compras e até lhe dei algumas sugestões. O ambiente entre nós estava agora mais familiar e as conversas apareciam com maior fluidez. Contei-lhe algumas coisas da minha vivência passada, principalmente nos Estados Unidos. Dela consegui saber que afinal a Gabriela da minha adolescência era de facto esta! Que teve um acidente na infância que a fez afastar-se da escola e de mim - pois nunca mais a vi até esta altura - tinha sido um acidente doméstico. Uma queimadura grande provocada pelo derrame de café a ferver sobre a pele. Foi sujeita a várias cirurgias na adolescência, inclusive à face. Por isso, a face que eu conhecia era diferente da atual. Fiquei a saber que os seus pais nessa altura da sua adolescência eram uns pequenos empresários, mas que empenharam todos os seus recursos nos tratamentos da sua filha, que era filha única. Nessa altura, atravessaram uma crise nos negócios e nunca mais recuperaram. Por isso Gabriela começou muito cedo a trabalhar para ajudar os pais. Conseguia estudar à noite, mas com bastantes dificuldades e por isso a concretização da sua escolaridade e dos seus estudos, foram-se sucessivamente adiando e acabou mais tarde por desistir de ir mais além na obtenção de mais habilitações, tendo-se ficado pela frequência universitária de meia dúzia de cadeiras. Gabriela disse nunca ter casado, teve poucos namorados e que, de facto, aquele namoro inocente de adolescente, a tinha marcado para a vida. Afirmou ainda que me reconheceu mal me viu no Arvorete pela primeira vez, mas nunca quis ousar tocar no assunto. Respondeu agora positivamente, porque verificou que eu também a tinha por fim reconhecido.
Essa primeira conversa foi de tal modo séria e prolongada, que chegou a hora do jantar. Convidei-a por isso. Escolhemos um restaurante nas imediações por onde circulávamos, que nos pareceu mais aconchegante e sossegado e por lá ficámos a saborear a refeição, o vinho e um ao outro, por mais de duas horas. Nossas mãos tocavam-se. Nossos olhares trocavam-se. Nossas bocas esboçavam sorrisos sinceros de satisfação.
Essa foi a nossa primeira noite. Nenhum de nós tinha alguma justificação a dar a quem quer que fosse, por isso fomos ficando, na casa dela, um com o outro, amando-nos, falando e adormecendo até de manhã. De manhã, levei-a cedo ao seu trabalho, que por sinal era a minha casa, também eu me fui preparar para mais um dia de trabalho, tomei o pequeno-almoço servido pela Gabriela, que já estava de serviço e saí para trabalhar. Agora os nossos sorrisos e troca de olhares eram já mais cúmplices e notava-se em nós uma diferente intenção na expressão facial. Penso que ninguém deu pela minha falta nessa noite, uma vez que eu muitas vezes vinha tarde para casa, devido aos assuntos prolongados que me absorviam o tempo nas empresas e o estudar de dossiers até tarde. Mary era quase sempre a última a recolher aos seus aposentos, ia aguardando a chegada de todos a casa, mas a partir de uma certa hora, não esperava mais.
A partir deste dia, eu a Gabriela, passámos a encontrar-nos mais vezes, a passarmos mais vezes noites fora, a jantarmos mais vezes juntos e conversávamos muito. Durante meses, este conhecimento e reconhecimento mútuo foi-se solidificando, até que um dia, decidi reunir a família no Arvorete, para anunciar o noivado, período esse que apenas demorou cerca de um mês.
O nosso casamento foi uma festa memorável! Não convidámos muitas pessoas, mas aquelas que mais nos diziam, família e amigos de ambos, num total de cerca de duzentas pessoas, incluindo as crianças e jovens. Tudo foi realizado no Arvorete, numa excelente tarde de primavera, em pleno mês de abril. Por essa altura, quase não houve necessidade de ornamentar o jardim com flores, pois a flora que naturalmente existia e já era devidamente tratada, era suficiente. As sombras naturais das árvores centenárias do Arvorete, ofereciam o teto suficiente para albergar todos aqueles convidados, a música ambiente contratada, assim como a equipa de catering, completaram tudo o que fazia falta para que nada ficasse deixado ao acaso. O padre da família, o meu pai biológico Padre Pedro, foi convidado pela minha mãe Lúcia a vir celebrar o nosso casamento. A minha mãe biológica Amélia e o seu companheiro, o eterno advogado da família, Delmiro, já um pouco entradote e os familiares alentejanos também vieram e por isso, esta foi uma reunião muito bonita, como há muito não assistíamos.