Data de publicação: 31/jul/2012 9:23:04
No auge do fogo que nos queima a vista, que nos aquece o coração de emoções, é o mesmo fogo que transforma em cinza todo o material combustível em que toca. É o que acontece no rubro das notícias, nos atropelos dos jornalistas e dos à procura do melhor furo ou dos paparazzi à procura do melhor ângulo para eternizar a melhor imagem em película.
Muito ruído, demasiada confusão, exagerada perseguição.
Durante o estágio ainda em Portugal, antes da sua deslocação para leste, não foi dado o devido espaço à nossa seleção para trabalhar convenientemente, não deixaram respirar os nossos craques.
É certo que, hoje em dia, na sua maioria, não vemos nos nossos estádios durante a época os nossos melhores jogadores, uma vez que jogam nos melhores campeonatos da Europa e em afamados clubes. É certo que o povo gosta de ver, apalpar e obter autógrafos dos seus mais importantes representantes desportivos lá fora. Porém, há que dar o devido espaço para que as pessoas possam – no curto tempo de que possuem – estudar os adversários, prepararem e estudarem as melhores táticas, recuperarem fisicamente após duras maratonas de competição, eventualmente recuperarem psicologicamente de problemas pessoais ou profissionais que deixaram de portas para fora e, o mais importante de tudo: voltar a ganhar o espírito de equipa em volta da defesa não de um clube, mas de toda uma nação.
Muitos consideraram que os atletas foram “endeusados” antes do tempo... Mas talvez tivesse sido essa a forma que muitos encontraram para demonstrar o seu apoio, estima, fé e esperança no seu desempenho.
A seleção portuguesa de futebol tem registado nos últimos apuramentos (pós Scolari) algumas dificuldades em atingir as fases finais das competições. No entanto, têm-no conseguido e há que dar mérito aos atletas e toda a equipa técnica por esses feitos. Há bastantes competições consecutivas (europeus e mundiais) que estamos permanentemente presentes, o que não acontecia nos anos 70 e até nos anos 80 tivemos algumas “faltas”. Nos anos 90 e neste século, temos participado em todas as fases finais, o que, para um país com a nossa grandeza geográfica, demográfica, económica e financeira, é notável! Tivemos grandes seleções, como as do mundial de Inglaterra na década de anos 60 (Eusébio e companhia), nos anos 80 (com Humberto Coelho, Carlos Manuel, Jordão e companhia), tivemos a chamada geração de ouro (com Figo, Rui Costa, João Pinto e companhia), que ainda ganharam um título como juniores.
Estranho é porém que, apesar de hoje termos o melhor ou um dos dois melhores jogadores do mundo, mesmo assim, os portugueses estavam incrédulos, na sua generalidade, quanto ao desempenho da nossa seleção no europeu Polónia-Ucrânia. Provavelmente porque existe uma opinião generalizada de que o Cristiano Ronaldo tudo faz para ser o melhor no clube que lhe paga o salário e que não se esforça o suficiente na seleção nacional. Queremos por isso, e exigimos que o Ronaldo decida os nossos problemas e estamos sempre à espera de mais um truque que lhe saia dos pés ou da cabeça, para nos safar de maiores “vergonhas”. Não creio que essa seja a atitude mais adequada dos portugueses perante a sua seleção e perante Ronaldo. Este jogador arrisca-se antes de terminar a sua carreira, a pulverizar todos os recordes da seleção portuguesa e até alguns mundiais. Apesar da sua postura muitas vezes seja um pouco polémica, isso acaba depois por lhe dar protagonismo que ele gosta de ter, faz-lhe bem ao ego e, tal como Mourinho, faz bem a Portugal e aos portugueses.
Muito se escreveu, muito se criticou e pouco se esperava desta seleção neste europeu. Calhou-nos o grupo mais difícil do euro e, mesmo assim, conseguimos ultrapassar a Dinamarca, que tinha sido nosso “carrasco” no grupo de apuramento, a Holanda que foi finalista do último mundial e tivemos a um passo muito curto de conseguirmos dobrar a poderosa Alemanha. Para quem tinha as “favas contadas”, teve que voltar atrás e recontá-las, porque os portugueses foram lá intrometer-se novamente entre os grandes e marcar uma presença forte e invejável.
A seleção portuguesa foi a única que fez vacilar a Espanha (campeã) e a única a quem os espanhóis não conseguiram marcar qualquer golo (em jogo, fora os penaltis).
Resumindo, apesar de acreditarmos pouco, esta geração demonstrou grande espírito de equipa, de sacrifício e de pudor. Conseguiu mais uma vez uma honrosa participação nas meias-finais e só o azar dos penaltis nos retirou de outra final – que nos tinha sorrido há 8 anos atrás...
É preciso muitas vezes esperarmos o resfriamento, deixar assentar a poeira, para depois refletirmos melhor sobre os acontecimentos. O mundo de hoje roda depressa demais. É necessário correr atrás do próximo caso, da próxima notícia, esquecendo de imediato o que se passou ainda há escassas semanas.
Deixo ainda uma palavra contra o eterno esquecimento dos atletas portugueses que continuam a fazer história, nos paralímpicos, no ciclismo, no ténis. Quando há futebol, esquecemo-nos de tudo o resto, vamos mais cedo para casa ver a bola, esquecemos a crise, esquecemos as dificuldades, até esquecemos por vezes certas obrigações, porque vai jogar Portugal (a seleção de futebol sénior masculino). Quantos de nós sabem como ficámos em sub-19? Ou a seleção de futebol feminino? E também é futebol!...
Bem, já estamos à espera dos próximos embates e... Já agora, viva Portugal!
11Julho2012
J. Rafael Coelho