Data de publicação: 12/jul/2011 10:32:10
12 de Julho de 2011
Recordo-me do tempo em que era ainda miúdo, o meu avô paterno tinha uma firma comercial onde se comprava e vendia quase de tudo e que foi empreendendo durante 30, 40 anos. Essa empresa foi crescendo com fundos próprios, sem se recorrer aos bancos para pedir a crédito e pagar-se mais tarde. Não, nada disso. Nessa altura, os bancos é que andavam atrás das empresas bem sucedidas, para que elas lá depositassem os seus movimentos e não vice-versa. Nessa altura, investia-se quando havia fundos próprios para o fazer. Se não houvesse fundos, não se comprava. O meu pai e outros irmãos trabalhavam nessa firma que, na altura, já dava trabalho a 7 a 10 pessoas, dependendo da sazonalidade.
Foi o meu avô o primeiro a comercializar naquela aldeia, que nos anos pós 2ªGuerra tinha cerca de 7000 habitantes, bicicletas, adubos, gás em botija, gasolina e gasóleo, lubrificantes, electrodomésticos, produtos congelados (nomeadamente peixe), peixes conservados (bacalhau, peixe seco, peixe-lima), rações para animais, foi revendedor de tabacos, correspondente bancário, agente de seguros… enfim, uma série de actividades, de produtos e serviços que, há medida que apareciam (como novidade tecnológica), era assimilado.
Nessa altura, a aldeia do Alentejo interior onde isto acontecia, vivia ainda um pouco na humildade e na pobreza de qualquer aldeia do interior e muito dependente da agricultura. A aldeia era também um excelente ponto de passagem, até porque teve a “sorte” da passagem do caminho-de-ferro, pelo qual se transportavam na altura grandes vagões de cereais, mas que também era pretexto para muitas pessoas oriundas das vilas e cidades se deslocarem de comboio àquelas paragens. A partir daí, a terra ficou conhecida pelo excelente vinho, pão e azeite e às custas disso evoluiu, cresceu e se transformou. Quase toda a aldeia, até aos anos 75 a 85 não usufruía ainda de um digno e sustentável saneamento básico e as ruas eram, na sua maioria em terra.
Mas como as coisas nunca são perfeitas, as “leis” ditadas pelos senhores das terras, chamados “agrários” ou “latifundiários”, cujos trabalhadores não conseguiam usufruir de uma vida digna devido aos escassos rendimentos do trabalho, que muitas vezes era de certa forma escravizado, a falta de indústrias que absorvessem tantos jovens que nasceram do “baby boom” a que a aldeia não escapou nos anos 40 e 50, fez com que se iniciasse o processo da emigração, tanto para o exterior, para países como a França, Alemanha e Suíça, como para o litoral português (vale do Tejo e Algarve). Em menos de 2 décadas, a população reduziu-se para cerca de metade.
Ora, aquele pequenino império falado lá atrás, foi sobrevivendo a estas intempéries, até ao momento em que foi dividido pelos filhos do meu avô (os mais empreendedores) nos finais dos anos 70 do século XX, que os continuaram, que se adaptaram, evoluíram, investiram e ainda passaram para outros filhos também mais empreendedores esses negócios. Este negócio, foi sempre comercial, nunca agrícola. Apesar de comercializar também com a agricultura e servir muitas vezes de intermediário na difícil distribuição de alguns produtos da terra.
Se a miséria porque passou o nosso país até à década de 70 evoluiu positivamente após a Revolução de Abril, é verdade. Mas também é bem verdade que nessa altura começou a construir-se uma casa em chão de areia. A adesão de Portugal à CEE trouxe as políticas comunitárias restritivas à produção impostas a alguns países, como o nosso, nomeadamente o ataque à produção do sector primário (agricultura, pecuária, pescas), arrastando consigo a falência de algumas indústrias alimentares (conservas de peixe, de tomate), por conseguinte, o abate de barcos “atacou” a indústria naval, onde o nosso país era fortíssimo a nível mundial. Fizeram-nos habituar a comprar sem produzir. Fizeram-nos habituar a comprar pedindo dinheiro emprestado para pagar no futuro, empurrando com a barriga os custos do nosso actual conforto e bem-estar. No entanto não nos ensinaram a fazer as devidas contas e a perceber quando deveríamos parar de nos endividar. Assim como fizemos nós - o povo - assim o Estado também o fez, quis sempre mais e melhor, construir o que não era necessário, só com o intuito de mostrar obra feita – sim, porque as coisas palpáveis é que dão votos – esquecendo-se de que para a frente viriam gerações de pessoas que nada decidiram e que terão de pagar a factura.
É assim que acontecem os descalabros financeiros. Como pode acontecer numa família – endividar-se em dois ou três anos mais do que aquilo que pode – no Estado aconteceu a mesma coisa, assim como em vários Estados da União Europeia.
As pessoas ouvem falar em défice. Ora, então o que é o défice? O défice é a diferença negativa entre aquilo que ganhamos e aquilo que gastamos. Se ganharmos 100 e gastarmos 101, temos 1% de défice. Se ganharmos 100 e gastarmos 110, temos 10% de défice, e assim sucessivamente. E então para a poupança, o que sobra? Nada! Ora, não faz sentido os Estados terem défice! Os Estados não podem sempre gastar mais do que as receitas que conseguem recolher, porque o acumular da dívida é precisamente o acumular de défices sucessivos e os respectivos juros sobre crédito e sobre dívida e sobre mais juros, etc.
Em resumo, podemos dizer que a nossa forma de vida ocidental está em crise porque assenta em pressupostos falsos e irrealistas. Nunca poderemos crescer, evoluir e manter os até agora razoáveis índices de estilo de vida médios/elevados, se não produzirmos, se não criarmos, se destruirmos as nossas fontes de produção, se voltarmos as costas para a agricultura, pecuária, pescas, indústria básica, principalmente a alimentar.
Aquilo que muitos de nós temos hoje em dia: o nosso conforto e estilo de vida, deve-se não apenas ao nosso trabalho, mas essencialmente ao crédito, às facilidades que a banca deu durante anos para que as famílias se endividassem para comprar casa, obras, carro, outro carro, televisor, computador, mobílias, férias, roupas, até os livros para a escola das crianças são compradas a crédito… Este paradigma tem de ser alterado. Temos que voltar a não gastar aquilo que não temos, mas sim e em vez disso, poupar o que temos, para podermos comprar mais tarde aquilo que tivermos hipótese e oportunidade de comprar.
Não se admite que num país em que o povo e o Estado se encontram em tantas dificuldades, estejamos quase sempre na linha da frente quando toca ao consumo de alguma novidade tecnológica que apareça no mercado; de um livro ou filme que sai, do tipo “Harry Potter”, que nem sequer tem qualquer origem na produção nacional.
O nosso país tem condições para ser auto sustentável em termos alimentares. Temos largas extensões de terra planas, boas para cereais, um clima mediterrânico próprio para a cultura de frutos e legumes, temos um grande e belo parque florestal que necessita de ser mantido, cuidado e explorado, temos uma das maiores zonas marítimas do mundo, inexploradas neste momento por Portugal. É claro que, quanto mais produzirmos para a nossa subsistência, menos compramos ao estrangeiro e mais poderemos ainda vender para o exterior. É claro que a produção irá proporcionar o reinvestimento em indústrias produtivas, especialmente alimentares.
Se em 10 a 20 anos alterámos o nosso paradigma de sociedade num sentido, então saberemos agora alterá-lo no sentido oposto, no mesmo tempo ou menos. Quanto mais depressa o fizermos, mais equilibrada e justa será a nossa sociedade no futuro.
J. Rafael Coelho