Data de publicação: 30/jun/2011 12:58:35
29 de Junho de 2011
Inicio hoje uma série de artigos que pretendo escrever com alguma regularidade nesta página. Nesta sala de reflexão, não haverá temas especiais ou únicos, falaremos de tudo um pouco.
Porquê hoje? Porquê apenas hoje? Não sei, há dias que tenho esta ideia na cabeça e hoje deu-me um clique para começar.
Também hoje porque há muitas coisas a acontecerem no nosso mundo, naquele mundo em que lidamos cada dia e com o qual nos confrontamos a cada instante. Infelizmente são mais as coisas más e menos as coisas boas que existem para relatar.
Mas hoje apetece-me reflectir um pouco sobre um tema que paira nestes últimos dias, desde o último fim-de-semana pelo pensamento de muitos portugueses, principalmente os jovens e os pais dos jovens.
Recordo-me de ter tirado a minha carta de condução em Faro, já lá vão vinte e um anos. Não estava muito preparado para o exame de condução, uma vez que, das vinte e cinco aulas apenas tinha frequentado quinze, por motivos profissionais. Mesmo assim, o meu instrutor, na véspera, quis averiguar sobre a qualidade do meu "desenrascanso", verificou que eu poderia ir a exame e passou-me uns quantos conselhos, que escutei com atenção e tentei seguir à risca. Eu tinha na altura dezanove anos, apesar de eu ter juntado os meus trapinhos há pouco tempo com aquela que viria a ser a mãe do meu filho, contra a vontade dos meus pais, mesmo assim, o meu pai quis pagar-me a carta de condução, assim como já fizera para com o meu irmão mais velho do que eu quase cinco anos. E assim foi. Eu trabalhava na altura em vendas, ainda no início da minha irregular carreira de cidadão trabalhador e tinha pouco tempo para as aulas. Mesmo assim, assistindo a metade das aulas de código, consegui passar à primeira, às custas de muitos exercícios feitos em casa. Já o mesmo não se passou com a condução, porque não tinha nada em casa para treinar. No dia do exame, éramos apenas duas pessoas no mesmo carro e com o mesmo examinador que, na altura usava dizer-se ser "engenheiro" - sinceramente, nunca cheguei a perceber se os examinadores eram ou não de facto engenheiros, ou seriam tanto engenheiros como aqueles que não vale a pena falar deles... Bem, isto para dizer que, a primeira a ser examinada foi a rapariga que vinha também no carro. Ela estava tão nervosa, que quase não conseguiu parar atrás de um carro estacionado, para deixar passar outro que vinha em sentido contrário. Se não fosse o examinador a deitar pés ao travão, tínhamo-nos enfeixado contra aquela traseira. Imediatamente, foi mandada sair daquele lugar de condutor onde se encontrava e passar ao banco de trás. Passei eu então para a frente. Tentei cumprir todos os protocolos e formalidades. Devagarinho e com muita calma, fui cumprindo o que o examinador mandava. A certa altura, numa rua de sentido único e com três faixas, mandou-me virar à esquerda. Eu olhei os espelhos, mas não iniciei de imediato a manobra, porque ainda havia espaço. Ele gritou-me "então, não faz pisca?" Então eu, calmamente, como se não o tivesse ouvido, liguei o pisca, mudei para a faixa da esquerda e virei. Ele nada disse. Mandou-me fazer tudo: contornar o passeio, estacionar, sujeitou-me às passadeiras, aos semáforos, às rotundas, aos sinais, à regra da prioridade e fez-me um exame de cerca de 45 minutos!!! Pensei eu mais tarde que me castigou e tive que fazer o meu percurso e o da outra desgraçada rapariga que, ainda por cima, só chorava sentada no banco de trás. No final, mandou-me parar e estacionar o carro, preencheu a minha guia provisória com autorização para conduzir e disse-me: "Aqui tem a sua autorização de condução, mas... jovem... muito cuidado nessas estradas..." Ora, estas palavras foram para mim, como que uma vacina que tomei, como aquelas que se tomam em bebé e que duram para toda a vida.
Já fiz muitos milhões de quilómetros nestes vinte e um anos. Entretanto tirei a carta de motociclo há cerca de oito anos atrás. E sempre com este conselho no meu subconsciente. Muitas vezes me vi confrontado com situações de fazer estremecer o coração, já conduzi carros novos, velhos, bons e maus, mas felizmente, um anjo me tem protegido sempre nas estradas.
Recordo-me dos meus tempos pré trinta anos, em que conduzia algo depressa, por vezes um pouco indolente e até agressivo, mas sempre com uma boa dose de prudência e de sensatez. Tive dois pequenos acidentes de "bater na traseira", mas tudo simples e nunca aleijei ninguém, felizmente.
Quando ao todos conhecermos os riscos que corremos ao sair de casa e nos sentarmos ao volante de um carro, não deveríamos ter a consciência de procurarmos ser tolerantes, prudentes, cuidadosos, respeitadores? Muitas vezes pensamos que nunca nos vão acontecer a nós certas desgraças, mas o que é certo, é que as situações parecem estar à porta a ouvir o nosso pensamento...
Dois dos maiores riscos nas estradas são a irreverência e falta de experiência e/ou prática dos jovens na condução, juntamente com o excesso de alegria e de irresponsabilidade que podem acontecer em festas, em encontros, onde se junta algum álcool e quiçá estupefacientes ou ambos. Tudo isto, misturado com alguma dose de eventual exibicionismo, tem deixado a vida de muitos jovens nas estradas portuguesas.
Não se quer com isto efectuar qualquer juízo de valor sobre alguma situação em concreto, porém todos sabemos isto. Se todos sabemos, porquê então não cumprir as regras?
Já fico muito satisfeito se este texto e este meu singelo exemplo, sensibilizar alguma pessoa, principalmente se for jovem, a reflectir sobre os riscos que se correm ao não se usar do máximo de precaução.
Que não mais angélicos venham a deixar o seu sangue nas estradas, mas o mantenham bem quente dentro do seu peito, para brindar as pessoas que os amam - família, amigos, colegas, fãs - com a sua alegria, talento, energia, no fundo, à maravilhosa oportunidade que é viver.
J. Rafael Coelho