- Mãe, tenho uma coisa para te contar!
- Então Filipe, algum problema?
- Sabes, eu gosto da escola onde estudo e os professores, mas os meus colegas não me tratam bem... - Lúcia olhava agora o seu filho com mais atenção - gozam muito comigo, por causa da maneira como falo e também por eu gostar de estudar e estar atento nas aulas e eles, na maioria, não ligam às aulas, gozam com os professores...
- A sério, Filipe? E porque não me disseste isso há mais tempo? Já podia ter ido falar com o diretor... - Filipe encolheu os ombros, de timidez e vergonha, enquanto Lúcia largava as alfaias de cozinha onde preparava o jantar e se virava para o seu filho, olhando-o nos olhos e segurando-o nos ombros - Vou lá amanhã!
- Mesmo? Fazes isso por mim, mãe? - Esboçando um sorriso enquanto os seus olhos brilhavam de esperança.
- Sim! O que não fazem os pais pelos seus filhos?
- E não vais prejudicar o teu trabalho?
- Não, filho, a família é o mais importante de tudo.
À hora do jantar, já com Henrique e André à mesa, Lúcia contava a situação e avisava o marido acerca da sua intenção de ir falar com o diretor da escola.
- E o que achas que ele pode fazer? - Questionava Henrique, cujo som lhe saía balburdiamente da boca por estar a comer ao mesmo tempo.
- Tem que fazer alguma coisa! Esta é uma escola com pergaminhos, é cara e por isso, algo tem que ser feito, nem que tenhamos que despoletar uma reunião de pais para discutir o assunto com todos.
- Nós sabemos como é complicado estar num país que não é o nosso, o nosso sotaque denuncia-nos e aqui fica demonstrada a diferença da nossa cultura e costumes em relação à brasileira. Se fossem brasileiros em Portugal, provavelmente aconteceria o reverso da medalha - concluía Henrique, já com aquele bolo alimentar totalmente engolido.
André escutava aquelas palavras, mas não se pronunciava. Porém, no seu colégio, André era ainda mais massacrado pelos colegas. André tinha crescido bastante, tinha agora idade de entrar na escola primária, mas a sua pronúncia já tinha sido adquirida no Brasil, uma vez que era ainda bebé quando emigrou com os pais e irmão. O seu problema na escola, não tinha nada a ver com os problemas do irmão: nem o sotaque, nem a dedicação, uma vez que ainda não existia "maturidade" estudantil suficiente, que Filipe já adquirira de certa forma e em linha de conta com a sua idade. André desenvolvia uma personalidade em que demonstrava muita sensibilidade. Era demasiado fechado, calado, tímido e o seu rosto e corpo mais se assemelhava com traços femininos do que masculinos, apesar ainda da tenra idade. Estas características tornavam-no alvo de chacota por parte de alguns colegas, principalmente rapazes. Chamavam-lhe "copinho de leite", "menina" e brindavam-no com brincadeiras pouco próprias para crianças daquela idade. Porém, a sua timidez "proibia-o" de denunciar tais comportamentos, por isso, os pais desconheciam o que se passava. Já Filipe, apesar de tímido, era mais corajoso e essa característica defendia-o contra as maledicências dos colegas.
Profissionalmente, a vida destes portugueses no Brasil decorria com grande sucesso, mas de facto em termos familiares, eram bastantes os problemas a resolver. Lúcia nunca quis contratar quaisquer empregados domésticos para sua casa, uma vez que gostava de ser ela a cuidar dessas lides. Henrique, sempre podia, preparava as refeições, porque gostava de o fazer e tinha grande gosto nisso. Toda a restante atividade doméstica era Lúcia que fazia questão de tratar. Excetuava-se o passar a ferro, cuja roupa levava a uma lavandaria para fazer a maior parte do serviço, não só porque escasseava o tempo como também porque esse era um serviço que não gostava muito de fazer. Na realidade, o casal Cruval Alfonso tinha uma atividade social muito contida. Evitavam participar naquelas grandes receções que as ricas famílias brasileiras gostavam de promover, não participavam em organizações nem associações, a não ser as estritamente necessárias - como as associações de pais das escolas dos miúdos - saíam pouco de casa para se mostrarem em lugares públicos, à exceção da participação dominical na missa, das idas ao cinema ou teatro, dos almoços ou jantares fora em família. Frequentemente, eram surpreendidos nos locais públicos por jornalistas e fotógrafos de imprensa que tentavam abordá-los, tentando captar deles as melhores imagens e algumas declarações, mas de facto era muito difícil conseguirem-no, uma vez que Henrique e Lúcia pediam sempre aos fotógrafos que evitassem as fotos dos seus filhos, porque não aceitariam que essas imagens fossem publicadas nos periódicos.
Estes anos de evolução e crescimento, por um lado, estavam também a ser anos de sofrimento por outro. O casal sentia que os seus filhos cresciam sem que conhecessem e convivessem o necessário com a família portuguesa. Desde que chegaram ao Brasil, nunca mais voltaram a visitar Portugal. Falavam com a família por telefone e comunicavam-se por carta, quando os assuntos eram mais complicados. António Alfonso continuava com uma saúde invejável, inversamente proporcional à sua idade, era bem cuidado por Albertina e Gonçalves que continuavam leais serviçais no Arvorete. Os miúdos de Mary também cresciam a olhos vistos e por serem mestiços, tinham também alguns problemas de integração escolar. No entanto, a conhecida tolerância e bons costumes portugueses, disfarçavam o ainda fresco "rancor" existente para com as etnias africanas, devido à recente descolonização e à guerra que não existindo no terreno, persistia ainda na mente e no coração de muitos em Portugal. Henrique recebia ainda as notícias de como tinham sido transformadas as fábricas que anteriormente geria no país. As reservas financeiras do velho Alfonso continuavam a sustentar aquele maravilhoso Arvorete e todas as bocas que lá comiam e dormiam e, como o velhote era poupado e nunca dizia o que possuía, ninguém sabia ao certo se ainda havia muito dinheiro ou não. De qualquer forma, Alfonso Sénior ainda conseguiu ajudar o filho na aquisição de alguns negócios no Brasil, investimento que já tinha sido mais do que recuperado.
Difícil se torna quando nos encontramos deslocados do nosso habitat natural. O nosso habitat é a casa dos nossos pais, o lugar onde nascemos e crescemos. O lugar onde sonhámos ser um dia algo ambicioso: polícia, bombeiro, médico, arquiteto, cantor, escritor ou padre. Em criança, tudo nos passa pela cabeça. A nossa sede de viver e de experimentar é maior do que a nossa mente. Não cabem na nossa cabeça todas as maravilhosas fantasias e sonhos do mundo. A nossa fé no futuro e a esperança no acompanhamento dos nossos pais, como nossos mentores, acompanha-nos toda a nossa infância. O modelo que são os nossos pais ou irmãos mais velhos é uma síndroma que não nos larga. Felizes aqueles que tiveram um dia a possibilidade de sonhar, de brincar de possuir cavalinhos de madeira ou carrinhos coloridos. Felizes as crianças que um dia tiveram um mealheiro, onde juntavam as suas pequenas moedas ofertadas e cujos pais não tiveram um dia que partir os seus porquinhos para comprar um naco de pão. Felizes aqueles que sempre tiveram um teto onde se abrigarem do frio e um sol radioso quando tiveram necessidade de olhar e de o sentir na pele. Felizes aqueles que nunca tiveram que empunhar uma arma e de a apontar a outra criança. Felizes os que sempre tiveram com que cobrir quando o frio estalava os ossos e todos os que puderam mergulhar no mar quando o sol queimava a areia da praia. Felizes os que conheceram a sua família e habitaram com ela. Felizes todos os que conseguiram estudar, receber o conhecimento sobre o mundo conhecido até então e todos os que puderam sempre olhar e ver, ler e escrever, apalpar e sentir, ouvir e escutar, cheirar e provar. Felizes todas as crianças que tiveram quem delas cuidassem quando estiveram doentes, que receberam o amor e o carinho necessário e suficiente que todas elas merecem e felizes aquelas sobre as quais nunca existiram abusos físicos nem psicológicos. Felizes todas as crianças que tiveram a hipótese de conhecer Deus e às quais lhes foi transmitida a fé. Filipe e André eram crianças privilegiadas porque tudo isto ou quase lhes era proporcionado e tudo isto podiam conhecer e experimentar. O que teria sido de André se Lúcia um dia não o tivesse encontrado e apaixonado por ele, o tivesse adotado? Que destino poderia ter este menino abandonado na confusão de uma multidão de manifestantes? Em que mãos poderia ele ter ido parar e que futuro poderia vir a conhecer? Sorte? Talvez. Mas eu digo que estes são os caminhos que Deus escreve. São as obras que a natureza retifica quando alguém decide estragar. Se tirarmos a casca (cortiça) de um sobreiro, ela volta a nascer. Assim acontece sempre na natureza: quando algo lhe é retirado, alguma compensação terá que existir mais tarde. Por isso nuns locais existem inundações e noutros existem secas extremas. Por isso nuns locais existem vales e noutros, elevações. Por isso nuns locais existe dia e noutros, noite. Por isso nuns locais (corações) existe luz e noutros, trevas.
Conforme prometeu a Filipe, Lúcia dirigiu-se à secretaria da escola do seu filho no dia seguinte, no intuito de falar com o diretor. Os seus intentos foram satisfeitos.
- Minha senhora, o que a traz por cá?
Lúcia narrou ao diretor as situações por que Filipe estava a passar na escola sob a sua direção e este ficou muito indignado, por desconhecer que tais discriminações ocorrerem na sua escola. Acreditou nas palavras de Lúcia e prometeu-lhe marcar uma reunião com a associação de pais para tentar encontrar soluções para aqueles problemas. Queria saber se Filipe era o único aluno maltratado pelos colegas, ou se existiam outros nas mesmas circunstâncias, uma vez que, naquela escolha, estudavam mais crianças e jovens de outras nacionalidades e culturas e o problema merecia atenção e resolução.
Passados alguns dias e após reunião da associação de pais, foi decidido convocar todos os encarregados de educação para uma reunião geral, na qual se debateria o polémico assunto. Nessa reunião, foram mencionados os problemas existentes e outros pais afirmaram que os seus filhos eram também maltratados tanto física como psicologicamente e muitos deles desconheciam mesmo tais acontecimentos. Decidiu-se criar uma comissão de acompanhamento desta crise, juntando membros da direção, da associação e alguns pais. Todos ficaram com o compromisso de, em casa, abordarem os seus filhos acerca deste problema e foram de imediato apontados alguns dos autores das agressões e informados os respetivos pais acerca da necessidade e urgência na correção deste problema, com vista à sua erradicação daquela conceituada escola. Muitos dos pais cujos filhos se encontravam lesados, chegaram a ameaçar retirarem os filhos daquela escola.
Filipe e Lúcia tinham assim contribuído de forma positiva para a eliminação daquele problema e agora, restava deixar o tempo passar e verificar se o plano da escola estava ou não a obter resultados.
- Querido tenho pensado muito nisto, sem querer dizê-lo, por me parecer precipitado, mas tenho que o fazer.
- O quê, Lúcia?
- Henrique, estamos nos anos 80, Portugal está a mudar, a desenvolver-se, vai entrar para a CEE e a crescer. Já passaram mais de 10 anos que estamos no Brasil e trabalhamos muito para chegar onde chegámos e construir o que construímos, o nosso sucesso tem sido muito bom por estas paragens...
- Mas...
- Mas cada dia que passa, mais sinto o apelo do nosso país. Já pensaste na hipótese de vir a recuperar as empresas do teu pai? Já construímos aqui o suficiente para voltar, deixando este negócio aqui ganhar asas e ser independente, sem que nós estejamos cá a controlar tudo! É necessário delegar em pessoas competentes. A nossa terra é a nossa terra, o nosso país precisa de nós!
- E em que planos pensaste? Se bem te conheço, não me virias com esse discurso sem teres já pensado em todas as possibilidades, verdade, meu amor?
- Sim Henrique pensei. Em Portugal, estamos no início do verão. Porque não irmos lá passar umas férias prolongadas, matricular os miúdos na escola para eles começarem lá o próximo ano letivo? Tentarias avaliar a situação das empresas, visto que o Governo de Portugal está a reprivatizar as empresas nacionalizadas, como é o caso das tuas e tentavas recuperá-las. Sabes que existe um plano de indemnizações aos antigos proprietários?...
- E onde quererias que os miúdos ficassem a estudar?
- Pensei que no Alentejo, pudesse ser a melhor escolha, junto com o meu irmão, cunhada e primos, vivendo por enquanto no casarão.
- E nós, Lúcia?
- Nós, após resolvidos alguns desses problemas, regressaríamos ao Brasil, para tentar não vender, mas entregar a gestão a profissionais, que também os há por aqui já com boas competências. Inclusivamente, nós poderíamos explorar os conceitos também em Portugal e até noutros países em desenvolvimento, internacionalizando o grupo.
- Realmente, tu já pensaste em tudo... És mesmo a companheira ideal para mim, tive muita sorte em conhecer-te e em te ter escolhido!
- Eu é que te escolhi, Henrique... - E riram-se com satisfação - vamos então brindar a isso - e, abrindo uma garrafa de champanhe, brindaram a mais projetos juntos e ao eventual regresso a casa, de forma efusiva, consciente e feliz.