Quando uns saem outros regressam ao país.
Milhares de portugueses retornavam ao seu país por estes tempos, oriundos das colónias africanas que por esta altura se encontravam a saque. O fim da guerra colonial, um os objetivos do movimento dos capitães de Abril, foi uma realidade. Porém o poder político não teve o devido acautelamento na forma como seriam feitas as diversas descolonizações. Portugueses que outrora tinham sido aliciados e atraídos pelo poder para se deslocalizarem para as colónias, para lá investirem, construírem, criarem riqueza, estavam repentinamente confrontados com a espoliação dos seus bens, o saque das suas casas, quintas, fábricas e armazéns, a morte dos seus empregados e alguns familiares. O poder político só conseguiu garantir o repatriamento dos originários portugueses da metrópole, cujo regresso foi bastante doloroso para muitos. O continente recebeu no seio das suas famílias cerca de meio milhão de novos habitantes, que vieram engrossar as fileiras dos desempregados e desprotegidos, numa altura em que no país a revolta do proletariado tentava governar empresas, fábricas e outros serviços.
Este tinha sido também o caso e Mary, mulher de António Quiose que, ao regressar de Angola com os seus três filhos, não mais quis voltar para aquele país. Mary e os filhos, como muitas outras famílias, não tinham na metrópole lugar onde ficar, a não ser com familiares. Então, Lúcia e Henrique decidiram antes de viajar para o Brasil, oferecerem guarida àquelas crianças e sua mãe, por isso ficaram a residir no Arvorete juntamente com senhor António Alfonso, ao cuidado de Albertina e Gonçalves, empenhados empregados que não tinham embarcado nas novidades do socialismo que pairavam no ar por estes tempos. De qualquer forma, nunca tiveram qualquer razão para se revoltarem contra os patrões, porque nunca foram maltratados e sempre estiveram como se da própria família se tratasse.
Apesar do familiar criminoso que, salvo quaisquer circunstâncias raras, iria passar uns bons anos engaiolado, por não se tratar de um preso político, mas de um preso recente devido a crime organizado, Lúcia e Henrique tiveram compaixão daquelas crianças, por isso elas iriam viver na sua casa, com a condição de que António Quiose nunca lá entrasse.
Mary acabava por reconhecer que afinal os seus familiares eram afinal também seus amigos e passou a considerá-los de uma forma completamente diferente.
António Alfonso teria de abdicar das suas periódicas visitas às empresas, agora ocupadas pelos "senhores da revolução", como ele afirmava. De qualquer forma, a idade e a capacidade física à beira do moribundo já aconselhava novos hábitos: estar mais em casa, recheada de crianças - com as quais ele gostava imenso de brincar, contar estórias e ensinar "coisas da vida". Deixava de ter aqueles seus 2 netos presentes - Filipe e André - mas ganhava novos "netos adotivos", como ele gostava de lhes chamar. Os seus hábitos de devoração de todo o tipo de leitura e escrita que houvesse à mão mantinham-se e até se agudizavam: jornal diário, algumas revistas e os seus livros. Também se dedicava a ajudar as crianças nos deveres da escola e assim vivia feliz, porque rodeado de pessoas mais novas, joviais e alegres. Quanto às crianças, não sentiam muito a falta do pai... sem sequer perguntavam muito por ele. Quiose era habitualmente um pai ausente, não muito ligado à educação e crescimento dos filhos, por isso, o desprendimento destes, agora tanto notado. Albertina e Gonçalves, não deixavam que nada faltasse no Arvorete e tudo providenciavam no sentido da limpeza, arrumação, cozinha e restante organização.
Delmiro, o investigador, juntamente com dois camaradas de faculdade decidiram fundar um partido político democrático e rapidamente começou a penetrar nos meandros do parlamento e de governos provisórios entretanto criados para gerir o país, enquanto se construía uma nova Constituição na era democrática, em cujos grupos de trabalho também veio a fazer parte. A sua reputação e reconhecimento no meio veio a tornar-se bastante considerável.
No Alentejo, já se sentiam algumas movimentações e agitação, principalmente no meio rural. A Guarda era muitas vezes chamada a acalmar os ânimos em diversas situações não habituais. A implantação e influência dos partidos de esquerda notavam-se sobremaneira nesta região agrícola e o povo reagia favoravelmente ao seu discurso socialista e anti latifúndio. Passava-se a mensagem de que "a terra é de quem a trabalha" e um pouco por toda a parte, organizações começavam a fundar-se sob a forma de cooperativas, que iriam passar a receber os produtos da terra colhidos por todo o povo rural e cujos rendimentos e benefícios iriam diretamente para os próprios e já não para os donos das terras. De facto, muitos dos donos das terras as tinham muitas vezes ao abandono e por isso as mesmas não eram trabalhadas, não havia produção, trabalho, e essa foi uma das maiores razões do êxodo rural para o litoral e para o estrangeiros das décadas anteriores. Mas havia também proprietários que ainda assim, continuavam a trabalhar bem a terra e, alguns desses, foram poupados. Nomeadamente, àqueles que usavam de maior amizade e simpatia, que não ostentavam riqueza e lidavam com humildade para com as pessoas. Este era o caso de Aníbal e Maria da Cruz. Joaquim do Cruval já tinha falecido e, esse sim, era algo ostentador, um pouco arrogante e sempre com aquele "ar de patrão". Talvez devido a estes fatores, alguns dos maiores latifundiários do Alentejo já estavam a ser tomados em nome da "Reforma Agrária", mas Aníbal tinha sido poupado até então. Maria, lá continuava com a sua habitual atividade no mercado e nos queijos, maior das normalidades.
Henrique e Lúcia ainda não sabiam qual seria o seu destino próximo. Seria viver um dia de cada vez. A primeira medida ao chegarem ao Brasil, seria encontrarem uma casa, preferencialmente humilde mas digna, para recomeçarem a vida com o menor encargo possível. Os rapazes teriam que ser colocados numa escola ou colégio, para não interromperem os seus estudos por muito tempo. Só depois iria Lúcia procurar alguma colocação para si e Henrique preferiria certamente um negócio, talvez próprio ou então, a gestão ou gerência de alguma empresa. Estudaria o mercado, as condições; procuraria alguma hipótese de pequena empresa para comprar ou tornar-se sócio, investindo nela ou outra situação. Parado, certamente não iria ficar, mas deveria ter muito cuidado também, para não incorrer em riscos desnecessários. O casal tinha um fundo considerável, mas não interminável, por isso todo o cuidado seria pouco por terras desconhecidas.
O próprio Brasil era um mundo dentro de outro mundo. As cidades, tão diferentes das nossas, mas com traços de portugalidade tão marcados e intensos; os brasões e marcas portuguesas eram existentes por todo o lado; os nomes de ruas, praças, hotéis... apesar de tão distantes de Portugal, parecia que estavam em casa em tantos aspetos.
Filipe já tinha colégio. Foi colocado imediatamente a mãe tratou de escolher a casa para residirem, juntamente com Henrique e André. Apenas ficou a aguardar documentação do consulado de Portugal, para se efetivar no ano letivo devido. Tanto o colégio de Filipe como o infantário de André, eram muito próximos de casa e um do outro. A sua integração foi fácil, uma vez que Filipe era um rapaz afável e aprazível, no entanto alguns dos seus colegas gozavam um pouco com a sua forma de falar a língua portuguesa e por vezes não entendiam bem algumas palavras, mas como já existiam lá dois estudantes portugueses, já estavam habituados; Filipe seria apenas mais um.
Lúcia estava com dificuldade em encontrar trabalho atendendo à sua área de formação, a qual ainda não estava bem enraizada e definida nos meios empresariais brasileiros, a não ser nas grandes empresas e multinacionais (ainda a operar em pouco número, mesmo assim, muito mais do que em Portugal). Entretanto, a sua vida era dedicada, além da procura de anúncios e candidaturas a emprego e entrega de currículos, a cuidar da casa, dos filhos, levá-los e buscá-los às respetivas escolas.
Henrique tinha já marcado como interessantes alguns negócios cuja existência tinha verificado. Preferia adquirir uma empresa já existente, mesmo que a transformasse depois à sua imagem, do que começar algo de início, sem conhecer bem o mercado, os hábitos e costumes, o poder de compra e outros fatores. Não seria de todo de excluir o fator "insegurança" que se vivia no Brasil por estes anos. O Rio de Janeiro era por si só um mundo dentro de outro mundo, com todos os problemas que nele há a considerar. A periferia era zona quase interdita para as pessoas da classe média, principalmente se elas fossem de origem estrangeira, como era o caso do nosso casal. Por isso, escolheram residir numa cobertura com área considerável e vista magnífica sobre a cidade de Cristo Redentor. A cidade maravilhosa, não o é de facto em todas as vertentes e dimensões. As classes sociais são muito vincadas: assim como existem pessoas com muitas posses e poder, existem milhões a viver em condições sub humanas, naquelas favelas da periferia, onde facilmente chegam a decadência, a droga e o crime, mas dificilmente chega a água potável, o saneamento básico, a higiene e o trabalho. Mas a decadência não é uma contra virtude proprietária dos pobres e marginalizados, ela está também muito vincada e acentuada nas classes poderosas, onde a ganância, a corrupção e o compadrio casam com a política e o mundo financeiro e empresarial. São frequentes as guerrilhas de poderio dentro de empresas em bancos; são inúmeros os acontecimentos de "assalto" às leis do Estado e da humanidade e as deturpações e abalroamentos das leis da natureza, nomeadamente na conservação ecológica de reservas naturais como a Amazónia, os Grandes Lagos e, no geral, as terras de ninguém que os camponeses "sem terra" tentam ocupar para obterem o trabalho e sustento que não encontram noutros meios, mas que são travados pelos interesses dos poderosos e das grandes empresas que conseguem a cedência dos políticos a troco de chorudas compensações. O constante boom das cidades, rendidas ao advento da construção, ao aumento da população e à constante imigração, torna-as autênticos monstros de betão, alcatrão e vidro, em detrimento da manutenção da floresta, cujo pulmão está cada vez mais diminuído e em constrangimento respiratório de crescimento exponencial. Assim vive o Brasil das cidades no culminar do último quartel do século. É neste ambiente sócio económico e político que os Cruval Alfonso terão que viver e com o qual terão que coabitar.
Melhor não se encontra Portugal, no qual se manifesta cada vez mais eminente uma guerra civil entre revolucionários e reaccionários - termos usados no momento. A tentativa de golpe militar e confronto entre as forças armadas partidárias e uma e outra facção estiveram por um fio para acontecerem, após ultrapassado o "Verão Quente de 75". No final do ano, a situação militar e política foi solucionada de uma vez, através da intervenção das pessoas mais sensatas e corajosas, tendo sido devolvido ao povo e, por conseguinte ao voto e à jovem democracia, o poder da escolha dos seus futuros responsáveis pelos destinos do país. Foi finalmente aprovada a primeira Constituição, eleito o primeiro Presidente da República e o primeiro Governo saído de eleições na era democrática e o país retomava por fim o caminho da pacificação, numa nova organização comunitária onde não estavam incluídas as colónias ultramarinas. Até ao início da década de 80, o país renasceu dos escombros em que ficou após tantos anos de guerra e após ter vivido tantos anos de costas voltadas para a Europa ocidental à qual pertence geograficamente, mas não em termos sentimentais. Era urgente o abandono da teria do "orgulhosamente sós", que conduziu o país a uma situação de emergência social, económica e financeira. Aos poucos, foram absorvidos principalmente pelo aparelho do Estado, os portugueses retornados de África, mas muitos deles foram também grandes motores de desenvolvimento e inovação no país. Os mais empreendedores, conseguiram montar os seus próprios negócios e trouxeram à economia nacional sangue fresco, mas, ainda mais importante, uma diferente mentalidade e maior abertura que na altura se vivia nas ex-colónias.
A Reforma Agrária no Alentejo era vista como um caso de sucesso, mas não para todos, uma vez que aqueles que tinham conseguido chegar ao controlo das Cooperativas, conseguiram melhores situações para si próprios e suas famílias do que para a generalidade dos trabalhadores. Estes, continuavam o que tinham feito até então, mas em vez de trabalhares para os latifundiários, trabalhavam agora para as Cooperativas. Estas, certamente que cresceram, criaram melhores infraestruturas e melhoraram as condições de trabalho e de remuneração dos trabalhadores da terra, mas as que foram geridas para o próprio umbigo, acabaram por desfalecer numa morte anunciada com a devolução das terras aos seus donos a partir de 79 e anos seguintes. Foram 4 ou 5 anos de prosperidade para alguns e ilusão para muitos. Quanto às Cooperativas que seguiram esse próprio espírito, iriam vingar e tornar-se grandes produtoras nacionais.
Por sorte ou por simpatia, Aníbal e Maria da Cruz escaparam a todos estes acontecimentos. Nunca chegaram a ficar sem as terras da família para trabalhar, acabaram por criar parceria com essas mesmas Cooperativas e outros comerciantes de cereais e por isso não passaram tão dificilmente como outros grandes latifundiários. Os seus caracteres humildes e amigáveis, assim como o seu exemplo de trabalho, proporcionaram-lhes anos de prosperidade, crescimento e felicidade, ao ponto de conseguirem ainda juntar algumas economias para reinvestirem na agricultura, modernizarem as explorações, equipando-as com as últimas tecnologias conhecidas. Iniciaram também a exploração de terras para produção vinícola e tentavam criar a sua própria marca e conceito, além do azeite e dos cereais.