Data de publicação: 24/nov/2012 23:31:32
Não me escandaliza que existam políticos, gestores e outras pessoas com influência em importantes órgãos e empresas, quer públicas quer privadas, sem licenciatura. Todos sabemos que muitos dos grandes empresários dos anos 50, 60 e 70 em Portugal não eram licenciados e isso não os impediu de construírem, alguns deles, alguns impérios financeiros ou económicos. Muitos (ou todos) os Reis e alguns Presidentes de Portugal também não eram licenciados e isso não os impediu de, bem ou mal, conduzirem os destinos do país.
O que faz um bocado de impressão ao povo é que certas pessoas se façam passar por aquilo que não são. Usam da palavra para criticar outros e depois vimos a verificar que a sua cartilha também não é a mais limpa. Se não és licenciado, porque tentas passar por isso? Se não és doutor ou engenheiro, porque aceitas que te tratem com esse título? Se o és, mas através de malabarismos e truques esquisitos a que só alguns (caras de pau) têm acesso, então porque não esclareces devidamente a tua situação?
Muitas das pessoas que conheço hoje em dia e na sua maioria recentes amigos ou colegas, têm-se esforçado de forma indescritível, têm quase que esquecido a sua família e as passagens de serões com ela, para se dedicarem ao estudo, para irem às aulas, retomar um rumo que abandonaram há 10, 15, 20 ou mais anos. Estudar para muitos foi nos anos 70, 80 e 90 opções pelas quais tiveram de abdicar, ou porque necessitavam de trabalhar, ou porque a sua vida pessoal lhes proporcionou outras oportunidades e houve que escolher, abandonando o estudo, ou porque simplesmente não queriam ou não lhes apetecia estudar mais. Passados esses 10, 15, 20 ou mais anos, chegaram à conclusão que o mundo já não se compadece com pessoas que não possuam habilitações académicas de nível superior. Apesar de muitas destas pessoas tenham tirado o seu “curso superior” a trabalhar, a experimentar, aprendendo desta forma com a vida, não lhes foram dadas quaisquer equivalências às suas já sobejamente demonstradas qualidades, capacidades e competências. Mas num mundo e numa sociedade onde só o que conta é o canudo, independentemente do carácter ou da competência de cada um, estas pessoas procuram muitas vezes no canudo a realização de uma satisfação pessoal, mais do que apenas a procura de mais conhecimento. Isto, porque muito do conhecimento que teoricamente vão “beber” às universidades e institutos superiores, já foram por si experimentados em ambiente de trabalho real – muitas vezes até mais do que alguns professores do ensino superior, que apenas têm a teoria e nunca tiveram a vertente prática daquilo que ensinam e investigam.
Falo dos estudantes trabalhadores com idades entre os 30 e tal os 50 e tal anos – pessoas dedicadas, esforçadas - que procuram nos estudos (que não obtiveram enquanto jovens), uma realização pessoal, a concretização de um sonho, a demonstração para si próprio e para com aqueles mais chegados – familiares, amigos, colegas, chefes – que eles e elas afinal têm capacidades não reconhecidas mas reais, têm competências afirmadas mas não confirmadas. Estas são as pessoas que atualmente sustentam financeiramente muitas das escolas e institutos superiores um pouco por esse país fora, pois pagam as suas propinas, não usufruem de bolsas nem de residências e ainda conseguem – apesar da sua vida de trabalho e familiar – muitas vezes melhores classificações que muitos dos alunos “profissionais” (normalmente jovens). São estes ainda os “baby bommers” (e seus filhos) que continuam a sustentar esta sociedade ferida e que, quando passarem à inatividade, se é que irão ter essa oportunidade, a sua contribuição irá fazer muita falta ao país, às escolas, aos serviços de um modo geral. São estes também os pais e avós que terão aos 60 e 70 anos que sustentar os filhos e netos que estudaram até aos 30 e tal, 40 anos e que não arranjaram emprego ou então que pegaram no negócio dos velhotes, porque não havia mais nada ou tiveram que emigrar.
Numa sociedade séria há que fazer inferências para o futuro, há que prever o que poderá suceder daqui a 10, 20 ou 30 anos, nunca pensando que poderá ser tudo bom, mas antes pelo contrário, prever os piores dos cenários que possam vir a acontecer, com vista a lançar medidas no presente não só que corrijam os erros do passado, como também que criem uma perspetiva melhor para o futuro. É esta a obrigação de cada geração atual: não gastar tudo o que pode agora, não gastar também aquilo que não pode, porque o futuro é desconhecido, mas através dos milhões de anos de história humana, é possível aprender as lições do passado e perspetivá-las no futuro.
Assegurar um futuro risonho às gerações vindouras passa por:
· Não gastar demasiado no presente;
· Não “queimar” recursos preciosos;
· Não endividar as famílias, as empresas, as instituições, os países;
· Preservar o ambiente;
· Contribuir para a uma sociedade participativa e solidária;
· Trabalhar pela inclusão social dos mais debilitados e desprotegidos;
· Inovar, recriar, reutilizar, reconstruir.
Estes e outros tópicos que se lhe possam acrescentar são lógicos e não é necessário ter uma licenciatura para os enunciar.
Sejamos pois verdadeiros, uns para com os outros. Só vivendo numa sociedade verdadeira, correta, humilde e solidária, as mentalidades evoluirão a par com a tecnologia, porque possuir tecnologia de ponta a ser utilizada por mentalidades retrógradas, já verificámos na nossa história no que isso resultou.
Se os outros se sentem felizes fora da verdade, então deixai-os andar: gozá-los, recriminá-los, espezinhá-los, também não faz de nós uma melhor sociedade. A publicidade que gratuitamente é dada a essas pessoas não verdadeiras, pode fazer delas vítimas da própria sociedade e esse fato proporcionar nelas a sensação de que estão a agir corretamente. Assim, em vez de pedirem desculpa e assumirem os seus erros, deixam-se levar num mar de mentira e de arrogância, própria de pessoas sem escrúpulos e de caráter fraco e pobre. Que cada um seja portanto autêntico!
31Julho2012
J. Rafael Coelho