Data de publicação: 27/mai/2012 9:19:25
Vem de longe a tradição de Coimbra, como lugar de culto das praxes, das serenatas, dos estudantes que inundam as ruas da cidade fardados de negro. Vem de longe o prestígio e o orgulho de estudar em Coimbra, de ser ou ter sido estudante de Coimbra. Vem de longe o nascimento do fado-canção de Coimbra, tão singular que, ao referirmo-nos a ele, temos de dizer que é de Coimbra. Sendo o fado neste momento património imaterial da humanidade, o fado de Coimbra é único e só se canta em Coimbra, por conimbricenses ou por estudantes de Coimbra.
De longe vem também a tradição de Pedro e Inês, as reconquistas cristãs, o amor que tantos Reis de Portugal tiveram por Coimbra, desde Dom Afonso Henriques, passando por Dom Dinis... O famoso milagre das rosas de que foi protagonista a Rainha Santa Isabel.
Tendo sido Coimbra, durante séculos vista e sentida por todos os portugueses como a terceira cidade do país, obtendo da sua centralidade geográfica intermédia entre as duas primeiras, a riqueza do seu património arquitetónico e cultural, sem contar o que ainda está por descobrir por debaixo das casas e das ruas, a inequívoca qualidade do seu solo circundante para cultivo de cereais húmidos e secos, do vinho de regiões demarcadas entre Bairrada e Dão, dos doces conventuais, dos produtos piscícolas oriundos do Mondego, das suas variadas e lindas paisagens, sendo que a própria cidade se encontra plantada entre as elevações Lousã-Buçaco, na bainha da Estrela e as baixas terras ribeirinhas. Acompanhou o moderado crescimento industrial português do século XX e foi polo e sede de muitas empresas deste setor da economia.
O desenvolvimento das suas estruturas universitárias trouxe à cidade do conhecimento a inovação, a criatividade, a sofisticação. Investiu-se e desenvolveu-se inúmeras estruturas educativas e de saúde, invejáveis por muitas cidades europeias, algumas até de maiores dimensões.
A par de todo este desenvolvimento, do crescimento da cidade e de toda esta tradição, nasceu também um dos clubes mais carismáticos do país. Um clube académico que, como todos os outros, nasceu amador, verdadeiramente académico e cujos ciclos variavam em função da estadia dos seus alunos na pela cidade. Um clube, que será por ventura a nível nacional, aquele que maior número de modalidades sustenta (ou um dos maiores) e que maior quantidade de jovens forma desportivamente em Portugal. Percorrendo o país de norte a sul, não encontraremos certamente qualquer aversão das pessoas à Académica, antes pelo contrário, este clube conhece muitos adeptos espalhados pelo país. Rivalidades, só existem por motivos históricos e não bairristas.
Na passada semana foi apresentado um estudo em que se apresentava a Académica como o quarto clube com mais número de fãs em determinada rede social. Estudo que vale o que vale, no entanto pode de facto servir de barómetro para o incontável universo de adeptos de clubes no nosso país. Como se sabe, a massa adepta da Académica é bastante efusiva e participativa. Porém, não se encontra ainda muitas vezes da parte da cidade, o apoio merecido e digno que a Briosa reclama.
Mais uma vez neste domingo, Coimbra foi uma lição.
Revisitando o tema que foi lançado na passada semana, que por sinal veio muito a propósito voltar a referir, podemos atá afirmar que Coimbra foi a lição da humildade, do esforço, da inteligência e do talento. Diz a canção e dizem os que estudam em Coimbra que “só passa quem souber”. Pois bem, muitas vezes, fomos lição, muitas vezes demos lições. Hoje, Coimbra e a sua Briosa alcançaram um lugar que lhe é merecido, um lugar que é devido. Coimbra ocupou hoje o seu lugar. Ainda mais, num domingo que, para muitos terá sido vulgar, mas que para outros foi o domingo da Ascensão, outrora feriado nacional (a moda do corte dos feriados não é nova, portanto); assim, existe aqui a metáfora de que a Briosa ascendeu e fez com que os seus adeptos ascendessem também eles ao céu, lugar onde neste momento e durante os próximos tempos, sentirão que se encontram, devido a tamanha alegria.
73 Anos à espera de voltar à glória são muitos anos de espera. Mas são também os suficientes para sentirmos que afinal o amanhã existe e está lá à nossa espera. O futuro existe e um dia, cruzar-nos-emos com ele. A esperança nunca morre e por isso, irá um dia existir o nosso dia: o dia da realização do nosso sonho, da promessa cumprida, da esperança alcançada, do cumprimento do nosso objetivo.
Há que reaprender, a própria Coimbra que, ela própria terá de aprender a sua lição. Não só no desporto ou no futebol, mas também as lições que deixou de estudar: as indústrias que deixou morrer e os pedregulhos de cimento e taipa semidestruídos que encontramos onde anteriormente existiam prósperas e promissoras empresas; tem de aprender a lição da agricultura, que foi esquecendo com o tempo, que esqueceu de praticar e que, hoje em dia, tanto de bom poderia trazer, se não estivesse votada ao abandono.
Se esses pudessem voltar a ser desígnios de presente e de futuro, conjuntamente com o progresso científico e tecnológico de que Coimbra é já uma referência de nível mundial, o potencial turístico existente e a hospitalidade e simpatia das suas gentes, certamente esta cidade, este concelho e as pessoas eram mais ocupadas, mais realizadas e mais felizes. Certamente a fila dos centros de (des) emprego diminuiria e os deambulantes espalhados pela cidade encontrariam um digno abrigo.
O que precisamos mais para melhorar esta nossa sociedade?
Quando é que todos iremos fazer o esforço de transformação de mentalidades?
Até onde precisaremos de chegar para assumir a nossa condição de semelhantes?
Quem temos dentro do nosso peito que nos ajude a refletir sobre tudo isto?
Como iremos tratar esta doença que consiste na falta de humildade e de amor ao outro?
Estamos na cidade das lições, dêmos por isso (como a Académica de hoje) lições de humildade, de entreajuda, de inteligência, de paciência, de talento e de luta.
Parabéns Briosa, tradição cumprida, o amanhã é já a seguir!
20Maio2012
J. Rafael Coelho