Data de publicação: 26/abr/2012 12:53:18
26 de Abril de 2012
Vi hoje esta foto nas redes sociais!
Mas o que me escandalizou não foi a foto, mas sim o comentário.
Sempre me habituei, desde pequeno – até porque sou natural de uma freguesia do interior do Baixo Alentejo, com uma tradicional tendência política para a radicalidade de esquerda - à ideia de que certa esquerda deste país tinha a mania de que o 25 de Abril era sua propriedade. Pior do que isso: todos aqueles que, naquela terra, não fossem partidários dessa esquerda, eram considerados “fascistas”. Existe portanto ainda hoje uma confusão entre fascismo VS não-esquerdismo. Possivelmente, a confusão ainda é mais extensa e poderá ser entre comunismo VS democracia que, como todo o mundo sabe, exceto os próprios, são noções contraditórias, assim como são contraditórios os conceitos fascismo VS democracia.
Passados 38 anos sobre a Revolução, confirma-se que essa esquerda continua a achar que o 25 de Abril lhe pertence, em vez de pertencer a todos quantos (neste país) sejam, se considerem e ajam como democratas. Se a sua noção de democracia é a de tentarem apoderar-se do 25 de Abril como se fosse seu, então que raio de democracia é essa que apregoam? Acho que o 25 de Abril é de todos os que se consideram e agem como democratas, que não são, certamente, os seguidores dessa esquerda populista despida de ideais.
Quando alguns partidários da Associação 25 de Abril e outros se autoexcluem das comemorações do 25 de Abril, essa acaba por ser uma birra de carácter, ele próprio, pouco democrático, pouco tolerante e que em nada beneficia a paz social necessária ao nosso país e que o ajude à superação da crise. Alegadamente, essa atitude prende-se com o facto de, no presente, as autoridades deste país serem obrigadas a ajustar alguns dos “direitos adquiridos” que, alegadamente, nos trouxe a Revolução de Abril. Não se questionam porém, se alguns desses direitos não terão sido excessivos atendendo à escassez de recursos do país. E quando falo em direitos, não falo do nem do abono de família, nem do subsídio de desemprego, nem do direito a uma reforma digna; falo dos direitos que certos senhores que agora se excluem – populisticamente – conseguiram para si próprios, como é o caso de chorudas reformas, mordomias como carros do Estado ao seu serviço e coisas do género, às quais não os vemos abdicar em favor dos mais pobres, desempregados, dos sem-abrigo e dos que passam fome.
Quando muitas vezes se chama “populista” a certa direita, não se está a avaliar o nível de populismo que hoje está parente na nossa esquerda – ou então, faz-se isso para desviar as atenções da opinião pública acerca do seu próprio populismo.
Porque é que a certa esquerda deste país se coloca sempre de fora das decisões e responsabilidades políticas do país? – Se calhar, apenas no intuito de continuar a manter o nível eleitoral e o poder junto das organizações sindicais e protestatórias do sistema.
Porque é que certa esquerda utiliza no seu discurso sempre os mesmos “chavões” tendencialmente populistas, como “pacto de agressão”, “forças reacionárias”, se autodenominam como “forças democráticas” – como se fosse necessário dizerem-se democratas, porque as outras forças políticas não necessitam de se dizerem democráticas, porque a sua ação assim o demonstra...
Que influências têm ainda essas forças junto da classe operária? Nenhuma! Se 90% da nossa classe operária votasse nessas forças políticas, elas não tinham apenas 10% dos votos!
Que influências têm ainda essas forças junto das organizações sindicais? Toda! Então porque se deixam os trabalhadores (classe operária) enganar pela influência de organizações sindicais não representativas da população em geral? De certeza que, se os sindicatos não fossem tão politizados, teriam certamente mais trabalhadores sindicalizados e, com efeito, o poder dos trabalhadores junto das negociações em sede de concertação social seria muito maior. Se hoje em dia se estão a perder muitos dos direitos que após o 25 de Abril foram conseguidos pelos trabalhadores, esse facto em muito se deve ao sectarismo sindical e não aos sucessivos governos. Deve-se também possivelmente à excessiva massificação de direitos, sem que tivesse sido estudada devidamente a sustentabilidade desses direitos no país.
A nossa democracia e o nosso crescimento, assentou em políticas de baixos salários e esse erro deveu-se, em grande parte, aos sindicatos, ao seu fraco poder de influência e ao seu fraco poder negocial.
Ora vamos lá refletir um pouco porque é que os países do centro e norte da Europa têm maiores salários e ainda assim menos desemprego, mais direitos sociais e mais sustentabilidade:
- Mais salário gera mais poder de compra;
- Mais poder de compra gera mais consumo;
- Mais consumo gera mais produção;
- Mais produção gera mais investimento;
- Mais investimento gera mais emprego;
- Mais emprego e mais salário geram:
> Maior satisfação social;
> Maior produtividade;
> Mais empresas;
> Mais competitividade;
> Maior volume na coleta de impostos;
> Redução da carga fiscal;
> Maior e melhor investimento do Estado;
> Sustentabilidade da Segurança Social;
> Benefícios sociais;
> Desendividamento das atuais e futuras gerações;
> Renovação demográfica.
Em suma: mais salários, mais desenvolvimento económico e maiores índices de autoestima e felicidade da população. Se os patrões (empresários) investem lá fora e muitas vezes pagam maiores salários lá fora, então cá dentro também o fariam, num ambiente produtivo, fiscal e social mais atrativo. Portanto, o fraco desempenho dos salários no nosso país, não se deve simplesmente aos patrões nem aos governos, mas possivelmente ao sectarismo dos sindicatos. Qual seria o empresário que não desejaria poder pagar maiores salários, se o seu nível de produção for maior? Qual é o governo que não deseja “aliviar” fiscalmente o seu povo, podendo com isso obter ainda maior receita? Tanto uns como outros, com certeza que todos o desejariam.
Pois, tenhamos a certeza então que o nosso nível de vida não depende apenas de um ou dois “quereres”, mas de todos os “quereres” envolvidos.
Não só dos patrões, como também dos empregados; não só dos governos, como também das oposições. Mesmo que o país consiga ultrapassar esta crise, que será provavelmente uma das mais dolorosas da sua história, há que pensar em mudar o paradigma e a mentalidade da nossa sociedade.
Herdámos dos nossos pais a paz, a democracia e a liberdade, temos por isso pelo menos a obrigação de deixar aos nossos filhos o desenvolvimento, o conhecimento e a sustentabilidade.
Viva a Democracia, abaixo o sectarismo!
J. Rafael Coelho