André era de facto um menino especial.
Desde muito pequenino, que gostava de cantar, de falar com os pais acerca das coisas da escola, daquilo que aprendia e adicionava sempre muito entusiasmo em tudo em que participava. Quando se pediam voluntários para alguma coisa: cantar, representar, aprender algo novo, equipas para trabalhos em grupo, equipas para desporto, ele oferecia-se sempre. Estava sempre na linha da frente, puxava e motivava as outras crianças a fazê-lo. A sua grande timidez, desvanecia-se nestas alturas, nas ocasiões de participar ativamente nas atividades que lhes eram propostas.
Geralmente, os tímidos são assim: pessoas sensíveis e introvertidas, que saltam da casca quando são estimulados os seus sentidos estéticos e artísticos. André tinha muito jeito para quase tudo o que se relacionava com arte e estética. Apesar de não ter grande mão para desenhar e para fazer trabalhos manuais dirigidos nem para o desporto, embora tivesse uma estrutura atlética e robusta. A sua arte era mais cerebral: música, construção, arrumação de livros nas estantes, arrumação e organização das suas coisas no seu quarto, a combinação da roupa, o penteado, a maneira de falar e o vocabulário rico para idade - importante pronúncio de boa escrita e de boa leitura. Interessava-se pelo conhecimento de tudo: os astros, o céu, o firmamento, o universo e a origem do mundo; a terra e as suas características - atmosfera, biosfera e estratosfera; história; línguas estrangeiras; geografia; tinha um bom raciocínio matemático e gostava de falar com adultos cultos, para se enriquecer ainda mais.
Como os pais adotivos eram gente com um QI acima da média, ninguém nunca se recordava do facto de André não ser filho biológico desta família. Mas André sabia-o. Conhecia a sua história, porque os pais Lúcia e Henrique nunca o quiseram ocultar, antes pelo contrário, logo que o menino teve consciência para isso, lá para os seus 4, 5 anos, seus pais deram-lhe a conhecer a sua história de abandono por parte da sua mãe biológica, que eles nunca chegaram a saber quem seria e não sabem do seu paradeiro, uma vez que nunca souberam que alguma mulher procurasse um filho que abandonara ainda bebé recém-nascido, durante as confusas manifestações de 74.
Onze anos passados sobre esse acontecimento fatídico para aquela mãe, mas um feliz acontecimento para estes pais generosos e orgulhosos, que acolheram este filho como seu, que tratam com o mesmo amor, dedicação e zelo com que brindam também Filipe. Sorte também a teve André, que foi encontrado e acarinhado por boa gente, rica de coração e de ação e felicidade também para Filipe que, assim, ganhou um inesperado irmão que há muito pedia aos pais e cuja mãe, de forma natural não poderia gerar.
Aos onze anos, André começou a estudar música e instrumentos de sopro. Era impressionante a rapidez com a qual assimilava os conhecimentos e ganhava as técnicas e a destreza labial e manual para com os instrumentos. Rapidamente quis também aprender a tocar cordas e teclas, pelo que aos 13 anos já dominava de maneira muito satisfatória 5 ou 6 instrumentos de áreas diferentes e em alguns, até com bastante desenvoltura. Nessa idade começa também a compor algumas melodias e a escrever alguns poemas e letras para as suas canções. Apesar de gostar de trabalhar em equipa e se integrar facilmente em grupos de trabalho na escola e outros, André desenvolvia o seu trabalho principalmente na privacidade e silêncio do seu quarto, de firma autodidata e por vezes mostrava-os à sua mãe e ao seu irmão. Ao pai, tinha mais dificuldade, devido ao pouco tempo que este dispunha e também porque tinha mais vergonha, uma vez que o pai era também mais exigente na crítica por ser refinado no ouvido.
Desde os 10 anos a viver no Alentejo, com os tios, André conseguia encontrar tempo para tudo aquilo que desejava além da escola: aulas de música e instrumentos, ver as séries de televisão que mais lhe agradava, escrever, arranjar algum tempo para jogar com os amigos e colegas, quer fosse futebol, ao berlinde ou simplesmente andar atrás das raparigas. Nunca se esquecia semanalmente do seu momento com Deus, na igreja, altura em que conseguia a força necessária para gastar toda aquela energia.
Filipe, o seu irmão grande, acompanhava-o sempre que necessário em tudo o que necessitasse, mas era rapaz para gostar mais de ir para o campo com os amigos, aos pardais, andar de bicicleta e jogar à bola, mas com os rapazes maiores. A única atividade extraescolar que tinha era a prática de futebol no clube amador de formação da região. Este clube era constituído por rapazes e raparigas de todo o concelho, organizado pelo pelouro do desporto da câmara municipal, que patrocinava um autocarro e motorista que recolhia e devolvia as crianças e jovens de todas as localidades, concentrando-os todos num único clube e escola de formação desportiva.
Após terem decidido regressar a Portugal, Lúcia e Henrique deixaram os miúdos com os cunhados, conforme planeado e regressaram ao Brasil, de onde não conseguiram sair sem que tivesse passado quase dois anos. Foi difícil a escolha da melhor equipa de gestores para administrarem localmente as empresas em franco desenvolvimento. Regressados definitivamente a Portugal, decidiram manter os rapazes no Alentejo e foram viver para o Arvorete, por se encontrar mais próximo dos centros de decisão, mas todos os fins-de-semana, iam passar ao Alentejo com os filhos e restante família. Esta decisão prendeu-se com o facto de as crianças terem maior qualidade de vida a viver no Alentejo: menor stress, inexistência de poluição, mais segurança, mais espaço para brincadeiras e atividades, menor preocupação diária dos pais em transportá-los para a escola e eventuais atividades extracurriculares, estas serem mais difíceis de integrar, de praticar e mais dispendiosas... Enfim, só vantagens. De qualquer forma, as crianças habituaram-se a não viver sempre com os pais durante mais de dois anos, afeiçoaram-se aos primos e tios, ganharam amigos no Alentejo e iniciaram projetos, por isso esta foi a solução apoiada por todos. Claro que tanto para pais como para filhos, estarem juntos seria à primeira vista o que todos gostariam, mas como não se pode ter tudo quanto se deseja, foi assim decido unanimemente. Os pais têm assim também mais tempo para se dedicarem ao seu trabalho e não se preocupam com a lide doméstica, porque no Arvorete, continuam Albertina e Gonçalves a tratarem de tudo o necessário, com a ajuda de Mary. Os filhos de Mary - Mary, Bruno e Elvita Smith, continuam a viver com a mãe. Mary, com a sua licenciatura terminada, encontrou para as recém readquiridas empresas de Henrique o seu posto de trabalho. Bruno já está a terminar o seu mestrado em turismo e Elvita, está para entrar no ensino superior.
Apesar desta não relação de parentesco existente entre a família Smith Quiose e Cruval Alfonso, esta ligação - com Mary e os filhos a viver com António Alfonso no Arvorete - veio a revelar-se frutífera e positiva. À parte da criminalidade do seu presidiário marido e pai, mulher e filhos em nada têm a ver em caráter e educação com aquele. Mary, sendo uma senhora com M grande (M de Misses, porque é inglesa), sempre transmitiu aos seus filhos as melhores referências e educação. Sendo oriunda de família ducal britânica, deu a educação e bons costumes recebidos no seio da sua família de origem, não tendo por isso qualquer culpa dos erros de António Quiose. Tão positiva é a transmissão dos seus valores, que Henrique prometeu trabalho à sua filha mais velha, mal soube da sua disponibilidade, o mesmo podendo vir a acontecer com os outros dois, se assim o desejarem.
Aquela maneira de ser introvertida na normalidade, que se transformava extrovertido quando em contacto com a arte, tornava André muito popular entre as raparigas, mas era também de certa forma discriminado entre os rapazes. Como já acontecia no Brasil, os rapazes troçavam de André, devido à sua sensibilidade tipicamente feminina, a par com o seu rosto e corpo ameninados. Poderia existir alguma inveja da generalidade dos rapazes por André estar frequentemente rodeado de raparigas e acompanhar muitas vezes com elas nos recreios, nos jogos e até nos trabalhos de grupo e estudo, na sua dedicação às coisas da escola e consequentes notas que, geralmente ultrapassavam o bom e roçavam o excelente. Nada de anormal, achava ele, porque era assim que se sentia bem e feliz. Incomodava-o os constantes desaforos que ouvia e as troças de era vítima, no entanto, a sua mente era forte e capaz de lidar com essas circunstâncias com normalidade.
Ao completar o nono ano, André pediu aos pais para ingressar no colégio do conservatório de música. Lúcia e Henrique, apesar da apreensão sempre incómoda de imaginarem um eventual futuro incerto como músico para o seu filho, decidiram não o contrariar e aceitaram mais este desafio, apoiando-o. Nesta época, a dedicação à arte e à cultura era ainda vista como um tabu, uma vez que existiam muitos artistas sem trabalho e a incerteza das suas futuras composições causava-lhes um sentimento de preocupação. Não que André viesse a precisar de futuro de um emprego para sobreviver, mas porque queriam ver o seu filho realizado e feliz profissionalmente na sua idade adulta. Um lugar para trabalhar quando fossem pessoas responsáveis, o casal teria sempre para os seus filhos, isso seria certo, no entanto a preocupação era mais sentimental do que genericamente prática.
Filipe acabava de ingressar na faculdade para estudar gestão. Não tão inteligente e com um currículo até então tão promissor como o de André, Filipe era um jovem mais pragmático e optava por uma formação que lhe desse competências que viessem a ser úteis às empresas da família no futuro. Filipe deixava assim o Alentejo, para ir residir definitivamente para o Arvorete, juntamente com os seus pais, avô e restantes hóspedes da mansão. Para ele seria uma nova etapa na sua vida de recém-adulto, mas ainda muito dependente dos seus pais. Deixava assim os seus amigos do Alentejo, alguns deles também tinham ingressado em faculdades e outros teriam ficado por ali, sem estudar mais e iriam tentar encontrar trabalho.
André ingressaria no colégio de forma interna, na capital alentejana, ficando assim tão distante dos pais como dos tios e, por isso, com melhores possibilidades para visitar ambos em alguns fins-de-semana. Nas férias, certamente desejaria com mais facilidade passá-las no Alentejo do que no Arvorete e poderia assim rever os amigos com maior frequência.