No hospital, Henrique e Lúcia aguardavam sem paciência as notícias da equipa médica que acompanhava António. Gonçalves tinha informado ao telefone que o seu pai tinha sofrido uma perturbação, que poderia ser um acidente vascular cerebral ou um enfarte do miocárdio. A idade avançada do ancião preocupava todos. Este homem que até à beira dos oitenta anos nunca tinha conhecido a amarga experiência de qualquer doença que não fossem algumas enxaquecas provocadas por um copito a mais ou ligeiras constipações, desde sempre António Alfonso usufruía de uma saúde de ferro. Porém, os seus hábitos sedentários dos últimos quinze a vinte anos, juntamente com alguns hábitos alimentares pouco convenientes para a saúde e o já famoso copito de uísque, poderão ter atracado neste mau porto. Dizia Gonçalves que o senhor começou por sentir mal, mas não querendo inicialmente dando o braço a torcer, reconhecendo que estava a necessitar de ajuda médica. Em poucos minutos, desmaiou no sofá e estava sozinho. O cintilar do copo de cristal a quebrar-se no chão, chamou à atenção de Gonçalves que estava por perto e acorreu para se inteirar acerca do que se estava a passar. Deu então com aquele cenário, chamou de imediato uma ambulância e a seguir ligou para o gabinete de Henrique, cuja chamada foi transferida para o restaurante e este recebeu a notícia com grande preocupação e consternação.
Mary também chegava ao hospital, para tentar inteirar-se da saúde do seu amigo António. De facto a decisão de Mary e os seus filhos terem ido residir para o Arvorete, após a detenção e prisão de António Quiose, foi a melhor opção para aquela família. O que seria de António Alfonso todos estes anos sozinho naquela casa de corredores, infindáveis, portas largas e janelas incontáveis? Apenas ele, com os fidelíssimos empregados Gonçalves e Albertina. Aquela família trouxe vida, alegria e juventude àquela casa, após a emigração de Henrique e Lúcia com os filhos para o Brasil. Agora, era como se pertencessem à família, aquelas pessoas amáveis, simpáticas e educadas. A riqueza deixada pelo criminoso Quiose à mulher e filhos, apesar de toda aquela que foi confiscada pelos tribunais, deu e sobrou para criar os seus filhos, sempre preocupada com a contribuição necessária para os gastos no Arvorete.
Mas as notícias não eram as melhores:
- Este é o ano da saída de António da cadeia. Não sei como isso será feito... - informava Mary, o casal.
- Não me diga! Nunca mais nos lembrámos disso. E quando será isso? - Perguntava surpreendida Lúcia.
- Penso que será ainda antes do verão.
- E sabe para onde ela irá e o que irá fazer? - Questionava Henrique.
- Não sei - respondia Mary - nunca o visitei durante todos estes anos. Ele também nunca me tentou contactar, nem sequer quando morreu a velha Eduarda.
- A Eduarda morreu? - Perguntavam admirados e ao mesmo tempo ambos os membros do casal.
- Sim, há uns nove ou dez anos. Vocês estavam no Brasil e nós não vos quisemos maçar com uma notícia como essa, concordam?
- Sim, com certeza que não viríamos do Brasil para a acompanhar no funeral, depois de tudo o que essa mulher aprontou na nossa família e depois de tudo o que fez e dos que representou para nós. - Concordava Lúcia.
- Visto que Quiose já não pode contar com a sua comparsa, o que irá agora fazer? Com certeza que para Angola não deverá regressar, uma vez que o país se encontra numa guerra civil infindável e os intrusos não serão lá bem vindos... - Opinava Henrique.
- Não se sabe... em tempos de crise ou de guerra existem sempre oportunistas como ele que conseguem infiltrar-se e voltar a encontrar negócios maléficos para ganharem dinheiro de forma desonesta... - Dizia Lúcia - ... desculpe Mary, ao fim de contas, estamos para aqui a dizer mal do pai dos seus filhos, mas sabe que o horror que essa pessoa fez foi tão grave, que nós nunca mais o esqueceremos, mas pela negativa.
- Não nos preocupemos com isso. O que houver, saber-se-á. E se não soubermos nada, ainda melhor. - Dizia Mary.
Ao fundo do corredor, surgia um médico que parecia dirigir-se aos familiares de António.
O casal e Mary levantaram-se e ficaram surpresos, a aguardar notícias do doutor.
- São os familiares do senhor António Alfonso? - Responderam que sim - Tenho a dizer-vos que o paciente se encontra em estado bastante grave e o seu prognóstico é bastante reservado. O senhor António sofreu um grave acidente vascular cerebral, acompanhado de falência de alguns órgãos. Fez uma paragem cardíaca e tem dificuldades de respiração, sendo que os rins, fígado e pâncreas estão com dificuldades no seu funcionamento. O seu estado diabético agrava a situação e contribui para a falência desses órgãos. Atendendo à sua idade, não sabemos se conseguirá resistir a tamanha gravidade e, se resistir, poderá vir a ficar em estado "vegetativo". Neste momento, devido às dificuldades respiratórias e outras, encontra-se em coma induzido, para que a funcionalidade do corpo seja controlada artificialmente. Portanto, para resumir, caros amigos, não vos posso dar grandes esperanças.
- Obrigado, senhor doutor! - Agradeceu o filho.
Sentaram-se novamente, após o médico ter voltado costas. Parecia algo apressado. Notava-se pelo movimento nos corredores que esse não era um dia bom para aquelas equipas médicas. Todos andavam bastante apressados e algo nervosos. Por isso, também eles se retiraram com destino ao Arvorete, uma vez que teriam de dar as notícias aos restantes familiares.
Já no Arvorete, Lúcia ligou ao irmão Aníbal. Henrique deixou recado à secretária de Delmiro, para que ele entrasse em contacto, quando fosse possível. Mary, informava os empregados e os filhos do estado de António. Todos estavam bastante consternados com toda esta situação. Apesar da idade, como já se disse, António vendia saúde, pelos menos, aparentemente. Ele era uma pessoa muito querida entre todos os que com ele se relacionavam e por isso, ainda mais inesperada e chocante era a situação desta crise de saúde gravíssima de António.
À hora do jantar, tocou o telefone. Todos ficaram de imediato em sobressalto e a pensar o pior. Gonçalves chamava ao telefone o Henrique que, apressadamente e com receio, acorreu a atender. Henrique? Sim? É o Delmiro, como está? Soube que queria falar comigo. Henrique, respirando de alívio, contou ao amigo advogado e político o que tinha acontecido. Delmiro lamentou a situação, desejando as rápidas melhoras para o seu pai. Informou-o ainda que estava brevemente de regresso ao seu escritório de advocacia. O Governo ia sofrer uma remodelação - situação que seria comunicada ao país provavelmente no dia seguinte - e ele solicitara ao seu ministro para ser substituído, uma vez que pretendia regressar à vida da lei e dos tribunais, porque estava cansado da política, dos corredores do poder e sentia que essa não era de facto a sua vocação, nem pretendia fazer carreira dessa forma. O seu trabalho como assessor não lhe agradava e sentia-se como mais um secretário, cujas ideias não tinham qualquer eco junto dos seus pares e por isso pretendia retirar-se. A sua demissão tinha sido aceite, mas ia figurar no novo elenco do ministério como uma remodelação política e não como uma demissão. Combinaram então para o dia seguinte um almoço juntos, no hotel principal de Henrique, no qual ele pediu também a presença de Lúcia, que o advogado compreendeu.
A saída do Governo por parte de Delmiro vinha mesmo ao encontro das pretensões de Henrique. Ele desejava colocar alguém a investigar o processo do seu filho e ninguém melhor que o advogado com queda para investigador para cumprir essa missão. Comentou o facto com Lúcia e esta concordou. De facto não haveria ninguém melhor para desempenhar essa função. Além disso, Henrique não teria com certeza tempo para se dedicar a isso e Lúcia não gostaria que houvesse grande contacto entre ele e Cláudia, a mãe do filho do seu marido. Nunca durante todos estes anos de casamento Lúcia se tinha sentido tão insegura na sua relação. Sabia que Henrique lhe era fiel e o que tinha acontecido há tantos anos em nada deveria afetar o seu relacionamento, no entanto o receio, mesmo que involuntário e inconsciente, estava presente. Por vezes, em segredo para que ninguém note, Lúcia refugia-se na sua privacidade, para desabafar a sua angústia e é nessas alturas que o seu corpo larga sob a forma de gotículas oculares a mágoa que o seu coração sente, já que este não se encontra em contacto com o exterior.
No dia seguinte, más notícias chegaram cedo. O telefone tocava com insistência desde as cinco e tal da manhã, mas como se encontrava no hall de entrada, no rés-do-chão, era pouco audível no primeiro andar do Arvorete. Os empregados dormiam no anexo, também um pouco longe e por isso não o ouviram. Apenas quando Albertina de levantou e foi ao quarto de banho e depois à cozinha, é que ouviu o telefone, tendo ido chamar de imediato Gonçalves, porque essas não eram as suas funções e não iriam passar a sê-lo agora. Ao atender o telefone, ainda meio a dormir, Gonçalves parecia que estava a viver um pesadelo, quando alguém o informava notícias do hospital. Gonçalves teve que se sentar numa cadeira que sempre está junta ao móvel que suporta o telefone. Ao terminar de ouvir o que do outro lado tinham para dizer, Gonçalves desligou. Ficou sentado uns minutos, sem saber como transmitir aquela triste notícia. Primeiramente, dirigiu-se à pessoa com quem seria mais fácil falar. Albertina ficou igualmente chocada com a notícia e não estava a conseguir ajudar o Gonçalves a descalçar aquela bota de dar esta informação aos senhores. Pensou para já, esperar que os senhores acordem e se levantem. Enquanto isso não acontece, pensa uma forma de anunciar o teor do telefonema. Entretanto, um duche e o pequeno almoço, poderão proporcionar-lhe um refrescamento maior do pensamento.