Data de publicação: 15/jul/2012 17:39:44
Cada pessoa estuda e forma-se, uns mais outros menos, consoante as suas capacidades, muitas vezes consoante a suas possibilidades, mas (sempre) conforme a sua vontade.
Nos tempos anteriores a 74 (e ainda alguns anos depois), estudar até mais tarde, até ao ensino superior, não consistia a regra geral, mas estava esse estatuto condicionado à situação social e principalmente económica da família do jovem aluno.
Muitos de nós ouvimos de nossos pais ou tios ou avós que começaram a trabalhar aos 11, outros aos 14, outros aos 16 anos. Muitos cidadãos chegaram à década de 80 ou 90 com pouco mais de 50 anos de idade e com 40 anos de descontos. Na altura em que essas pessoas nasceram (décadas de 30, 40 e anteriores) os casais tinham geralmente muitos filhos, não só porque não existiam tantos meios para os evitar, mas também porque as crianças cresciam “como cogumelos”: quanto mais filhos, mais braços de trabalho, mais hipóteses de a família se autossustentar e apesar de haver mais bocas para alimentar, também existiam mais para trabalhar. Porém, muito do povo crescia e vivia miseravelmente, mal conseguindo sobreviver, principalmente as gentes do interior do país; porém, a dignidade dessas pessoas, ninguém lha tirava e sempre faziam por aparecer com o seu fato domingueiro, colocavam à mesa o melhor que a terra lhes podia dar e sempre recebiam o seu vizinho, um seu familiar distante ou outro qualquer visitante com toda a hospitalidade, simplicidade e amizade.
Abril trouxe também alterações ao nível da justiça no acesso ao ensino e por isso o Estado decidiu que nenhum aluno com capacidade e vontade ficaria de fora do sistema de ensino devido à eventual falta de recursos económicos. Criou-se a escolaridade mínima obrigatória, que foi evoluindo do 4º até ao 9º e num futuro próximo, espera-se que chegue ao 12º ano. Condenou-se e tentou abolir-se o trabalho infantil, que hoje só é permitido a partir dos 16 anos de idade. Generalizaram-se as bolsas de estudo para o ensino superior, tanto que se chegou ao cúmulo de alguns alunos filhos de pais com possibilidades, receberem bolsa tanto ou maior do que os que menores condições tinham. Em determinada ocasião, recordo-me de alunos com bolsa que chegavam à escola conduzindo o seu carrinho novo (possivelmente pago com a bolsa escolar). Mais tarde, verificando-se que existiam aqui muitos oportunistas a surripiarem os fundos estatais em nome de dificuldades que não tinham, criaram-se as propinas que conhecemos hoje e que, praticamente todos os anos são atualizadas. Muito provavelmente chegámos de um cúmulo ao outro, uma vez que hoje existem muitos alunos que estão a desistir ou a interromper os seus estudos, porque os seus pais não têm possibilidades para os manter e os cortes nas bolsas têm sido constantes, como o têm sido noutras áreas.
Tudo isto para reconhecer que de fato, quem estudou ou estuda, tem ou terá outras ferramentas cognitivas (não empíricas), que aqueles que não estudam ou estudaram, não podem usufruir. O que não se compreende são as discrepâncias (leia-se injustiças socias) que existem entre pares: pessoas que estudaram nas mesmas escolhas ou universidades, que foram ensinados pelos mesmos professores, que obtiveram sensivelmente as mesmas médias, venham a beneficiar de vidas (leia-se rendimentos) tão diferentes dos seus semelhantes profissionalmente. Fatores como o conhecido “C” continuam a ser essenciais na nossa sociedade portuguesa, para se conseguir chegar um pouco mais longe do que a média. Ter um amigo em lugar estratégico; melhor do que um amigo é ter um familiar num desses lugares; ter nascido em família abastada ou no meio da socialite; ter-se infiltrado na política; em suma, ter bons padrinhos, é fator essencial de crescimento rápido na carreira e por conseguinte, de rendimentos.
Antigamente, quando não existiam tantos órgãos de média, ou estes estavam controlados, pouco se sabia. O povo só conseguia perceber os resultados, embora sempre se mostrasse, na sua maioria, desconfiado, fazia vénias aos governantes e aos poderosos, como se de um ser superior se tratasse. Hoje em dia, perdeu-se em grande parte o respeito pelos políticos, principalmente devido à atuação desastrosa de muitos, que têm mentido ao povo com todos os dentes que têm. O povo passou a idolatrar alguns artistas, alguns desportistas e algumas figuras públicas como apresentadores de televisão, cantores, atores ou atrizes... e muitos deles têm enriquecido às custas dessa fama, mas muitas vezes sem se perceber muito bem porquê. De alguns artistas como certos desportistas, cantores ou atores até se compreende o seu crescimento, riqueza e ostentação, atendendo à sua qualidade, popularidade ou por se tornarem ícones da sua geração. Muitos deles até aceitam participar em eventos de caráter social ou efetuam generosas doações. Já de determinados diretores, subdiretores, coordenadores e assessores do Estado, gestores e certos apresentadores de televisão, não se compreende a razão de existirem tamanhas disparidades em termos de ordenados, prémios e compensações, principalmente, quando são pagas por empresas do Estado, esse mesmo Estado que corta nos abonos de família, subsídios de natalidade, de desemprego, congela reformas, bolsas para estudantes e cientistas, investigação e desenvolvimento tecnológico, corta subsídios de natal e de férias. Como se pode explicar a uma pessoa que trabalha 8 ou mais horas e aufere 485€/mês, enquanto existem pessoas que, muitas vezes trabalhando menos horas e em condições muito menos desgastantes e desmotivantes, apenas por possuírem um palminho de cara, um sorriso contagiante nuns dentes branqueados ou uma voz que faz estremecer as colunas de som de qualquer “hi-fi”, pode auferir esse mesmo rendimento, mas com mais dois ou três zeros à direita por mês? Muito menos se justifica que os políticos (que, segundo eles, ainda ganham pouco) consigam enriquecer, auferindo apenas o seu vencimento durante toda a sua carreira.
Também não se compreende a razão por que existem artistas com tantas qualidades e aos quais ainda nos dias de hoje é barrado o caminho à sua carreira, porque não têm alguém conhecido nos meandros, nem disponibilidade financeira para conseguir mobilizar o seu sucesso e ao mesmo tempo, são lançados no mercado artistas de qualidade duvidosa, cuja voz é sintetizada em estúdio, ou pessoas que não sabem dizer duas palavras corretas consecutivas e editam livros, ou jovens atores/atrizes ou cantores que apenas são fabricados em ateliers de marketing, apenas porque têm um pai, uma mãe um tio, um avô ou amigos nos meandros...
Vemos o povo correr atrás de pessoas assim, mas esquecem um bom concerto de um músico extraordinário. Vemos o povo consumir as suas noites à frente da televisão, absorvendo paletes de novelas com histórias sempre iguais, mas deixam vazias salas de teatro, onde artistas amadores ou profissionais fazem de cada espetáculo um momento único e irrepetível. Vemos o povo andar atrás dos grandes clubes de futebol, contribuindo por isso para o pagamento dos chorudos ordenados de certos jogadores e nos esquecemos dos desportistas da nossa terra que muitas vezes jogam por paixão e amadorismo, muitas vezes magoados, impossibilitados de ir trabalhar e mesmo assim não pagos.
Se de fato nos escandalizamos ao conhecermos os rendimentos de determinadas pessoas e nos manifestamos em desacordo, temos também que pensar se parte da culpa não será do povo que, por desconhecimento, por incultura ou simplesmente por seguidismo, contribui de forma inequívoca, ao atribuir audiência a determinadas massas, colocando os ovos todos nos mesmos cestos, em vez de diversificar as suas opções, contribuindo assim para a existência de uma maior redistribuição da riqueza, também no campo das artes, do espetáculo, da cultura, da comunicação social, do empresariado, do consumo e tudo o mais.
O que faço eu para contribuir para a existência de um país com maior equidade?
27Maio2012
J. Rafael Coelho