Filipe estava muito feliz e entusiasmado. Durante alguns meses, praticamente um ano, tentou não revelar a ninguém o seu novo estado de enamorado e comprometido. De facto, é muito difícil um filho esconder o que quer que seja da sua mãe, porque só elas - as mães - conhecem verdadeiramente o coração e o interior dos seus filhos. Lúcia, em segredo, descobrira já há bastante tempo o que Filipe não queria revelar ou não teria ainda a segurança suficiente para fazê-lo. Henrique não estranhou a iniciativa de Filipe, que lhe pediu há bastante tempo, para passar a controlar pessoalmente e com maior veemência as empresas do Brasil. O pai achou boa a ideia, até porque há bastante tempo que apenas esporadicamente, quase anualmente, ele próprio se deslocava ao Brasil para as necessárias reuniões de acionistas e para tomada de conhecimento acerca do andamento, contas e necessidades das empresas brasileiras. Ao fim de contas, sendo elas, nos últimos anos aquelas que mais tinham contribuído para a manutenção do Grupo empresarial "no verde", já que o conjunto das unidades em Portugal, apesar de não andarem sempre "no vermelho" as suas contas raramente passavam a linha nula da rentabilidade.
A insistência de Filipe não causou assim qualquer incómodo a Henrique, até achou boa a iniciativa, apesar de terem aumentado o número de viagens e a quantidade de dias de permanência dele naquele país transatlântico. Já para Lúcia, Filipe não tinha apenas esse pretexto para passar mais tempo no Brasil, mas porventura seriam outros os motivos mais fortes que o levaram a fazer esse pedido ao pai. Henrique continuava a gerir diretamente, com a ajuda de Lúcia e os filhos de Maria Smith, as unidades em Portugal, sem problemas.
As novas unidades abertas, oriundas do anterior património oculto de António Alfonso, já começavam a mexer razoavelmente. Os conceitos implementados tinham sido largamente aceites e o negócio continuava finalmente a prosperar.
Filipe contava ainda com a ajuda dos filhos de Maria Smith para uma eventual expansão para Angola dos conceitos portugueses e brasileiros, mas adaptados ao mercado angolano que, afastava definitivamente a sua situação de permanente guerrilha de poderes, começava a mostrar interessantes níveis de crescimento económico, assim como no Brasil também estava a acontecer.
Sendo que África era o continente que maior número de costelas ocupava no corpo destes jovens, e o sangue que lhes corria nas veias tinha aquela temperatura tropical do hemisfério sul, eles estavam de facto interessados em ajudar a família que os ajudou a crescer e a formar-se como cidadãos, a crescer internacionalmente.
Mas antes disso, após tantas viagens de Filipe rumo ao Brasil, onde passava, no último ano mais tempo do que em Portugal, finalmente ele decidiu abrir o seu coração aos pais e contar-lhes o quanto o atraía naquele belo e magnífico país.
Tudo acontecera numa das suas visitas às empresas brasileiras. Como ainda nunca tinha acontecido, Filipe cruzou-se há determinado tempo com uma bela jovem brasileira, funcionária de uma das empresas, rapariga meio morena, com formação superior, que liderava o departamento de recursos humanos das empresas brasileiras. Já por diversas vezes tinha falado com ela ao telefone, nunca através de chat de vídeo, apenas porque nunca tinha havido oportunidade ou necessidade de o fazer. Nessa visita, Filipe teve a oportunidade de contactar diretamente com a jovem Dulcineia e apaixonou-se por ela. Desde então, as suas visitas ao Brasil passaram a ser mais frequentes, assim como os contactos pessoais, saídas para jantar e noites passadas a dois num dos hotéis do Grupo, onde Filipe geralmente pernoitava. Desta vez, Filipe tinha mesmo que conversar com os seus pais, uma vez que tinha já marcado a data do casamento com a sua noiva, que seria daquele momento a cerca de três meses. Na sua família, apenas o seu irmão André sabia do relacionamento que envolvia Filipe e Dulcineia, pelo que desejaram fazer uma enorme surpresa a toda a família: André estava prestes a terminar o seu estágio final que faria dele um mestre na arte de direção de orquestra - um maestro, no verdadeiro acesso da expressão. O seu concerto de final de curso - e de início da sua carreira - já tinha sido marcado para Los Angeles e assim:
- Além disto, o que vos queria informar também é que temos uma semana de acontecimentos em cheio programados para toda a família: agendei juntamente com o André para a mesma semana do seu concerto de final de curso, o nosso casamento. Então, será assim: temos fretado um avião a descolar de Lisboa numa quinta-feira, rumo ao Rio de Janeiro, para deslocar toda a família e amigos convidados e a convidar para o casamento; temos as reservas num dos nossos hotéis efetuadas para os nossos convidados; toda a sexta-feira, servirá para que os convidados descansem e possam visitar a cidade; o casamento será no sábado de manhã na Catedral do Rio; depois da cerimónia, já as bagagens estarão no avião, preparadas para que todos viajemos até Los Angeles, onde será servido o jantar de gala no sábado à noite, com animação, música, dança, comes e bebes durante toda a madrugada; no domingo, os convidados descansarão todo o dia, porque à noite, realizar-se-á o concerto do André, para o qual também serão todos convidados e os seus lugares já estão reservados, assim como num Hotel de Los Angeles; na segunda-feira, descansarão e aproveitarão para conhecer a cidade e fazer compras (quem quiser); regressaremos todos a Portugal na terça-feira, onde há reserva num dos nossos hotéis para os que quiserem pernoitar, porque quarta feira é feriado em Portugal e todos poderão descansar, passear e almoçar connosco também no hotel, para depois cada um ir à sua vida.
- E os noivos? - Pergunta Lúcia.
- Os noivos irão ficar três a quatro dias em Portugal, depois partirão para uma curta lua-de-mel de uma semana, num cruzeiro pelo Mediterrâneo, partindo finalmente para o Brasil logo de seguida.
- Bem, isso está mesmo tudo já mais do organizado!!! - Exclamou Henrique, admirado com tanta minúcia na gestão do evento - Isso vai ser a maior festa de sempre que esta família alguma vez já teve!... - E sorriu.
Lúcia emocionou-se - como acontece por regra com quase todas as mães - e referiu:
- Só tenho pena de ainda não termos conhecido a tua noiva...
- Pois, isso é o que vamos fazer agora, através da internet... já está tudo combinado! Pode ser?
- Sim, claro, vamos lá a isso!!! - Retorquiu o pai, entusiasmado.
- Bem, então, deixem-me só fazer a ligação... - E passados alguns segundos... - Dulce? Olá! Tudo bem, desde há pouco?
- Sim, tudo bem, meu amor! - Respondeu Dulcineia.
- Olha, já contei os nossos planos aos meus pais e eles estão entusiasmados para te conhecer, por isso, vamos lá às apresentações.
Trocaram então votos mútuos de saúde e desejos de um bom futuro. Henrique não se lembrava de Dulcineia das suas empresas, possivelmente seria uma funcionária que há pouco tempo detinha algumas responsabilidades de maior monta. Filipe esclareceu então que Dulcineia entrou para a empresa há cerca de quatro anos, como técnica de recursos humanos, mas que obteve promoção há pouco mais de um ano a chefe do departamento, quando o anterior responsável decidiu sair da empresa, para fundar uma empresa própria de seleção e recrutamento. Já Lúcia, pareceu-lhe que aquele rosto lhe era de certa forma familiar, possivelmente por ser detentora de uma melhor memória visual do que o seu marido.
Houve quase instantaneamente uma empatia sincera entre todos. Dulcineia parecia ser uma rapariga simples e humilde, mas notava-se que era culta, bem formada, educada e simpática, além de muito bonita, pelo menos, o seu rosto não mentia para os pais de Filipe. Combinaram então uma visita, logo que isso fosse possível, já que como tudo estava já organizado, ao que se poderiam opor os pais de Filipe? Seria certamente mais um sucesso do seu filho, como quase tudo o que fazia.
Os pais de Filipe nada tinham questionado acerca da família de Dulcineia, porque não eram pessoas com grandes preconceitos, notando porém o facto de a futura nora ter sido apresentada como uma rapariga "simples". Para eles, o que mais interessava seria a satisfação e felicidade do filho junto dela. Filipe também não tomou a iniciativa de acrescentar mais informações ou pormenores acerca e por isso os pais não quiseram questioná-lo, para que ele não se sentisse constrangido ou pressionado por isso.
Ainda mais atendendo à situação de o seu filho Filipe estar prestes a casar, a emoção de Lúcia prendia-se com o facto de ele ter escolhido ir residir para o Brasil. Longe de Filipe e possivelmente também de André, o seu coração de mãe começava a sentir-se mais só, mais seco e triste. No entanto, ela não queria reagir de forma a que qualquer um deles viesse a ponderar sequer alterar uma vírgula àquilo que pensaram e decidiram para as suas vidas. Lúcia não queria interferir na vida dos filhos, apenas desejava que eles conseguissem ser felizes com as suas escolhas. Nem todas as mães e pais se comportam desta forma com os seus filhos, pois muitos deles preferem tentar influenciá-los e isso, mais tarde ou mais cedo poderá fazê-los precipitarem-se para escolhas cujo destino não era aquele que desejavam. Apesar de orientadores, os pais devem saber conduzir os seus filhos, de forma a muni-los de ferramentas que os ajudem a saber decidir bem, de forma o mais assertiva possível, os passos a dar nas suas vidas. Muitas vezes os filhos "saem à cepa" e seguem as pisadas dos pais. Esse é sempre o caminho mais seguro, porque têm como seu progenitor alguém que também pode ser o seu pedagogo. Mas muitas vezes, a vocação dos pais não atrai os filhos e estes desejam ser alguma coisa diferente dos pais. De uma forma ou de outra - ambas boas e possíveis - o que interessa é que cada um consiga descobrir aquilo que mais o satisfaz e realiza como pessoa e como profissional. Já Henrique, sempre tentou interferir um pouco nas escolhas dos filhos e a sua influência teve mais sucesso em Filipe do que em André, como facilmente se consegue entender.
Aprovadas que ficaram as decisões dos noivos e que contariam com o apoio incondicional dos pais de Filipe, haveria agora de organizar tudo, para que corresse da melhor forma: enviar os convites, fazer todas as marcações e reservas, escolher os menus para as refeições, já que as reservas de hotéis e o avião de transporte já estavam tratadas. Precisariam apenas de obter o número de convidados que estariam dispostos a aceitar o desafio. Já que era tudo pago pelos noivos, nada haveria a recear e seria uma boa oportunidade para que todos voltassem a juntar-se e para muitos, seriam viagens que nunca esperariam vir um dia a realizar, portanto, grandes oportunidades para conhecer alguma coisa no Brasil e nos Estados Unidos, além dos hotéis, da culinária e dos restantes serviços a que teriam direito. Para a família, seria um grande investimento, mas com certeza que o trabalho desenvolvido por Filipe e Dulcineia nas suas funções era agora recompensado de forma justa. Nem todos os casais, infelizmente, se poderiam dar a estes luxos. Era assim também uma forma de partilhar com a família tudo aquilo que estes incansáveis trabalhadores tinham conseguido até hoje com os seus esforços, apesar das crises que foram obrigados a ultrapassar.
As notícias do Brasil, designadamente dos resultados das empresas eram por essa altura francamente animadores e haveria inclusivamente a hipótese de disponibilização de verbas para aquisição de outras congéneres mais enfraquecidas e com potencial de rejuvenescimento económico e financeiro. Alguns dos acionistas de algumas das congéneres menos poderosas tinham já encetado alguns contactos com congéneres mais poderosas, tendo como objetivo tentarem aliar-se a empresas que lhes pudessem proporcionar um futuro de melhores perspetivas e assim, salvarem também o capital dos seus investimentos. A família do Cruval Alfonso estava recetiva à aceitação de propostas de alianças, fusões ou agregações. O retorno dos custos desta festa de casamento de Filipe e Dulcineia e de graduação catedrática do André, estavam portanto mais do que assegurados.
Durante os preparativos do casamento e da cerimónia de graduação, foram contratadas empresas de catering para assegurar que nada fosse deixado ao acaso e de que tudo decorreria pelo melhor, para que também os nossos protagonistas, pudessem continuar sem outras preocupações, os seus trabalhos. Apenas teriam que efetuar alguns briefings pontuais com os responsáveis dessas empresas de catering, para darem andamento aos diversos assuntos e continuarem a par da organização.